domingo, 8 de Novembro de 2009

Não sei onde é a minha casa



Anselmo Vieira, inspector da judiciária do departamento de pessoas desaparecidas, divorciado, sem filhos. Apareceu ontem morto na sua viatura. Tudo aponta para suicídio.

Há quase trinta anos procuro gente sumida, a maioria sem rosto, deixando rastos tão leves como brisas de Verão. Um destino ingrato e sombrio, este meu. Pessoas que se escondem, que não querem ser encontradas, que não sabem para onde vão. Alguns, após a loucura os ter assaltado - como um delinquente ataca um incauto numa tarde pálida - perdem todas as referências, morada e o seu próprio nome. A maioria não se sente desaparecida. Esconderam-se para se reencontrarem noutro lugar, numa realidade paralela à da sua vida anterior. Mudaram o tom do cabelo, roupas e gestos, deles restam apenas umas fotos de quando eram felizes, quando ainda não tinham perdido as ilusões.

Trabalho com recursos limitados, falsos indícios, moradas desactualizadas, contactos inconstantes como a direcção do vento, testemunhos que lançam pistas incertas, e fotografias desfocadas pelo tempo. Um trabalho desesperante, um fracasso na maioria das vezes. Os familiares lamentam-se pela demora das investigações como se descobrir gente perdida fosse tão simples como encontrar assassinos. Estes deixam pistas, motivos, regressam aos lugares do crime, mas quem desaparece, por vontade ou por medo, larga as pistas no seu próprio quarto ou no tapete que apodrece à saída de casa.

Lugares, ruas, roteiros imaginados a partir de indícios tão vagos como instantes cósmicos. Por vezes conduzo sem destino, cambaleando pela cidade, ritmado pelos semáforos e buzinas das filas intermináveis, como se por um passo de mágica fosse possível encontrar alguém desaparecido nos passeios, pedindo boleia, ou cruzando a avenida num semáforo verde. Quando chove é mais cómodo, o cenário perfeito para a minha actividade. Silhuetas resguardadas debaixo do chapéu-de-chuva e atropelando-se umas às outras, algumas forçadas pelo vento resvalam no automóvel, com os rostos distorcidos por movimentos ásperos e o cabelo elevando-se no ar como arbustos soltos. Fazem gincanas no meio das poças de água que cobrem irregularmente a calçada. Poderão ser foragidos à justiça, à família, a si mesmos. E a chuva forte e barulhenta arremete-se contra o automóvel e envolve-me uma melancolia tão forte como se nadasse num fluido morno que retira o livre arbítrio e me leva para o desconhecido.

Na verdade também ando tresmalhado, à procura de casa, de aconchego. Extraviado há muito. Sonho que andam à minha procura e mais tarde ou mais cedo alguém me encontra e me abre os braços, uns braços quentes e fortes que me encostarão à vida. A solidão que sinto é tão densa que se pode cortar às postas como o peixe congelado e colocadas em sacos, cada uma com um rótulo referente a um vazio, a uma ausência, a uma ruptura. Como se o meu passado, ao estar abrigado numa arca congeladora, não apodrecesse e assim não posso deitá-lo ao lixo ou sacudi-lo para uma ravina funda.

Pessoas. Tudo diz respeito a pessoas. Conheci-as em fatos domingueiros, sorridentes, mostrando o melhor que tinham, e valiam mais do que o preço indicado nos fatos, nos dentes brancos, na carteira recheada, no íntimo de boa qualidade, mas depois afastaram-se no primeiro lance do leilão. Ficaram os nomes, pouco mais. Quanto às culpas teremos de reparti-las mutuamente como bons irmãos. Mas os amantes apenas se encaixam num determinado tempo, nas expectativas que variam com estados de espírito, em determinados contextos históricos. Houve gente de quem gostei, mas reconheci de imediato que chegavam antes do prazo ou tarde demais. Outros chegaram no tempo certo, mas afastaram-se desculpando-se com o seu próprio tempo.

São esses fantasmas que me perseguem, que me acompanham no automóvel, que me gritam aos ouvidos como se quisessem obter um tratamento prioritário. Fantasmas idênticos áqueles que procuro, conteúdos evadidos de fotografias. Pessoas que nunca irei encontrar porque nunca as conheci verdadeiramente. Uns e outros. Não querem ser encontradas nem incomodadas. E em itinerários marcados a compasso, rigorosos nas horas de chegada, a meio do caminho, altero-os porque os desaparecidos refugiam-se em locais nunca referenciados em ofícios amontoados na secretária do departamento. Talvez lá encontre os espectros dos meus próprios sonhos que não descobriram o caminho de regresso, tal como doentes de Alzheimer. Fantasmas que espalharam tantas culpas sobre mim que me cobrem como uma segunda pele.

As loucuras, os medos repetem-se e repartem-se, fazem parte do nosso código genético. Todos tentamos desvendar as faces dos nomes que bailam nos nossos sonhos. Sentados em esplanadas frias, cigarro na mão e com olhar peregrino sobre quem passa. Em cidades amontoadas de errantes sem destino, procuramos desaparecidos que não estão em listas nas esquadras da polícia e que nos fazem tanta falta.

Uma investigação com custos, um preço demasiado elevado para resultados tão medíocres. Com o passar dos anos sinto-me desaparecer, lentamente. Uma consistência esvaída como uma barragem de rega, até que me irei esfumar por completo nesta cidade que se alimenta de almas sem rostos, esqueletos com nomes e fotografias desactualizadas. A maioria já não me vê e, mais cedo ou mais tarde, o meu nome vai estar na lista de pessoas desaparecidas. Talvez já faça parte.

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

A Casa da Rua Espírito Santo


Com frequência regresso à casa vazia da Rua Espírito Santo. Entro às escuras, mergulho na penumbra do corredor tacteando a parede como se estivesse escrita em linguagem para invisuais, reconheço o cheiro a pó acumulado e um odor forte a madeira que apenas existe na minha imaginação. Em seguida, entro na sala clareada pela luz mortiça que vem da janela e no meio da penumbra reconheço a minha sombra, caída, quebrada, esgotada na carpete verde escura semelhante ao tapete de um parque municipal. Sento-me ao seu lado com os joelhos presos à barriga e fico ali tentando consolá-la da sua solidão.

Mas outras sombras se projectam à minha frente como numa sala de cinema, fantasmas coloridos, gente esquecida nas voltas e reviravoltas que entretanto a vida deu, apenas os nomes surgem sem qualquer contrapartida e amontoados como restos perdidos numa lixeira gigantesca, partes, pormenores, conversas, hesitações, roupas e cheiros e gestos, partes de um puzzle que levaria anos ou a vida inteira para as desvendar.

Por vezes, apetece-me adormecer e esquecer a realidade fora de portas, apesar de encostada ao sonho que me retira dela. Pessoas que entram e saem, livros, coisas, armários da cozinha pintados em cavaletes improvisados na marquise, o som da porta que fecha, o telefone vermelho colocado em sentinela à entrada da cozinha, as silhuetas do casal vizinho, ambos mortos quase ao mesmo tempo como por combinação prévia. A loucura dela primeiro e a solidão dele, separados de mim por aquela parede que deixava passar vozes de estranheza, sintomas, sons semelhantes a um crânio batendo ritmadamente no estuque e latidos do cão que também enlouqueceu e mordeu os donos, como se a loucura fosse uma doença que se pega, uma doença que nivela todos por igual. E de um dia para o outro desapareceram os sorrisos e a amabilidade dos velhos, tão sós como náufragos nalguma ilha perdida. Tantas vezes que nos cruzámos naquele metro e meio de ladrilho onde coincidia a minha porta e a deles, de tal maneira que ao abrirmos ao mesmo tempo impedia a passagem de ambos, mas não impedia os sorrisos de se desenvolverem como massa com fermento. Os sorrisos nunca ocupam espaço, ao contrário da loucura que lhes invadiu a casa como uma inundação fria e revolta de uma tempestade de Outono. Foi aí que começaram as queixas e culpas, sobressaía o desespero que cobria os gestos e feria a alma e os sorrisos foram-se esvanecendo como a vida se esvai em sopros de morte.

Depois levantei-me enquanto a minha sombra se mantinha inerte. Adormecera e com uma respiração pausada. Na cozinha passei um dedo na porta do armário cor de prata e dele saía um brilho resultado do seu confronto com o candeeiro da rua. Pensei de novo nos meus amigos loucos, naquela enfermidade que pode hibernar uma vida inteira e, de um momento para o outro, irromper como um delinquente que leva tudo à sua frente.

Dei comigo a pensar que a felicidade é uma entidade feminina com rosto, com gestos e um odor próprio que habitou aquele casa e um dia saiu sem se despedir. Persegui-a pelas ruas, perguntei por ela a gente conhecida e desconhecida até que desisti de a procurar. E naquela tarde de Outono quando o vento trouxe novidades de um frio desterrado por um Verão longo, contemplei de novo a sua face. Uma face cansada, inchada, desfeita pela doença que a corroía por dentro, rebentando diques e estradas íntimas tal como a guerra que espalha o mal por onde passa. Aquela que fora dona da vida era agora um simulacro, um atestado da miséria humana, aquela que nos cerca e nos dá o destino. E percebi que está por um fio uma vida que há bem pouco tempo distribuía sorrisos e dádivas. Talvez por isso senti necessidade de regressar à casa da rua do Espírito Santo. Lembrar-me de que todas as ambições são apenas um exercício da loucura do espírito e um pecado de soberba e que qualquer lampejo de felicidade só poderá encontrar-se na senda de uma história que molde diariamente o seu destino efémero com uma existência tão despretensiosa como a visão de um final de tarde que deparei no final da A23, bem perto da ligação a Tomar, quando o céu apenas com o reflexo do sol, exibia-se como um quadro de um pintor visionário onde se misturava um azul claro e límpido com uns trapos de nuvens vermelhas, outras cinzentas e outras mais carregadas de preto, outras ainda de várias cores, como uma representação do sublime. Acompanhou-me estrada fora até que a noite invadiu o horizonte e me encostou às vertentes sombrias da minha alma.

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Nunca mais é Sábado!


Há fases na vida onde o peso dos dias representa mais que as toneladas dos anos e quanto mais eles avançam no calendário menos paciência temos para os virar ao acordarmos em manhãs submersas. Amontoam-se bocejos, os pés à procura dos chinelos e a pergunta fatal “Que dia é hoje?”, “Quarta? Nunca mais é Sábado! Seria feliz se fosse Sábado!” Mas esta impossibilidade de não se poder escolher o dia em que se acorda, dá-nos sempre a sensação que más notícias nos esperam. Eu deixei de perguntar, já sei. É melhor contar sempre com o pior, não é? Com baixas expectativas a vida torna-se mais cómoda, vai-se resolvendo por si mesma sem a obrigatoriedade constante de se autojustificar. Basta analisar os dias da semana. Em sete há apenas dois que merecem o nosso beneplácito e perante os outros, de madrugada, repetimos sinais de puro desprezo e gestos mecânicos de aprumo. Por isso, afirmar que a vida é só uma e temos que a espremer até à última gota é uma farsa. Também os que crêem nela acordam com semblantes carregados nos dias banais e só desejam dormir até o mal passar.

Contas feitas, a vida é um bocejo a maior parte do tempo. Não digo isto com mágoa. O tédio significa que a vida corre normalmente e a normalidade é um registo positivo. Significa ausência de medidas drásticas, que anda tudo sobre rodas, que pagamos os empréstimos a tempo, que a saúde lá em casa anda de boa saúde, que não há desemprego no horizonte, que o casamento se mantém sólido, que as crianças são ajuizadas e no horizonte não espreitam guerras mundiais.

Entretanto, vamos envelhecendo e a veemência cede o lugar à serenidade. E numa tarde, sentados numa nesga de sol outonal, depois de muitas tardes e de milhares de dias úteis se terem acumulado e esquecido, como se o passado que comprometeu tudo o resto não passasse de um pequeno ponto, ridículo de importância na imensidão do tempo, alguém confidencia:

-Nem sabes a pressa que tenho da reforma. Estou farta de aturar miúdos pouco ambiciosos, de dormir a correr, de não ter tempo para mim…
-Também significará velhice… – retorqui num tom quase dramático.
-E eu ralada! – disse naquele tom convicto tão próprio dela. E desviou-se a conversa sem outras consequências.

Nesse fim de tarde, pelo periscópio, esmiucei com angústia os horizontes prenunciadores da velhice, o dramatismo da fronteira com a morte, a solidão, o desabamento progressivo da autonomia individual, a degenerescência das faculdades mentais. E ela que outrora dominava o destino com mestria agora dava uma resposta tão próxima de um despojamento, vazio de ambições e finalidades. Como se tivesse perdido a guerra, mas sem o medo da deportação, da perda de regalias ou de haveres, ou de outras consequências que pendem na cabeça dos vencidos.

Aos poucos vou admitindo que esse estado de espírito é sinal de força. Surge da cumplicidade com a normalidade, do peso dos dias que nunca mais acabam, de anos que passam tão incógnitos que não nos lembramos para que serviram, de datas que se misturam umas com as outras e não permitem que retenhamos nada de muito nítido na sua evolução. A vida é mais uma evolução amorfa de dias incógnitos do que sucessão de marcas nítidas no tempo… É um tempo sem lutas ganhas ou guerras perdidas, um tempo sem selos vinculativos.

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

O Clube dos Prosadores em Avançado Estado de Decomposição


O que fez nascer o projecto foi o amor pelos livros, sentimento que une todos os intervenientes. Somos poucos, com diferentes formações académicas, com diferentes olhares sobre o mundo, com formas próprias de lidar com os outros e com idades tão díspares como o oito e o oitenta. Criámos de livre vontade este espaço liberto dos fumos que escondem os corações. Lá partilhamos alvoroços interiores, falamos de nós, mostramos textos que nos laceraram, outros que nos embaciaram os olhos, outros ainda que nos fizeram sorrisos de esperança. Alguns encontrados em baús a cheirar a fungos, outros simplesmente em livros que nos vão caindo nas mãos como dádivas inesperadas.

Mas não foi linear o caminho. No início, o silêncio era constrangedor porque a timidez causa embaraços quando temos que nos expor de uma forma tão cruel a gente a quem não lhe vimos lágrimas nos olhos. Depois, pouco a pouco, o entusiasmo perante cumplicidades que encontram nos textos a seiva e a energia vital, ou pelo menos encontra razões de exaltação.

O nome escolhido reenvia para um tempo e uma experiência cinéfila comum à maioria dos sócios; os textos reenviam para leituras que pernoitam em nós como o orvalho pela manhã. É tudo tão sério e ao mesmo tempo tão leve que não há obrigatoriedade de qualquer espécie e, mesmo assim, apenas em situações extremas é que algum falha a presença. Necessitamos deste espaço, como um escoadouro de emoções que não aguentávamos carregá-las sozinhos.

Não queríamos ser singulares. A busca e a partilha da emoção transportada pelas palavras não é exclusiva de ninguém. É uma vocação humana.

Será assim, claro, se dermos o passo certo.

segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

Jardins Suspensos


Não sei porque se fazem jardins. A maioria trespassa-os em passada célere, com os olhos perdidos em si mesmos. Árvores esguias em copas perfeitas, canteiros com sebes desenhadas a compasso, erva aparada ao milímetro. Um trabalhão que aquilo não dá! E aquelas figuras de bronze que lembram factos, recordam tempos e festejam a história. Se em vez de árvores lá colocassem tapumes altos disfarçados com publicidade em nada mudaria o semblante dos transeuntes.

E lá vão eles no seu silêncio aparente, mexendo lábios sub-repticiamente, confiando que mais à frente esteja lá o que procuram, nas lojas, nos autocarros, nos empregos, em casa. Se por magia a narrativa se transformasse em quietude, então teriam tempo para olhar e fruir aqueles espaços onde passam diariamente sem os saborear.

sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

Nuvens



Manhã assombrada por nuvens de várias tonalidades e formas. Quase compactas, seguiam na mesma direcção como se fossem despenhar-se num abismo. Atrás de mim, uma grua amarela espreguiçava-se e dentro dela dois homens ocupavam-se da frontaria do edifício camarário. Os berbequins faziam estremecer o banco do jardim e julguei eminente o seu desprendimento e consequente acomodação ao movimento das pessoas na avenida e ao das nuvens no céu.

Agora as nuvens mais lentas, em fila de espera. Como se um acidente ou uma passagem mais estreita dificultasse o trânsito cósmico.

quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

A Terapia



Sabem como é. Temos sonhos e julgamos possuir o indispensável para chegar a algum lado. Não a um ponto perdido no universo, mas àquele propósito mais ou menos humilde, como são todos os objectivos humanos. Aquela pequena felicidade que nem tem dignidade para vir nos livros! Estado beatífico que até poderá ser confundido com simples comodidade. E além das ganas sentimos que temos atributos para o atingir. Mas a espera arrasta-se e perguntamos ao confessor, ao amigo íntimo, a nós quando estamos perante o espelho, antes de sair para o trabalho: o que se passa comigo? Estudei, sou boa pessoa, não sou nada de deitar fora, julgo ter qualidades superiores aos defeitos, porque não me chega a bem-aventurança que encontro nos demais?

É assim, sempre assim. Nada a fazer perante a engrenagem da vida. Com falta de óleo chia e mirra e às vezes tropeça em pequenos degraus que não constavam do mapa, enquanto nós olhamos para o relógio e calendários rosnando que o tempo passa inexoravelmente e nos deixa para trás sem futuro. Vêm à baila outros, coitados, como é possível? Sem talentos visíveis e conseguiram. Garbosos, mostram o automóvel de alta cilindrada, uns filhos corados e reboludos, um casamento perfeito, ele a nadar em dinheiro, personalidade afável, até dá um jeito na cozinha, e eu nesta armadilha!? Tantas qualidades esbanjadas com este estafermo que me reprova, que nem me olha na maioria dos dias, que refila porque trabalho demais e não lhe dou ouvidos nas suas desvairadas manias de grandeza.

Casada, um filho, sonhadora. Ressente-se do casamento mais chato do que infeliz. Ele não é dado a gestos magnânimos daqueles que deixam as mulheres de rastos. Não oferece uma flor, ou um perfume e muito menos qualquer jóia, qualquer surpresa que a deixe eufórica; também não tem charme de um actor de telenovela; não tem uma conversa de um professor de filosofia alemã; mas pronto, no resto cumpre com relativa profissionalidade. Agora, naturalmente, não é objecto de delírios telenovescos.

Mas, ultimamente, as coisas andavam pior. Abreviando, ela a sonhar enfadada e ele cansado com tanta contestação. Saiu de casa. Seguiu-se uma confusão de dias sem qualquer sinal de bonança, um sol quase sempre obscurecido por nuvens cinzentas, tudo e mais alguma coisa os obrigou a reaproximações, primeiro tímidas, depois cada vez mais desesperadas. Na ponderação das medidas drásticas chegaram à conclusão que as terapias comportamentais para casais desavindos poderia funcionar. Óptimo, lá foram eles!

Primeiro, cada um por si, depois em conjunto, repetem conversinhas de gente graúda que vai reconhecendo paulatinamente a raiz dos confrontos, enquanto se encolhem na cadeira e ouvem fórmulas mágicas de seitas profanas. Até que lhes é comunicado com alguma pose e circunstância o veredicto final: têm dificuldade em expressar os sentimentos. O homem acertara em cheio e ela correu para o escritório prestes a explodir de entusiasmo. Encontrou no corredor aquela colega com quem partilha a sua vida em crónicas diárias, queixas e mais queixas do marido perdido em números e separado da realidade por uma poeira nos olhos. Conta-lhe a receita que resultou da terapia comportamental e que equivale em importância à descoberta da electricidade e nada melhor que começar por ela que há muito conhece o seu fado, abraça-a com a força que tem e a outra, muito mais pequena, deixa-se abraçar prontamente para que dê resultado o remédio do especialista e resulte o seu casamento condenado desde a pré-história dele (casamento) apenas porque ela tem aquele defeito de não mostrar convenientemente o que sente e a amiga com o receio de serem vistas naqueles preparos enquanto os segundos se prolongam de forma indevida, até que lhe declara com uma voz consistente:
- Está bem, não te acanhes, mas para mim já chega!
É o que faz a terapia.