I
Sinto a tristeza em meu redor. Posso mexer-lhe, como a um candeeiro pendente do tecto. Tem um cheiro característico, um sabor ácido e um tom agudo que me acorda a meio da noite e me distrai nas suas imensas solicitações.
Às vezes, camuflada como um guerrilheiro astuto, desaparece. Chego a acreditar que se foi embora de vez para outras paragens e fico aliviado pela ausência de um companheiro tão enfadonho. Dias, meses, anos depois regressa, salta-me para as costas e levo-o comigo como um fardo. O seu peso cansa-me e, por alguns momentos, sento-me a descansar de olho no céu gigante e tenho ganas de me perder nele, como em sonhos.
Até posso ser feliz em instantes, onde a alegria e a beleza se juntam, noivos de si mesmos. Mas quando fico sozinha a olhar o mar, ou as nuvens claras que correm no céu como gaiatos, então a tristeza regressa e senta-se a meu lado, a olhar-me fixamente como a inocência. Então reconheço que faz parte de mim como outra peça qualquer minha, como a minha própria história, a língua com que falo e penso, a família.
Não é triste ser triste. Faz parte da natureza, como não poder voar, ou ter corpo, ou não conseguir dizer a verdade a alguém sem que nos veja os olhos ou a boca.
II
Somos feitos de tristezas. São elas que nos edificam, tal como os alicerces tornam sólidas as construções. Sem o sofrimento, a decepção, desilusão, abandono, traição, não sentiríamos densidade no ser, deste ser histórico que se vai densificando, tornando espesso, obscuro, trágico, marcado, que tem algo para dizer, para ultrapassar. Crítico, problemático, inquiridor.
Com a vida a correr sempre de feição, ficaríamos simplórios, patetas alegres. Superficiais, limitados nos afectos, barrados nas potencialidades que a vida só põe ao dispor dos sofredores, daqueles que fizeram a recruta no dissabor.
Tornamo-nos tristes, mas mais sábios. Sábios tristes. Não há sabedoria sem a desilusão. E a decepção impede-nos a felicidade, aquele estado perpétuo em que tudo está ordenado, equilibrado, sem anomalias, horizontes sem mácula.
III
Deambulava pela casa sem norte. Sentava-se, levantava-se, ligava a televisão e desligava-a de imediato, pegava num livro e ainda não tinha terminado a leitura do parágrafo fechava-o com agitação. Deitava-se na cama e enrolava-se no lençol, mas o sono estava tão longe como ela própria.
Levantou-se de rompante e saiu para a rua enlameada e não regressou a casa procurar o chapéu-de-chuva para fazer frente à surpresa da chuva.
O problema da tristeza, pensava ela, é ser uma pele, não uma roupa. A roupa despe-se, troca-se, a tristeza não, permanece mesmo com as lavagens. Mas ela sabia – ao contrário de testemunhos de conhecidos – sabia bem a origem daquela segunda pele. Razões tão banais quanto ridículas. Banais porque ninguém seria capaz de admitir em público que era triste por uma questão aparentemente fácil de alterar. Como se fosse triste por querer sê-lo e não uma inevitabilidade como quase todos admitem. Então aí vai. Ela com quase trinta e cinco anos sentia-se triste porque nunca conseguira tomar qualquer decisão na sua vida sem ter o aval, discreto ou formal, de quem gostava. Poderia saber o que queria e todos julgarem a melhor opção, mas tinham que dizê-lo, tinham que clarificar esse gesto. Não poderiam dizer “faz o que julgares melhor!”, não! tinham que dizer “acho que tens toda a razão, sem dúvida é o melhor caminho!”.
Como é possível que sendo ela uma pessoa tão prática, tão sensata, com um comportamento tão asseado ao longo da sua vida ainda hoje precisava de uma palavra de conforto dos que lhe eram mais próximos? Estranho não é?! Mas ninguém com juízo completo poderia estar em desacordo com ela, sendo ela um exemplo tão perfeito de alguém com juízo e prudente. A interrogação sobre o que pensavam era um acto de pura gestão de um ego que sempre sabia o que devia fazer porque sempre fizera o que os outros esperavam que fizesse.
E ela descendo a rua com a chuva cada vez mais violenta sobre si, ensopada até aos ossos, e cada vez mais gostando daquela sensação de pecado porque não procurava um abrigo, porque não se escondia dos olhos estupefactos dos outros no interior dos automóveis, mas entrando na chuva como num antro de bandidos que ela enfrentava com unhas e dentes que percebeu que a sua tristeza não era mais do que o resultado de uma vida ao ritmo dos outros, daquilo que eles esperavam, daquilo que ela fazia e que os fazia felizes. Mesmo no relacionamento com quem amava: os seus tempos, as suas coisas, os sorrisos, os carinhos, o sexo. Desde pequena que sempre fizera o que os outros esperavam que fizesse, mesmo que esse resultado não fosse mais daquilo que ela sempre quisera fazer.
Estranho, mas honestamente verdadeiro. Devia haver uma razão qualquer psicológica, psiquiátrica, psicofisiológica, psicomórfica ou outras razões iniciadas em “psico” que ela não conseguia agora identificar. E riu-se com essa procura sem nexo por palavras iniciadas nestas cinco letras que davam tanto trabalho a profissionais da área. Com o passo acelerado, os sapatos a boiar na água das poças, os olhos no céu escuro, escorrendo água pelos cabelos castanhos encaracolados e um sorriso no rosto que começava a clarear-lhe a face.