segunda-feira, 28 de julho de 2008

o banco de pedra

Há viagens inúteis. O regresso à casa da infância nada acrescenta ao nosso próprio mundo, apenas nos ajuda a conservar a face dos que lá ficaram. Nas andanças do tempo, correspondente à velocidade do próprio universo, o que muda verdadeiramente são as pessoas, o seu rosto, posturas acrescentadas de neuras e desencantos, enquanto as pedras, os horizontes, as esquinas e recantos permanecem tão iguais que facilmente imaginamos que ainda ontem andávamos por ali contando berlindes e empurrando caricas por cima dos muros.

E foi isso que ontem aconteceu. Cheguei no meio de um sol áspero, ao início da tarde e escondendo-me como podia nas sombras, passeei por ruelas desertas e silenciosas, outrora cheias de odores e sons de gente e com varandas engalanadas por sardinheiras vermelhas. Ruas tão estreitas que da varanda das casas poderiam trocar-se lembranças, mas agora, com as janelas fechadas e o silêncio pintando o horizonte, criam um nó no estômago, semelhante ao vazio que nunca consegui preencher, após a minha partida sem regresso. Apenas duas senhoras idosas, encostadas a uma esquina, trocavam notícias ao mesmo tempo que olhavam com uma curiosidade quase descarada para um viajante que analisava de forma atenta aquelas fachadas que sempre foram como agora aparentam. A indiscrição foi tanta que uma delas me perguntou se procurava alguém, com a promessa de auxílio. E timidamente expliquei o motivo da peregrinação e quem era e quem fui e elas lembravam-se não de mim porque o tempo escondeu há muito o menino, mas de uma família que morava na Rua das Flores e que se ausentara tão depressa como se tivesse sido expulsa. Perguntaram por todos os que habitavam a casa de pedra com um sótão que dava para um campo cheio de videiras e um alambique que confeccionava azeite amarelo e contei-lhes as generalidades mais significativas. Disse-lhes coisas tão banais e pessoais que apenas se dizem aos amigos, apesar de já não saber nem os seus nomes nem quem eram. Aliás, uma delas, a certa altura, disse-me que era a mãe do Zeca, aquele meu amigo da escola que andava sempre a correr como um cabrito porque a maioria julgava ter razões para lhe dar uma surra e eu defendia-o sempre que podia por ser tão frágil no que tocava às lutas. E hoje, como responsável pelo rancho folclórico, olhei-o na minha fantasia a correr da mesma maneira, mas com passos idênticos aos outros que dançam com ele.

Depois despedi-me das senhoras pela primeira vez porque na outra não tive tempo para me despedir de ninguém. Por indicações precisas, descobri o Augusto, redondo e orgulhoso do empresário em que se tornou. Na infância éramos tão vizinhos que da minha varanda eu via a casa dele e combinávamos brincadeiras se falássemos aos berros. O engraçado é que quarenta anos para uma espécie de amigos não correspondem a tanto tempo. Para os mais recentes poucos meses de ausência é uma machadada forte na intimidade, ficamos mais reservados e acanhados, com aqueles tão longos como a própria vida, mantém-se a mesma cumplicidade, resguardada pela inocência, tal como o vinagre mantém sóbrios os pimentos verdes. E contou-me tantas coisas dele e de amigos comuns que me reencontrei com todos no recreio da escola, alguns deles perdidos em países longínquos, outros desaparecidos por razões várias, outros ainda vivendo com aquela normalidade que nada há para dizer. Sentados num banco de pedra e sem pressa.

Pedras e casas com cores diferentes, mas as pedras resistem melhor a quatro décadas do que as pessoas. O Augusto redondo, a sombra do seu tio marceneiro que a loucura já não me identificava em lado algum, três personagens ali naquele sítio, num banco de pedra, poiso de outros tempos quando ainda julgávamos que a eternidade nos manteria juntos. E senti pena por ter saído contra a minha vontade para lugares onde ninguém me pergunta por ninguém lá de casa porque ninguém sabe quem lá vive, como se nos perdêssemos da gente como fantasmas vítreos…

quinta-feira, 24 de julho de 2008

filhos pródigos

A vida leva-nos sempre para caminhos estranhos. É inevitável o abandono dos trilhos familiares. A dada altura, batemos com a porta e escapamos do ninho e daqueles que gostaram de nós. Antes, engordamos de mimos e obséquios, recebemos as oferendas essenciais à continuidade e depois, num belo dia, logo de manhã, quando a brisa fresca percorre o rosto como um sinal benfazejo e após leves sinais de despedida, caminhamos em frente. Não é ingratidão, é urgência. Leves, tão leves que julgamos que a vida é apenas o futuro que nos espera.

Depois percorremos o mundo inteiro, de lés a lés, com a pressa de olhar tudo o que nos tinha sido vedado. Consumimos tudo o que possuíamos, pedimos emprestado sabe-se lá onde, e, pela primeira vez em muito tempo, lembramo-nos da esteira, do regaço quente, do olhar cúmplice. Após voltas e reviravoltas, aventuras e desventuras, reencontramo-los num fim de tarde. No céu, um rasto avermelhado de um sol poente, alguém à nossa frente, com os braços pendidos e uma lágrima envergonhada ao canto do olho. Sem qualquer surpresa no rosto e sem perguntas. Sabia que voltávamos, mais cedo ou mais tarde. E lá estamos, sem nada para dizer, ambos carregando culpas similares, identificando no outro sinais de luto e peso do tempo. Seres quase estranhos pela distância firmada e, ao mesmo tempo, com a necessidade irreprimível de testemunharmos a falta que nos fez. O frio que passámos! No interior de casa o cheiro familiar dos cozinhados e em cima da mesa a sobremesa preferida. As saudades não se asseveram por palavras.

No final da noite deitamo-nos no quarto que foi nosso e ainda com os mesmos posters na parede e questionamo-nos pela exigência interior do regresso. Como somos capazes de perdoar as tentativas de menorização, esforços continuados em tentar impor a exclusividade do amor, afrontas à nossa autonomia, ensaios de alteração de passos e gostos? Será a serenidade, a pacificação com a vida, ou apenas a resposta tardia à dádiva de afectos que a nossa memória regista como sombras fugazes, pequenas luzes, exíguos fogachos?

No fundo, todos somos filhos pródigos. O afastamento daqueles que nos mimaram deveu-se à urgência da maturidade, à necessidade do risco. Uma ausência de amarras para tentar, na solidão, remar contra a maré. Depois, o inevitável reencontro. É essa a velha história. Afastamento porque a vida individual é incompatível com a proximidade. Permanecer significaria continuar pequenos como sempre fomos; ao ausentarmo-nos, mais cedo ou mais tarde, sentimos a necessidade do regresso.

E ficamos para sempre. Mantemos a distância para continuarmos a amar, mas na sua presença, porque sem ela o amor não chega. Sem ela perdura o vazio daquele recanto que não nos deixa ser felizes.

terça-feira, 22 de julho de 2008

acaso ou consequência

Viveu convencido de que um exame dos nossos passos, – aqueles que marcaram decisivamente a nossa biografia – revelaria sinais evidentes de um elo obscuro e enigmático que os atravessa na sua essência. No termo de qualquer história individual, depois das opções e acontecimentos serem compactados por cilindros mágicos, surgiria em evidência o sentido do rumo. Mesmo decisões que pareceram descabidas – aparentemente, por não pertencerem ao guião do filme – encontrariam o seu acto de validação com o desenrolar do drama.

Seria inverosímil que o acaso não traduzisse uma ordenação. Uma arrumação do caos, um alinho dos acontecimentos acumulados. Só assim se explicava como um único pormenor, tão insignificante como sair de casa atrasado, devido a um despertador emudecido por descarga da pilha, em consequência da pressa causar um embate com um automóvel, conhecer alguém devido ao contratempo e iniciar ali uma relação que trouxe filhos, novas residências, outras ambições, distintos caminhos profissionais, novos amigos, desilusões… Como seria a vida alternativa caso o despertador tivesse funcionado como seria previsível? Chegaria aos mesmos lugares por percursos diferentes?


Deve haver um vínculo nesta dispersão de eventos pontuais. O acaso não pode ser um emaranhado desconexo de pontos que se excluem ou reprimem. E, lembrava que a morte, sendo inevitável, poderia ter vindo antes do tempo, caso nos encontrássemos em determinados locais e em horas funestas. O que nos salvou? Poderíamos seguir viagem naquele avião que se despenhou, ou naquele automóvel abalroado por outro que seguia em sentido contrário. Há algo misterioso que nos liga à vida ou à morte, ao desespero ou à esperança, ao afago ou à solidão, aparentemente, circunstâncias sem cunho, sem necessidade intrínseca. Nalgumas vezes, apenas pesou o isolamento de uma opção tomada à pressa, noutras imprevistos circunstanciais, ou ainda noutras coacções imponderadas.

Naturalmente, há aqueles que se julgam capazes de controlar a sua própria história com mãos de ferro e o acontecido apenas proveito da sua luta, esforço, perspicácia, destreza e inteligência, ou então da sua própria burrice, falta de atenção ou ingenuidade. A arrogância desta análise é contrariada frequentemente no vazio do imprevisto. Pelo contrário, ele acreditava que a história dos homens é uma simples consequência de minúsculas opções que forjaram os grandes propósitos. Bagatelas originadas sem a lucidez de uma razão omnipotente e que se transformam, aos poucos, nos pontos fulcrais da narrativa.

No final, aquela sensação misteriosa de que, afinal, nada poderia ser de outra maneira. Será esse o destino humano?

sábado, 19 de julho de 2008

O calor e Nostradamus


Ando como um coelho bravo em céu aberto. Assustado. Valha a verdade, sempre fui assustadiço, mas agora parece pender sobre mim não a espada de Dâmocles, mas as armas de um exército inteiro. Não tenho motivos fortes, conscientes, mas, como diz Bukowski no livro “A Sul de Nenhum Norte“, toda a gente anda sempre num sofrimento constante, mesmo os que fingem que não”. A angústia é intrínseca à humanidade, ao sermos paridos contra o nosso próprio desejo, e depois no esforço constante de levar a vida para diante, abrigados em objectivos, metas e delírios…

Mas uma razão deste estado de espírito é o calor corrente. O calor deprime-me. Gosto do sol de Inverno, daquele que nos afaga. O sol de Verão queima, verga-nos, persegue-nos estrada fora, e quando chegamos a casa mantém-se à espreita como um assassino sorrateiro. Mesmo à noite, sinto-o lá fora, irritantemente presente. Venenoso.

Dizem que vai ser o Verão mais quente dos últimos trinta anos e receio que as piores profecias sobre o estado do clima se convertam em realidade. Os gelos árcticos se desfaçam e o mar se estenda uns bons metros acima do actual nível. Comprei uma casa alta para não acordar com água salgada à cabeceira, mas por este andar não tenho a certeza se o décimo andar será suficiente! Conheço pessoas que, devido aos alertas e mesmo vivendo em prédios compridos como o meu, guardam com desvelo canoas insufláveis que se enchem com a pressão da boca ou com bombas das bicicletas. A minha loucura ainda não chegou a este nível mas para lá caminho…

Tenho um amigo que faz previsões catastrofistas há vinte anos. Julga sempre o tempo presente como a recusa da felicidade e o futuro como um nada que não nos espera. Mas quando o sol aperta e o preço do petróleo dispara, para gáudio dos donos dos desertos, ele tira da cartola os piores augúrios referentes a esta sociedade materialista, corrupta e sem destino. Prevê, tal como um novo Nostradamus, o alastramento da fome às sociedades ocidentais, anarquia social pela falta de empregos para os filhos da classe média, trezentos dólares o barril do petróleo, e outros maus agoiros. Sempre o auscultei com aquele desconto que se dá aos profetas da nossa própria terra, tentando dosear as piores notícias com mensagens de confiança na natureza humana, pois já não gostamos de ver pessoas torturadas em praças públicas, tal como acontecia há menos de duzentos anos. Mas ele garante que isso é um pormenor sem qualquer relevância e continuamos a ter prazer em olhar pela televisão espectáculos bem mais cruéis e bárbaros. Tudo, segundo ele, converge para uma depressão colectiva que nos obriga, não a comer que está tudo caro, mas a tomar ansiolíticos e anti-depressivos.

E depois este sol que deixa queimaduras do tamanho do corpo e à noite não permite dormir e ganhar forças para a canícula do dia seguinte. Amanhã vou sair de casa camuflado para que ele não me reconheça.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

a simetria imperfeita


Gostava tanto de te poder dar mais do que dou. Imaginei-me muito melhor do que sou. Mas nada faço para que os sinais saiam tão dificilmente como uma rolha de uma garrafa. É penoso sentir esta mediocridade de actor que pretende dizer, mostrar, testemunhar afectos que ficam encravados na garganta. Porquê? Porque tenho medo. Medo de ficar desasado, ridículo. Nunca ninguém me ensinou a amar.

Tenho manuais, dramas que posso repetir, tal como num palco. Mas sou péssimo actor e os argumentos são, geralmente, de fraca qualidade. Vejo filmes onde tudo é tão fácil, como se a felicidade resultasse de um simples acto de coragem. Mas não. Andamos todos triturados pelo imaginário e ficamos constrangidos porque o que sai de nós é na maioria das vezes peças de classe B. As culpas obrigam- -nos a actuações sublimes, a gestos magnânimes em datas relevantes, mas tudo não passa de miseráveis comédias.

Então, não me culpes. Culpa a minha vida, o meu desespero, a minha solidão. Estes, sim, são os culpados de não poder oferecer-te o que aguardas com ansiedade. Sou apenas o resultado de experiências, aberração conclusa de um laboratório familiar onde o amor existente era apenas uma réstia de luz que mantinha todos nos mesmo carreiro, nos mesmos fitos. O amor que esperas e que não consigo dar-te é o amor que não tenho, de que sempre senti falta e que procurei por caminhos ínvios. Ninguém dá o que não tem, pois não?

quarta-feira, 9 de julho de 2008

o peru, as brasileiras e o esquecimento

Quando era pequeno como um feijão, a minha mãe criava galinhas brancas e macias que viviam felizes num quintal sulcado de árvores de fruto e delimitado por muros altos e um portão de ferro forjado. O espaço amplo era propriedade de duas velhotas, irmãs e solteironas, de faces tão brancas como as nuvens dos fins de tarde do Verão que me bajulavam com rebuçados e mimos sempre que as visitava. Tinham chegado do Brasil, com posses e cumplicidades que lhes permitiriam viver sem problemas até ao fim da vida. Lá em casa, as tardes eram monótonas, sensaboronas, elas prostradas nuns cadeirões distintos de cor de pérola, semeados de rosas azuis escuras e eu enroscado no chão, bisbilhotando livros com páginas cheias de desenhos coloridos e lombadas douradas. As velhotas faziam malha e com tanto treino que não precisavam de olhar para o linho cru e tagarelavam de coisas e de pessoas tão longínquas como a minha compreensão dos temas. Quase não me dirigiam a palavra, mas na partida brindavam-me sempre com sorrisos enormes e alvos e uma mão cheia de rebuçados com creme no âmago.

Por baixo das escadas que davam acesso à casa de pedra, improvisou-se um poleiro com réguas de madeira encrostadas nos buracos da parede, onde residiam as galinhas poedeiras, brancas, que envelheciam na sua função de galinhas. Eu tinha a tarefa de as alimentar. Carregava uma malga cheia de milho amarelo e algumas couves e, ao verem-me entrar pelo portão, vinham a correr feitas doidas à minha beira e depenavam as couves sem mastigar e com pressa. Depois da refeição corria atrás delas e elas, desengonçadas, arriscavam a correria, mas depois aninhavam-se aos meus pés e fazia-lhes carícias com as palmas das mãos. Á tardinha, quando o sol ameaçava ir embora, iam todas dormir fazendo equilibrismo nas ripas de madeira. Nessa altura, julgava-as os bichos mais inteligentes do mundo, mas depois mudei de opinião.

Tínhamos também um peru que nunca se aninhava aos meus pés e era muito desconfiado. A minha mãe não gostava dele porque não punha ovos e quando ficou mais velho já com o gargalo pelado e enrugado, contra a sua vontade, levámo-lo para a cozinha. Eu era tão pequeno que o peru me ultrapassava em altura, pega aqui e eu peguei e para meu espanto e do próprio peru a mãe enfiou-lhe nas goelas aguardente por um funil, daquela que o meu avô nos mandava pelo Natal. O peru não parecia gostar muito da poção, mas a minha mãe insistia e o peru bebia mais um trago, mas eu não compreendia porque é que a mãe queria um peru bêbado lá em casa. Só percebi depois. Infelizmente.

A mãe era muito despachada e continua assim após trinta e tal anos. Com o desgosto de tanto fármaco gasto num animal tão pouco simpático decidiu continuar a tragédia sem insistir mais com ele e tomou medidas drásticas. Com a força das mulheres do campo pegou numa faca com cabo de madeira e folha afiada pelo latoeiro que tocava uma gaita e empurrava um carrinho feito com uma roda de bicicleta, e num golpe certeiro retirou a cabeça estreita do enorme do peru. Foi então que se deu o milagre. Espavorido, corria pela cozinha sem cabeça e sem bater nos móveis nem na parede, como se tivesse um radar semelhante aos morcegos. Com o bater das asas, o sangue era aspergido para as paredes de cor amarela e mais parecia uma cerimónia de bruxaria e eu no centro aterrorizado a olhar para o fantasma de um peru que já há muito tinha morrido e a minha mãe atrás tentando apanhá-lo para lhe desferir mais um golpe na sua tentativa em viver sem cabeça. Cruz credo, que é o diabo! e eu não me recordo se ela ria ou se estava preocupada com as sinaléticas do outro mundo.

Não me recordo do resto. Mantive-me afastado desta morte trágica durante tanto tempo que não me lembro o que se passou a seguir… Mas quando imergem traços e indícios de um passado longínquo, então existem possibilidades infinitas de captar nexos, momentos, cheiros, sensações, clarões de afectos, através dos quais se aprisionam pequenas fracções de vida. Com eles podemos desenriçar o fio à meada. Acomodamo-nos ao tempo, tal como peças de um puzzle que se vão tornando inteligíveis.

sábado, 5 de julho de 2008

remar contra a maré

Duarte não fala, resmunga. Dá sempre a impressão de que nada o surpreende ou afecta, mas percebe-se que tudo à sua volta é objecto de atenção vigilante. Uma figura excêntrica que, após o desaparecimento da polícia política, deixou de ser temido para ser desprezado ou, acima de tudo, ignorado. Fisicamente sinistro. Cabelos brancos, de tez escura, gordo da cabeça aos pés, umas pestanas compridas que esvoaçam com o vento, olhos salientes, parados, quase inertes. Ao mover-se os braços balouçam e observado de longe parece remar contra a corrente.

Educado e culto, tem orgulho no domínio elegante da língua e enfurece-o a supina ignorância dos funcionários mais novos. Um dos seus exclusivos interesses é a arte náutica. Conhece todos os termos técnicos, modelos de embarcações desde os descobrimentos e colecciona com esmero as fotografias de caravelas que retira de revistas da especialidade. Confessa que em novo sonhara ser marinheiro, mas a mãe não lho permitira por ter de a deixar a aldeia por períodos longos.

Cuidou da mãe, viúva, alguns anos e sente remorsos por a ter tratado com pouco carinho. O desespero de quem esperava com ansiedade a partida dela e depois a extrema culpa pelo vazio deixado. Desde aí joga à solidão com os demónios que ocuparam as paredes da casa e escorregam pelas paredes amareladas. Não casou, outro pecado que carrega. Não tanto por vocação, mas pelos filhos que não teve e que hoje lhe poderiam ser úteis para abafar silêncios e desbravar futuros.

Ser da polícia política numa terra pequena gerou ressentimentos, ainda evidentes. Os dois anos de prisão, sem acusação formada e sem receber qualquer solidariedade, magoaram-no e a dor nunca mais o abandonou. Acentuou-lhe o silêncio e impediu-o de alimentar intimidade com alguém. Escavou no semblante indiferença e superioridade. Um espírito vingativo, mérito moral sobre os outros, exuberante na divergência com a maioria que não sente qualquer motivação cultural.

Desde há anos mantém com Laurinda um relacionamento íntimo. Trabalham na mesma repartição, face a face, mas raramente olha para ela. Repudia-a ostensivamente, responde-lhe cinicamente como se a desrespeitasse pelo facto de dormir com ele. Nunca lhe dirige a palavra. Odeia-a, penso, pelo confronto com a iniquidade moral de ser casada, ou, pior, pelo facto mais simples de o consentir. Encontram-se no meio de odores de gente apodrecida, ele tão só como faroleiro no meio de tempestades, ela cansada de acolher a vida inteira um marido diminuído e uma mãe acamada há mais de duas décadas. O acto decorre sem qualquer sorriso, sem que qualquer meiguice se retire do movimento mecânico. Ela tentando que a olhe nos olhos, ele odiando-a ainda mais por isso.

Um odor estranho estende-se a toda a casa. Ele próprio tem uma exalação amarga. Faz lembrar a ambiência das casas fúnebres, como se a morte tivesse chegado antes do tempo. A prima, o único membro da família com quem manteve sempre relações cordiais, convida-o anualmente para a ceia do Natal, mas por falta de outras oportunidades de clarificar reflexões criou estratégias para esconjurar a solidão. Uma delas é repetir em voz alta as objecções levantadas por leituras ou notícias da televisão. E aí os fantasmas que escorregam pelas paredes amarelas deixam no ar o perfume mórbido do retraimento, aquele sabor acre de uma vida em contra-ciclo.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Coscuvilhices

Julgo que não tens razão quando afirmas que escrevo coscuvilhices. É a vida, simplesmente. Esvai-se em coisas simples e em pessoas que vivem encurraladas na sua existência banal. Por isso, as histórias não são verdadeiras, mas poderiam ser...

Como a história do Padre que receita ervas para todas as doenças, ervas que ele próprio planta no jardim, e com elas cura reumatismos, cancros de todos os feitios e moléstias da cachimónia. Afiançou-me que em 1980 avisou a irmã que vivia no Faial, uns minutos antes do tremor de terra que destruiu Angra do Heroísmo. Contaram-me que expulsa demónios em cerimónias semi-públicas; foi director de um jornal diário, escreve livros de contos, sabe falar sete línguas e domina o aramaico. Não me digas que não dava uma boa personagem para um grande romance.

Ou aquele meu amigo escritor que conheceste quando fomos a uma esplanada no Pátio da Alfândega e me deixou uma mensagem no telemóvel despedindo-se de mim e da vida. Eram 8.45 horas da manhã quando a ouvi e a hora de envio marcava 5.40 horas. A casa dele ficava perto de Porto Judeu. Estacionei o carro ainda longe e corri como um louco ribanceira acima. Cauteloso, quase borrado de medo cheguei à porta de entrada. Com um leve toque a porta abriu-se. No chão da entrada, centenas de cápsulas azuis vazias, retratos do filho e da ex-mulher escritas com mensagens de amor aos dois e uma desarrumação de garrafas de cerveja. A porta aberta do quarto iluminado pela luz de uma janela escancarada, lençóis brancos de linho em confusão e em cima da cama lá estava, imóvel. No ar um cheiro estranho de suores velhos. “L., L.!” abanei-o várias vezes e ele com a cabeça enfiada na almofada, acordou da morte e gritava com o desespero das mãos na cabeça "f. deixa-me em paz, deixa-me morrer em paz, c.!" Aproximei-me da janela repleta de sol e surpreendeu-me o azul do mar lá ao fundo da encosta, um lindíssimo azul escuro em contraste com o azul claro do céu. Ele justificava-se "f., tomei centenas daqueles comprimidos de merda, e não consegui morrer. Olha que c. de vida esta!” E olhou para mim com um olhar de doido: “Vai-te embora, f., deixa-me sozinho e diz à p. da minha mulher que morri. Promete-me que fazes essa merda!" Só lhe disse que estava proibido de me deixar mais mensagens de falsas mortes no telemóvel e saí batendo com a porta...

Cá fora, o sol grande como um pão-de-ló gigante batia na casa como se a quisesse levar com ele para o fundo do mar. A brisa retemperou-me, desci o morro com as pernas a tremer e aliviado pelo meu amigo que, em desespero, mas vivo, procurava uma saída.

terça-feira, 1 de julho de 2008

o congresso das almas penadas

Vivemos paredes meias com mortos-vivos. Sabemos da sua existência porque, quando a noite cai, ouvem-se passos, portas que batem, sons eléctricos que atravessam paredes e vozes que se alimentam do silêncio. Vivemos em casas assombradas. No dia seguinte, quando encontro pessoas nos elevadores, tenho a nítida sensação que já os vi algures e saúdo-os para que não desconfiem da minha desconfiança. Em geral, respondem às saudações, mas são seres fantasmagóricos que em noites de lua cheia, irrequietos, colocam no ar televisões desgovernadas, gritam “golo!” em jogos de futebol imaginários e em horas inapropriadas, munidos de berbequins, instalam candeeiros nos tectos.

Mas há noites em que reina um silêncio sepulcral. Os únicos sons são sibilos do vento norte que entram sorrateiramente pelas frestas das portas das varandas. Nestas alturas, para afrontar o vazio, grito “ está aí alguém?” “onde se meteram seus velhacos?” “ pensam que me amedrontam, seus canalhas?! e ninguém responde neste cemitério de almas penadas em que se transformaram os prédios altos das cidades. Mas no Domingo passado, numa tarde áspera de calor, surgiu uma zoada que ocupava todos os cantos do prédio. Não era o Vento Norte porque lá fora as folhas das árvores mantinham-se imóveis como esculturas de jardins. Encostado à minha parede da sala, um grupo de vozes afinadas, primeiro parecia que uivavam, depois repetiam em uníssono sons dos mantras, num linguajar tão estranho como se duas dúzias de norte-vietnamitas falassem ao mesmo tempo. Se fosse à noite diria que era um congresso de almas penadas que nunca mais descobriam o caminho da luz, mas a claridade da tarde faz mossa nos olhos frágeis de gente morta e acreditei que seria um caso muito mais complexo. A convenção demorou a tarde inteira. Mantive-me quieto para não causar qualquer dano à cumplicidade dos membros da confraria e mesmo nas pausas nunca arrisquei bater na parede para solicitar menor chinfrim. O melhor para enfrentar o mistério é fazer de conta que ele não existe…

Depois, calaram-se de vez. Ainda em estado de choque, semelhante à fase posterior a uma experiência mística, ouvi toques repetidos na minha porta de entrada. Pelo buraco da porta reconheci uma alma que por vezes vagueia comigo no elevador. O seu ar aterrorizado causou-me curiosidade e pressenti que a origem seria a sessão esotérica, testemunhada por mim ao longo da tarde. Ao abrir a porta, tal como o pressentimento, perguntou sem preparação prévia e em som grave, se eu ouvira os uivos. Assenti, tentando não demonstrar desassossego. Questionou se não seriam muçulmanos num momento preliminar à instalação de bombas na cintura de um suicida. Disse-lhe que não conhecia as fases de uma decisão tão dramática, mas, para a acalmar, garanti-lhe que por muito estranho que aquilo fosse, não me pareciam rituais islâmicos. Desdramatizei. Agradeceu a boa vontade, mas lamentou a minha ignorância! Já me aconchegava novamente ao ninho quando batidelas na porta soaram de novo. Pelo buraco identifiquei outra alma conhecida. Em tom de confidência, depois de lhe confirmar que ouvira a sessão de aulidos, garantiu-me que era um grupo espiritualista, de cariz ecuménico, que acredita na reencarnação e em óvnis e veio comemorar o solstício de Verão. Constroem correntes como quem quer abraçar o universo e a energia é reencaminhada em obséquio dos membros que gostam de estar de mãos entrelaçadas e a entoar cânticos.

Não lhe perguntei como decifrou o enigma e não demonstrei surpresa por aí além. Mas para quem se habituou a ouvir sons de móveis arrastados a horas tardias; vozes alteradas de madrugada; sons de autoclismos descarregados e estores arrancados à força das janelas… como é que poderia ficar impressionado com rituais tão melodiosos e inofensivos como aqueles que criam correntes e salvam almas do vazio?!