Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011

FELIZ NATAL


Gasto grande parte das minhas energias a procurar conteúdo para o vazio. Preciso de um rio que me leve para longe; de um tesouro que negoceie a minha salvação. Espero um milagre. Milagre que me livre da vida medíocre, dos sonhos medíocres.

E depois, ao fim do dia, tão esgotado que o corpo é mais pesado que o chumbo, encosto-me ao móvel onde um presépio se equilibra, contendo figuras rudimentares. E fito aquele cenário de uma sublime ingenuidade e ternura. Seres humanos e animais em pose de serenidade. Sem qualquer pressa. Ali nada é medíocre, tudo respira plenitude. As razões, as motivações e objectivos. Nada se acotovela em busca do artificial e do acessório. Nada transpira matéria. Mas há afectos, sorrisos, comunhão, paz e humanismo.

O valor da profecia depende sempre da validação do tempo presente. Se a sua mensagem continua a responder às inquietações do tempo e a defender intransigentemente a dignidade humana, então poderemos estar seguros da sua mais-valia profética. Aquele presépio responde, ainda hoje, aos anseios humanos. Dois mil anos depois. No fundo, existe lá tudo o que se procura e tanta falta faz. Para o confirmar basta o silêncio recuperador ao fim do dia e um olhar de esperança.

Acabo por reconhecer que tudo o que é exterior àquele minúsculo lugar do Universo nenhuma falta me fará se tiver tudo o que lá existe.

Quinta-feira, 10 de Novembro de 2011

Bendita crise!




Soa perto de mim o teu murmúrio. Recusamos falar, tacitamente, porque um verdadeiro diálogo faz lembrar um saca rolhas que avoluma o vazio. É melhor viver sem questionar muito a vida, as cedências, as pequenas traições que levamos à frente como uma vassoura que empurra o lixo.

E depois a crise mais do que economia é silêncio e mágoa perante um futuro tão tristonho para os filhos que, inocentemente, continuam a querer amadurecer. Nós que julgávamos que teríamos direito a uma velhice tão calma como o sol de fim de tarde de Verão, percebemos agora que os tempos que se avizinham surpreendem pela sua imprevisibilidade e campo de sepultura de todos os sonhos. Para onde ir quando o mundo inteiro comunga das debilidades? Para onde nos viramos agora quando um abismo nasce em redor?

E quando chegas a casa descalças os sapatos com a mão apoiada na cómoda e a tua face exibe a tristeza da conjuntura, a tristeza das notícias que comungamos como se de uma seita religiosa se tratasse. Sentamo-nos à mesa e o som dos talheres ocupa o silêncio. Como foi o dia? Perguntei, por fim. Olhaste de forma breve para mim, sem tempo para fixares os meus olhos, e apenas sacudiste os ombros numa posição de derrota.

E eu senti-me culpado, não sei bem de quê, e comecei a contar a história do meu amigo Borges que ao fim de tantos anos está na eminência de regressar ao desemprego, um lugar já familiar para ele. A empresa de venda de peças de automóveis não pode competir com outros que usam material de contrabando e passam os dias a olhar para a porta da entrada a rezar para que alguém surja, lhes faça perguntas e mostre interesse nalgum objecto. Uma loja tão arrumada e limpa como se vivesse lá gente e utilizasse aquelas peças para qualquer coisa de útil. Já viste?!

E tu franziste a face como fazes quando a melancolia te exige um sinal, um sinal gráfico que já não necessite de ser explicitado por palavras. Concordo que as palavras estão gastas, apenas são necessárias para que o jantar não seja apenas apunhalado pelo ruído dos talheres. Um som tão metálico que fere os ouvidos, que castiga o silêncio como uma sombra negra.

E depois arrumamos a cozinha, dividindo tarefas ao meio para terminarmos ao mesmo tempo e sentamo-nos perto um do outro a ver televisão. Não dizemos mais nada porque cada vez mais é difícil falar sem nos repetirmos ou depararmos algo digno de nota. A vida é que exige recapitulações e justificações. Temos que argumentar pela sua validade, bondade, apresentar-lhe projectos aliciantes como um estudante responsável. E sempre o fizemos. Agora já nos faltam argumentos, como se fosse um erro continuarmos a querer gostar da vida, e a gostar de nós através dela. As notícias são péssimas para quem quer ser optimista. As novidades lá de fora não ajudam nada quem está dentro. Somam-se fendas, dívidas incobráveis, sacrifícios atrás de sacrifícios para quem tem alguma coisa. Somam-se futuros sem vergonha, futuros que não se desejam a ninguém, nem aos piores inimigos
E tantos dias passaram assim que lhes vamos perdendo a conta, como os velhos que perdem a memória ainda antes de terem razões físicas para isso. Quebras o som monocórdico da televisão e apenas dizes de forma aborrecida

- Isto não pode continuar, Luís!

- Pois não, respondo logo, mesmo sem saber o contexto. Seja isso o que for, sei que não podemos continuar assim. Mas espero que clarifiques, espero ansiosamente que não fique no ar a declaração, pairando sobre nós a sombra da indefinição. Apenas cinco palavras que sintetizam tudo, tudo aquilo que nos faz regressar a casa todos os dias. E após a tua declaração de princípio e o silêncio a seguir, o som da televisão parece que se elevou ao nível do ruído dos talheres ao jantar.

- Sabes que temos que mudar de vida, não sabes?

- Sei. Respondi logo para que não restassem dúvidas perante o meu acerto, a minha clarividência. Mesmo não sabendo ao certo o que ela queria nomear, eu tinha a certeza que fosse o que fosse a mudança era uma exigência. Não sabia qual. O casamento? A falta de dinheiro? A falta de entusiasmo? Pois é, não há salvação para nós, pois não? As contas avolumam-se e os saldos negativos na conta bancária tornaram-se a norma. Terei de encontrar um segundo emprego. O Carlos falou-me numas horas como portageiro da Brisa, ou poderei fazer uns biscates no IKEA. Pagam mal, mas sempre será uma pequena ajuda para nos equilibrarmos. Ah, também prometo diminuir as horas de futebol ao fim de semana. Tens razão, isto já nem é casamento nem é nada! Uma espécie de limbo onde vagueamos sem rumo. Mas não somos já demasiado velhos e pesados para encontrar um novo rumo? Sei lá eu, mulher, o que queres dizer …

- Tens toda a razão, isto não pode continuar assim!…

Repeti com firmeza, também eu estava resolvido. Mas para quê? Poderia ser tudo, mas tudo é nada. O melhor é não especificar! E ela fitou-me longamente, olhou-me com pena, como se tivesse colocado em parênteses tudo ao olhar para esta sombra que paira perto dela como uma punição. Reconheço-lhe esse sentimento no olhar e revejo nele a minha falta de jeito para viver neste mundo dos fortes, da competição, da guerra, da afirmação de si mesmo. Também não me interesso por arte, detesto espectáculos de dança clássica e odeio ler! É isso, deve ser isso. Sou um falhado no campo da estética e da filosofia! Resta-me a esperança que ainda não seja hoje que vá colocar tudo em pratos limpos. Hesita tendo em conta a crise que habita o mundo. A crise que nos engole. Porque ninguém está imune a ela. Todos irão precisar de um ombro amigo para recostar a cabeça, mais cedo ou mais tarde.


Bendita crise.

Terça-feira, 11 de Outubro de 2011

A Escadaria de Pedra




Ia caminhando sem rumo, estrada fora. As cores alaranjadas do Outono, envoltas num cheiro ácido pela falta da chuva e um sentimento próximo da angústia obrigavam-no a continuar. Não se lembrava de tantas coisas importantes que gostaria de recordar e, em vez delas, restava-lhe um monte de porcarias que o atormentavam. Mas o passado é um território selvagem que não se deixa domar e o grande trunfo da infelicidade é não se dispor de interruptores para cortar com ele, pensou.

Quando atingiu alguma maturidade deu-se conta que a importância dada a determinados acontecimentos, decisões, omissões, nada justificava pelo pouco impacto que tiveram na sua vida. Claro, fizeram mossa em determinadas alturas, mas não foram nem condicionantes nem impedimentos de nada de importante no futuro. Na grande maioria das vezes enrolar-se de forma neurótica com falhanços foi por não conseguir ser feliz no presente, seja no de hoje ou um presente qualquer do passado.
E ao lidar de outra forma com esses acontecimentos – deixando-os cair no lixo da memória – foram perdendo a sua força e capacidade de questionar ou importunar. Lida-se com o passado como se lida com os músculos: quanto mais se exercitam mais competentes ficam, pelo contrário, mirrarão até ao seu desaparecimento caso sejam abandonados à sua sorte.

Parou de rompante. E se a conclusão da cena da escadaria do Politécnico há vinte e seis anos atrás tivesse sido diferente? Nessa altura, ela olhou-o com surpresa, - estava longe de casa, sem prévio aviso - afastou-se levemente da colega que caminhava ao seu lado, e em tom de confidência diz-lhe numa timidez disfarçada de abatimento que ele tinha chegado tarde (um dia, um mês, umas férias de Verão?). “Chegar tarde” sem mais rodeios, ela certificava a razão da sua própria presença e o ar desolado e o silêncio dele garantiam o acerto dela. Apesar dos anos que passaram perto um do outro, cruzados em festas, em círculos festivos, olhares cúmplices, partilha de confidências e nunca tinham falado de amor. Esses anos estavam implícitos naquela pequena conversa. Nesse dia, não teve coragem para esclarecer, ela também não lhe pediu para ficar mais tempo.

Um mês e meio antes desse acontecimento, tinham-se reencontrado em casa dela após um interregno de cinco anos. Tinha ido estudar para Coimbra, ela ficara por ser mais nova. Depois mudanças familiares impediram reencontros e voltaram a ver-se numa tarde cheia de partilha de recordações e boa disposição. Ela estava muito mais bonita do que ele se lembrava, um sorriso acolhedor e no final, no meio de tanta gente, em simples despedidas garantiu-lhe que gostaria de a ver em breve. São adultos e não os adolescentes que foram. Também gostaria muito, respondeu ela. Ela ia partir de férias em Setembro com os pais e quando chegou após semanas, algo mudara de tal forma na sua vida que lhe responde convictamente: chegaste tarde! Sem qualquer censura, apenas a constatação de que a vida ordenara a alteração de cenários. Antes, nada lhe prometera, mas ele julgara que aquelas quatro semanas nada trariam de novo, pois cinco anos também nada tinham mudado…

Mas não foi. Então teria sido mais feliz do que foi caso a conclusão tivesse sido diferente? Naquela manhã sombria, quando o frio cortante transformava a respiração em pequeno nevoeiro que se dissipava de imediato, numa única frase, ela pôs fim a uma ilusão de amor que vinha da adolescência. Anos à espera – uma espera sem pressa, sem vínculos - e recebera uma resposta de que chegara tarde demais…

Agora, vinte e seis anos depois, regressa à escadaria. Está ali a olhar fixamente quem desce. Jovens e mais jovens em grupos, um alarido próprio de um intervalo de aulas. Ela vem junto de uma colega como se uma operação estética lhe recuperasse face e o corpo. Ele confronta-a com aquilo que sabe dela e com aquilo que restou dele e percebe que a vida nunca é um simples corolário. A vida é sempre o que tem que ser. Cada oportunidade, cada projecto é algo de novo e não uma consequência de um fracasso ou de um êxito anterior.

Caso contrário haveria só uma oportunidade para se ser feliz e não é assim. Qualquer resposta à vida é sempre o aprofundamento de quem nós somos e não o resultado de qualquer dissabor. Mesmo que em termos de calendário assumamos uma opção porque navegávamos ao sabor do vento, sem poiso para dormir.

Nesse caso já não tem qualquer sentido ficar ali ao fundo da escadaria à espera de um novo intervalo. Imaginar quão diferentes seriam os seus passos, as suas opções, as suas posses. Isso não tem qualquer sentido. Ninguém poderia viver caso isso fosse inevitável. O que o atrasou apenas pode significar que nunca poderia ter outra resposta diferente daquela que recebeu ao fundo da escadaria de pedra. Seriam impedimentos, nessa altura ou a seguir, ou meses depois…

Terça-feira, 27 de Setembro de 2011

O toque do telemóvel



Era uma noite escura com um céu baixo, sufocante. Uma chuva miúda, persistente. Arrumou o carro após voltas e mais voltas infrutíferas, depois colocou o casaco sobre a cabeça e saiu a correr até ao toldo vermelho iluminado. Sacudiu a água acumulada no casaco e nas calças com a mão aberta, depois espreitou pela janela, mas ela ainda não tinha chegado. Decidiu esperar no exterior.

Estava ali sem qualquer estratégia, sem qualquer preparação, nem discursos ensaiados, nem desculpas, nem sequer objectivos a cumprir. Tinha-a convidado por impulso, após um dia complicado no escritório durante o qual o stress entranhara-se na pele e transfigurara-se nos gestos e no tom de voz.
- Queres ir beber um copo a seguir?
Ela olhou para ele, e após um momento indecifrável, franziu os lábios e um movimento leve da cabeça em direcção ao tecto e em seguida um gesto de assentimento. Nada sabia dela para lá da sua afabilidade, ela tinha visto vezes sem conta a fotografia das filhas dele em cima da secretária.

Agora teria de aceitar as consequências do convite, fossem elas quais fossem. Um vulto enrolado debaixo do guarda-chuva aproximava-se em passos lentos. Já debaixo do toldo levantou o chapéu e fez-lhe um sinal amistoso acompanhado de um sorriso tímido. Entraram e soube-lhe bem o ar quente e a música suave que envolviam o espaço. Sentaram-se a um canto, numa sala ainda vazia, de imediato o empregado aproximou-se. Pediram cerveja, depois veio a conversa de circunstância, o tempo horrível, o dia caótico no emprego, a estupidez de tantas horas a trabalhar, tudo para que o constrangimento não se apoderasse de algum deles. Mas após um golo de cerveja mais prolongado, fitou-o por instantes e voltou os olhos para o copo, depois murmurou:

- Olha, se é uma questão de cama, a sério, não te preocupes! Vai directo ao assunto. Poderás pensar o que quiseres, eu não te vou perguntar nada, nem pedir explicações ou justificações. Eu alinho.

Fitou-a estupefacto e, sem nada dizer, levantou-se e no balcão pagou a conta, regressou à mesa, pegou-lhe na mão e puxou-a de forma decidida mas meiga. Ela levantou-se sem tentar responder, sem recuar, sem colocar resistência no gesto. Em silêncio, atravessaram a chuva, debaixo do mesmo abrigo, ele com a mão por cima do ombro dela, um gesto no mínimo estranho porque ao longo dos meses que se cruzaram no escritório nenhum contacto físico existira entre eles.

O automóvel dela ficou no parque, agora apenas a voz dela, uma voz metálica que fazia lembrar as instruções do GPS a identificar o caminho, à direita, no semáforo volta à esquerda, depois o silêncio quando não havia alternativas ao percurso. A cidade ia ficando para trás à custa de empurrões sucessivos, causados por cores garridas ou por pequenas filas que quebravam o ritmo.

A ordem de estacionar logo que houvesse lugar colocou ponto final à indefinição. Enroscaram-se de novo debaixo do guarda-chuva, ela agora também com o braço por trás das costas dele, e seguiram silenciosos mesmo no elevador que demorou uma eternidade a chegar ao quarto andar. Depois ao abrir a porta, um gato branco, enorme, veio cumprimentá-la, ela agachou-se e pegou nele com tanto cuidado como se tivesse medo de o partir, fez-lhe festas e aproximou-o da face. Depois colocou-o de novo no chão e fez-lhe mais festas profundas ao longo do corpo.

De rompante, deixou a passividade, pegou-lhe com firmeza nos ombros e começou a beijá-la na boca até que ambos em simultâneo e como ao desafio tiravam a roupa e abandonavam-na no corredor, como despojos de guerra abandonados na retirada. Muito tempo depois, ao lembrar-se de um corredor parcialmente coberto por roupas em desalinho, teve a convicção de que os despojos eram eles mesmos que iam desprezando, sem culpas, colocando a vida a zeros como num regresso à infância.
Os sons de ambos confundiam-se com o som da chuva que agora caía com mais violência e se deitava contra os estores como num assalto a muralhas. Agarravam-se um ao outro para se esquecerem, cada um por si, à procura da derrota deles mesmos, da vida, da morte, numa raiva surda contra a mesquinhez da própria vida, que dá mas pouco, que fere e retira, que alimenta mas exige sempre ponderação nos desperdícios.

Depois, muito depois, os corpos ganharam de novo a passividade e o escuro apenas decifrado pelo luminosidade acanhada que vinha da rua. Ela começou a falar de forma monocórdica, prosseguiu durante horas com os olhos fixos num ponto do quarto que não era óbvio. Contou histórias de si, cruéis, sórdidas, com tanta maldade como apenas os filmes ou os livros revelam. Como se quisesse lavar-se de si mesma, das capitulações, das falhas de amor-próprio, das inúmeras esperas sem consequência, das traições a tudo o que julgara sagrado. E ele ouviu concentrado no silêncio que envolvia a voz e na chuva que lá fora se despenhava na terra.

Depois ela interrompeu o discurso, tão bruscamente como tinha começado. Voltou-se para a parede e de imediato adormeceu com aquele respirar calmo de um sono profundo. Ele ainda aguardou uns minutos, sentiu-se vazio de quaisquer sentimentos, levantou-se, vestiu-se sem ruído, tapou-a com o cobertor e saiu pé ante pé para a rua.


A chuva parara mas imensos regatos atravessavam o asfalto com uma pressa danada e caiam nas quelhas laterais fazendo um som rouco. Caminhava sem rumo na rua deserta. A manhã começava a despontar pela tonalidade cinzenta que se intrometia na noite. Só agora se lembrava que tinha desligado o telemóvel debaixo do toldo vermelho, pouco antes de ela chegar. Fê-lo sem qualquer razão, mas agora percebia que fora uma forma de cortar a ligação à sua vida, com aquela vida que fora sempre dele, que lhe ocupava o pensamento desde sempre. Precisou de esquecer a autobiografia que andava a escrever desde há muito. Precisava de fazer uma ficção dele mesmo, de um outro qualquer que nem parecido era com ele. E assim foi, uma noite que não fazia nem nunca faria parte de si, que não sentia sua, mas de alguém próximo que entrara em paralelo consigo mesmo.

E agora errante pela rua luzidia, sem ver vivalma, não tinha qualquer certeza se regressava a si ou continuava na ficção em que se tornara. Ainda sem luz nas janelas, uma cidade sem ruído, tão distante da cidade diária, caótica, fervilhante de todos os dias. Nada havia ali que o ligasse ao seu mundo. Nada que lhe pudesse dar uma porta de saída. Talvez se conseguisse entrar no escritório, se à entrada encontrasse o Borges lhe desse a pancada diária nas costas e se encontrasse a sua secretária com as fotos das filhas, talvez reencontrasse o seu próprio mundo.


E o telemóvel tocou.

Quarta-feira, 7 de Setembro de 2011

A menina da chuva



I
Sinto a tristeza em meu redor. Posso mexer-lhe, como a um candeeiro pendente do tecto. Tem um cheiro característico, um sabor ácido e um tom agudo que me acorda a meio da noite e me distrai nas suas imensas solicitações.

Às vezes, camuflada como um guerrilheiro astuto, desaparece. Chego a acreditar que se foi embora de vez para outras paragens e fico aliviado pela ausência de um companheiro tão enfadonho. Dias, meses, anos depois regressa, salta-me para as costas e levo-o comigo como um fardo. O seu peso cansa-me e, por alguns momentos, sento-me a descansar de olho no céu gigante e tenho ganas de me perder nele, como em sonhos.

Até posso ser feliz em instantes, onde a alegria e a beleza se juntam, noivos de si mesmos. Mas quando fico sozinha a olhar o mar, ou as nuvens claras que correm no céu como gaiatos, então a tristeza regressa e senta-se a meu lado, a olhar-me fixamente como a inocência. Então reconheço que faz parte de mim como outra peça qualquer minha, como a minha própria história, a língua com que falo e penso, a família.

Não é triste ser triste. Faz parte da natureza, como não poder voar, ou ter corpo, ou não conseguir dizer a verdade a alguém sem que nos veja os olhos ou a boca.

II
Somos feitos de tristezas. São elas que nos edificam, tal como os alicerces tornam sólidas as construções. Sem o sofrimento, a decepção, desilusão, abandono, traição, não sentiríamos densidade no ser, deste ser histórico que se vai densificando, tornando espesso, obscuro, trágico, marcado, que tem algo para dizer, para ultrapassar. Crítico, problemático, inquiridor.

Com a vida a correr sempre de feição, ficaríamos simplórios, patetas alegres. Superficiais, limitados nos afectos, barrados nas potencialidades que a vida só põe ao dispor dos sofredores, daqueles que fizeram a recruta no dissabor.

Tornamo-nos tristes, mas mais sábios. Sábios tristes. Não há sabedoria sem a desilusão. E a decepção impede-nos a felicidade, aquele estado perpétuo em que tudo está ordenado, equilibrado, sem anomalias, horizontes sem mácula.

III
Deambulava pela casa sem norte. Sentava-se, levantava-se, ligava a televisão e desligava-a de imediato, pegava num livro e ainda não tinha terminado a leitura do parágrafo fechava-o com agitação. Deitava-se na cama e enrolava-se no lençol, mas o sono estava tão longe como ela própria.

Levantou-se de rompante e saiu para a rua enlameada e não regressou a casa procurar o chapéu-de-chuva para fazer frente à surpresa da chuva.

O problema da tristeza, pensava ela, é ser uma pele, não uma roupa. A roupa despe-se, troca-se, a tristeza não, permanece mesmo com as lavagens. Mas ela sabia – ao contrário de testemunhos de conhecidos – sabia bem a origem daquela segunda pele. Razões tão banais quanto ridículas. Banais porque ninguém seria capaz de admitir em público que era triste por uma questão aparentemente fácil de alterar. Como se fosse triste por querer sê-lo e não uma inevitabilidade como quase todos admitem. Então aí vai. Ela com quase trinta e cinco anos sentia-se triste porque nunca conseguira tomar qualquer decisão na sua vida sem ter o aval, discreto ou formal, de quem gostava. Poderia saber o que queria e todos julgarem a melhor opção, mas tinham que dizê-lo, tinham que clarificar esse gesto. Não poderiam dizer “faz o que julgares melhor!”, não! tinham que dizer “acho que tens toda a razão, sem dúvida é o melhor caminho!”.

Como é possível que sendo ela uma pessoa tão prática, tão sensata, com um comportamento tão asseado ao longo da sua vida ainda hoje precisava de uma palavra de conforto dos que lhe eram mais próximos? Estranho não é?! Mas ninguém com juízo completo poderia estar em desacordo com ela, sendo ela um exemplo tão perfeito de alguém com juízo e prudente. A interrogação sobre o que pensavam era um acto de pura gestão de um ego que sempre sabia o que devia fazer porque sempre fizera o que os outros esperavam que fizesse.

E ela descendo a rua com a chuva cada vez mais violenta sobre si, ensopada até aos ossos, e cada vez mais gostando daquela sensação de pecado porque não procurava um abrigo, porque não se escondia dos olhos estupefactos dos outros no interior dos automóveis, mas entrando na chuva como num antro de bandidos que ela enfrentava com unhas e dentes que percebeu que a sua tristeza não era mais do que o resultado de uma vida ao ritmo dos outros, daquilo que eles esperavam, daquilo que ela fazia e que os fazia felizes. Mesmo no relacionamento com quem amava: os seus tempos, as suas coisas, os sorrisos, os carinhos, o sexo. Desde pequena que sempre fizera o que os outros esperavam que fizesse, mesmo que esse resultado não fosse mais daquilo que ela sempre quisera fazer.

Estranho, mas honestamente verdadeiro. Devia haver uma razão qualquer psicológica, psiquiátrica, psicofisiológica, psicomórfica ou outras razões iniciadas em “psico” que ela não conseguia agora identificar. E riu-se com essa procura sem nexo por palavras iniciadas nestas cinco letras que davam tanto trabalho a profissionais da área. Com o passo acelerado, os sapatos a boiar na água das poças, os olhos no céu escuro, escorrendo água pelos cabelos castanhos encaracolados e um sorriso no rosto que começava a clarear-lhe a face.

Quarta-feira, 27 de Julho de 2011

Corredores sombrios






Sempre a sensação de estranheza perante o lugar que se ocupa. Nada chega a ser familiar porque há sempre a consciência de não ser daqui. Não ser de lado nenhum. Mesmo que tente não consigo delinear o processo causal que me guiou. Não me lembro do itinerário e se quisesse fazer o caminho inverso seria impraticável. Como perceber que pertenço a este chão de pedra reluzente, velha e escura onde vagueio? Nesta solidão consentida, onde apenas se sentem os passos ruidosos e os pensamentos emparedados e monocórdicos. E o tempo, os minutos que se arrastam tarde dentro, como as sombras escuras da praça. Sombras que parecem figurantes de filmes mudos, ora divergem ora se cruzam sem se olharem, como se seguissem normas severas de um ordenador escondido sob os arcos.

Não há premonições na vida, as coisas acontecem. A vida não é feita de horizontes fixos. A vida é espessa, densa, construída por paisagens indecifráveis e selvagens. Recupera-se a vida na luta diária pela afirmação, pela recusa em ceder ao mais fácil, fuga ao gasto, à repetição sensaborona, ao hábito, ao desgaste permanente. Só assim se restaura a beleza que se vulgariza na repetência da sua aparição. Como se pintássemos a vida de cores vivas e garridas cada vez que ocupássemos um novo posto. Um posto de vigia.


E depois volteio-me e nada é familiar. Fui arrancado de um colo e sinto-me num colégio interno.

Segunda-feira, 4 de Julho de 2011

O Cão Coxo



Talvez conheçam a experiência científica com um cavalo ainda jovem que ao pousar a pata direita no solo apanhava um choque. Pouco tempo depois a apanhar choques ficou definitivamente manco, não porque tivesse qualquer problema mas devido ao pavor. Esse reflexo mantido vida fora deve ter sido terrível, mas eu conheço outro caso ainda mais grave. Imaginem um cão, que deixado temporariamente só em casa se lembra de ladrar só para criticar semelhante desfaçatez. Como a família chegou após ele ladrar - já que ele ladra sempre que não está a família - uma, duas, três vezes, então meteu-se-lhe na cabeça - bem pequena por sinal - que se não ladrar ficará abandonado para sempre. O pobre bicho condenado a um terrível tique: a solidão obriga-o a ladrar, caso contrário, pensa ele, ficará para sempre perdido num apartamento.

Esse cão é meu vizinho e é o único ser vivo que odeio. Ele é tão pequeno que cabe numa mão, de olhar fulminante, um pelo cinzento claro, mas é de uma maldade infinita. É capaz de estar sete horas seguidas a farfalhar, em tons diferenciados conforme o grau de altercação que insere nas suas conversas. É um cão, mas não é um cão qualquer. É um demónio que assombra as tardes, envenena o ar silencioso e me retira do sério. Sento-me no sofá, tento curar o tempo com a almofada tapando os ouvidos.

A dona do tratante é uma senhora calma que fala como medindo as palavras e com um sorriso eterno a iluminar-lhe a face. Transmite um mundo interior tão sereno que depois de falar com ela fico cheio de remorsos porque passo a acreditar que os meus problemas são apenas resultado de pecados próprios. Não sei se o facto se deve à profissão na fé das filosofias orientais ou de personalidade, mas é daquelas pessoas que impede qualquer zanga porque a zanga esbate-se na sua calma visceral. Dessa pertença a crenças orientais resultam, com alguma frequência, vozes em uníssono, umas vezes como aquele som agreste de um navio que sai do porto, outras vezes um som em crescendo como um vento que entra pela frincha da porta. Mantras recortados por uivos do cão deixado no corredor para não conspurcar cerimónias espirituais e profundas! Para quem ouve é a presença mista de espíritos bons e malévolos…

Há momentos que tenho pena dele. O seu ladrar contínuo remete para maus tratos, como se os donos o devessem levar para todos os seus afazeres ou revezando-se para nunca o deixar sozinho, cumprindo assim as suas obrigações filantrópicas. Depois lembro-me outra vez do cavalo que ficou manco para toda a vida. Não me levem a mal, mas preferia um cão coxo.