quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

Diário de Bordo


A vida é feita de pequenas histórias que nos vão encostando ao tempo. Só as escrevemos por medo de as perder. Falar das pequenas tragédias, desastres e algumas fatalidades identificamos pequenas narrativas que nos agitaram como se fossemos marionetas e ajuda-nos a não nos consumirmos a nós mesmos. Um refúgio do tempo, embora seja de tempo que se trata. Guardamo-lo e ele guarda-nos. Sabemos que somos desta ou daquela maneira porque não deixamos esmorecer cenas de vida que nos comoveram, que nos despertaram, que nos castigaram e que, no fundo, nos deram solidez. Estivemos lá, chorámos, testemunhámos, interrogámo-nos, confortaram-nos, e a serenidade regressou como um arco-íris no fim da tempestade. Sentimos na altura, como sentimos sempre, que o Universo não atrasa o seu caminho à nossa espera e vai-se embora com ou sem nós.

Aquilo que nos marca profundamente e nos persegue para onde quer que vamos, implanta-se em nós de forma traiçoeira como um vírus, faz um ninho nas profundezas e rebenta em filhos e parentes até se tornar forte como uma família mafiosa. Quando damos por ela já não temos força suficiente para a expulsar dos nossos domínios. O nosso mundo interior é uma espécie de viveiro de angústia, com a temperatura correcta, com as perfeitas condições naturais onde florescem a dor e a mágoa que nos acompanham enquanto vivermos. Daí a nossa fragilidade. Aparentemente acomodamo-nos à vida como as costas a um sofá ergonómico, mas vamos vivendo à custa de recontros, arranques e retiradas. A nossa principal marca é a resistência. Como alguém escreveu, os homens sonham mais em ser heróis do que em ser felizes. A felicidade é apenas um pormenor presente em frágeis momentos que guardamos como tesouros, mas não define e marca os dias.

Lembrei-me disto porque ela morreu. Foi bom para ela. Resistir mais seria uma provação sem sentido. Um confronto de titãs que começava a ter contornos de absurdo. As marcas num rosto desfigurado espelhavam essa luta dramática contra um fim que já se anunciava fazia quarenta e um dias. Um rosto de morte que não reflectia serenidade, mas um semblante amuado como se tivesse partido contra a sua vontade. Lutou até ter forças, deixando um rasto de dor nas olheiras escuras de quem se despedia dela.

Custou-me olhar para ela assim bem de perto. Em redor, muitos comungavam do pesar, desconsolados pela perda irreparável, silenciosos e encostados uns aos outros partilhando apoios. Mas terminadas as cerimónias fúnebres no cemitério que comunga do silêncio e do frio da serra, cessaram as lágrimas como por magia, como se todos esperassem aquele momento para recomeçar a vida de todos os dias. Agora gestos mais afáveis e corpos menos rígidos, uma paz que regressou às palavras, palavras banais sobre a vida como se nada se tivesse passado, ou pelo menos como se tudo fizesse parte da realidade, tal como um simples almoço de família.

Antes da partida, as despedidas aos vivos, abraços de partilha e novamente o recomeço da viagem ainda mais longa pelo cansaço extremo que invadia os viajantes. Um céu cinzento claro como um bloco único e impenetrável, mas a estrada, ladeada de campos verdes e ensopados de chuva, transmitia calma. Ao iniciarmos a subida à Gardunha surgiu à nossa frente uma miríade de árvores e plantas, cerejeiras, plátanos, freixos, castanheiros e vinhedos, embelezadas por lindíssimas folhas outonais, pintadas em mescla de vermelho vivo, amarelo, castanho claro e escuro, aqui a ali o verde pardacento das ramas dos pinheiros, e tudo junto fazia lembrar arte, perfeição, harmonia, emoção e prazer, uma beleza impossível de descrever e representar como se o mundo agasalhasse o melhor de si. Dentro do automóvel um silêncio apenas cortado pelo ruído do motor e pela tristeza de quem a conheceu tão de perto.

segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Cidadania



Domingo, 15 de Novembro. 10 horas da manhã. Peixaria de um hipermercado. A chuva atrasara a chegada de clientes e contavam-se pelos dedos os que rodeavam a banca do peixe. Esperava a vez e à minha frente apenas alguém já a ser atendido. Como sempre, com o espírito a viajar em lugares inóspitos. A voz da funcionária da peixaria reintegrou-me no mundo, calma mas firme, dirigida a um senhor para não mexer no peixe. Julgo que disse por favor, não tenho a certeza.

Olhei para o prevaricador, um sujeito de meia-idade, baixo, vestido com uma casaco castanho, aspecto sóbrio, daquelas pessoas que não se dão por elas. Encarado apenas uma vez seria difícil identificarmos qualquer pormenor significativo. Julguei que a história terminasse aí. Vejo-o retrair-se como que encaixando o golpe com alguma dificuldade, mas depois contra todas as expectativas, avançou, identificou-se como funcionário da ASAE, ao mesmo tempo que retirava do bolso interior do casaco uma carteira cheia de documentos e cartões. A funcionária encolheu os ombros, abanou a cabeça e nada disse.

Não consegui conter-me. Então o senhor por ser da ASAE pode meter as suas mãos sujas no peixe exposto? Não acha que deveria ser o primeiro a dar o exemplo? Quer que chame a polícia? Ele, novamente apanhado de surpresa, recuou, desculpou-se, resignando-se ao papel de um simples cliente da peixaria de um hiper qualquer.

Sintomas. Como tantos outros, indício do deficit de cidadania e deficit de democracia do nosso país. Continua haver suseranos e súbditos, favores e mercês, em vez de direitos. Exercer direitos é ser cidadão. Mas ainda não somos um país de cidadãos. Somos um país dos pequenos poderes, dos pequenos jeitos, do pequeno golpe, do pequeno favor, da pequena corrupção, do pequeno desvio. Benesses, pedidos, pecadilhos, um simples passar à frente, cumplicidades, um fechar de olhos à custa de uma nota de vinte. Padrinhos, amigos, amigalhaços, politiqueiros, cúmplices, ou simples vigaristas com crachá na lapela. E para o guarda de trânsito que aceita o suborno para não registar a infracção, o gesto é apenas sinal de humanidade e de justiça social. Uma espécie de escapatória à selva, um gesto nobre em prol de um honesto trabalhador, um pai de família honrado que precisa do automóvel para trabalhar. No fundo, poupou-lhe tempo e dinheiro. Assim, ambos irão dormir descansados.

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Rumores...



Ás vezes vou-me desgastando com ínfimas coisas, como se colocasse o valor da vida entre parênteses para me dedicar de corpo e alma a um pormenor ridículo, sem a mínima importância. Como se ao subir uma montanha, em vez de me extasiar com a beleza da paisagem, lamentasse a corrosão de uns ténis confortáveis. Pequenas coisas consomem-me, e esqueço-me tantas vezes do que é essencial. Depois nas reviravoltas da vida percebo que diminuiu a minha capacidade de resistência, serenidade e falta de esperança.

Entro em casa e envolvo-me no cheiro doce e familiar, num silêncio apenas quebrado pelo rumor do mundo que se introduz pelas frestas da janela. Sento-me no sofá face aos livros que se equilibram parede acima como alpinistas imóveis. As lombadas coloridas, dimensões sortidas, caligrafias, sinais, gravuras parecem dispor-se numa tela gigante. Contemplo pela janela o céu inalterável e profundo. Respiro, revejo momentos do passado como pequenos filmes mudos que são projectados numa tela que tenho no cérebro, elementos fugazes da vida que se perderam mas deixaram flashes, cores, temperaturas, lágrimas e gestos. Factos sobreviventes ao meu tempo. Sobreviventes ao esquecimento, às tentativas de os deixar perdidos no seio de um mar misterioso. Um passado perdido que me deu alma, aqui e ali sinalizado à custa de escavações arqueológicas.

Lá de fora apenas um rumor, mistura de vento e de estampido de automóveis que voam na Crel e sem fazerem a mínima ideia do rastro luminoso e barulhento que deixam espalhado na paisagem. Livros, o céu, o candeeiro do tecto como forma de chapéu de feiticeiro. Não pode ser fruto de um sonho, mas facetas deste prodigioso destino de existir, da possibilidade de confiscar o passado, de pressentir pequenos indícios que se revelarão em breve. Um céu inalterável que agora se deixa esconder por nuvens volúveis. Depois levanto-me, passo por outros pontos como uma sombra, analiso particularidades como se nunca as tivesse olhado, embalado pelo odor doce e cómodo do espaço, neste silêncio que me dá competência para me interessar por mim, consciência plena da vida que recusa ser uma simples fantasia, minha ou de outra entidade qualquer. Uma materialidade tão cruel e ríspida que causa calafrios.

Viver. Seria um desperdício a recusa desta temporalidade que me encaixa na realidade. Escureceu e aqui e além acendem-se luzes cintilantes como se pirilampos acordassem da sesta. Na estrada mais distante os automóveis em fila parecem lava de um vulcão que perdeu o seu núcleo. O rumor exterior do mundo acentuou-se, parece aproximar-se lentamente um objecto cósmico de grandes dimensões. Um misterioso mundo que insiste em nos confrontar com mistérios e magia. Reparto com ele um brinde ao infinito.

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Lealdade - Caetano Veloso



Serei
serei leal contigo
Quando eu cansar dos teus beijos
te digo
E tu também liberdade terás
P'ra quando quiseres, bater a porta
sem olhar para trás

Se o teu corpo cansar dos meus braços
Se o teu ouvido cansar da minha voz
Quando os teus olhos cansarem dos meus olhos
Não é preciso haver falsidade entre nós

Serei
serei leal contigo
Quando eu cansar dos teus beijos
te digo
E tu também liberdade terás
Pra quando quiseres, bater a porta
sem olhar para trás


in "Totalmente Demais" - 1986

domingo, 8 de Novembro de 2009

Não sei onde é a minha casa



Anselmo Vieira, inspector da judiciária do departamento de pessoas desaparecidas, divorciado, sem filhos. Apareceu ontem morto na sua viatura. Tudo aponta para suicídio.

Há quase trinta anos procuro gente sumida, a maioria sem rosto, deixando rastos tão leves como brisas de Verão. Um destino ingrato e sombrio, este meu. Pessoas que se escondem, que não querem ser encontradas, que não sabem para onde vão. Alguns, após a loucura os ter assaltado - como um delinquente ataca um incauto numa tarde pálida - perdem todas as referências, morada e o seu próprio nome. A maioria não se sente desaparecida. Esconderam-se para se reencontrarem noutro lugar, numa realidade paralela à da sua vida anterior. Mudaram o tom do cabelo, roupas e gestos, deles restam apenas umas fotos de quando eram felizes, quando ainda não tinham perdido as ilusões.

Trabalho com recursos limitados, falsos indícios, moradas desactualizadas, contactos inconstantes como a direcção do vento, testemunhos que lançam pistas incertas, e fotografias desfocadas pelo tempo. Um trabalho desesperante, um fracasso na maioria das vezes. Os familiares lamentam-se pela demora das investigações como se descobrir gente perdida fosse tão simples como encontrar assassinos. Estes deixam pistas, motivos, regressam aos lugares do crime, mas quem desaparece, por vontade ou por medo, larga as pistas no seu próprio quarto ou no tapete que apodrece à saída de casa.

Lugares, ruas, roteiros imaginados a partir de indícios tão vagos como instantes cósmicos. Por vezes conduzo sem destino, cambaleando pela cidade, ritmado pelos semáforos e buzinas das filas intermináveis, como se por um passo de mágica fosse possível encontrar alguém desaparecido nos passeios, pedindo boleia, ou cruzando a avenida num semáforo verde. Quando chove é mais cómodo, o cenário perfeito para a minha actividade. Silhuetas resguardadas debaixo do chapéu-de-chuva e atropelando-se umas às outras, algumas forçadas pelo vento resvalam no automóvel, com os rostos distorcidos por movimentos ásperos e o cabelo elevando-se no ar como arbustos soltos. Fazem gincanas no meio das poças de água que cobrem irregularmente a calçada. Poderão ser foragidos à justiça, à família, a si mesmos. E a chuva forte e barulhenta arremete-se contra o automóvel e envolve-me uma melancolia tão forte como se nadasse num fluido morno que retira o livre arbítrio e me leva para o desconhecido.

Na verdade também ando tresmalhado, à procura de casa, de aconchego. Extraviado há muito. Sonho que andam à minha procura e mais tarde ou mais cedo alguém me encontra e me abre os braços, uns braços quentes e fortes que me encostarão à vida. A solidão que sinto é tão densa que se pode cortar às postas como o peixe congelado e colocadas em sacos, cada uma com um rótulo referente a um vazio, a uma ausência, a uma ruptura. Como se o meu passado, ao estar abrigado numa arca congeladora, não apodrecesse e assim não posso deitá-lo ao lixo ou sacudi-lo para uma ravina funda.

Pessoas. Tudo diz respeito a pessoas. Conheci-as em fatos domingueiros, sorridentes, mostrando o melhor que tinham, e valiam mais do que o preço indicado nos fatos, nos dentes brancos, na carteira recheada, no íntimo de boa qualidade, mas depois afastaram-se no primeiro lance do leilão. Ficaram os nomes, pouco mais. Quanto às culpas teremos de reparti-las mutuamente como bons irmãos. Mas os amantes apenas se encaixam num determinado tempo, nas expectativas que variam com estados de espírito, em determinados contextos históricos. Houve gente de quem gostei, mas reconheci de imediato que chegavam antes do prazo ou tarde demais. Outros chegaram no tempo certo, mas afastaram-se desculpando-se com o seu próprio tempo.

São esses fantasmas que me perseguem, que me acompanham no automóvel, que me gritam aos ouvidos como se quisessem obter um tratamento prioritário. Fantasmas idênticos áqueles que procuro, conteúdos evadidos de fotografias. Pessoas que nunca irei encontrar porque nunca as conheci verdadeiramente. Uns e outros. Não querem ser encontradas nem incomodadas. E em itinerários marcados a compasso, rigorosos nas horas de chegada, a meio do caminho, altero-os porque os desaparecidos refugiam-se em locais nunca referenciados em ofícios amontoados na secretária do departamento. Talvez lá encontre os espectros dos meus próprios sonhos que não descobriram o caminho de regresso, tal como doentes de Alzheimer. Fantasmas que espalharam tantas culpas sobre mim que me cobrem como uma segunda pele.

As loucuras, os medos repetem-se e repartem-se, fazem parte do nosso código genético. Todos tentamos desvendar as faces dos nomes que bailam nos nossos sonhos. Sentados em esplanadas frias, cigarro na mão e com olhar peregrino sobre quem passa. Em cidades amontoadas de errantes sem destino, procuramos desaparecidos que não estão em listas nas esquadras da polícia e que nos fazem tanta falta.

Uma investigação com custos, um preço demasiado elevado para resultados tão medíocres. Com o passar dos anos sinto-me desaparecer, lentamente. Uma consistência esvaída como uma barragem de rega, até que me irei esfumar por completo nesta cidade que se alimenta de almas sem rostos, esqueletos com nomes e fotografias desactualizadas. A maioria já não me vê e, mais cedo ou mais tarde, o meu nome vai estar na lista de pessoas desaparecidas. Talvez já faça parte.

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

A Casa da Rua Espírito Santo


Com frequência regresso à casa vazia da Rua Espírito Santo. Entro às escuras, mergulho na penumbra do corredor tacteando a parede como se estivesse escrita em linguagem para invisuais, reconheço o cheiro a pó acumulado e um odor forte a madeira que apenas existe na minha imaginação. Em seguida, entro na sala clareada pela luz mortiça que vem da janela e no meio da penumbra reconheço a minha sombra, caída, quebrada, esgotada na carpete verde escura semelhante ao tapete de um parque municipal. Sento-me ao seu lado com os joelhos presos à barriga e fico ali tentando consolá-la da sua solidão.

Mas outras sombras se projectam à minha frente como numa sala de cinema, fantasmas coloridos, gente esquecida nas voltas e reviravoltas que entretanto a vida deu, apenas os nomes surgem sem qualquer contrapartida e amontoados como restos perdidos numa lixeira gigantesca, partes, pormenores, conversas, hesitações, roupas e cheiros e gestos, partes de um puzzle que levaria anos ou a vida inteira para as desvendar.

Por vezes, apetece-me adormecer e esquecer a realidade fora de portas, apesar de encostada ao sonho que me retira dela. Pessoas que entram e saem, livros, coisas, armários da cozinha pintados em cavaletes improvisados na marquise, o som da porta que fecha, o telefone vermelho colocado em sentinela à entrada da cozinha, as silhuetas do casal vizinho, ambos mortos quase ao mesmo tempo como por combinação prévia. A loucura dela primeiro e a solidão dele, separados de mim por aquela parede que deixava passar vozes de estranheza, sintomas, sons semelhantes a um crânio batendo ritmadamente no estuque e latidos do cão que também enlouqueceu e mordeu os donos, como se a loucura fosse uma doença que se pega, uma doença que nivela todos por igual. E de um dia para o outro desapareceram os sorrisos e a amabilidade dos velhos, tão sós como náufragos nalguma ilha perdida. Tantas vezes que nos cruzámos naquele metro e meio de ladrilho onde coincidia a minha porta e a deles, de tal maneira que ao abrirmos ao mesmo tempo impedia a passagem de ambos, mas não impedia os sorrisos de se desenvolverem como massa com fermento. Os sorrisos nunca ocupam espaço, ao contrário da loucura que lhes invadiu a casa como uma inundação fria e revolta de uma tempestade de Outono. Foi aí que começaram as queixas e culpas, sobressaía o desespero que cobria os gestos e feria a alma e os sorrisos foram-se esvanecendo como a vida se esvai em sopros de morte.

Depois levantei-me enquanto a minha sombra se mantinha inerte. Adormecera e com uma respiração pausada. Na cozinha passei um dedo na porta do armário cor de prata e dele saía um brilho resultado do seu confronto com o candeeiro da rua. Pensei de novo nos meus amigos loucos, naquela enfermidade que pode hibernar uma vida inteira e, de um momento para o outro, irromper como um delinquente que leva tudo à sua frente.

Dei comigo a pensar que a felicidade é uma entidade feminina com rosto, com gestos e um odor próprio que habitou aquele casa e um dia saiu sem se despedir. Persegui-a pelas ruas, perguntei por ela a gente conhecida e desconhecida até que desisti de a procurar. E naquela tarde de Outono quando o vento trouxe novidades de um frio desterrado por um Verão longo, contemplei de novo a sua face. Uma face cansada, inchada, desfeita pela doença que a corroía por dentro, rebentando diques e estradas íntimas tal como a guerra que espalha o mal por onde passa. Aquela que fora dona da vida era agora um simulacro, um atestado da miséria humana, aquela que nos cerca e nos dá o destino. E percebi que está por um fio uma vida que há bem pouco tempo distribuía sorrisos e dádivas. Talvez por isso senti necessidade de regressar à casa da rua do Espírito Santo. Lembrar-me de que todas as ambições são apenas um exercício da loucura do espírito e um pecado de soberba e que qualquer lampejo de felicidade só poderá encontrar-se na senda de uma história que molde diariamente o seu destino efémero com uma existência tão despretensiosa como a visão de um final de tarde que deparei no final da A23, bem perto da ligação a Tomar, quando o céu apenas com o reflexo do sol, exibia-se como um quadro de um pintor visionário onde se misturava um azul claro e límpido com uns trapos de nuvens vermelhas, outras cinzentas e outras mais carregadas de preto, outras ainda de várias cores, como uma representação do sublime. Acompanhou-me estrada fora até que a noite invadiu o horizonte e me encostou às vertentes sombrias da minha alma.

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Nunca mais é Sábado!


Há fases na vida onde o peso dos dias representa mais que as toneladas dos anos e quanto mais eles avançam no calendário menos paciência temos para os virar ao acordarmos em manhãs submersas. Amontoam-se bocejos, os pés à procura dos chinelos e a pergunta fatal “Que dia é hoje?”, “Quarta? Nunca mais é Sábado! Seria feliz se fosse Sábado!” Mas esta impossibilidade de não se poder escolher o dia em que se acorda, dá-nos sempre a sensação que más notícias nos esperam. Eu deixei de perguntar, já sei. É melhor contar sempre com o pior, não é? Com baixas expectativas a vida torna-se mais cómoda, vai-se resolvendo por si mesma sem a obrigatoriedade constante de se autojustificar. Basta analisar os dias da semana. Em sete há apenas dois que merecem o nosso beneplácito e perante os outros, de madrugada, repetimos sinais de puro desprezo e gestos mecânicos de aprumo. Por isso, afirmar que a vida é só uma e temos que a espremer até à última gota é uma farsa. Também os que crêem nela acordam com semblantes carregados nos dias banais e só desejam dormir até o mal passar.

Contas feitas, a vida é um bocejo a maior parte do tempo. Não digo isto com mágoa. O tédio significa que a vida corre normalmente e a normalidade é um registo positivo. Significa ausência de medidas drásticas, que anda tudo sobre rodas, que pagamos os empréstimos a tempo, que a saúde lá em casa anda de boa saúde, que não há desemprego no horizonte, que o casamento se mantém sólido, que as crianças são ajuizadas e no horizonte não espreitam guerras mundiais.

Entretanto, vamos envelhecendo e a veemência cede o lugar à serenidade. E numa tarde, sentados numa nesga de sol outonal, depois de muitas tardes e de milhares de dias úteis se terem acumulado e esquecido, como se o passado que comprometeu tudo o resto não passasse de um pequeno ponto, ridículo de importância na imensidão do tempo, alguém confidencia:

-Nem sabes a pressa que tenho da reforma. Estou farta de aturar miúdos pouco ambiciosos, de dormir a correr, de não ter tempo para mim…
-Também significará velhice… – retorqui num tom quase dramático.
-E eu ralada! – disse naquele tom convicto tão próprio dela. E desviou-se a conversa sem outras consequências.

Nesse fim de tarde, pelo periscópio, esmiucei com angústia os horizontes prenunciadores da velhice, o dramatismo da fronteira com a morte, a solidão, o desabamento progressivo da autonomia individual, a degenerescência das faculdades mentais. E ela que outrora dominava o destino com mestria agora dava uma resposta tão próxima de um despojamento, vazio de ambições e finalidades. Como se tivesse perdido a guerra, mas sem o medo da deportação, da perda de regalias ou de haveres, ou de outras consequências que pendem na cabeça dos vencidos.

Aos poucos vou admitindo que esse estado de espírito é sinal de força. Surge da cumplicidade com a normalidade, do peso dos dias que nunca mais acabam, de anos que passam tão incógnitos que não nos lembramos para que serviram, de datas que se misturam umas com as outras e não permitem que retenhamos nada de muito nítido na sua evolução. A vida é mais uma evolução amorfa de dias incógnitos do que sucessão de marcas nítidas no tempo… É um tempo sem lutas ganhas ou guerras perdidas, um tempo sem selos vinculativos.