sexta-feira, 17 de outubro de 2008

II - Zé Casteleiro (conclusão)


Estalou o escândalo com o estrondo de uma castanha quando se constou que Ana Lopes, uma senhora de bela figura e de maneiras delicadas, casada com o homem mais poderoso da terra e mãe de dois filhos, andaria a encontrar-se secretamente com o Zé Casteleiro havia vários meses. Ninguém sabia o que teria despoletado a descoberta, mas pelas inimizades criadas ao longo dos anos, devido à análise corrosiva da sociedade feita de fel e vinagre, muitos julgaram que, finalmente, iria fazer-se justiça. Enquanto Ana e os filhos, estrategicamente, saíam da aldeia a caminho de casa de uma tia residente na Guarda, onde permaneceriam até se atenuar a vergonha, o marido, entre ameaças e sinais de força, jurava que a situação insustentável teria consequências. Naturalmente, eu temia pela vida do meu amigo.

Durante alguns dias, manteve-se escondido num pequeno e obscuro palheiro, propriedade do meu avô. Quando a noite caía levava-lhe comida, água e cigarros, mas sem qualquer tipo de contacto, com receio que a demora levantasse suspeitas. Uma noite, já de madrugada, quando a história começava a acalmar e se constava que teria sido visto em vários locais, alguns bem distantes, deixou o refúgio e surgiu em minha casa, vencido e com um olhar seco e cansado.
- O perigo espreita e tenho de partir. Um poeta e cientista da vida não pode viver acorrentado num meio tão mesquinho. O meu destino é o mundo, sem fronteiras nem ameias. Talvez nos encontremos lá um dia.
- Mas para onde vais? – Perguntei com inquietação. - E a Ana? – Mencionei o nome, mesmo sabendo que entrava em terrenos que nunca desbraváramos em conjunto.
- Nestes últimos dias convenci-me de que nada me prende aqui nem em sítio algum. A partir de agora a estrada será a minha casa e as nuvens o meu tecto. Mas não fiques preocupado, pois a vida não se perde no sopro do vento, arruína-se na espera estóica da morte, nesta vida comezinha e rotineira de gente de alma negra. Rezam demasiado, em vez de esgotarem os minutos que lhes restam em algo que valha a pena! Quanto à Ana, - e deves guardar este segredo contigo -, se não me acompanha é porque teve medo do vazio que estaria à nossa espera. Não quis arriscar e, como a maioria, preferiu o certo, o óbvio, o definido. Lembras-te?

Assenti com um gesto. Um silêncio prolongado. Parecia emocionado. Fui eu que cortei o recolhimento com uma faca afiada.
- Vou ter imensas saudades das nossas conversas. Ao longo destes anos, senti-me um privilegiado porque me questionavas mesmo sabendo que nada te podia dar em troca, apesar da minha ingenuidade, de ser, no fundo, igual a todos os que criticavas. Muitas vezes, senti-me um discípulo que te atraiçoava, mal viravas as costas. Sempre amedrontado, inseguro, incapaz de cortar amarras...
Olhou fixamente para mim, como se estivesse indeciso.
- Hesitei muito se te devia dizer isto. Durante uns tempos tive algumas dúvidas até que aos poucos ganhei certezas. Desculpa, mas não tens estofo de poeta. Olhas a vida como um todo organizado, com etapas a cumprir e onde é essencial manter-se o norte. Preferes guardar a lucidez para alcançares todos aqueles objectivos burgueses que dão segurança e sequência aos elos. Nem sabes a sorte que tens e nem imaginas tudo o que perdes! Mas quando puderes sai daqui e só deves parar quando o cansaço te consumir os olhos…

Apertámos as mãos, atravessou o patamar e já com o portão de ferro entreaberto regressou e deu-me um abraço acanhado. Saiu com a mochila a tiracolo e com um casaco largo que abria as abas por força do vento norte. Até desaparecer na curva mantive-me na sua peugada como se uma parte de mim fosse com ele, depois sentei-me debaixo do alpendre com as mãos no queixo e os cotovelos nos joelhos, sonhando com todas as viagens que haveria de fazer no futuro.

3 comentários:

Maria disse...

Claro que a Ana não merecia esta alma de poeta! "o subtil, o vago e o complexo" estão reservados a esses seres capazes de viverem entre universos de brumas, cavalgando ventos e realizando-se em espaços siderais. Coitada da Ana!

Anónimo disse...

Sorry ..in English Ilheu..I agree with Maria..and it seems that the story becomes clearer now..But it seems that he needed to "retreat" for the story to evolve?..Can I explain for the story perhaps the casting off and the "cutting of ties" in relation to his fears of possible wider sources of harm....perhaps the poet became some overcome with the fear of it all that he needed to retreat, as in fact the thoughts of evil and threats to him seemed to overwhelm...?? When in fact in distance he began to realise that was all it was, a thought...a horrible intention ,,that in fact it was not God that would save him..but himself??..(Although thats another story again).And in fact there were many many more good thoughts in the world being directed his way than the few of threats and some sort of retribution?...I would hope that he knows that cutting ties will never cease that true love of friendship and healing the author has sent him...And yes I agree..perhaps travel is the answer now to clear it all away, ...Good story...!

Anónimo disse...

Ilheu..I have one more question of the story..perhaps my translation has me confused..but...the one she would walk to meet...was he really the reputed "wicked sorcerer"...?? Or was it someone else?...