quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Zé Casteleiro


Conheci-o ainda era um garoto de sardas e enfezado de corpo, quando partilhámos a camioneta que seguia em direcção ao fim do mundo, no início de umas férias de Natal. Caímos os dois no último banco, eu encostado à janela vendo correr as coisas e ele perdido num olhar desinteressado e vagabundo. A certa altura voltou-se na minha direcção, esforcei-me para manter o olhar em frente, mas não consegui resistir ao peso de um estranho pregado em mim. A cara dele tão redonda que parecia a lua em noites de cheia, cabelo à escovinha e uns olhos enormes, tão grandes que me surpreendeu haver espaço para mais algum pormenor.

- Tens pais? Perguntou sem qualquer intróito.
- Tenho, respondi timidamente.
- Então, tens sorte.
- E namorada, tens?
- Não - engasguei-me.
- Então, não podes ser feliz.
Enrolei-me na cadeira e comprimi-me contra a janela, com ar embaraçado. Ele continuou.
- Vou contar-te um segredo, mas não podes contar a ninguém, a ninguém, ouvistes?
- Não digo a ninguém, prometo – como para me desembaraçar do teste.
- A vida é como uma melancia, adocicada e refrescante, mas com imensas pevides que nos obrigam a cuspir muitas vezes para o chão. Surgem muitas encruzilhadas, futuros envoltos em névoa cerrada e há duas soluções: ou voltamos para trás ou damos um passo para o desconhecido. E é no desconhecido, no misterioso que poderemos encontrar o sentido que nos falta. Teremos de arriscar e a maioria das pessoas prefere o óbvio, o definido, o certo.
Percebeu a minha estupefacção.
- No entanto, pensando bem, és ainda muito novo. Estás na idade de sonhares com bicicletas!
Envergonhado, sentia-me a escaldar, com todo o sangue do corpo na cara. Na sua face os vales profundos que a atravessavam, acentuavam-se quando sorria. Os olhos de uma cor indecifrável, um cinzento claro, vagueavam continuamente.
- Mas não penses que és o único cão abandonado, eu também o sou desde que nasci. Mas o meu desespero não é tão grande como a tristeza, porque tenho no sonho um refúgio seguro.
E depois de uma pausa, como se pensasse em resoluções para facilitar o recado, continuou.
- És um miúdo, mas vou ensinar-te um dos princípios fundamentais da vida. Independentemente da etapa que atravesses, dos êxitos que alcances ou dos projectos que te guiem, o amor sempre te importunará. Se já o sentires a tua preocupação será conservá-lo, enquanto viveres sem ele a angústia será a tua companheira. Só o amor nos pode salvar e como sou um doido varrido anseio dissolver-me em alguém e esconder-me do mundo e do tempo. Nessa altura serei feliz.

Depois calou-se, com o rosto inerte como se a conversa não tivesse acontecido, perdido em pensamentos até ao fim da viagem. Cresceu um clima ameno, envolvido pelo ronronar do velho motor da camioneta. Paragens precedidas de toques de campainha e chiadeira dos travões. Alguns viajantes endireitam-se a custo no corredor estreito, embrulhados em cestos e sacos de plásticos com as compras da cidade. Lá fora, ruas vazias e casas tão quedas como pinturas nostálgicas penduradas nas paredes. Parecia que a vida se resumia a um naco de sucata repleta de seres com gestos lentos.

Nos anos seguintes, encontrámo-nos inúmeras vezes em tempo de férias. Cruzávamo-nos sempre com um sinal amistoso e, frequentemente, sentados no muro do adro da igreja, ele aconselhava-me leituras e lia-me pensamentos retirados de livros, escritos num minúsculo caderno de cor azul. Os seus oráculos tinham marcas evidentes de Freud, Nietzsche e Sartre, com críticas cerradas à religião, “essa menorização do espírito e atrofiamento dos corpos” como ele repetia, ódio a qualquer amarra ao pensamento e livre realização dos instintos. Assumia-se como um profeta da grande cultura que anunciava a morte de Deus e apelava à necessidade de conquistarmos a vida. Sem compreender todas as consequências práticas da doutrina, ouvia-o com a emoção de quem busca o pote de ouro numa das extremidades do arco-íris.

Adquirira um aspecto de figurante de filme, cabelo desgrenhado, barba rala esticada por movimentos compassados, casaco de tamanho superior ao seu real tamanho, um livro debaixo do sovaco e um cigarro sem filtro entre os dedos. Pressentiam-se, igualmente, mudanças drásticas na sua alma, testemunhadas pelo semblante angustiado, como se a resposta às suas inquietações já não as encontrasse em si mesmo. O amor já não era um puro idílio fantasioso, nem a solução da existência. "O problema é que a vida não tem solução", confidenciava. Na sua vida privada adivinhavam-se jogos oculto com seres femininos enredados no seu discurso vibrante e arrebatador. A veia poética e o aspecto desalinhado permitiam-lhe avanços e escapadelas que não passariam despercebidas a outros com vidas mais determinadas. Não se vangloriava das conquistas nem me contava pormenores, mas olhares lânguidos mal disfarçados à passagem de algumas insuspeitas faziam temer consequências, tal como veio acontecer pouco tempo depois...

5 comentários:

Maria disse...

O que veio a acontecer, queres fazer o favor de nos informar? É que ficamos numa ansiedade de saber ... ou faz parte do mistério e fica entregue ao nosso próprio domínio?

ilhéu disse...

não, um dia destes conto resto! beijo

ilhéu disse...

aliás, seria interessante dares alguma sugestão para o fim do conto. Tu ou alguém que queira.

Charlie, The Sinner disse...

Ou muito me engano ou o senhor mudou muito a maneira de pensar, postas as consequências...

Beijo

gingerandclove disse...

the protagonist is all-together charismatic, but somehow the "minúsculo caderno de cor azul" overflowing with Nietzsche (ouch) and Freud (lol) is a huge turn-off:)))

beijo
ta