
Anselmo Vieira, inspector da judiciária do departamento de pessoas desaparecidas, divorciado, sem filhos. Apareceu ontem morto na sua viatura. Tudo aponta para suicídio.
Há quase trinta anos procuro gente sumida, a maioria sem rosto, deixando rastos tão leves como brisas de Verão. Um destino ingrato e sombrio, este meu. Pessoas que se escondem, que não querem ser encontradas, que não sabem para onde vão. Alguns, após a loucura os ter assaltado - como um delinquente ataca um incauto numa tarde pálida - perdem todas as referências, morada e o seu próprio nome. A maioria não se sente desaparecida. Esconderam-se para se reencontrarem noutro lugar, numa realidade paralela à da sua vida anterior. Mudaram o tom do cabelo, roupas e gestos, deles restam apenas umas fotos de quando eram felizes, quando ainda não tinham perdido as ilusões.
Trabalho com recursos limitados, falsos indícios, moradas desactualizadas, contactos inconstantes como a direcção do vento, testemunhos que lançam pistas incertas, e fotografias desfocadas pelo tempo. Um trabalho desesperante, um fracasso na maioria das vezes. Os familiares lamentam-se pela demora das investigações como se descobrir gente perdida fosse tão simples como encontrar assassinos. Estes deixam pistas, motivos, regressam aos lugares do crime, mas quem desaparece, por vontade ou por medo, larga as pistas no seu próprio quarto ou no tapete que apodrece à saída de casa.
Lugares, ruas, roteiros imaginados a partir de indícios tão vagos como instantes cósmicos. Por vezes conduzo sem destino, cambaleando pela cidade, ritmado pelos semáforos e buzinas das filas intermináveis, como se por um passo de mágica fosse possível encontrar alguém desaparecido nos passeios, pedindo boleia, ou cruzando a avenida num semáforo verde. Quando chove é mais cómodo, o cenário perfeito para a minha actividade. Silhuetas resguardadas debaixo do chapéu-de-chuva e atropelando-se umas às outras, algumas forçadas pelo vento resvalam no automóvel, com os rostos distorcidos por movimentos ásperos e o cabelo elevando-se no ar como arbustos soltos. Fazem gincanas no meio das poças de água que cobrem irregularmente a calçada. Poderão ser foragidos à justiça, à família, a si mesmos. E a chuva forte e barulhenta arremete-se contra o automóvel e envolve-me uma melancolia tão forte como se nadasse num fluido morno que retira o livre arbítrio e me leva para o desconhecido.
Na verdade também ando tresmalhado, à procura de casa, de aconchego. Extraviado há muito. Sonho que andam à minha procura e mais tarde ou mais cedo alguém me encontra e me abre os braços, uns braços quentes e fortes que me encostarão à vida. A solidão que sinto é tão densa que se pode cortar às postas como o peixe congelado e colocadas em sacos, cada uma com um rótulo referente a um vazio, a uma ausência, a uma ruptura. Como se o meu passado, ao estar abrigado numa arca congeladora, não apodrecesse e assim não posso deitá-lo ao lixo ou sacudi-lo para uma ravina funda.
Há quase trinta anos procuro gente sumida, a maioria sem rosto, deixando rastos tão leves como brisas de Verão. Um destino ingrato e sombrio, este meu. Pessoas que se escondem, que não querem ser encontradas, que não sabem para onde vão. Alguns, após a loucura os ter assaltado - como um delinquente ataca um incauto numa tarde pálida - perdem todas as referências, morada e o seu próprio nome. A maioria não se sente desaparecida. Esconderam-se para se reencontrarem noutro lugar, numa realidade paralela à da sua vida anterior. Mudaram o tom do cabelo, roupas e gestos, deles restam apenas umas fotos de quando eram felizes, quando ainda não tinham perdido as ilusões.
Trabalho com recursos limitados, falsos indícios, moradas desactualizadas, contactos inconstantes como a direcção do vento, testemunhos que lançam pistas incertas, e fotografias desfocadas pelo tempo. Um trabalho desesperante, um fracasso na maioria das vezes. Os familiares lamentam-se pela demora das investigações como se descobrir gente perdida fosse tão simples como encontrar assassinos. Estes deixam pistas, motivos, regressam aos lugares do crime, mas quem desaparece, por vontade ou por medo, larga as pistas no seu próprio quarto ou no tapete que apodrece à saída de casa.
Lugares, ruas, roteiros imaginados a partir de indícios tão vagos como instantes cósmicos. Por vezes conduzo sem destino, cambaleando pela cidade, ritmado pelos semáforos e buzinas das filas intermináveis, como se por um passo de mágica fosse possível encontrar alguém desaparecido nos passeios, pedindo boleia, ou cruzando a avenida num semáforo verde. Quando chove é mais cómodo, o cenário perfeito para a minha actividade. Silhuetas resguardadas debaixo do chapéu-de-chuva e atropelando-se umas às outras, algumas forçadas pelo vento resvalam no automóvel, com os rostos distorcidos por movimentos ásperos e o cabelo elevando-se no ar como arbustos soltos. Fazem gincanas no meio das poças de água que cobrem irregularmente a calçada. Poderão ser foragidos à justiça, à família, a si mesmos. E a chuva forte e barulhenta arremete-se contra o automóvel e envolve-me uma melancolia tão forte como se nadasse num fluido morno que retira o livre arbítrio e me leva para o desconhecido.
Na verdade também ando tresmalhado, à procura de casa, de aconchego. Extraviado há muito. Sonho que andam à minha procura e mais tarde ou mais cedo alguém me encontra e me abre os braços, uns braços quentes e fortes que me encostarão à vida. A solidão que sinto é tão densa que se pode cortar às postas como o peixe congelado e colocadas em sacos, cada uma com um rótulo referente a um vazio, a uma ausência, a uma ruptura. Como se o meu passado, ao estar abrigado numa arca congeladora, não apodrecesse e assim não posso deitá-lo ao lixo ou sacudi-lo para uma ravina funda.
Pessoas. Tudo diz respeito a pessoas. Conheci-as em fatos domingueiros, sorridentes, mostrando o melhor que tinham, e valiam mais do que o preço indicado nos fatos, nos dentes brancos, na carteira recheada, no íntimo de boa qualidade, mas depois afastaram-se no primeiro lance do leilão. Ficaram os nomes, pouco mais. Quanto às culpas teremos de reparti-las mutuamente como bons irmãos. Mas os amantes apenas se encaixam num determinado tempo, nas expectativas que variam com estados de espírito, em determinados contextos históricos. Houve gente de quem gostei, mas reconheci de imediato que chegavam antes do prazo ou tarde demais. Outros chegaram no tempo certo, mas afastaram-se desculpando-se com o seu próprio tempo.
São esses fantasmas que me perseguem, que me acompanham no automóvel, que me gritam aos ouvidos como se quisessem obter um tratamento prioritário. Fantasmas idênticos áqueles que procuro, conteúdos evadidos de fotografias. Pessoas que nunca irei encontrar porque nunca as conheci verdadeiramente. Uns e outros. Não querem ser encontradas nem incomodadas. E em itinerários marcados a compasso, rigorosos nas horas de chegada, a meio do caminho, altero-os porque os desaparecidos refugiam-se em locais nunca referenciados em ofícios amontoados na secretária do departamento. Talvez lá encontre os espectros dos meus próprios sonhos que não descobriram o caminho de regresso, tal como doentes de Alzheimer. Fantasmas que espalharam tantas culpas sobre mim que me cobrem como uma segunda pele.
As loucuras, os medos repetem-se e repartem-se, fazem parte do nosso código genético. Todos tentamos desvendar as faces dos nomes que bailam nos nossos sonhos. Sentados em esplanadas frias, cigarro na mão e com olhar peregrino sobre quem passa. Em cidades amontoadas de errantes sem destino, procuramos desaparecidos que não estão em listas nas esquadras da polícia e que nos fazem tanta falta.
Uma investigação com custos, um preço demasiado elevado para resultados tão medíocres. Com o passar dos anos sinto-me desaparecer, lentamente. Uma consistência esvaída como uma barragem de rega, até que me irei esfumar por completo nesta cidade que se alimenta de almas sem rostos, esqueletos com nomes e fotografias desactualizadas. A maioria já não me vê e, mais cedo ou mais tarde, o meu nome vai estar na lista de pessoas desaparecidas. Talvez já faça parte.





