
A vida é feita de pequenas histórias que nos vão encostando ao tempo. Só as escrevemos por medo de as perder. Falar das pequenas tragédias, desastres e algumas fatalidades identificamos pequenas narrativas que nos agitaram como se fossemos marionetas e ajuda-nos a não nos consumirmos a nós mesmos. Um refúgio do tempo, embora seja de tempo que se trata. Guardamo-lo e ele guarda-nos. Sabemos que somos desta ou daquela maneira porque não deixamos esmorecer cenas de vida que nos comoveram, que nos despertaram, que nos castigaram e que, no fundo, nos deram solidez. Estivemos lá, chorámos, testemunhámos, interrogámo-nos, confortaram-nos, e a serenidade regressou como um arco-íris no fim da tempestade. Sentimos na altura, como sentimos sempre, que o Universo não atrasa o seu caminho à nossa espera e vai-se embora com ou sem nós.
Aquilo que nos marca profundamente e nos persegue para onde quer que vamos, implanta-se em nós de forma traiçoeira como um vírus, faz um ninho nas profundezas e rebenta em filhos e parentes até se tornar forte como uma família mafiosa. Quando damos por ela já não temos força suficiente para a expulsar dos nossos domínios. O nosso mundo interior é uma espécie de viveiro de angústia, com a temperatura correcta, com as perfeitas condições naturais onde florescem a dor e a mágoa que nos acompanham enquanto vivermos. Daí a nossa fragilidade. Aparentemente acomodamo-nos à vida como as costas a um sofá ergonómico, mas vamos vivendo à custa de recontros, arranques e retiradas. A nossa principal marca é a resistência. Como alguém escreveu, os homens sonham mais em ser heróis do que em ser felizes. A felicidade é apenas um pormenor presente em frágeis momentos que guardamos como tesouros, mas não define e marca os dias.
Lembrei-me disto porque ela morreu. Foi bom para ela. Resistir mais seria uma provação sem sentido. Um confronto de titãs que começava a ter contornos de absurdo. As marcas num rosto desfigurado espelhavam essa luta dramática contra um fim que já se anunciava fazia quarenta e um dias. Um rosto de morte que não reflectia serenidade, mas um semblante amuado como se tivesse partido contra a sua vontade. Lutou até ter forças, deixando um rasto de dor nas olheiras escuras de quem se despedia dela.
Custou-me olhar para ela assim bem de perto. Em redor, muitos comungavam do pesar, desconsolados pela perda irreparável, silenciosos e encostados uns aos outros partilhando apoios. Mas terminadas as cerimónias fúnebres no cemitério que comunga do silêncio e do frio da serra, cessaram as lágrimas como por magia, como se todos esperassem aquele momento para recomeçar a vida de todos os dias. Agora gestos mais afáveis e corpos menos rígidos, uma paz que regressou às palavras, palavras banais sobre a vida como se nada se tivesse passado, ou pelo menos como se tudo fizesse parte da realidade, tal como um simples almoço de família.
Antes da partida, as despedidas aos vivos, abraços de partilha e novamente o recomeço da viagem ainda mais longa pelo cansaço extremo que invadia os viajantes. Um céu cinzento claro como um bloco único e impenetrável, mas a estrada, ladeada de campos verdes e ensopados de chuva, transmitia calma. Ao iniciarmos a subida à Gardunha surgiu à nossa frente uma miríade de árvores e plantas, cerejeiras, plátanos, freixos, castanheiros e vinhedos, embelezadas por lindíssimas folhas outonais, pintadas em mescla de vermelho vivo, amarelo, castanho claro e escuro, aqui a ali o verde pardacento das ramas dos pinheiros, e tudo junto fazia lembrar arte, perfeição, harmonia, emoção e prazer, uma beleza impossível de descrever e representar como se o mundo agasalhasse o melhor de si. Dentro do automóvel um silêncio apenas cortado pelo ruído do motor e pela tristeza de quem a conheceu tão de perto.





