quarta-feira, 5 de novembro de 2008

A Encruzilhada


A mim ninguém me alumiou o caminho. Cresci à custa de mim mesmo, às apalpadelas e a partir dos livros. Os amigos não apontam trilhos, com eles aprendemos que teremos de os palmilhar seguindo a nossa própria intuição. E desde muito cedo tive de pegar nas rédeas, não tive tempo para me espreguiçar ao sabor de um tempo morto. Vivi sempre com noção do dever no horizonte, com as culpas de pecados menores e com a ânsia de quebrar tabus. Uma vontade inquebrantável de me tornar adulto. Levou tempo até que me habituasse à dureza da própria vida, mas enfrentei todos os desafios com a coragem de um forcado. Talvez por isso quando me propuseram casar naquela tarde de Setembro, - num lusco-fusco com cheiro a folhas secas e no meio de um pó luminoso que desenhava espirais à minha volta -, concordei de imediato. Era mais um desafio como outro qualquer. Ela abriu os braços para me aquecer das intempéries e deixei-me levar pela aventura. Ambos desconhecíamos para onde íamos e era isso que nos aproximava.

E fomos em demanda da felicidade sem sabermos o que isso era, mas partíamos do presumível de que estaria mais próxima quanto mais os outros e o mundo se distanciassem de nós. Quebrámos laços e ninguém soube de nós durante anos. Numa auto-caravana percorremos lugares incógnitos, espaços de perder de vista, repetindo-se em formas e cores em dias sucessivos. Contactámos gente com linguagem incompreensível e só por gestos nos entendíamos. Não tínhamos calendários nem relógios, trabalhávamos pela urgência de dinheiro e adormecíamos durante dias quando o estômago se saciava. Mal falávamos e nada sabíamos um do outro. Encontrámos o silêncio e com ele resolvíamos os problemas de pele. Um dia, ao chegar, encontrei a casa tão vazia como se um buraco branco engolisse tudo o que era familiar. Sem mensagem, ela saiu com o mesmo silêncio com que nos defendíamos um do outro. Aliás, nunca mais a vi. Pressentiu que a vida não é um campo indefinido, não é tão clara como um amanhecer primaveril e nunca poderá ser tratada como um caminho descendente, sem obstáculos, por onde se escorrega como num artefacto de feira. Teremos de ter projectos e desejos, pois sem eles um vazio cresce e torna-se tão disforme que tritura os próprios ossos. Soube mais tarde que tinha filhos que saltitavam para o seu colo como gatos siameses, uma casa de uma dezena de assoalhadas de onde se via o mar, com vasos de flores coloridas que transformavam as varandas em jardins e até os cães tinham colchões ortopédicos.

E fui aprendendo, mas continuo em viagem. Agora já falo com aqueles que me pedem boleia e ouço-os atentamente nas suas neuras e melancolias. Consigo largar algumas lágrimas perante o seu desconforto e consolo-me com a sua desventura. Encontro-me naquela encruzilhada de poder saltar para o mundo dos humanos ou continuar em frente na tentativa de encontrar um precipício que clarifique de uma vez por todas este desejo enorme de insolvência. Por vezes, reconheço lugares por onde passo e convenço-me de que desde o início da viagem ando em círculos, como se não conseguisse afastar-me da minha própria sombra. Vou coleccionando razões para estacionar num destes dias...

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O Antiquário


Era louco por antiguidades. Derretia todos os bens em trastes de todo o género, a maioria deles sem certificado de garantia. Perante a possibilidade das falsificações justificava que, mesmo assim, qualquer objecto de estilo antigo era mais valioso do que as modernices, todas semelhantes e sem alma. Em casa, prateleiras atravancadas de santos, pratos e artefactos diversos, tudo se entrelaçava como se uma máquina do tempo tivesse baralhado os séculos e fizesse colidir tudo no mesmo espaço.

Os poucos visitantes que se aventuravam na pesquisa percorriam as salas direitos como um pau de vassoura, sempre na eminência de colocar em crise a história universal ou a culpa própria. A atmosfera era de tal forma constrangedora que o receio de que um gesto menos medido pudesse causar um grave dano à civilização, retirava o prazer da contemplação dos objectos, dando lugar ao tédio e ao desejo inconsolável de sair dali para fora.

Dos amigos, guardados com idêntico esmero, afirmava que a melhor qualidade que lhes concedia era olharem o passado como o seu próprio destino. Nos encontros à volta de cigarros em noites vagarosas, a melancolia voltava-se contra a pouca vergonha dos novos que perdiam a memória e as referências para se transformarem em imitadores reles de modas e gostos estrangeiros. Ao mesmo tempo que os olhos se emudeciam ao celebrarem personagens históricas com uma estatura moral à prova de bala e de cultura tão densa onde era difícil alguém penetrar.

Ora esta paixão pelo antigo motivou o conúbio com uma velha gaiteira que detestava velharias e a ela própria, por já ser uma. Conheceram-se num antiquário em Lisboa, ele para dar vazão à neurose, ela funcionária da casa havia trinta anos. Após namoro rápido, casaram numa ermida do século XIII, abençoados por um Cónego tão velho como o próprio santuário. A lua-de-mel inebriante decorreu numas ruínas do sul de Inglaterra, onde menires e outros monumentos megalíticos enfrentavam o céu com sobranceria. Ele adorava morder-lhe as reentrâncias, fazer-lhe cócegas no bócio, amaciar as vergas e acicatar-lhe as rugas, o que deixava a mulher em estado de choque, pois ao invés, ela pretendia esconder-lhe os labéus à custa de cremes, pregas e roupas justas. Mas amava-a desalmadamente mais do que qualquer antiguidade com o argumento que era a única com potencialidades para envelhecer a olhos vistos.

Este prazer do arcaico, já com deficiências, vinha da infância. Sempre detestara ser novo, pois ninguém o deixava em paz pelo facto de o ser e quando adulto ainda era suficientemente novato para as enormes expectativas dos mais velhos. Só quando a idade lhe permitiu ser velho conseguiu ser dono de si mesmo e começou a viver. A colecção principiou-a com um Santo António de cedro do mato que encontrou no espólio de uma tia solteirona, depois algumas peças foram-lhe parar às mãos de forma errática, até à recolha criteriosa e infatigável de muitas outras preciosidades. Livros com lombadas rasgadas, instrumentos musicais com cheiro a naftalina, móveis, cerâmica. Sempre com uma atitude contrária à lógica do museu: em vez de usurpação, retirando as coisas do seu lugar natural, tudo fazia para que as peças adquiridas mantivessem a sua função original, partilhando-as com a vida como se ainda existisse o seu próprio tempo.

Um dia, confidenciava a um colega de trabalho que estranhava essa propensão para o antigo: “Há aqueles que convivem pacificamente com o seu tempo; outros buscam no futuro saídas para a mediocridade do presente; outros há que encontram no passado o sentido para a vida. Estes poderão ser historiadores, filósofos e antiquários. Destes últimos, a maioria por razões comerciais. Poucos com o firme propósito de não deixar o passado por mãos alheias e contribuir para a sua dignificação e segurança. É o meu caso. ”

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

II - Zé Casteleiro (conclusão)


Estalou o escândalo com o estrondo de uma castanha quando se constou que Ana Lopes, uma senhora de bela figura e de maneiras delicadas, casada com o homem mais poderoso da terra e mãe de dois filhos, andaria a encontrar-se secretamente com o Zé Casteleiro havia vários meses. Ninguém sabia o que teria despoletado a descoberta, mas pelas inimizades criadas ao longo dos anos, devido à análise corrosiva da sociedade feita de fel e vinagre, muitos julgaram que, finalmente, iria fazer-se justiça. Enquanto Ana e os filhos, estrategicamente, saíam da aldeia a caminho de casa de uma tia residente na Guarda, onde permaneceriam até se atenuar a vergonha, o marido, entre ameaças e sinais de força, jurava que a situação insustentável teria consequências. Naturalmente, eu temia pela vida do meu amigo.

Durante alguns dias, manteve-se escondido num pequeno e obscuro palheiro, propriedade do meu avô. Quando a noite caía levava-lhe comida, água e cigarros, mas sem qualquer tipo de contacto, com receio que a demora levantasse suspeitas. Uma noite, já de madrugada, quando a história começava a acalmar e se constava que teria sido visto em vários locais, alguns bem distantes, deixou o refúgio e surgiu em minha casa, vencido e com um olhar seco e cansado.
- O perigo espreita e tenho de partir. Um poeta e cientista da vida não pode viver acorrentado num meio tão mesquinho. O meu destino é o mundo, sem fronteiras nem ameias. Talvez nos encontremos lá um dia.
- Mas para onde vais? – Perguntei com inquietação. - E a Ana? – Mencionei o nome, mesmo sabendo que entrava em terrenos que nunca desbraváramos em conjunto.
- Nestes últimos dias convenci-me de que nada me prende aqui nem em sítio algum. A partir de agora a estrada será a minha casa e as nuvens o meu tecto. Mas não fiques preocupado, pois a vida não se perde no sopro do vento, arruína-se na espera estóica da morte, nesta vida comezinha e rotineira de gente de alma negra. Rezam demasiado, em vez de esgotarem os minutos que lhes restam em algo que valha a pena! Quanto à Ana, - e deves guardar este segredo contigo -, se não me acompanha é porque teve medo do vazio que estaria à nossa espera. Não quis arriscar e, como a maioria, preferiu o certo, o óbvio, o definido. Lembras-te?

Assenti com um gesto. Um silêncio prolongado. Parecia emocionado. Fui eu que cortei o recolhimento com uma faca afiada.
- Vou ter imensas saudades das nossas conversas. Ao longo destes anos, senti-me um privilegiado porque me questionavas mesmo sabendo que nada te podia dar em troca, apesar da minha ingenuidade, de ser, no fundo, igual a todos os que criticavas. Muitas vezes, senti-me um discípulo que te atraiçoava, mal viravas as costas. Sempre amedrontado, inseguro, incapaz de cortar amarras...
Olhou fixamente para mim, como se estivesse indeciso.
- Hesitei muito se te devia dizer isto. Durante uns tempos tive algumas dúvidas até que aos poucos ganhei certezas. Desculpa, mas não tens estofo de poeta. Olhas a vida como um todo organizado, com etapas a cumprir e onde é essencial manter-se o norte. Preferes guardar a lucidez para alcançares todos aqueles objectivos burgueses que dão segurança e sequência aos elos. Nem sabes a sorte que tens e nem imaginas tudo o que perdes! Mas quando puderes sai daqui e só deves parar quando o cansaço te consumir os olhos…

Apertámos as mãos, atravessou o patamar e já com o portão de ferro entreaberto regressou e deu-me um abraço acanhado. Saiu com a mochila a tiracolo e com um casaco largo que abria as abas por força do vento norte. Até desaparecer na curva mantive-me na sua peugada como se uma parte de mim fosse com ele, depois sentei-me debaixo do alpendre com as mãos no queixo e os cotovelos nos joelhos, sonhando com todas as viagens que haveria de fazer no futuro.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Zé Casteleiro


Conheci-o ainda era um garoto de sardas e enfezado de corpo, quando partilhámos a camioneta que seguia em direcção ao fim do mundo, no início de umas férias de Natal. Caímos os dois no último banco, eu encostado à janela vendo correr as coisas e ele perdido num olhar desinteressado e vagabundo. A certa altura voltou-se na minha direcção, esforcei-me para manter o olhar em frente, mas não consegui resistir ao peso de um estranho pregado em mim. A cara dele tão redonda que parecia a lua em noites de cheia, cabelo à escovinha e uns olhos enormes, tão grandes que me surpreendeu haver espaço para mais algum pormenor.

- Tens pais? Perguntou sem qualquer intróito.
- Tenho, respondi timidamente.
- Então, tens sorte.
- E namorada, tens?
- Não - engasguei-me.
- Então, não podes ser feliz.
Enrolei-me na cadeira e comprimi-me contra a janela, com ar embaraçado. Ele continuou.
- Vou contar-te um segredo, mas não podes contar a ninguém, a ninguém, ouvistes?
- Não digo a ninguém, prometo – como para me desembaraçar do teste.
- A vida é como uma melancia, adocicada e refrescante, mas com imensas pevides que nos obrigam a cuspir muitas vezes para o chão. Surgem muitas encruzilhadas, futuros envoltos em névoa cerrada e há duas soluções: ou voltamos para trás ou damos um passo para o desconhecido. E é no desconhecido, no misterioso que poderemos encontrar o sentido que nos falta. Teremos de arriscar e a maioria das pessoas prefere o óbvio, o definido, o certo.
Percebeu a minha estupefacção.
- No entanto, pensando bem, és ainda muito novo. Estás na idade de sonhares com bicicletas!
Envergonhado, sentia-me a escaldar, com todo o sangue do corpo na cara. Na sua face os vales profundos que a atravessavam, acentuavam-se quando sorria. Os olhos de uma cor indecifrável, um cinzento claro, vagueavam continuamente.
- Mas não penses que és o único cão abandonado, eu também o sou desde que nasci. Mas o meu desespero não é tão grande como a tristeza, porque tenho no sonho um refúgio seguro.
E depois de uma pausa, como se pensasse em resoluções para facilitar o recado, continuou.
- És um miúdo, mas vou ensinar-te um dos princípios fundamentais da vida. Independentemente da etapa que atravesses, dos êxitos que alcances ou dos projectos que te guiem, o amor sempre te importunará. Se já o sentires a tua preocupação será conservá-lo, enquanto viveres sem ele a angústia será a tua companheira. Só o amor nos pode salvar e como sou um doido varrido anseio dissolver-me em alguém e esconder-me do mundo e do tempo. Nessa altura serei feliz.

Depois calou-se, com o rosto inerte como se a conversa não tivesse acontecido, perdido em pensamentos até ao fim da viagem. Cresceu um clima ameno, envolvido pelo ronronar do velho motor da camioneta. Paragens precedidas de toques de campainha e chiadeira dos travões. Alguns viajantes endireitam-se a custo no corredor estreito, embrulhados em cestos e sacos de plásticos com as compras da cidade. Lá fora, ruas vazias e casas tão quedas como pinturas nostálgicas penduradas nas paredes. Parecia que a vida se resumia a um naco de sucata repleta de seres com gestos lentos.

Nos anos seguintes, encontrámo-nos inúmeras vezes em tempo de férias. Cruzávamo-nos sempre com um sinal amistoso e, frequentemente, sentados no muro do adro da igreja, ele aconselhava-me leituras e lia-me pensamentos retirados de livros, escritos num minúsculo caderno de cor azul. Os seus oráculos tinham marcas evidentes de Freud, Nietzsche e Sartre, com críticas cerradas à religião, “essa menorização do espírito e atrofiamento dos corpos” como ele repetia, ódio a qualquer amarra ao pensamento e livre realização dos instintos. Assumia-se como um profeta da grande cultura que anunciava a morte de Deus e apelava à necessidade de conquistarmos a vida. Sem compreender todas as consequências práticas da doutrina, ouvia-o com a emoção de quem busca o pote de ouro numa das extremidades do arco-íris.

Adquirira um aspecto de figurante de filme, cabelo desgrenhado, barba rala esticada por movimentos compassados, casaco de tamanho superior ao seu real tamanho, um livro debaixo do sovaco e um cigarro sem filtro entre os dedos. Pressentiam-se, igualmente, mudanças drásticas na sua alma, testemunhadas pelo semblante angustiado, como se a resposta às suas inquietações já não as encontrasse em si mesmo. O amor já não era um puro idílio fantasioso, nem a solução da existência. "O problema é que a vida não tem solução", confidenciava. Na sua vida privada adivinhavam-se jogos oculto com seres femininos enredados no seu discurso vibrante e arrebatador. A veia poética e o aspecto desalinhado permitiam-lhe avanços e escapadelas que não passariam despercebidas a outros com vidas mais determinadas. Não se vangloriava das conquistas nem me contava pormenores, mas olhares lânguidos mal disfarçados à passagem de algumas insuspeitas faziam temer consequências, tal como veio acontecer pouco tempo depois...

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

A crueldade feminina


Desligou o motor e manteve-se dentro do automóvel com o rádio ligado. Nestas alturas de maior intranquilidade de espírito arrependia-se sempre de ter deixado de fumar há anos atrás. Lá fora os arbustos que povoavam o declive vergavam-se ao sopro do vento, mas naquele princípio de noite não havia qualquer sinal de gente nas redondezas. Permaneceria ali de bom grado até que os problemas se resolvessem por si mesmos. Mas o problema era dele, teria de ser ele a resolvê-lo.

Respirou fundo, abriu a porta do automóvel com ímpeto, depois o portão do prédio, a porta do elevador, contou interiormente os números dos andares que se sucediam no visor vermelho e por fim abriu a porta de casa. Invadiu-o o cheiro de comida acabada de fazer e quando colocava a mala no móvel de entrada sentiu os braços do pequenino a rodearem-lhe as costas. Abraçou-o tão forte que até teve medo de o magoar. Depois surgiu a mulher com gestos apressados de quem tem a vida toda para arrumar e com a segurança de quem domina o espaço e o tempo, e, após o beijo ligeiro, virou-lhe as costas, como era hábito. Seguidamente, como se tivesse lembrado de algo importante, voltou-se

- Vieste mais tarde.
- Pois foi, tive uma reunião. Respondeu, enquanto se curvava para se descalçar.
Examinou-o.
- Estás com péssimo aspecto. Aconteceu alguma coisa?
- Não, gaguejou. Entrou no quarto por rotina de se despir das fardas diárias e vestir algo confortável. Depois regressou à cozinha. Foi o último a sentar-se, a sopa já estava nos pratos, e o miúdo com as mãos no peito a olhar para o prato dele com olhar desalentado. Virá agora a sessão de advertências, colheradas à pressão até se esgotar o parentesco, parabéns efusivos quando a tortura terminar, pensou. Seguir-se-á , invariavelmente, a biografia diária exaustiva do filho, o dia escolar, trabalhos de casa, tal como uma acta rigorosa de reunião. Depois, o miúdo pediu licença para sair, olharam-se com sintomas de fatalismo e acenam-lhe afirmativamente.

O silêncio envolveu-os enquanto ela descascava uma maçã. Ele, dissimuladamente, observava-a. Era o momento oportuno, com a certeza de que o seu passado se extinguiria e que o futuro seria tão diferente que não o conseguia antecipar.

“Nem sei como te hei-de dizer, não tenho qualquer desculpa. Mas tenho outra pessoa na minha vida…”, estava ela naquele preciso momento com os talheres na mão e orientou o seu olhar na direcção dele. Os olhos encontraram-se sem se desviarem naquele jogo do empurra que há muito não jogava. As feições dela alteraram-se ligeiramente, os lábios tornavam-se mais finos. Recolocou os talheres na mesa e as mãos em cima das costas da cadeira como para se proteger. Sabia que os olhos dela pousavam mortalmente nele, ganhara o jogo e agora ele explorava a toalha de mesa como se quisesse encontrar um abrigo para a tempestade. A voz saía inalterada, como sempre, um trabalho de mestre em apaziguar a voz na altura das crises.

“Se o confessas é porque já sabes o que queres fazer da tua vida e eu nada tenho que ver com isso. Estou na minha casa, no meu recanto, não quero ir para lado nenhum. Apenas haveria uma remota hipótese de vivermos os quatro juntos - conseguira fazer o tom mais corrosivo que lhe ouvira em doze anos - como julgo que não a colocarás, então o jogo está feito e a conversa terminada. A partir de agora é tudo uma questão de legalidade e sairmos desta comédia com o máximo de civilidade."

Saiu da cozinha deixando tudo como estava. Os pratos, uns em cima dos outros e com restos acumulados, cascas de fruta compondo cornucópias e outros desenhos sem nome, copos com líquidos de várias cores pousados no fundo e a cesta do pão. Apanhara-o de surpresa. Talvez estivesse à espera desta conjuntura, ou então revelava um sangue frio que não lhe reconhecia. Ouvia-a ao longe falar com o miúdo enquanto ele via na televisão um episódio de banda desenhada. O seu tom de voz era semelhante a todos os dias, como se nada de relevante tivesse acontecido. Sentia-se estranho na sua casa, sem local seguro para deambular. Ouviu-os agora na casa de banho, depois uma ordem seca “vai dar um beijinho ao pai” e o pequenito surgiu a correr para dentro dos seus braços e apertou-o outra vez, emocionou-se, mas apenas lhe desejou boa noite com um beijo audível. O menino saiu a correr, a porta do quarto fechou-se.

Um silêncio percorreu toda a casa como uma sombra, enquanto ele se mantinha inerte na mesma cadeira a olhar como que hipnotizado pelos milhares de pontos de luz que se estendiam sem limites para lá da janela. Uma relação de doze anos implodira e no final apenas a necessidade de clarificação, limpar qualquer mancha de dúvida em relação ao futuro. Seriam simples adversários. Levantou-se, arrumou a louça na máquina de lavar, entrou no escritório pé ante pé e pesquisou-o como se quisesse guardar todos os pormenores. Retirou das estantes meia dúzia de livros, quatro cd’s de Keith Jarrett, juntou tudo ao computador portátil e sentou-se no sofá. Mais tempo depois do que habitual, ela apareceu, ignorando-o, ligou a televisão, aninhou-se a um dos cantos do sofá e mudava canais sem qualquer emoção na face. Ele com vontade de esclarecimento.

“Esperei-te só para dizer que lamento. A vida prega partidas, aconteceu tudo sem prévio aviso e já não conseguia viver na mentira. Não foi o que prometemos no dia do casamento? Não exigimos sempre a verdade? Pois aqui está. Mas parece que tu não a queres para nada. A verdade apenas te serve como consolo para me colocares fora da tua vida.”

O silêncio ostensivo e gestos bruscos de não querer continuar a conversa, obrigaram-no a levantar-se, recolheu o material que seleccionara e saiu. Entrou no automóvel, a música era semelhante à que ouvira antes do início da história. Por um momento imaginou que ainda não chegara a casa, encontraria tudo como dantes e a verdade ficaria para depois, talvez quando o pequenino fosse maior de idade. Mas ao seu lado os livros, os cd’s e o portátil eram a prova de nada poderia fazer para recuperar a vida anterior. Mas havia algo que não batia certo. Ela não chorara e as lágrimas compõem as coisas ou, pelo menos, amenizam efeitos. Também não falou do filho e do vazio que iria sentir pela ausência do pai, e talvez nessa altura se poderiam cumprir promessas de reencontros. Sentiu-se defraudado.

Arrancou entrando na noite como quem procura uma referência num espaço infinito, circundou a rotunda e parou no cruzamento sem saber a direcção a tomar. Uns sinais de máximos intermitentes obrigaram-no arrancar sem destino.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

A morte ficava-lhe tão bem...


Não estou seguro se naquela tarde tudo aconteceu tal como guardo na memória. Fosse como fosse, pela primeira vez, contactei intimamente com a morte. Tinha sete anos. Não me lembro da sua cara, da sua estatura, da cor dos seus cabelos. Nem o seu nome consigo apanhar no nevoeiro do tempo. Emergem duas situações onde estivemos juntos, com vagas referências dos lugares. A primeira, mais enegrecida, junto a um regato que serpenteava um pomar de macieiras, onde me ensinava a colocar costilhos, armadilhas para apanhar pássaros. A segunda, mais forte e mais real, quando num Domingo o acompanhei ao rio. No caminho de Santa Eufémia, em tarde quente de final de Primavera, mimosas floridas descansavam alguns ramos sobre a estrada. O grupo em algazarra e eu com as pernas bem abertas para não empancar nos raios da bicicleta. Depois, tarde fora, os mais velhos, nus, nadando divertidos, fazendo palhaçadas na água, encharcando os que ficaram nas margens. O final da viagem regressa, cruamente. Uma valente tareia do meu pai por ter saltado sem autorização para o trilho dos adultos arruaceiros e mal comportados. A única verdadeira surra do meu pai.

Exceptuando estes pequenos resíduos pouco mais resta daquele que eu considerei sempre o único amigo adulto da minha infância. Teria uns dezassete anos, o pai, dono de um talho, era conhecido pelo Zé Carniceiro, de porte enorme e bigode farfalhudo e viviam numa casa branca que se alongava num patamar, onde uma latada sustentava videiras e trepadeiras coloridas. Um dia, um alarido enorme foi juntando toda a vizinhança, as pessoas saíam de casa apressadas, fazia lembrar os momentos de frenesim após os terramotos, e no meio do alvoroço compreendi que o meu amigo estava entre a vida e a morte, devido a um acidente de mota nas curvas perigosas do Mondego. Ao fim da tarde confirmou-se o falecimento. Contavam-se várias versões, algumas misteriosas de poderes maléficos e fugas criminosas, mas todas concordavam na velocidade excessiva da moto. Viveu demasiado depressa e morreu à mesma velocidade, opinião escutada nesse dia e em muitas ocasiões posteriores quando o seu nome veio a propósito.

Era de poucas falas. Ao ensinar-me a caçar pássaros com costilhos escuros fê-lo mais com gestos do que com palavras. Não me recordo dele a falar, apenas de ser atencioso e paciente. Mas na época era um rebelde, não encaixava no género de rapaz bem comportado. Não ia à Missa, não frequentava os locais saudáveis da freguesia e durante temporadas desaparecia para lugares incógnitos. Ou talvez seja ficção minha, querendo engalanar a realidade com atributos imaginários. Não sei. Mas a zanga do meu pai por o ter seguido naquela tarde, foi sempre um sinal de que a sua companhia não seria a mais adequada para um garoto ingénuo e educado nas boas práticas e melhores maneiras.

No dia seguinte, logo de manhã, regressei a casa do Zé Carniceiro, já cheia de gente e de prantos. Afinal, também era dono dos meus fantasmas e tinha mágoas para consertar. Com um pano de fundo negro, vultos enegrecidos mais baixos do que no passado, como se o peso do mundo fosse suportado pelas suas cabeças, passavam por mim e nem me reconheciam. Não haveria velório em família, pois o estado desmembrado do corpo desaconselhava cerimónias fúnebres caseiras, ainda mais quando a autópsia interferira na harmonia do corpo. Histórias que percorriam as bocas secas. Entorpecido, avançava indolente pelos corredores, aterrorizado pela visão de um amigo esquartejado.

Às três da tarde missa de corpo presente. Chovia torrencialmente e a igreja abarrotava de gente e de lamentações. Entrei por uma das portas laterais. O caixão no centro da coxia e homens munidos de ferramentas abriam-no sem qualquer emoção especial na face. Aproximei-me vagarosamente, tremia das pernas, mas com a necessidade de olhar. Com vontade tremenda de fugir. Cada vez mais perto. Lá estava, mais bonito, com uma camisa branca, barbeado, numa pose serena e a face sem um único arranhão. Com as mãos postas, parecia um anjo. Afinal, a morte não desfigurava o rosto, pelo contrário, garantia a harmonia, o poiso e o sossego que ele nunca tinha experimentado em vida.

Mas algo não batia certo. No pescoço, por baixo do colarinho, um rego profundo indiciando consequências da autópsia, tal como ouvira em casa dos familiares. No tronco e nas pernas outros traços por onde se encostava o pano em pregas. Caí em mim. Lembrei-me das histórias dos lobos com pele de cordeiro e de fantasmas sem cabeça, ou de cabeças sem corpo que esvoaçavam perdidas sobre cemitérios. Senti-me mal na minha insignificância. Como era possível ter pensado que aquela serenidade correspondia a um sinal benfazejo da morte e não ao tapume do horror que já se propagava pelo corpo todo, artificialmente criado até terminarem as cerimónias fúnebres. Subi o corredor estreito e sentei-me junto ao altar, no lugar das crianças. Com olhar assustado. Nunca mais perdi esse olhar.

Do exterior, ao cessarem as ladainhas, vinham ecos da chuva. A caminho do cemitério, uma multidão em redor do caixão num silêncio abrasador. Lá estava no alto da colina, rodeado de cedros esguios, com escadas íngremes a anteciparem um enorme portão de ferro. Mas não entrei, ao chegar ao portão desci as escadas duas a duas e regressei a casa a correr. E a minha infância alterou-se a partir dessa tarde, desconfiado face ao silêncio e às sombras que povoavam a escuridão e, com a luz apagada, continuei a vê-lo por muito tempo, desmembrado, mas amistoso e paciente.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A subida à montanha e as declarações de amor...


Subo a serra a passo firme. O sol governa o horizonte sem qualquer estorvo, as plantas faíscam raios de luz com o movimento das folhas e, pela primeira vez em muitos meses, recebo o seu calor como uma carícia prolongada. Algumas espécies vegetais vão ficando para trás como se não conseguissem suportar o peso da caminhada. Agora, apenas gramíneas me acompanham, rasteiras e inertes. Do lado esquerdo, a imensidão do vale, montes de um lado e do outro, simétricos e de linhas perfeitas como uma grande valeira de um rio misterioso, do lado direito a escuridão do pasto após uma queimada de Outono, com o cheiro da cinza a trazer memórias de lareiras de infância. O solo e ramos negros como se o mal tivesse pintado a encosta de tons nostálgicos e estéreis…

Depois de passar o moinho abandonado, invadido por silvas, guardiãs armadas que espreitam à porta, a subida acentua-se e cada vez mais sinto o vento a rodear-me, como lobos a escoltarem a presa. Deixei de ouvir os meus passos e ouço apenas os silvos que levantam a poeira onde tropeço. Por vezes, deixo de ver o trilho, escondido por baixo da vegetação, mas sei que o cimo da montanha continua por cima da minha cabeça, pendurado no ar. Com maior ou menor dificuldade chegarei ao cume. Parece tão perto…

A solidão arranha-me a alma da mesma forma que o vento me arranca a pele. Não há tortura física que me liberte deste mal que me reduz à minha insignificância metafísica. Posso esquecê-la, mas não consigo expulsá-la. Resolvê-la. Mesmo que um ruído ensurdecedor a esconda em meia-luz, virá ao cimo sempre que sonho com aquilo que sou. É nestes momentos de um isolamento extremo, quando o meu íntimo se torna barulhento - o ritmo acelerado da respiração e o eco profundo das palavras - que tenho a certeza de que não pertenço aqui, a este chão arenoso e seco, esventrado por estrias profundas de chuvas de outros Invernos. Sou incapaz de criar vínculos suficientemente fortes para forjar a minha pertença à terra. Vivo e morrerei fora de chão familiar.

Na aldeia da minha infância apenas resistem fantasmas de pessoas que outrora por lá andaram e as cidades transformaram-se num mar de gente sem nome, tropeçando uns nos outros, em movimentos pendulares como as ondas, perdidos e adormecidos. No final, morre-se tão incógnito como se foi em vida. Os cemitérios comungam do cimento espalhado por todas as clareiras, despercebidos na paisagem, colados a outros muros do mesmo tamanho que preservam poderes terrenos, e as fragrâncias dos corpos cremados indiferenciam-se dos fumos dos escapes e vapores expulsos pelas chaminés. A morte e a vida deambulam por locais estranhos, impessoais, sem comunicação com qualquer estreiteza. Levar os mortos para o lugar dos antepassados é o esforço simbólico para que o atilho perdido renasça com o cruzamento de seivas familiares, pela proximidade dos ossos que comungam de histórias longas de séculos. Mas a verdade é que não há lugar onde se repouse porque somos todos estrangeiros. Não sei de onde vimos, a vida é curta demais para ter acesso a todos os segredos.

Mas a escalada fornece vestígios dessa minha não-pertença, porque quanto mais me aproximo do cume menos vontade tenho de regressar. Por isso, meu amor, acomodas-me e sem ti não saberia o que fazer com a minha própria dissolução. Apesar de não ser a melhor razão, é uma boa razão para amar. Sem ti, seria impossível sobreviver a este espaço desguarnecido, seria inconcebível o peso das noites cavadas por silvos do vento que agora tentam amarrar-me ao cimo da montanha. Sem ti, o frio que me faz ter pesadelos e tossir a noite inteira forjaria uma aridez no tempo semelhante à vegetação rasteira e pobre do alto desta serrania.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O teatro e a vida...


Tenho quase a certeza que sabias que ao passar por ti o meu coração acelerava como um louco e que ao ver-te compunha uma personagem com gestos ríspidos como se tivesse uma doença nervosa. Tenho quase a certeza que no teu íntimo tinhas pena de mim quando arriscava uma conversa séria e inteligente e me escapavam apenas banalidades e recapitulações, prova evidente da minha infantilidade. Sabias que, mais cedo ou mais tarde, teria de expulsar aquele monstro que me corroía por dentro e saberias o que dizer por teres imaginado a cena, pincelada por pincelada.

Já sem forças para resguardar tanta energia desperdiçada em futilidades e viagens sem nexo, abordei-te naquele Domingo e abri a alma de uma forma tão crua que, em vez de testemunhar um afecto doce e acolhedor, parecia estar a despejar um fardo para cima de camioneta vazia. Falava da paixão como se fosse um cancro, algo tão disforme que ninguém poderia aceitar de mão beijada. É estranho, mas ao comentarmos o amor por alguém é como um mal que nos possuiu. Algo que preferíamos não ter e nos ameaça… Deixaste-me falar e repetias em voz baixa aquilo que ia dizendo como se adivinhasses palavra por palavra o meu monólogo, ao som da chuva que se abatia em cima do abrigo que eu segurava com as mãos geladas e olhavas para mim com a pena que já sentiras muito antes da conversa acontecer. Depois de um curto silêncio, - para não ser tão evidente a cena trabalhada e ensaiada - fizeste um belo discurso cadenciado, artifício que me fez lembrar os truques dos ilusionistas. Estiveste bem. Não me achincalhaste, nem feriste o meu orgulho, apenas aquele desprezo bem medido que não deixa margem de dúvida, mas numa linguagem meiga e sem rancor. Revelaste, mentindo, que tinhas sido apanhada de surpresa - logo eu, um tipo simpático que podia ter outras - e até cometeste inconfidência de saberes de uma pessoa que sonhava e que sofria por mim, tal como eu acabara de revelar sofrer por ti. A certa altura julguei que me irias aconselhar trocar de paixão como quem troca de carro usado, mas apenas ficaste no início do raciocínio sem tirares as devidas consequências. Achei bem. E no fim do que poderia ter sido apenas um simples não, ou um não com desculpas, atestaste o orgulho de seres o meu objecto de desejo, apesar de não ser a altura certa, não ser o tempo certo para nós.

E assim foi. Não repeti razões nem implorei reflexões mais cuidadas e caminhei ruela acima com os pés encharcados no meio da água que continuava a cair como nos pesadelos. Lembro-me que desisti de me abrigar na protecção que apenas preservava uma parte mínima de mim e envolvi-me na chuva como quem mergulha no rio. Em casa, à entrada, despi-me para não encharcar o corredor. O frio que rodeava a minha nudez fez-me sentir só como uma criança abandonada e tomei um duche longo e quente que causou um nevoeiro tão denso na casa de banho que no espelho não me reencontrei, apenas uma névoa espessa que não deixava antever qualquer realidade e permitia escrever com o dedo textos vazios de esperança. Deitei-me embrulhado em cobertores de lã ouvindo a chuva que lá fora continuava a tombar, levando consigo palavras, lágrimas e passos dados e ouvi o sino a dar as horas através de badaladas que iam aumentando na medida que a noite se ausentava devagarinho.

De manhã, senti-me livre como uma gaivota. Ao afastar-me de qualquer percurso teu, amadureci mais do que em todo o tempo que já tinha passado. A dor que sentia já não tinha origem na tua recusa de mim, mas na vida que dá e tira, a seu bel-prazer, aquilo que nos poderia fazer feliz. Percebi que nada poderemos esperar, apenas limitar-nos àquilo que emerge da vida e através dele começar, começar, recomeçar e tentar não desistir. Assim, soube que não era a tua falta que me fazia infeliz, mas o meu próprio vazio que nunca poderia preencher. Julgarmos que temos a felicidade logo ali à mão, tão perto como se fosse uma coisa, matéria quente que se pode comprar com um pequeno esforço, é tão cruel como de imediato percebermos que não é senão uma miragem criada pela nossa ânsia em trocar as voltas à banalidade da própria vida.

Após tantos anos, hoje fui procurar aquela noite e, de novo, sentei-me em frente do espelho embaciado pelo nevoeiro. Amontoaram-se memórias porque te encontrei, sem te procurar. Tudo aconteceu após um corredor comprido, sombrio, uma porta aberta, tal como uma boca de cena, e logo fui envolvido num cenário iluminado por meia dúzia de janelas, uns sofás cor de carmim espalhados como num bar nocturno e uns vasos espaçados com buganvílias, umas róseas, outras vermelhas e ainda outras alaranjadas. No meio de outros actores, encontrei os teus olhos em diálogo e pesquisando intrusos. Eu. E o teu semblante amanhecido pelo sorriso veio dar-me a mão e abrigaste-te debaixo da minha sombra como naquela noite de chuva medonha e desfizeste culpas e histórias mal alinhavadas pelo nosso andar errante. Concluí que nada do passado restou em nós, nenhum rancor, nenhuma culpa, porque os dois compreendemos que a felicidade não poderia ser consequência de uma noite de tempestade em que se representaram peças de fingimento bem alinhavadas. Apenas gostei de te ver, sem qualquer mágoa por não te ter tido. Limitei-me ao prazer de te olhar e sentir um brilho vindo de ti. Não falámos do passado, nem do futuro, apenas trocámos uns textos escrevinhados em folhas A4 para decorar e representar na próxima vez que os nossos olhos se encontrem, quando uma porta aberta invente cenários e um sorriso transforme o presente num dom que se procura.

domingo, 28 de setembro de 2008

E a quietude chegou ao fim da noite...


Não era bonita na verdadeira acepção da palavra, mas a presença altiva e o bom gosto no vestir acumulavam o bastante para se tornar deslumbrante à vista. Ele, com aparência desleixada e cultivada a rigor, desenvolvera aquela pose distante que as mulheres identificavam como prenúncio de mistérios por desvendar e os relacionamentos surgiam mais por insistência delas do que por entusiasmo do próprio.

Após um namoro fastidioso, casaram numa ermida branca no cimo da serra, ela considerando que o casamento se resumia ao enamoramento sem ter em conta as exigências da vida em comum e ele com a esperança que garantiria o sentido da vida pelo simples facto de dividir a renda com um vizinho íntimo. Mas, pouco tempo depois, ao chegar a casa à noite, atormentado pela descompostura constante de alunos tumultuosos e encontrar a casa numa confusão de roupas e louças de várias cores e o frigorífico vazio, começou a suspeitar da bondade da opção feita. Ambos detestavam a cozinha e a ementa diária limitava-se a sanduíches e a encomendas no restaurante da esquina. E ele e o pobre do cão, esquecido o dia inteiro, apesar de ter sido adoptado por capricho dela, saíam sob candeeiros mortiços e ruas vazias até se aliviarem das prisões diárias.

Numa noite de insónias, um rebate de consciência retirou-o do marasmo e concluiu definitivamente que o casamento fora um erro infantil. Saiu de casa deixando um simples bilhete em cima da cómoda da entrada “foi tudo um equívoco, não posso prolongá-lo por mais tempo. Desejo-te o melhor”. No dia seguinte ela releu e com umas lágrimas deixou-o ir sem mais delongas. Foi com alguma amargura pelo fracasso, mas liberto de constrangimentos, que regressou à rotina diária de professor e à esplanada nos fins de tarde, para espairecer dos dias bolorentos. Ela refugiou-se na casa paterna, procurando abrigo para a melancolia de uma vida sem rumo. Após uns meses perdida, ouvindo recriminações constantes do pai pela atitude imatura e irresponsável, decidiu uma mudança radical de vida, encontrar emprego e viver sozinha. Na família ninguém levou a sério as advertências, pois mimada pela mãe e por avós afogados em náuseas e fastios, dificilmente tomaria nos seus ombros o caminho da autonomia.

Passou o tempo necessário à resolução dos impasses mútuos. Ele regressou à vida de casado com uma colega que fora colocada na sua escola e se encontrava desenraizada na ilha tal como ele. Mas a situação alterara-se. Refeições à hora, casa arrumada e perfumada, o cão com melhor tratamento que ele próprio, as finanças domésticas geridas com mão de ferro. Quanto a ela, contra todos os maus agouros, cumpriu promessas de mudança. Aceitou um emprego como secretária de uma empresa e aos poucos, as regras transformaram-na numa pessoa cheia de planos, mais simpática e prestável. Passou por algumas relações que terminaram sem consequência, e num pequeno apartamento inventou o seu canto, decorou-o de forma simples mas harmoniosa, eliminando as intenções da família de a ter debaixo de olho e por controlo remoto.

Entretanto, mais alguns anos passaram. Ambos saíram da Ilha por razões bem diferentes. Após mais um divórcio concorreu para uma escola do Continente, e ela partiu para a Guiné-Bissau como auxiliar de enfermagem, a convite dos Médicos sem Fronteiras. Soube mais tarde que a família muito preocupada ainda lhe pediu que reconsiderasse, oferecendo-lhe casa e uma renda sem quaisquer contrapartidas. Mas ela recusou.

Como por milagre, num final de um dia invernoso, reencontraram-se num Centro Comercial, em Lisboa. Numa livraria, reparou numa mulher sorridente que o fitava com insistência. Atento a um cortejo demasiado insinuante, desvendou por trás do sorriso a mulher com quem casara dezassete anos antes. Do embaraço saiu um olá tímido, ela bastante mais franca e com gestos mais afectuosos, e, após cumprimentos formais, convidou-a para um café. Notava nela uma estranha força que nunca lhe reconhecera e um entusiasmo interior que ocupara o lugar do tédio e ausência de objectivos de outros tempos. Falou-lhe longamente dos projectos na área social e na intenção de regressar a África, proximamente, para prosseguir o trabalho de assistência médica. Com muitos pormenores contou-lhe os pesadelos que enfrentou, desde a falta crónica de electricidade e de pão, a humidade e os mosquitos, um internamento devido ao paludismo, mas também a alegria imensa que sentiu ao serviço em prol dos mais desesperados. As palavras saíam serenas como chuva miudinha e ele embalado sorria, como se o seu papel se reduzisse a um mero espectador de um filme. A certa altura, o passado veio à baila, ela pediu desculpa por aquele tempo atrapalhado de imberbe irresponsável e ele com a cabeça fazia meneios de concordância, mas desvalorizando o assunto com gestos de encolha dos ombros.

Depois refugiaram-se num bar na Avenida 24 de Julho e a noite passou apressada, contando-se histórias, em vez de horas. Arrumaram tudo como querendo limpar os pecados, numa espécie de redenção final. Saíram para a rua já o movimento do trânsito anunciava o acordar próximo da cidade. Continuava a chover de forma compacta e, sem qualquer resguardo, correram para o automóvel. No interior, sacudiram com as mãos a água concentrada nas roupas e perceberam os evidentes sinais de que o cansaço se apoderara deles como um embrulho. Em silêncio, embrenhou-se no cinzento escuro da cidade, enquanto ela se aconchegava no banco como querendo adormecer. Com o ruído do pára-brisas em movimento acelerado em pano de fundo, sentia-se encharcado, atordoado por horas de ruído e de luzes e com um vazio tão forte que julgou que iria vomitar. Não se lembrava de nenhum projecto luminoso que tivesse integrado e concluiu que todas as opções da sua vida tinham o fracasso como único roteiro. Quando parou o automóvel, de imediato, viu sobre si os olhos ensonados e escuros dela. Ela aprumou-se e com um beijo leve selou as despedidas. Já com a porta entreaberta, perguntou-lhe se podia ficar com o contacto e ela sem responder escreveu o número num talão de estacionamento que descobriu em cima do tablier.
Saiu sem pressa. Abriu o vidro, ela voltou-se para trás com a chuva a ensopar-lhe o cabelo e com um leve sorriso, enquanto ele quase gritava que há muito não se sentia tão vivo como naquela noite. Fez-lhe um leve aceno, hesitando, regressou ao carro que deitava fumo cinzento pelo escape. Aproximou-se tanto que ele reconheceu odores fechados há muito em baús e com uma calma adocicada pelo dormitar breve da viagem segredou-lhe: ouve, não me telefones, por favor. Temos de acatar uma regra básica da vida. Nunca, mas nunca devemos regressar onde fomos infelizes. E retomou o caminho debaixo daquela chuva obstinada e dura até desaparecer dentro do automóvel.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

No Fundo...



Acabou mesmo agora de entrar. Fiz de conta que não ouvi a chave a rodar na fechadura e permaneci imóvel na cozinha. Chamou o meu nome e mantive-me expectante e só. Olhei lá para fora e reconheci perfeitamente pormenores de um horizonte gasto por tanto uso, a serra esventrada por telhados vermelhos, mais perto a escola dos miúdos barulhentos, além a desordem de casas, ruas e chãos secos. As coisas não andam bem cá em casa. Não porque algum de nós tenha qualquer culpa. Andam mal porque a vida nos infesta a morada de enfermidades e falta o fármaco para nos tornarmos imunes ao caos. Andava tudo bem até há pouco tempo, se querem saber. Tínhamos tantos projectos como um gabinete de arquitectura e tudo caminhava como se o tempo fosse um carril e a família um vagão de comboio com paragens premeditadas. Sabíamos o que queríamos fazer daqui a três, quatro ou mais anos, os destinos das viagens traçados com a rigidez de uma equação matemática, os filhos loirinhos já com os nomes e tudo. Agora não, perdemos o futuro como quem perde as chaves de casa e teremos de encontrar uma nova fechadura que nos dê acesso a uma nova realidade.

Não se pense que tenho qualquer responsabilidade no assunto. Aliás, tentei sempre desdramatizar a situação. Reafirmo diariamente a nossa capacidade para construirmos um futuro liberto desta náusea que nos vai consumindo, assegurando que reencontraremos o caminho. Mas ele faz de conta que não ouve. A esperança só tem sentido quando já temos na mão parte da solução. Até agora não temos coisa alguma. E devido à espera em frente da televisão e com as mãos alisando os cabelos, envelheceu tanto em poucos meses que parece que ficou para trás. Estupidamente, recordei a história dos gémeos de Einstein. O que ficava na estação do comboio envelhecia, ao contrário daquele que se metia na geringonça e, à velocidade da luz, dava reviravoltas ao universo. Ele deixou-se ficar na estação. Sem ter culpa, claro.

Os problemas começaram há cerca de seis meses, quando ficou desempregado. Nos primeiros dias, após o choque, decorreu um período envolto numa jovialidade quase constrangedora. Parecia que andávamos em festa, tal era a quebra do ritmo, a leveza dos horários e o tempo que sobejava para tudo, para nós. Não sei se era uma estratégia inconsciente para nos esquecermos do infortúnio, se julgámos mesmo que era o início de um tempo novo liberto de qualquer plano que nos limitasse os movimentos e os sonhos. Mas a sucessão dos dias rapidamente mostrou que esse clima engalanado pelo entusiasmo tinha sido uma ilusão. E julgo que nenhuma família está preparada para se reequilibrar quando um dos membros se encontra no fio da navalha. Não há remédio para uma angústia que se vai amontoando como o lixo nos caixotes. A certa altura os sacos já são colocados no exterior porque já não cabem lá dentro.

O som do meu nome vinha agora do corredor. Sim, estou na cozinha, respondi. E ao entrar, desculpa, não te ouvi, menti. Entrou, a barba por fazer, mais cabelos brancos que ontem, pelo menos pareceu-me. Toca-me no braço como um pequeno afago e senta-se à minha frente com as mãos na testa. Mantenho-me imóvel e muda. Parece que chora ou pelo menos emite uns sons misteriosos. A certa altura, retira as mãos do rosto, fixa-me nos olhos durante uns segundos como procurando palavras, ou sentidos, ou simplesmente compreensão: - ando tão perdido que mesmo ao chegar a casa, algo no meu íntimo impele-me para que continue a andar, sempre em frente, até encontrar o meu lugar.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

O Homem-Gelo



Desde que foste embora não me lembro de sorrir. Mesmo com as patifarias do Ernesto, aquele gato manhoso que trouxeste no Natal, não consigo reproduzir o movimento ligeiro e silencioso da boca e dos olhos que represente contentamento. No entanto, apesar da estranheza da tua partida, e após um tempo impreciso de mágoa, encontro-me agora naquele estado indolor, talvez o mais próximo da ventura budista: não sofro porque nada desejo, nada procuro, nada quero. Não me sinto infeliz, sinto-me vazio. Ao saíres de casa levaste contigo aquela parte de mim que se preocupava com os outros, que se sentia enquadrado no mundo, que tinha projectos. Hoje vivo encarcerado em mim sem pretender inventar bengalas exteriores que me amparem na caminhada.

Soube que tens alguém novo na tua vida que te completa e te faz feliz. E se não me surpreende o teu novo estado de espírito, a ideia de complemento faz-me alguma confusão porque comigo sempre procuraste as semelhanças. Como és melhor em todos os domínios, aquilo que te poderia oferecer já o tinhas em abundância e eu surgia tão pouco interessante, mesmo vulgar. Mas não julgues que este bilhete é um ajuste de contas, mas um simples reparo. Ao te afastares, aquelas lágrimas não me comoveram porque percebi que lamentavas a decisão por ti e não por mim. Iria obrigar-te a alterar passos, a aconchegares-te à vida de uma forma matreira, zelo que nunca foi reivindicado na nossa vida em comum. Vivias comigo com tal segurança e naturalidade que exibires a tua realidade garantia, desde logo, o êxito e o afago. Percebo que não seja tarefa fácil moldar a tua imagem para que te julguem digna de admiração e afecto. Agora percebes que ser feliz dá um trabalhão enorme! Pela parte que me toca, pelo contrário, vivo a ressaca do esforço dispendido para encontrar o melhor de mim para te dar, o lado mais fotogénico, o mais adequado. Mas neste momento, como recuso qualquer fardo na minha relação com os outros, reproduzo apenas aquela trivialidade que me faz transparente.

Por isso, se os amigos comuns continuarem a manifestar preocupação pelo meu estado de espírito que apelidam de depressivo e aberrante, podes dizer-lhe que estou num bom momento e que volvam a sua atenção para a sua vida comezinha e medíocre. Uma inquietação que nasce, naturalmente, quando alguém é abandonado. Se for homem, transforma-se num ser ridículo, objecto de compaixão e zombaria. A mulher tem sempre fortes razões para largar o companheiro, enquanto os homens têm no seu mau carácter ou na sua fraqueza a origem dos desenlaces. Mas esta simbologia do “largar”, como quem liberta uma ave de rapina mantida em cativeiro, no meu caso é no mínimo estranho, porque eu fiquei. Estou no meu ninho. Foste tu quem saltou da escarpa em busca do vale verdejante que se estende até onde a vista alcança. Tenho a certeza que encontrarás o que procuras, com a mesma de certeza que eu nada preciso de procurar, porque tenho tudo o que preciso.

sábado, 20 de setembro de 2008

Filhos da luz...



É difícil entender a maldade. Mais difícil ainda é entender a loucura. A loucura que enferniza a vida aos próximos, que os engole na sua névoa, lhes impõe trâmites e exige réplicas canónicas. Se todos temos um fundo escuro que nunca o exteriorizamos no seu esplendor, a loucura significa ausência de amortecimento de efeitos e, nesse caso, esse lado misterioso extravasa-se em consequências trágicas para os demais.

Um amigo, daqueles que se prendem a nós sem se perceber as razões e vão connosco para todo o lado, desde garoto suportou uma relação turbulenta com a mãe e as sequelas desse processo são ainda visíveis e insanáveis. Talvez não haja culpas para distribuir, ou então os intervenientes vão sobrevivendo às transgressões, sem terem a certeza se foram eles a sua causa ou simples consequência.

Tudo começou quando a mãe, na tentativa de identificar o conteúdo dos livros de psicologia como a solução mais elementar para as dúvidas surgidas na relação com os outros, encontrou nos filhos as cobaias ideais. Um processo desastroso, porque se era evidente que os filhos espelhavam os textos, aquilo que não encaixava teria de ser acertado nos parâmetros, ou então analisado como moléstia tratada com receituário médico. E o garoto era demasiado irrequieto, uma vivacidade interior tão forte que arrasava tudo à sua frente, tal como uma enxurrada num dia invernoso. Mas naquele tempo não se falava em hiperactividade e a norma transparecia nos colegas de escola, atentos e sossegados como os anjinhos das igrejas. Então, após consultas a vários médicos, um deles confiou nos sintomas, possivelmente esticando as suas certezas para se encaixar nas certezas dela, e diagnosticou-lhe epilepsia, uma disfunção no sistema nervoso, caracterizada por convulsões e problemas de atenção. Enquanto isso, paralelamente, a luta do pai era bem diferente, certificando a normalidade do filho e recusando diminui-lo à custa de medicamentos. A mãe acusava-o de apenas ter vergonha de uma anomalia no filho, o pai acusava-a de importar para a vida familiar de forma imprudente uns livros que ela devorava de sol a sol. As trapalhadas amontoaram-se sem remédio, desencadeando rupturas que adviriam bastante mais tarde.

Mas a mãe ganhou a guerra e toda a energia que encontrou nas entranhas direccionou-a para a salvação do filho, transformando-a num instrumento metódico e inflexível de regeneração do corpo e da alma. Desenhou deveres com a rigidez de um militar de carreira, metodologias, tempos e actividades. O fundamental era a ocupação desportiva sistémica, decretando, além das actividades normais da escola, natação várias vezes por semana, corridas diárias em volta da casa, enquanto ela supervisionava o esforço e o tempo, completando o tratamento com a norma implacável de se deitar às sete da tarde. Tudo com o objectivo de expulsar o mal pelo esforço e a fadiga extremos, primeiro, atenuaria os efeitos e, aos poucos, descobriria o ritmo certo da normalidade.

Hoje, ele não se lembra se corria com lágrimas nos olhos e se dormia as horas prescritas, pois apenas tem na memória o calor de África que impedia o sono solto e os sonhos calmos. Mas os tempos foram difíceis, pois as crianças preferem encontrar um tempo escorregadio e não um tempo determinado por regras severas. Preferem o afago do que uma disciplina férrea que esconde o sorriso. No entanto, a inocência não é culpabilizadora e, se o é, revira para si mesma culpas alheias.

Em complemento, até ao fim da adolescência, ele tomou sem qualquer escusa, fortes doses de medicamentos. Até que a maturidade, perante as dúvidas que sempre pairaram e confessadas em território inimigo, determinou a interrupção do tratamento. Três anos após essa tomada de força, através de novos exames médicos solicitados por ele, foi-lhe garantido que nunca teve epilepsia e que teria sido um erro clínico do seu colega, quinze anos atrás.

É claro que desacertos todos os cometemos e há erros trágicos que tiveram na sua origem o sentimento de procura do certo e do bem-fazer. Educar tem riscos, pois nunca saberemos se o que propomos é o caminho mais certo para quem está nas nossas mãos. Mas quando o nosso lado obscuro extravasa, as consequências são tão desastrosas que a vida não chega para as expiar.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

O dia e a noite...



Choras durante o sono, sabes? Um choro prolongado, profundo, rouco, que causa calafrios só de ouvir. Podes ostentar esse flanco superficial, coquete, desprendido, mas à noite, quando o silêncio pinta a casa de negro, irrompe um pranto como o de uma criança a quem lhe retiraram tudo o que a fazia feliz. Um choro incapaz de parar porque não há ninguém que seja dono de algo tão espesso como aquilo que pedes. Uma fragilidade que nunca vais admitir porque preferes apresentar esse teu lado imperial, de mulher que não precisa de ninguém. Que não precisa essencialmente de mim.

Então levanto-me, ando pela casa com as mãos pressionando os ouvidos, cantando canções de embalar. Mostro o rosto envolto em mágoa, pelas razões que bem conheces, mas essa mágoa é superficial, sara, recupera com o tempo. Mas a tua mágoa é difícil de curar. Faz parte de ti. És infeliz no âmago, não és infeliz na derme. Só a verdade te poderia salvar. Uma atitude em que assumisses os teus medos, a tua guerra interior, os fantasmas do passado. Terias de chorar muito enquanto desperta, porque as lágrimas vertidas no sono salvam-te da vida, mas não te salvam de ti mesma.

Mas não, preferes o show off, a peça da mulher feliz que convive perfeitamente consigo mesma. E eu sofro ao teu lado, por vezes pego em ti enquanto dormes e aninhas-te no meu colo tão desprotegida como uma criança errante. Gostava de conseguir preencher esse vazio tão forte e tão denso, mas não sou capaz, porque me julgas incapaz. Preferes alimentar a esperança vã de que, mais cedo ou mais tarde, por um passo de mágica, alguém transformará o teu lado negro no lago dos cisnes. Desculpa se não acredito…

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Noites perdidas...


Perdi mais uma noite à tua procura. Subi todas as escadarias por onde nos escapávamos em direcção à luz, entrei nos bares que frequentávamos até ao raiar do dia, encostei-me à tua casa onde a claridade nunca mais entrou e no fim regressei, já a silhueta do sol era visível. Entrei tão cansado em casa que preferia que o amanhã não existisse, mas apenas um mundo uma semana depois. Não percebo porque continuo a procurar-te se já não existes. É como se buscasse um espectro no meio de uma cidade iluminada, sabendo à partida que não te posso encontrar porque já não és como eu te procuro. Talvez já te tenha descoberto sem saber que eras tu que retomavas o caminho dos vivos…

Mesmo assim, às vezes, gosto de pensar que ainda te lembras do meu nome e que não o riscaste como se apaga um contacto do telemóvel. É estranho como a quebra de laços causa mossas ao amor-próprio, como se fossemos feitos de afectos e qualquer perda significasse menor realidade. Também nunca percebi a estratégia de fugir ao amor pela ausência no sentido geográfico, tal como tu. Julgo que a solução mais óbvia seria ficar perto, demasiado perto, e aos poucos comprometer a espera e o aceno. Tempos depois seríamos tão invisíveis como o são os companheiros de viagem numa carruagem de metro.

Mas a distância, pelo contrário, conserva as coisas como eram. Uma espécie de frigorífico dos afectos e de corpos que não deixa apodrecer os rostos e os sorrisos. Aliás, a distância torna mais luminoso o passado, porque a memória apenas selecciona o que garante a continuidade do bem-querer. Por isso, vinte anos depois, uma face alterada pelas desilusões do tempo e da vida, resta mais rejuvenescida, recauchutada pela saudade. Alguém que se ausenta não se corrompe porque permanece como uma fotografia numa moldura, mesmo sabendo-se que foi subvertida pelo funil do tempo, por aquela oxidação que enferruja os ossos, a pele e os próprios medos.

Desse modo, queria ver-te. Não para te mostrar a minha face decepada por sulcos onde se arrastaram as lágrimas vertidas, apenas para te olhar como hoje és, na distância, como um detective privado que tira fotos da amante do marido traiçoeiro. Sem que tu me olhasses naquela frieza assassina que trata o passado como um chão minado. E assim, um instante valeria por vinte anos de atraso e a memória não ficaria retida nos alicerces de tudo o que aconteceu entre nós.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Sobreviventes

Todos nós, de uma maneira ou de outra, somos sobreviventes. Fui náufrago durante várias horas no mar alto e salvo in extremis por um barco que passava por puro acaso. Por razões de amnésia insanável, não disponho de todos os pormenores que expliquem cabalmente a estranheza de me encontrar em pleno mar, com um colete de salvação e próximo da hipotermia. Mesmo após o salvamento, grande parte de mim ficou por lá a boiar, com o medo estampado no rosto e a angústia perante um silêncio tão denso que se podia cortar em pedaços. Depois da longa permanência no hospital, sem reencontrar a memória, concluí que o passado era um dom desprezável pelo trabalho que daria em recuperá-lo. O esforço despendido em o reconstruir seria mais proveitoso se o utilizasse para reerguer-me. No fim, por tudo o que passei e pelo que desconheço, analiso a vida como um sucedâneo de histórias estranhas que nos encaminham para desfechos que nos iludem face às suas próprias razões.

Sobrevivemos apenas. Não tenho da vida a noção de um caminho estreito com pequenas margens para o erro. É mais um espaço indefinido cujo traçado que nós desenhamos lembra os labirintos gregos que necessitavam de fios de Ariadna para encontrarmos o caminho de volta. Vamos em frente sem saber para onde e quando olhamos para trás não encontramos dados fiáveis que nos guiem até ao início do túnel.

Gostamos de nos pensar argutos e suficientemente razoáveis para julgarmos que a nossa história individual foi gerada pelo bom senso e pela frieza do raciocínio, mas quando nos vemos envolvidos pelo tremor de uma situação limite, questionamos com sobressalto o que permitiu vivermos aquela conjuntura trágica e ridícula na sua essência. E transparece um emaranhado de decisões, de coincidências de vontades, de rasuras, de vazios, de buracos negros na linha causal. No final, resta um enigma que nos vai ocupando os dias, os anos, a vida...

Após o naufrágio, como o passado permaneceu para sempre naquele limbo com sabor a ácido, sinto a estranheza de começar tudo de novo sempre que acordo. Deixei de ter medo, porque não existe passado; deixei de me preocupar com o amanhã porque aprendi que o agora, por vezes, é um osso tão duro de roer que ninguém pode ter a certeza de o poder domar. Quem viveu como eu a expectativa do instante final e acordou muito tempo depois, sem se lembrar quem era ou de onde veio, nada lhe garante que o amanhã seja uma inevitabilidade. Talvez nem o agora seja. Talvez tudo não passe de uma fantasia de um deus maldoso e cínico.

E sinto-me, desde aí, um náufrago. Alguém que anseia ser salvo. Alguém que não tem os pés presos a nada firme. Alguém a quem basta um copo de água potável e qualquer coisa quente no estômago. Alguém a quem a felicidade é uma miragem sem qualquer sustentação. Alguém a quem a pressa não é mais do que desespero sem sentido. Alguém que reconhece a necessidade da racionalidade nas decisões e o dever de resguardar as forças para os grandes embates. Alguém que aprendeu que qualquer esforço inútil poderá significar a morte prematura.

Ás vezes acordo mergulhado em suor salgado e pressinto que continuo a ser salvo diariamente por navios fantasmas que atravessam o oceano, estranhos que me levam para cemitérios povoados de gente de bata branca que ajeitam os mortos antes de os enviar para o crematório. E depois reinicio a vida já sem medo porque o temor nasce do perigo de nos perdermos de nós e nos esquecermos do que é essencial. Já passei por essa prova e já nada tenho a perder. Como náufrago é-me indiferente onde vou. Vou em frente. Senti já o vazio debaixo dos pés, adormeci a pensar que não voltaria a olhar o céu e agora quando o observo nunca tenho a certeza se não é o mesmo sonho que fruí dentro de água até o barco me ter, literalmente, pescado. Um sonho de areia quente e dourada que me envolve o corpo, ao mesmo tempo que o sol me aconchega e me esvaece, transformando-me numa pequena nuvem melancólica que se move ao sabor do vento.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Cenários de guerra


Ontem fui visitar uma velha amiga que habita uma cave numa zona periférica da cidade. Por entre caixotes do lixo e paredes repletas de grafites de todas as formas e cores, tentava encontrar sinaléticas que me encaixassem no trilho. Prédios devolutos ou em risco de derrocada, horizonte que fazia lembrar uma zona de guerra onde os combatentes entrincheirados aguardam o inimigo incauto. Estilhaços eram visíveis por todo o lado, bem como janelas fortalecidas por grades estreitas. Descubro o portão verde e enferrujado encimando três escadas de um mármore escuro. Ao entrar no átrio vazio sou envolvido por um odor forte de incenso ressequido. Desci os degraus no meio da penumbra e bati à porta, várias vezes. Quase desistia quando ouvi uma voz estremunhada a perguntar quem é e, após certificar o nome num eco que envolveu o prédio todo, um intervalo silencioso até a chave rodar por diversas vezes. Ela debruçou-se por entre a porta entreaberta e olhou-me com algum desconforto:

- Não tens vindo, acusa-me, ao mesmo tempo que me vira as costas e caminha devagar pelo corredor.
- Pois não, desculpo-me. Ultimamente, tenho andado ocupado com muitas coisas e não tenho tempo para tristezas.
- Isso não é nada bom, responde com visível enfado. Quando nos esquecemos dos problemas, não os resolvemos, apenas nos esquecemos deles.

Não era bem-vindo e teria que aturar-lhe o mau feitio, famoso desde o tempo em que nos conhecemos. Foi no fim da década de oitenta, numa Escola Secundária e, desde aí, muitas vezes me perguntei porque mantinha uma relação condenada desde o início. Era possessiva, rezingona, rígida, pouco dada a gestos descontraídos e recusava-se a fazer cedências à sociedade hedonista. Lia compulsivamente os clássicos, era uma conhecedora profunda da filosofia alemã e da literatura russa, e conservara hábitos parcos, a roupa simples e a alimentação vegetariana. Se no início lhe achava graça e lhe elogiava a cultura e o humor corrosivo, fui-me afastando à medida que o tempo se encarregava de alterar andamentos e passavam meses sem que soubéssemos um do outro. Enquanto ela permanecera fiel a si mesma, eu fui-me alterando ao sabor do vento.

- Detestas ver os teus amigos minimamente felizes, não é? Questionei-a de forma cruel.

Sem responder, entrámos na sala com poucos móveis baços e abandonados, como que colocados lá por puro acaso, e montanhas de livros que se alongavam em pirâmides como obras de uma criança irrequieta. A decoração reduzida a pequenas serigrafias desamparadas numa parede com marcas de salitre. Com um sinal seco ordenou-me que me sentasse num sofá tão desgastado que encontrei as molas. Depois, sem qualquer explicação, saiu da sala e deixou-me sozinho. A escassez de luz natural e as grades interiores nas janelas tornavam o ambiente irrespirável. Minutos passados regressou com um álbum de fotografias na mão. Sentou-se à minha frente, abriu o álbum e foi folheando com os olhos concentrados nas fotos que se pegavam umas às outras como páginas de um livro. Depois parou e apontou uma delas e com um gesto incitou-me a levantar-me para a examinar. O tom sépia e o esbatimento dificultavam a interpretação, mas reconheci-me noutras eras, com cabelos compridos e com a dor espelhada no rosto.

- Estás a reconhecer-te, não estás? Afirmou como se eu devesse retirar uma lição qualquer.
- Sim, mas qual a finalidade deste regresso ao passado? Perguntei ainda aborrecido pela recepção pouco calorosa e amigável.
- Era só para te relembrar que quando nos esquecemos quem somos, podemos apresentar uma pose mais adocicada, mas lá no fundo continuamos os mesmos. Tristes, sem futuro e sem esperança. Recordas-te? Agora julgas-te imune porque tens resposta para a maioria das questões que colocavas na tua juventude, mas as perguntas mais importantes ficaram por responder. As que amenizaram a tua vida são circunstanciais e não o cerne da vida. O melhor é preparares-te convenientemente para o que aí vem. E fitou o vazio, com ar grave.
- Mas explica-me, interrompi-lhe a concentração. Porque é que não consegues descontrair-te e ser menos cáustica pelo menos uma vez? Sabes porque não venho mais vezes? Porque contigo não consigo encontrar o prazer de estar junto, o falar por falar, a fluência de uma cavaqueira sem qualquer direcção nem objectivo. Preferes filosofar, ser interessante, profunda, intensa. Sei onde queres chegar com essa foto, lembro-me muito bem como era e quem sou. Mas agora prefiro encontrar suportes de esperança do que acrescentar e reforçar atitudes de desconforto perante a vida. Escusas de tentar atirar-me novamente para o beco. Prefiro andar cá em cima, nem que seja à custa de paliativos, como tu lhe chamas.
- Eu, pelo contrário, não tenho paciência para sensaborias e futilidades. Se queres ser jovial e ter conversas agradáveis não deves vir. Já não temos idade para nos comportarmos como jovens imaturos. Olha para ti! Vestes roupas que não se coadunam com a tua idade! Ou esqueces?
- Não me esqueço. Mas fui aprendendo que nada tem sentido se recusarmos a alegria, a loucura, a inconsciência, o sonho, a viagem…

E de forma impetuosa respondeu à provocação.
-Sempre fui velha demais para jogar com os mesmos dados. A vida pode não ter sentido, mas teremos de ser coerentes e vivê-la como se um fardo se tratasse. E ser coerente também significa recusar amizades que não pactuam com esse rumo.

E emudeceu tão profundamente que percebi ser a deixa para eu me ausentar. Não era a primeira vez que nos afastávamos por não termos descoberto pontes entre nós. Saí para a rua deserta e com snipers esbatidos pela sombra dos vidros. Caminhei rápido espiando o céu cinzento que se arrastava sorrateiramente junto aos telhados e ameaçava despenhar-se em chuva. A vida vista dali era uma sucessão de imagens cruéis e sem graça. Um horizonte que fortalecia o espírito de guerra em que há muito se transfigurara. A alma tem tendência a assemelhar-se ao bairro onde se habita e vai-se adaptando tanto à leveza como à crueza dos lugares. Se há jardins habitados por crianças ruidosas com bicicletas e pequenas lojas silenciosas com fruta fresca a colorir as fachadas é bem possível que encontremos em nós maior margem de tolerância e simplicidade.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

O voo nocturno

À noite é mais fácil vaguear pelo céu. Desembrulho a asa de parapente arrumada na despensa e, quando as meninas se enclausuram no sonho, salto da varanda em direcção aos cedros do cemitério, encaminho-me para norte guiado pela Ursa Maior, transponho o rio e flutuo de um lado para o outro no barlavento da serra até que o sono me traz de volta a casa. Depois, arrumo com cuidado os instrumentos de voo e, passo a passo, entro no quarto para não as acordar.

Na manhã seguinte, a mulher-a-dias recrimina as pegadas de terra fresca que saem da varanda e pintalgam toda a casa e garanto-lhe que seria impossível sair das margens do rio e entrar numa varanda do décimo andar. Mas ela não me parece convencida porque as sinaléticas são tão claras como pegadas em neve fresca e garante-me que, não existindo fantasmas, a origem das coisas e dos factos desprezíveis apenas têm como explicação a fragilidade da natureza humana que é mais falsa que a pequena brisa que antecede as tempestades tropicais. Ao olhar o mundo pelo periscópio de gente austera e sem manhas, qualquer brincadeira é apenas um empurrão da má índole que acompanha a alma enquanto vai derrapando por este mundo.

Vem isto a propósito dos sonhos. Enlouquecíamos sem eles, pois seria como se nos enterrássemos vivos neste corpo baço, lento e pesado que nos enquista à terra e nos obriga a um porte de cabeça baixa. O sonho é um mecanismo de auto-defesa que nos transporta para o alto e nos limpa da impureza da vida, seja ela o tédio ou a melancolia, seja a enfermidade e a fragilidade do corpo. Mesmo quando nos esquecemos do seu rasto, peregrinamos após o sono nos fechar os olhos a cadeado e voamos mais alto do que parapentes.

É por seu intermédio que reconhecemos lugares onde antes não tínhamos estado, revemos com saudade pessoas que não tínhamos encontrado em lado algum, sabores e odores, tudo assimilado nessas viagens espaciais, após adormecermos com vontade de esquecer a vida cheia de realidade. É nesse universo onírico que encontramos o que nos faz feliz, onde aprendemos a gostar de gostar e a gostar de gente, de comida, de sensações, aquilo que vamos reconhecendo nos pequenos momentos em que nos sentimos afortunados quando acordados.

A minha mulher-a-dias, pelo contrário, julga que a vida não passa de uma carga de trabalhos. Tudo o que não é trabalho e esforço é um presságio dos ricos a que o pobre não deve ter acesso por lhe causar mossas na mioleira. E quando eu lhe tento explicar que quando o pensamento vagueia para tão longe como um veleiro que acompanha o vento aí podemos ser tudo o que quisermos, ela responde-me que se não temos dinheiro não devemos ter vícios e tudo o que está para além das nossas capacidades não nos faz falta nenhuma. Mas eu não ligo. À noite, espero que elas se aconcheguem na indolência e, quando o silêncio é bom conselheiro, vou à despensa, desenrolo com cuidado a Frantic Plus, estico os fios e retiro os nós, espero que a asa inche com o vento norte e descolo em direcção aos cedros do cemitério. Em seguida, atravesso o rio até encontrar um vento ascendente que me sustente na encosta da montanha.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Espelho meu, espelho meu...

Talvez não conheçam a outra versão do espelho mágico, personagem da Branca de Neve e os Sete Anões. A rainha malvada ao perguntar ao seu fiel espelho se haveria alguém mais bela do que ela, após silêncio embaraçoso, respondeu: “sei lá, petulante rainha, pergunta-me apenas como estás hoje. E pelo teu aspecto não é só da Branca de Neve que deves ter ciúmes, pois mesmo alguns anões não são de desaproveitar!”. O desgraçado terminou em migalhas no chão de pedra, morrendo em defesa de uma verdade: as imagens nunca são absolutas.

Todos os espelhos falam, como sabemos. Respondem a dilemas tão fundamentais como vida ou morte, segurança ou fragilidade, sair de casa ou regressar à cama. Mas diferem uns dos outros tais como as próprias imagens que reflectem. Quando somos nós os seres reflectidos poderemos esquematizar essa diversidade em três tipos: os que nos favorecem, esbatendo anomalias e transformando-nos em seres com alguma graça; outros que não nos absolvem, revelando as noites mal dormidas, rugas e falhas de cabelo e esforçando-se por diminuir os ecos de euforia; e uns terceiros, talvez mais honestos, que nos descrevem “assim-assim”, nem muito favorecidos nem muito escavacados, sendo de bom senso acreditar ser mais correcta a sua manifestação.

Da relatividade da imagem reflectida resulta parte da nossa insegurança social. Qual a medida justa? Possivelmente, permaneceremos para sempre prisioneiros da natureza deformadora dos reflectores, tal como acontece quando nos submetemos ao olhar dos outros. Se perguntarmos a alguém a opinião sobre uma determinada pessoa e segundo vários aspectos, as respostas reflectem a contingência da representação oferecida por cada olhar. Raramente alguém obtém a unanimidade sobre o seu carácter, as suas potencialidades e até a sua figura. Existe sempre uma margem de confronto, de esbatimentos, de diferentes pontos de vista, de pormenores que sobressaem e fazem esquecer o conjunto. E é por isso que há quem nos adule, quem nos deteste, os indiferentes e os amigos. Naturalmente, a imagem reflectida pelos últimos será a mais fiável, pois tanto nos louvam as qualidades como nos criticam as tropelias e os sinais de mau carácter. Os outros fazem sobressair de tal forma as qualidades ou os defeitos que, ou criam monstros de virtudes ou criminosos de guerra e, desta forma, pouco ou nada acrescentam ao conhecimento de nós mesmos.

O maior problema deste conluio é que, em geral, todos procuramos os espelhos mais benevolentes. Em situações de maior insegurança sabemos onde se encontra aquele que, sendo menos criterioso, nos transfigura de simples humanos, pequenos e frágeis em figuras típicas de filmes, cinderelas com prazos exíguos. Se, pelo contrário, pretendemos reparar erros ou fazer juízos mais sóbrios sobre opções futuras, aproximamo-nos daqueles que, sendo frontais, não nos escondem críticas e nos descrevem com um semblante mais humano e mais quebradiço.

Por último e aparentemente, os espelhos menos sujeitos a embustes e que nos descrevem com maior rigor somos nós mesmos. Todavia, por estranho que pareça, nem sempre a imagem recolhida no silêncio de nós é imparcial e justa. Muitas vezes fechamos os olhos a evidências e continuamos a redimir culpas próprias atribuindo-as a segundos e a terceiros, para não beliscarmos a nossa carapaça, ou então somos tão severos e culpabilizadores que o nosso amor-próprio baixa a níveis suicidários. Teremos de aprender a ser superfícies mais polidas para que a imagem reflectida seja a mais próxima, limpa de narcisismos balofos e sentimentos auto-destrutivos. É um trabalho árduo e contínuo de reconhecimento, quer através da expiação de pecados antigos quer pela coragem de assumir optimismo perante as nossas qualidades.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

o pacto de silêncio



Foi há tanto tempo que já não se lembrava das palavras propriamente ditas. Possivelmente teriam sido bem diversas. Aliás, em abono da verdade, nem tinha a certeza se tal conversa acontecera. Mas mesmo que não tivesse ocorrido viveu como se aqueles termos alicerçassem a relação. Eles confiaram-lhe um segredo e um encargo: a vida dela não tinha qualquer sentido sem ele. Transformaram-no na sua âncora, no seu reduto. Como se o mistério de toda uma vida se resolvesse pela presença contínua de um ser vulgar como ele.

Na altura, timidamente, aceitou o pacto como a consequência do amor que também sentia, apesar de reconhecer a tarefa gigantesca e o peso em ser o fiel depositário.

E a enorme culpa quando tudo ruiu.

Ao longo dos últimos anos, encontrara na sua face a desilusão e nas suas lágrimas libelos acusatórios. Se ele fosse diferente ela seria feliz como nas histórias de encantar. Confiou nele a sua vida e o que recebera em troca? Pouca coisa. Afinal, não era o TAL, aquele que a libertaria deste mundo opaco, desta vida rotineira, sem graça. Uma conclusão sobejamente repetida por palavras, actos e omissões…

Naquele fim de tarde, olhava a rua por entre as cortinas, enquanto ela lia uma revista no sofá, encostada a um canto iluminado por um candeeiro. Fitou-a e a luz realçava-lhe a pele lisa e as feições perfeitas. Tentava inventar as palavras mais certas para lhe pedir desculpa por ser tão longínquo de quem ela queria que fosse. Por não ter conseguido atingir o patamar mínimo da exigência. Bebia mais do que a conta, não tinha cuidado com o corpo, qualquer exercício físico era um tormento, horas excessivas frente à televisão, tempo infindo na internet. Ela, pelo contrário, mortificava-se diariamente no ginásio, empenhava-se em ter uma vida saudável, lia livros de autores difíceis e não perdia uma peça de teatro. Nunca percebera o que via nele de tão interessante para lhe confiar a vida e cada vez mais encontrava razões para julgar que não estava à altura das circunstâncias.

Continuava no sofá sem trocar a posição das pernas, nem virar qualquer página da revista. Ele sem encontrar as palavras certas, esforçava-se para encontrar no exterior algo que segurasse a mente e o olhar. Vezes sem conta repetira-lhe que queria manter-se jovem e bonita de forma a estimular o desejo pelo seu corpo. Ele desleixara-se. Um príncipe transformado em bolota gigante. Peço desculpa, não consegui ter forças para aguentar a pedalada do tempo. Fiquei para trás ou fui com ele, não sei bem.

Mas não queria regressar à sala enquanto ela não o solicitasse.

A certa altura encontrou um poiso consistente para o olhar. Lá ao longe, a auto-estrada subia e descia a serra com milhares de luzes intermitentes a reflectir-se na noite. Uma fila de automóveis nos dois sentidos como se tratasse de uma roda de feira. Achou curioso pensar que se no mesmo local e ao mesmo tempo tantos seres surgiam do nada o facto era o resultado do seu próprio olhar. Como um cenário artificialmente criado devido à sua presença. Até que ouviu a voz, uma voz que não reconheceu, mas vinha dela, tinha quase a certeza.

E há quanto tempo não fazemos amor com aquela paixão do banco de trás do automóvel? E há quanto tempo não me surpreendes? E há quanto tempo não me comoves? E há quanto tempo não me levas por caminhos desconhecidos, naquele entusiasmo de olhar o novo, o inóspito? E há quanto tempo não me distrais da vida, deste andamento insípido do tempo? E há quanto tempo não me olhas como fazendo parte de ti e, em vez disso, desprezas-me como um apêndice que manténs com visível enfado? E há quanto tempo não passas por mim e me espias como um adolescente maroto? E há quanto tempo não me dizes palavras bonitas que me dê gosto em repetir? E há quanto tempo não trazes para casa um pequeno pedaço do mundo para o dividirmos em partes iguais?

E depois o silêncio. Imóveis, ele junto às cortinas, mas agora sem vontade de olhar o mundo. Envelhecera a paixão de tal forma que esta apenas se poderia segurar de pé à custa de muletas e mudez. Não valia a pena disfarçar.

Era agora a sua oportunidade. Então, continua que eu fico. A viagem ainda é longa e o cansaço não me liberta as pernas. A sério. Não percas a vida por causa de mim que rastejo. O que queres que diga? Que lamento? Mas teremos que repartir culpas. Sabes que apontar alguém como a solução da sua própria vida é eticamente condenável. Seria tão arbitrário como escolher uma estrela no céu e através dela pretender conhecer todos os mistérios do universo. Eu não sou o que esperavas como ninguém é o que os outros esperam. Talvez eu também te preferisse menos perfeita, menos digna, menos completa, menos exemplar. Talvez te quisesse mais humana, mais vulgar, mais grosseira.

Mas o silêncio resistiu. O rosto dela mantinha-se sobre a revista aberta, enquanto ele se libertava do refúgio das cortinas e procurava a escuridão do corredor que dava acesso ao outro lado da casa. Clarificar significaria encontrar uma solução que nenhum desejava.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

a boleia e nós

Há alguns anos atrás, andar à boleia era uma actividade lúdica de enorme significado. Pertencia aos espíritos libertos e criadores e respondia à ânsia de alforria. Era económico, ousado e usufruído por todas as classes sociais. Significava antes de mais aventura e só nalguns casos falta de posses. Quando se cravava ao vento o dedo da mão direita não se sabia quem vinha e para onde se ia. Ia-se para qualquer parte.

Eram os tempos fogosos das viagens sem rumo. Dar-se boleia era um acto social de irrepreensível sentido de cidadania e o sujeito da boleia tinha um estatuto digno de consideração e aplauso. Havia uma espécie de acordo tácito entre o automobilista e quem tinha urgência em mudar de ares. Como se transportar gente estranha fosse um instrumento de reforço dos elos sociais e querer mudar horizontes uma necessidade vital de quem acordou recentemente. Por isso, quem não se detinha ao gesto, com meneios incisivos explicava que a sua viagem ou terminaria em breve, ou ia mudar de direcção ou então no habitáculo não cabia mais ninguém.

O tempo e o modo passaram com um rastro indelével. Mas a sociedade e a vida modificaram-se de tal forma que o próprio assunto parece pertencer a tempos ainda mais remotos. Dar boleia é tão arrojado como abrir escancaradamente a porta de casa a um estranho que venda bíblias. Poucos se atrevem a ser simpáticos para desconhecidos com um dedo em riste, permitindo que se intrometam na sua vida na brevidade de uma viagem!

Mas a poesia do acto permaneceu. Abrir portas à partilha do trajecto não é mais do que uma metáfora da própria vida. Nela damos boleias a pessoas desconhecidas que aos poucos vão fazendo parte de nós e da nossa própria viagem. Quando alguém nos pergunta o rumo confiamos no golpe de vista e abrimos a porta com confiança. Mesmo que após paragens forçadas nos apartamos e cada um vá para o seu lado. Não é esse o destino de todas as relações?

Andar à boleia é então uma boa definição de nós. Alguns mais obstinados e desconfiados, preferem o silêncio ou o som do rádio à partilha do seu espaço. Há outros que param, se mostram disponíveis, mas os que encontram não aderem, decepcionados com a direcção proposta. E há ainda os renitentes em sair da estrada, preferindo pequenos trajectos, inconsequentes. Mas a viagem é a nossa matriz.

sábado, 16 de agosto de 2008

um dia, no Verão...

Desenhamos sempre o nosso mundo íntimo através de imagens tão frágeis como pequenos barcos de pesca que balouçam em cais desprotegido. Uma realidade que se vai diversificando e corrigindo perante a abundância de cores e experiências. Sobre a praia, numa esplanada enfeitada por sombreiros coloridos e abrigado de um sol estuporado, contemplo um horizonte ruborizado de corpos, texturas e abrigos. Vida e vidas que se amontoam no mesmo local como se tratasse de um imenso hipermercado onde todos procuram os mesmos condimentos.

Ao longo da costa, pontos fixos, especados no meio de ondas, antecipando actos de bravura, na expectativa de que a espera adormeça o corpo. Alguns movimentam-se, escondem-se na água saindo mais à frente, superando alçapões invisíveis; outros, imersos, com a cabeça de fora, parecem seres de outros mundos em viveiros estrelares. A maioria, inertes como lagartixas gigantes, com a areia moldada às curvas do corpo, apresentam-se como vítimas para o sacrifício. E todos sob um inferno escolhido de livre vontade, patamar para a bem-aventurança.

Novos, velhos, felizes. Em euforia festeja-se a saída do espaço vital e na areia quente descobre-se a libertação do trabalho, dos reveses e das canseiras. Sairão queimados como troncos vítimas de incêndios e transportarão o carimbo de dias passados com o corpo ao léu. Um troféu que resistirá pouco mais do que não tem qualquer importância.

Outros há que ficam pela esplanada, asilados e protegidos do calor que faz fumegar os corpos. Tão brancos como queijos frescos, não cedem aos chamamentos e ultrapassam os dias vestidos e empoleirados em sonhos residuais. Em alguns descobrem-se faces de enfado. Resignados perante o cenário desolador, tentando encontrar um salva-vidas neste mar sem fundo que é um dia de calor abrasador.

Foi escurecendo lentamente. Uma lua tão cheia como uma ervilha gigante deixa antever um mar colossal, calmo, apaziguado com um sedativo qualquer, enquanto à sua beira uns fios brancos se compõem e desfazem. Uma obscuridade crivada de pontos brilhantes, âncoras que transportam o espírito para fora de portas. Mais ao largo, pequenos barcos perdidos, encalhados em asilos sem passagens. Balouçam ao sabor de uma ondulação pautada, como marionetas.

Subimos a ria por entre carcaças de embarcações e barcos encavalitados nas margens secas como cachalotes suicidas. O rasto da lancha é semelhante ao fumo branco de um avião no céu e os passageiros transportam na face sinais de apaziguamento. Nenhum deles deseja o final da jornada sabendo que, após o término do Verão, a vida repetirá passos e destinos. Restará pouco mais do que a nostalgia de uma espuma branca desenhada por um barco na procura um porto.