sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

O Crime de Aldeia do Bispo

Há dias assim. Uns tão vagos que não servem para nada, outros tão intensos que em plena noite, colocados em balanças policiais, seriam multados por excesso de acontecimentos. Foi o caso de um dia de Junho, mês mole, sem Verão pelo sol turvo como vinho a martelo, mas sem Primavera devido a um sopro quente que arrasava as noites.
Nas comemorações solenes de uma data significativa, ao nascer da noite, após missa e cumprimentos entre todos os presentes – a maioria de saudades devido a afastamentos de um ano ou até mais, - seguiu-se um jantar em mesas brancas e cadeiras forradas de laços azuis celestes. Era um cenário dramático com personagens cheias de pedigree e tudo regado com conversas de circunstância que faziam ponte para repetições de pratos gastronómicos, todos muito bem trabalhados e em quantidade suficiente para um regimento de infantaria repleto de sargentos brutos e difíceis de contentar. Os temas de conversas eram variados, desde terramotos – durante a manhã tremera a terra de forma sub-reptícia e os mais argutos aperceberam-se do clamor do fundo – amizades perdidas em grutas sem regressos, a mafia do futebol e de muitos outros assuntos com menor potencialidade, como touradas de praças e de géneros mais provincianos, vindos à baila pela feira taurina que decorria. Com assuntos tão esotéricos e a maioria fora da minha experiência pessoal, ainda não tinha feito qualquer comentário e, para não julgarem que me armava em distante, comentei a experiência de ter visto um touro de morte numa Aldeia do Bispo que ninguém conhecia, em lide analisada de cima, no meio de árvores, numa autêntica selva de chopos e plátanos centenários que rodeavam o redondel e onde muitos outros assistentes se empinavam em carros de bois. Os aristocratas da mesa olharam-me com frestas na testa fantasiando lugares com terriolas assim, talvez no fim do mundo, sabe-se lá. E comentei que não era o único empoleirado nas árvores, parecíamos espantalhos coloridos e ríamo-nos muito uns para os outros, de árvore para árvore ou de galho para galho conforme as distâncias e no meio da sorte o azar do touro que levou uma estocada tão imperfeita que não o deitou abaixo e via-se a ponta da espada a surgir num dos lados da barriga e quanto mais o toureiro repetia golpes mais o touro se animava na sua panaceia e parecia um sonho e todos nós alcandorados berrávamos “assassino” e o espanhol importava-se tanto com os insultos como as nuvens do céu que passavam devagar como se fossem surdas. E se o touro morreu após desistir da luta eu desisti nesse dia de gostar de olhar bichos furiosos contra capas, cavalos, furcões, homens e pneus, tudo usado nas lides, tanto em arenas pintadas de branco em círculos pequenos ou grandes ou em arenas mais rudimentares cercadas por carros de bois e por árvores centenárias com galhos grossos.

No fim do meu testemunho, todos os companheiros da mesa fitavam-me como se fosse um fantasma, uns de lágrimas nos olhos com pena do animal, outros indiferentes à sorte do touro mas agoniados pelo atraso civilizacional de terras do fim do mundo, outros com manguitos nos olhos, pois são toxicodependentes das touradas e vão a Madrid de propósito para contemplar os touros a morrer muito mais depressa do que o da minha experiência. Talvez por isso houve um momento de silêncio tão forte como uma sirene dos bombeiros e apenas se ouviam as colheres a bater nos pratos e às vezes nos dentes e senti vergonha por ter destruído a harmonia de um jantar que se queria liberto de qualquer pensamento.

E quando já o ocaso do jantar comemorativo se aproximava, anunciado pela postura esguia das altas e médias entidades, um colega de mesa, reconhecido leiloeiro pela Internet de santos ignorados como S. Martinho de Porres e S. Olegário, começou a ficar tão branco que, em comparação, as folhas A4 pareciam papel de embrulho e enquanto alguns julgaram ser apenas resultado da magnanimidade de um dia de festa, pela variedade astronómica de carnes, receitas antigas e modernas, peixe de tantas espécies que nos perdíamos na sua conta, além de castanhas fritas em bacon, feijoada à moda de cá, crepes de marisco à moda francesa, peru assado no forno, morangos e frutas de época e sobremesas de pasmar, desde pudins, gelados encandescentes e bolos de todas as cores, e outros julgaram ser da emoção da história de um touro que tardava em morrer e outros ainda pensaram que talvez fosse uma razão mais grave e levaram-no em ombros – tal como aos toureiros que fazem faenas de grande qualidade e não como o espanhol de Aldeia do Bispo – até a um quarto recatado e fora das vistas das entidades médias, altas e dos outros. Um médico chegou rápido que parecia residente e depois de o ter acordado primeiro com chapadas leves na cara e em seguida com encontrões furiosos agarrado à aba do casaco, perguntou-lhe se sabia o nome e onde estava e julguei que o médico tinha bebido demais mas, segundo outra testemunha da reanimação mais competente do que eu, o médico tinha toda a razão em lhe perguntar coisas tão evidentes pois se ele as ignorasse o caso seria mais sério do que uma digestão difícil. Ainda foi levado ao hospital onde fez mais exames do que um aluno do secundário, mas já ninguém o questionou se tinha enlouquecido no jantar comemorativo.

E quando cheguei a casa senti-me tão fatigado como o touro da arena antes de expirar e com tanta pena dele como de mim que também passeava por arenas de gente branca, em círculos grandes e outros nem por isso, até ser oferecido em faenas de capote e bandarilhas. Depois, pacientemente, aguardei a estocada final.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Esquecimento...acho eu.

No mercado, ao amanhecer, encontrei quatro bocas negras tão frescas que ainda se julgavam em alto mar e uns imperadores solenes na pose e vermelhos de raiva pela expulsão, à força, do reino. Sardinhas nem vê-las. Ainda tentei manobras radicais de pesquisa e rastejei por baixo das bancas, para surpresa dos vendedores e dos próprios peixes, mas não encontrei nenhum exemplar para logo à noite. Apenas encarei com umas tripas maduras de um rufia qualquer, uma lula da silva que se fazia de morta, um peixão armado em parvo e umas lapas coladas ao chão como é habitual. Desisti. Cheguei à empresa com um odor estranho e umas nódoas na gravata e na sessão diária de cumprimentos aos executivos e beijos em todas as funcionárias reparei que na maioria surgia escarrapachada a surpresa de tocarem ao de leve um ser marinho, já fora de água há vários dias. Perguntei qualquer coisa circunstancial " têm por aí sal e coentros?" e fitaram-me com trejeitos mal-humorados de quem se envolvera em pesadelos nocturnos. Quanto ao polícia, que com afinco confirmava a honestidade das matrículas dos automóveis estacionados nos corredores, ao apertar-me a mão, num gesto representativo de grandes saudades devido ao feriado no meio, disparou: "ouça lá, que eu saiba, todos nós aqui temos exclusividade!" e rematou com galhofa própria de um ser com autoridade e arma ao cinto. Nada comentei e jurei em silêncio comprar uma cana de pesca à hora do almoço.

Por falhanço na pescaria, comeremos febras e entremeada de porco em fatias debruçadas sobre brasas e se alguém protestar abrimos umas latas de atum e penduramos um bacalhau desmaiado na soleira da porta, numa maresia envolta em odores de óleo alimentar, mas perfeitamente conciliável com produtos semelhantes, despejados por petroleiros e outros compagnons de route, e principal razão de engorda da fauna. Quando hoje se discute a falta de qualidade nos produtos ingeridos, desde os antibióticos na água da torneira, prozacs e ansiolíticos nas carnes e peixes (devido aos distúrbios mentais vividos pela generalidade dos indivíduos de várias espécies), julgo que nos esquecemos da badalhuquice de antigamente, numa sociedade sem frigoríficos e com tantas moscas varejeiras a esvoaçarem como lagartas a multiplicarem-se dentro do que era comestível. E vivia-se, pá, e hoje é o que se vê! Se bem, digo-te, detesto os talhos e as peixarias onde o próprio cortador recebe o dinheiro e dá o troco num gigantesco intercâmbio, rico em proteínas e micróbios de espécies raras e ainda desconhecidas da ciência, promovendo troca de odores, sabores e bactérias de carteira para carteira e bolso para bolso. Nada deve haver de tão complexo na natureza como alimentos de espécies variadas em orgias diárias com metais nobres e alguns menos nobres em troca de mãos!

Somos, deste modo, exemplos magníficos de criaturas vitoriosas, com tantas defesas e estratégias de sobrevivência ganhas ao longo dos milénios que não há porcaria que nos deite abaixo. Mais rápido trememos das canetas devido à porrada psicológica, daquela que não deixa marcas físicas mas que magoa bem fundo. Sentimentais e sensíveis como madalenas arrependidas, com dificuldade em receber críticas e reparos, mesmo aqueles que nos garantem que são úteis para o crescimento individual e aprendizagem futura. Sabemos de cor os direitos individuais e não admitimos palmadas paternas, castigos dos professores, críticas dos chefes, avisos das autoridades policiais, pedidos de silêncio dos animadores das conferências. Temos direitos inalienáveis, como o direito à palavra, o direito à asneira, o direito à reputação, o direito ao equilíbrio saudável de uma cabeça sem traumas. O problema é que o equilíbrio é cada vez mais precário.

E por tudo vamos divertir-nos antes do jantar. A malta é adepta ferrenha das touradas, à corda e sem corda, com cavalos e a pé para os mais modestos e actua no redondel o grande João Mourisco, o tipo mais célebre nestas coisas das investidas. Aliás, há membros do grupo do churrasco que já fizeram grandes pegas, enfrascados, claro, mas com esses actos de bravura no curriculum. Outros pegaram ao furcão com a energia de quem defende a honra dos cornos limpos, outros ainda seguraram na corda da vida e aplacaram cornadas a eles e aos próximos que brincavam com o fogo. Mas vamos vingar-nos, ai isso vamos! Brindaremos à vida como quem não tem mais nenhuma e vamos rir tanto que nos rebolaremos no chão, em piruetas desengonçadas à espera de uma redenção qualquer. A do esquecimento… acho eu.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

O Faroleiro

Embrulhou-se no seu sorriso, com o braço a envolver-lhe o pescoço. Sentia uma segurança estranha, inédita, que não lhe permitia imaginar golpes no futuro. Há poucos momentos na vida em que nos sentimos indestrutíveis, capazes de fazer frente a tudo o que vier. Tal como este, pensou. Ao decidir-se prometera não chorar por aquilo que perdia e tudo fazer pelo sucesso do projecto, não só por uma questão de princípio como por acreditar que a vida ao transformar as opções em caminhos possíveis – conforme as potencialidades – permite alterações para algo melhor e mais perfeito.

Sempre esperou o pior por ser mais fácil aconchegar-se ao futuro. Se o resultado fosse idêntico às expectativas controlavam-se as consequências, perante os sucessos retraíam-se euforias. Nunca fora ambiciosa nos gostos e sempre se comportara como privilegiada perante um desenrolar normal dos acontecimentos. Em vez de lutar pela excelência julgou-se apenas com direito a resultados proporcionais ao trabalho e às qualificações. E quando, por sorte, lhe surgiram outras possibilidades agarrou-as com as mãos cheias para não as desperdiçar, mas sempre com a ansiedade de tudo fazer para que a olhassem como merecedora de tais créditos e nunca fruto de favores ou contingências.

O mesmo acontecera com os afectos. Era honesto reconhecer que sentira ao longo da vida relações fortes com os membros da família, aceites como um dado adquirido e julgadas indestrutíveis e sem mácula. Mas viveu-as de forma latente, sem paixão, assumidas sem as questionar e sem ter de as reforçar por sinais exteriores. Dos pais, pela rigidez de uma educação desprendida de proximidades, não poderia esperar meiguices ou afagos e os irmãos tinham mais que fazer do que lidar com carências da mana mais nova. Essa frieza pela ausência do toque e de intimidade percorreu-lhe a alma durante a adolescência e seguiu-a vida adiante como correntes aos pés dos encarcerados. Espontaneamente se deixava enredar em relações sem compromissos e buscava nos outros mais qualidades de relacionamento do que capacidades ou comprometimentos.

“Sabes, sempre me pareceu que era uma espécie de pinto sem conforto das asas da mãe. Um patinho feio. Não sei explicar, mas garanto-te que me senti muitas vezes órfã e abandonada no mundo, apesar de pertencer a uma família funcional, cujos objectivos de todos os constituintes eram sempre em prol dessa entidade abstracta. Daí que, se nunca pus em dúvida esse funcionamento, tive sérias dúvidas, até muito tarde, quanto à força do afecto que me ligava a todos eles. Por isso, apenas queria estar com alguém que me tocasse, que se encostasse a mim mais do que me amasse. Precisava de aconchego mais do que certeza do amor. Isso já eu tivera a minha conta demasiado tempo” E sorriu com um trejeito triste. Ele abraçou-a com força mas nada disse.

“As pessoas como eu tendem a vaguear, sabes? Os seus compromissos nunca prescrevem, são pagos antes de o prazo terminar. A atenção constante perante os estados de espírito dos outros, uma vigilância canina clarificadora que me impede de ser fardo pesado a alguém. O “estar a mais” é algo absolutamente aterrador para uma pessoa como eu que passou a vida a tentar encontrar afinidades físicas. Mais do que espirituais. É injusto dizer-te mas é o que eu sinto. E se não, repara, o que sabes tu de mim? Pouco, mas conheces muito bem os meus gestos, a minha pose. Os elementos mais exteriores não os manejo, não os retraio como se o mundo do corpo suportasse sobre eles toda a dor da alma.”

“Mas onde está a verdade e qual verdade? Será que os medos que nos reescrevem a vida não farão parte da nossa própria verdade? O que fazer senão tentar não os engordar ainda mais? Ou não seremos também as vulnerabilidades que nos obrigam a fazer um determinado percurso? Deitarem-nos à cara que nos escondemos em peripécias e manobras de diversão é em si mesmo um embuste. Somos essencialmente o que nos incomoda, o que restringe movimentos mas garante de alguma tranquilidade quando convenientemente ajustado e controlado. Não vale a pena chorar por aquilo que poderíamos ter sido ou o que ganharíamos caso esse mundo interior, magoado e sofrido, tivesse sido atenuado ou resolvido. O problema é que cada um de nós tenta sobreviver e encontrar o caminho mais próximo da nossa realidade. Ou não achas?”

Do outro lado o silêncio. Ambos com a cabeça ligeiramente elevada numa almofada e os olhos presos no tecto como investigadores num laboratório, como se respostas cifradas se encontrassem na massa de cimento imperfeita que o cobria. Ele nada tinha a declarar. Gostava dela o suficiente para lhe admitir a fragilidade de não o poder amar. Era a primeira mulher que lhe confidenciava que precisava mais dele pela meiguice do que por ele mesmo, mas julgava o facto razão suficiente para se viver com alguém.

Ao seu lado uma respiração mais funda testemunhava adormecimento, mas ela despertara. Na rua o vento corria mais célere que o camião do lixo e os sacos abandonados faziam movimentos ruidosos. Não ambicionava mudanças radicais na sua vida. Queria manter lugares secretos, espaços indivisíveis. Preferia não desembaraçar-se totalmente de si mesmo, cultivaria esse lado misterioso que apenas a ela interessava. Ele, naturalmente, teria o seu e ainda bem… Pela janela olhava reflexos do mar, mais claros quando ondas maiores invadiam a costa. A vida também é um mar revolto, outras vezes calmo como o mar de azeite ao entardecer. O segredo é agir como o faroleiro. Haja ou não tempestade mantém a lua acesa e acredita que com mais ou menos dificuldade os barcos chegarão a bom porto.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

O Medo do Escuro

Agora que o tempo da festa terminou, cercam-se os touros nos cerrados, apanham-se as canas e guardam-se as rendas, as coroas e os estandartes em sacristias cheias de silêncio. Que alívio! Andava farto de alarido e das faces entusiasmadas pelo feérico som das actividades lúdicas e recreativas. Prefiro a depressão atmosférica às altas pressões, o Inverno ao Verão, a chuva ao sol. Sou depressivo, quase sinistro. O outro lado, lúgubre, cinzento. Um filme a preto e branco. Nada me entusiasma, nada ambiciono, desejo apenas não ser incomodado. E envolto no tempo comum, sem estalidos e sempre com os olhos postos no Inverno que não tarda, espero andar bem até ao Natal. Nessa altura, face às lamúrias de todos quantos gostam de gente, tomo uns sonoríferos e busco paciência até desaparecerem os ecos do Ano Novo. Depois consolo-me com o céu cinzento, a chuva miudinha e o desconforto do corpo perante o mal-estar atmosférico.

Os afectos são simples estratégias de domínio, ferretes de pertença e compromissos de troca em ocasiões propícias. Eu até tenho pruridos de fazer festas a um cão pela resposta receptiva e comunicativa, de rabo a abanar por todos os lados. Não desejo afagos, detesto que se lembrem do meu aniversário, não quero receber convites para qualquer evento social e odeio casamentos. Sou uma personagem com falta de alma, uma sombra de mim próprio. Tão pouco comunicativo que não reconheço a família que me resta, não tenho amigos, toda a gente me detesta pelo mau feitio e falta de tacto em lidar com os outros. E têm razão. Nunca aprendi o prazer de conviver, limito-me ao essencial, a relacionamentos que não comprometam mais do que o estritamente necessário. Já não me lembro de me sentir feliz com alguém perto, ou melhor, já não me lembro quando fui feliz…

O humor é uma faceta ausente da minha personalidade. Na memória não guardo a última gargalhada, nunca ambicionei ter graça e deprime-me o espírito recreativo que reina em todos os estratos sociais e em todos os quadrantes. Parece que o objectivo último da maioria das pessoas é ser jovial, sempre envolvidas em ambiente de comédia, como se o facto fosse suficiente para se ser feliz. E mais deprimente ainda, constatei que, em variadíssimas ocasiões, sou motivo de troça de alguns. Talvez seja a minha forma de vestir, ou expressões sociais nada conformes com expectativas. A verdade é que me sinto o bobo da festa. E não é nada gratificante reconhecer que zombam de nós quando a nossa intenção é passar despercebidos. Para quem procura motivos para se isolar, razões para odiar os outros e fugir deles, não é difícil, basta caminhar na rua e espreitar pela televisão. Através dessas janelas tenho imagens de um mundo que só é meu porque vivo nele, mas não lhe pertenço, nem me atrai. Notícias cheias de crueldades e assassínios e na rua reconheço que a grande maioria não confia em ninguém pelo facto de não se poder confiar em ninguém.

Vivo sozinho numa casa de quatro assoalhadas. Como o espaço mobilado é mínimo, a largueza permite-me caminhar da cozinha para a sala, de lá para os quartos e entrar no corredor onde faço grande parte do trajecto. Quarenta minutos de um hábito antigo que faço às escuras por identificar de forma nítida a presença de todos os obstáculos. Vivo há tanto tempo no silêncio que me é muito difícil suportar ambientes ruidosos e iluminados. Mas se há quem julgue que a solidão é um desaire pessoal, quando imagino o que será viver em grupo julgo ter a melhor parte. Por qualquer gratificação retirada por se viver em conjunto eu poderia dar dez por estar só. Mas não é simples e só é possível à custa de estratégias ferozmente cumpridas. Ter regras rígidas e dominar a situação, são as fundamentais. Ainda antes do sol nascer, limpo a casa de uma ponta a outra para precaver bactérias, meticulosamente recoloco as coisas no seu devido lugar, tomo um pequeno almoço sóbrio de flocos de cereais e vinco as calças e a camisa antes de sair para o escritório. Almoço em casa por desconfiança dos restaurantes e, frequentemente, compro comida macrobiótica por ser mais saudável. O jantar é sóbrio para precaver pesadelos e não bebo álcool, nem cometo excessos seja de que tipo for. Durmo oito horas por dia e por razão alguma perturbaria esta rotina que me alivia de contrariedades físicas.

Não pretendo alimentar intimidades. Ao analisar as pessoas, não encontro razões para as conhecer melhor. Só me trariam problemas e botas sujas em casa. Prefiro assim. Quando preciso de ouvir uma voz, discuto os assuntos do dia-a-dia, - sou sincero, às vezes não é fácil discutir comigo mesmo, - comento as notícias, sempre sob a altivez de um estranho a esta sociedade imperfeita. Como não gosto de futebol ou programas recreativos, a televisão não é um espaço cómodo para sossegar o espírito. Na maioria do tempo afasto as cortinas das janelas, abrigado de molde a ninguém me apanhar desprevenido, e, perseguindo nuvens ou fios de chuva, fantasio com vidas alternativas de viagens longas sem regressos marcados, ou de horizontes iluminados por montanhas tão altas que a neve eterna seja o aconchego do meu desvario. Mas, mesmo nas fantasias, sobram-me sempre motivos para conservar as opções tomadas há muitos anos atrás.

Cumpro todos os meus deveres fiscais, pago as minhas contas e não devo nada a ninguém. Não me lembro de alguma vez ter defraudado alguém ou o Estado em meu benefício. Também não tenho nem procuro relações sexuais. Reconheço a presença do instinto mas a força e a dignidade do homem provém da sua recusa e assumpção plena da racionalidade. Pelo contrário, a grande maioria vê no sexo o Grande Elemento, como se o sentido da vida dependesse de uma simples aritmética de parceiros e cópulas cumpridas. Coitados, quando descobrirem realmente o que poderia ser determinante para alcançar algum vínculo na sua curta vida vão ficar tão decepcionados! Mas a grande depravação moral e de costumes, origem de epidemias, é fácil de constatar. Tal como na empresa onde trabalho, todos aqueles olhares lânguidos e conversas cheias de segundos sentidos não são sinais de cortesia ou estima, mas revelam a perversão reinante.

Quanto à religião não sou crente nem tenho especial enlevo perante qualquer instituição religiosa. O meu humanismo não tolera a existência de qualquer Deus, entidade plena de bondade e sabedoria. Um Deus bom e sábio teria arquitectado um mundo bem diferente e construídos os homens à sua imagem e semelhança. Ora, na humanidade nada existe de divino, mas concentra o que há de mais vil na natureza: mesquinhez, crueldade, vingança e traição. O deus vivente, enquanto ficção da mente humana, não é mais do que a ideia de um ser perfeito por oposição a esta humanidade decadente.

Só há uma privação que me causa dor e saudade. É a ausência de crianças à minha beira. Custa-me admitir, mas só fui feliz lá no fundo do poço que é o meu passado, quando envolto no pó das ruas, corria diariamente atrás de sonhos, de bolas e de fantasias. E as crianças eram tão honestas, tão genuínas, tão fortes nos afectos, tão directas nas opiniões, tão meigas nos sorrisos, tão puras de coração, tão ricas de mensagens. Mas com a minha idade imaginem lá o que diriam se me vissem brincar com elas. Este mundo é muito mau…

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Caríssimo defunto...

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Enquanto te encontras exposto aos olhares do mundo, aguardando as últimas rezas e transporte para o crematório, decidi escrever umas linhas que vou arrumar no teu último domicílio, dentro de um caderno cor-de-rosa, onde ao longo dos anos sepultei desabafos, feridas e mágoas, muitas delas ainda por sarar. Vais dispor de um tempo infinito para uma leitura atenta, repetida tantas vezes que saberás de cor as palavras, mesmo de trás para a frente, até que conseguirás soletrar letra por letra, textos que em vida apenas te provocariam bocejos, ou ainda pior, repugnância. É o meu castigo e, quem sabe, a tua redenção…

Apanhaste-me de surpresa, de tal maneira que nem roupa tinha para mostrar luto e nem lágrimas encontrei nos meus olhos. Sou sincera, chorei tanto pela tua presença enquanto vivo que agora me faltam na tua ausência. E nem sequer fui infeliz. Tratavas-me bem, nunca me faltou nada, os filhos tiveram todas as oportunidades para voar sozinhos. A única coisa que faltou foi poesia. Deves rir-te imenso com o desabafo como se eu, uma pobre labrega, sem jeito e sem escola, pudesse ter uma alma de poeta... Mas era o que me parecia e agora tenho certeza. Nunca poderias entender que, para lá de uma vida confortável, precisamos de beleza, de romance e de ambição espiritual para se reinventar o sentido da vida.

Claro que tu já o tens na tua posse desde há dois dias, quando a trombose te retirou do sofá e te encostou ao soalho. Mas talvez não saibas que eu te amava à minha maneira. Nunca o atestei porque nunca te mostraste receptivo a essas lamechices, pois, como afirmavas, palavras leva-as o vento e não deixam vestígios. Dizias que falar só é importante quando não existem actos e eu sempre pensei, pelo contrário, que as palavras são mais importantes do que as acções. O acto de “fazer” perde-se nos movimentos e os ferretes deixados depressa se esfumam, enquanto que as palavras permanecem e guardam-se a elas próprias. E tantas horas dentro de autocarros nas idas e vindas do emprego, tantas horas de silêncio na cozinha, tantas horas de quietude em frente à televisão, ensinaram-me a olhar o tempo com maior sensibilidade do que me era permitido exteriorizar e, por isso, tive que guardar os sobejos num recanto qualquer, fora do olhar dos outros. Nunca mostrei o resultado com vergonha de alguém gracejar pela letra desengonçada, por versos com rimas pouco precisas que decorava e depois transcrevia para o caderninho cor-de-rosa escondido na mesinha de cabeceira. Lembro-me que, numa noite, procuravas uma pomada para a ciática pegaste nele, viraste uma página e depois outra e comentaste: “o que é que faz aqui um caderno da miúda?”, enquanto eu tremia de pavor pelo segredo desvendado. Uma mulher poeta, ainda por cima iletrada, deveria ser a pior notícia dada a um homem como tu, não achas?!

Se queres saber e como irás testemunhar, lá falo do temor de uma vida tão curta que não coubesse nas ambições desmedidas de um poema, do desejo de querer ver o mundo, de me libertar desta vida de sobrevivente que sempre nos manietou. Questiono o molde que nos amarrou à casa e à sua mesquinhez por falta de horizonte que não fosse o precaver uma velhice calma. Queria libertar-me da pressão constante de pagar prestações para logo a seguir descobrirmos outro objectivo que uma vez mais nos confinava movimentos. Agora que te finastes, sou sincera, não valeu a pena. Perdemos a vida com ninharias e pouco ou nada levámos, como tu poderás constatar nessa eternidade silenciosa. Imagina a tua cara se na semana passada te pedisse para visitarmos Santiago de Compostela…

E agora desapareces. Não faço ideia do que irei fazer mas não me apetece ficar para aqui sozinha. É muito estranho, mas sem ti não me sinto poeta. A poesia não tem que ser harmoniosa, triunfal, aliás, a maioria das vezes, sabe a fel. Não dá felicidade, bem pelo contrário. Só há poesia quando a alma se sente dilacerada, acorrentada em situações sem saída, como eu me senti muitas vezes ao teu lado. Agora, quando a vida está à minha frente, sem rodeios nem empecilhos não a quero para nada, não me interessa. Já não encontro a beleza nela. Só a inventava quando por trás das cortinas corria um mundo inacessível, sendo tu o empecilho de eu ser feliz. Agora já não consigo avistar qualquer horizonte.

Por isso, eis a surpresa e a suprema afronta. Não sei viver sem ti. Não sou capaz de pensar em vidas alternativas. Não sou capaz de me libertar da tua força. Não consigo pensar o dia sem me subjugares com a tua presença omnipotente, sem espaço para respirar. Não sou capaz, porque, sem amarras, não posso ser feliz em imaginar a minha libertação, mais cedo ou mais tarde. Agora que partiste partiu também a minha última hipótese de terminar o poema.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

O Rio Castanho


As férias em casa dos meus avós não eram para brincadeiras. Levantava-me muito antes do sol nascer e, em ritual diário, caminhava para o Rio Castanho com o frio a bater nas pernas nuas. Era uma pequena quinta, um lugar mágico onde no meio de carvalhos e paredes cheias de silvas, como por milagre, crescia tudo o que era necessário para a sobrevivência da família. Os tons amarelos e dourados de um Verão já longo, que ocupavam em grande medida o cenário de todo o vale, eram ofuscados por aquele oásis de vida, diverso e multifacetado, de um verde tão vivo como só a água e o carinho podem construir.

Depois da ordenha e do pequeno almoço soltávamos a burra e as vacas da loja e se iam soltas encontravam de imediato a direcção certa. Se levavam o carro atrelado o meu avô encarregava-me de lhes manter o ritmo até ao destino. Eu ia à frente todo empertigado com uma vara comprida por cima do ombro. A honra pela tarefa era superior a qualquer outra que me lembre em toda a minha vida e julgava um feito as vacas enfileirarem nos caminhos estreitos seguindo escrupulosamente ordens minhas. Mas em terrenos mais agrestes o avô completava as manobras com gestos e ordens mas sem retocar minimamente na minha autoridade.

Durante a manhã, os regos escoavam a água das presas para regar os feijões, as alfaces e o milho e mais ao cimo a burra com olhos vendados dava voltas à nora até esvaziar o poço. Ao meio-dia, debaixo de carvalhos enormes, comíamos um almoço composto invariavelmente de sopa de couves, peixinhos da horta, pão espanhol, queijo de vaca feito pela avó e acompanhado de um vinho que saía de esguicho pela almotolia espanhola. Fruta havia nas árvores, umas maças grandes e ácidas que deixavam a boca com um sabor áspero a terra e uns abrunhos pequenos e de cor verde mas de uma doçura incompreensível. Durante a tarde, cortavam-se canas de milho, colhiam-se vagens de feijão e recolhia-se lenha para a lareira. Havia sempre muito para fazer, mas a um ritmo pausado, com as sobras a estenderem-se para o dia seguinte.

Ao regressar-se à noitinha, enquanto a avó fazia a sopa nas panelas de ferro, o avô ordenhava as vacas e tratava delas. Depois subia as escadas que pendiam sobre o curral e sentado em cadeiras de verga deixava-se embalar pelo silêncio de um céu entupido de estrelas. Eu chegava-me perto e sem pedinchar ele contava-me histórias aprendidas em livros, das suas aventuras em Macau e com personagens misteriosas da aldeia. Ouvia-o assombrado e com os olhos pousados no caminho de Santiago e tantos outros carreiros que conseguia vislumbrar no embrenhado dos astros. Histórias que se prolongavam pelo jantar, apesar dos protestos da avó, envolvidas em sombras dos seus gestos nas paredes brancas da cozinha, ao mesmo tempo que o lume, em brincadeiras, iluminava ou deixava na penumbra o cenário. Depois acossado pelo sono, nos lençóis de linho, tentava guardar as aventuras como quem guarda um tesouro.

Já era adulto quando os avós ficaram tão velhos que as andanças para o Rio Castanho deixaram de fazer sentido. As vacas foram vendidas a estranhos, deram-se os arreios da burra, as lojas desocuparam-se de batatas e castanhas e o curral limpo de estrume e de galinhas poedeiras. As férias regressavam à medida cíclica do tempo e o retorno fazia-se em conjunto com os pais, mas o mês caminhava vagarosamente naquele balcão cheio de sombra. Ao lado do avô continuei a ouvir contos que brotavam da sua boca como de um poço sem fundo, alguns ainda hoje tão vivos como se os recordasse no meio dos lençóis de linho. Depois acudiam as festas da aldeia, as despedidas e o seu olhar triste a afiançar que era a última vez que me via. E uma vez teve razão, não resistiu à tristeza de não olhar mais o Rio Castanho e foi embora, deixando um vazio que nunca consegui preencher.

Não havia histórias e sem elas e sem a sombra das tardes quebraram-se elos e desejos de voltar. Após muitos anos, ontem regressei. Com a minha filha. Mostrei-lhe o recanto onde o avô me contava histórias, mas ela de tão pequenina não percebeu como esse lugar poderia ser tão especial. Prometi-lhe que ao chegar o tempo de entender o valor infinito do encontro com o maravilhoso e íntimo levá-la-ia outra vez àquela enseada da alma que se tornou um recanto da vida (ou vice-versa), o lugar mais emocionante que conheci e onde ganhei a certeza de que o mais importante é a cumplicidade ganha pela vontade de aprender e se emocionar.

Á noite quando todos já dormiam levantei-me ao de leve, coloquei sobre os ombros uma manta de lã, sentei-me no mesmo degrau e pesquisei de novo o céu tentando encontrar lá os marcos que me guiaram nas minhas pesquisas. Apesar de um céu menos límpido, tive a certeza que as estradas de ontem se mantêm inalteradas e que as poderemos retomar caso seja essa a vontade. Será com a minha filha ou filhos dela que um dia ali regressarei e viajaremos juntos por aqueles socalcos de candeias que nos levarão tão longe como o meu avô me levou.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

O Olhar da Indiferença...


Entrou em casa com um beijo fugidio e um olá seco. Tirou os sapatos e calçou uns chinelos. Mantinha o hábito longínquo de se separar do menos confortável ao entrar no seu domínio. Depois sentou-se em frente da televisão perto dela. Era cedo para o jantar e perguntou,

- O que te apetece comer? Há sopa de feijão verde e uns queijos frescos…
- Óptimo. Por mim está bem. O almoço foi tardio e não tenho fome.

Inclinou ao de leve a cabeça e percebeu que estava sob vigia, descobrindo nela um olhar de pesquisa. Manteve-se inalterável. Pelo canto do olho percebeu que a avaliação se seguiu por momentos longos, mas intentou que ela não notasse o reconhecimento. Estremeceu. Já não o olhara com amor, de relance pressentira o ápice que determina a reviravolta dos afectos. Da mesma forma que há instantes que despoletam o gosto também os há que determinam a indiferença.

Naquele caso, o trejeito revelava mais assombro do que indiferença. Ao fim de dez anos juntos, com um filho, uma vida em comum e tantas cumplicidades partilhadas e agora aquele olhar, aquele mesmo olhar, determinava futuros abertos e inquietantes. O comodismo de se gostar de alguém, o conforto de uma vida com tarefas definidas, as contas pagas, as poupanças reforma e um simples gesto assumia o fim do caminho. Ou apenas um pressentimento.

- Porque olhas assim para mim?
- Eu? – tentou dissimular – já olhei tantas vezes para ti…
- Não como desta vez. Viste-me como eu sou, não foi?
- Que queres tu dizer, nunca te tinha visto como és? – a voz espelhava convicção.
- Não sei. Tenho a certeza que o amor é um refúgio seguro para as nossas inseguranças. O amor liberta-nos daquilo que realmente somos para nos transformar no ser luminoso que é objecto do gosto. Ora, deve haver um momento que se olha bem lá para o fundo do outro e se encontra o verdadeiro, aquele que não é amenizado pelo gostar. Esse outro, estranho e distante que existia antes de se amar…
- Mas eu julgava que o amor permite-nos olhar o outro como ele realmente é – e na voz reconheceu algum cinismo.
- Sim, claro, permite a convivência, a comunidade de afectos que consente a irmandade de destinos. Mas lá bem no fundo continuamos a afirmar o outro pelo nosso olhar de ternura, o que é bem diferente.
- E tu continuas a olhar-me dessa maneira? – perguntou, matreira, com um sorriso mais tímido.
- Eu sim, não te consigo olhar de outra forma. Ainda. Nem sei se te olharei de outra forma algum dia. Do teu olhar já tenho as minhas dúvidas.
- Mas mesmo que identificasses hoje esse olhar, julgas que seria definitivo?

Compreendeu que ela assumia o risco e que tinha razão quando percebera que algo mudara entre eles para sempre. A pergunta dela revelava o momento da viragem. O amor é uma corrente que por muitos encontrões que leve não parte, balanceia ao sabor das relações. Quando parte não se reconstrói. Poderá manter-se a cumplicidade e o desejo ou, simplesmente, a necessidade de se viver junto, mas nunca mais será permitida a reconstrução. E naqueles segundos de espera, enquanto ela esperava a resposta concentrando a atenção na televisão, sem qualquer explicação, levantou-se, entrou no quarto do filho e às escuras, sentado no chão e encostado à cama, escutou o respirar sereno do pequenino. As lágrimas caiam-lhe na face como de uma torneira estragada. Pensou na comodidade do amor, da tranquilidade que dá à vida, da ausência de passos em direcção a estranhos na busca de encontros. Teve demasiadas caminhadas na juventude para sentir qualquer nostalgia…

Depois de lavar a cara para disfarçar o choro regressou à sala. Ela continuava no mesmo sítio do sofá, o lugar da esquerda onde um candeeiro preto pendia sobre a sua cabeça. Ao entrar ela não olhou para ele e só um tempo depois comentou:

- Não me respondeste…
- Estive a pensar e julgo que sim. Há olhares que recusam o passado e são pontes para algo novo. Depois de me fitares com uma análise fria e identificares a minha realidade nunca mais poderás olhar-me como dantes. E é muito doloroso pensar nisso. A fealdade natural do homem é condição impeditiva do amor; só podemos amar quando há uma capa que nos envolve na sua bondade.
- Eu julgo que estás mais com uma das tuas neuroses, com aquela clarividência que julgas possuir e que tenho questionado desde sempre. Olhei para ti talvez de forma mais crua, talvez cruel, mas, pelo contrário, se nós olharmos para o outro de uma forma mais fria poderá ajudar-nos a solidificar a relação. Porque é que tu achas que um olhar honesto é sempre um sinal de ruptura?
- Não julgo que seja sinal de ruptura mas entediamento. Se não houver uma máscara seja qual for, uma máscara de ternura que nos dá o outro com uma luz que retira a parte negra de nós então é impossível continuar o amor. Esse olhar não lhe repugna as debilidades ou as fraquezas; repugna-lhe a matéria-prima de que somos feitos…

Percebeu que ela não queria continuar a conversa. Possivelmente, o olhar que hoje lhe descobrira não teria sido o primeiro. Há quanto tempo ela olhava assim para ele? Estremeceu e sentiu-se feio, aquela fealdade que sempre encontrou nele e que agora era partilhada também por ela. Questionou-se se o prazer de estar com alguém não significará a ignorância do outro em si mesmo, e o conhecimento apenas de uma aparência dada pela estrutura do gostar…Senão, porque é que haveria paixões desenfreadas entre seres tão díspares quanto à beleza dos corpos, como a qualidades intelectuais…A história infantil da bela e do monstro ficaria assim justificada: enquanto o amor dura o outro é belo mesmo sendo um monstro para todos os outros. O problema é que regressará o monstro mais cedo ou mais tarde. O conto termina no casamento e não dá os capítulos seguintes.

Já estava há muito na cama, quando ela se deitou a seu lado. Aquele perfume, um odor que sempre o aconchegara e sentiu uma vontade louca de abraçar e pedir-lhe para esquecer a conversa. Ela virou-lhe as costas, em posição fetal, em silêncio… Não sabia quanto tempo depois, sem qualquer introdução, disse com uma voz quebrada
- Tens razão, não posso continuar assim, tenho de ser honesta contigo, devo-te isso. Já não sinto amor por ti, perdi-o não me perguntes onde porque eu não sei. Tenho muita pena e ultimamente tenho sofrido muito com isso. Foi como se de um momento para o outro tivesses sido arrancado de mim e ficasses apenas ao meu lado. Sinto-me vazia depois de te perder, um despojamento tão grande que sinto os ecos constantes de tudo à minha volta.
- Tens alguém? – de rompante, interrompeu-a.
- Não, não tenho. Neste momento não tenho ninguém, a não ser o pequenino.
- Não é isso. Alguém que tu olhes da forma que tu me olhavas…

Houve um silêncio, um momento tão cruelmente longo que parecia que lhe esfaqueava o peito. E ouviu uns soluços distantes, que no escuro pareciam vir das paredes, cheias de almas penadas. Não precisava da resposta dela, bastavam-lhe os sinais que interrompiam a noite. Não queria saber qualquer pormenor, era demasiado orgulhoso para lhe pedir mais explicações.

Só muito tempo depois a questionou: “ quando é que contavas dizer-me?”

Do outro lado da cama não houve qualquer resposta, os ecos dos soluços iam ficando mais ténues e deram lugar a um respirar profundo. Pressentiu que a revelação lhe permitira, finalmente, o repouso. A ele, pelo contrário, a descoberta colocara-lhe um sino de bronze na cabeça, fonte de um ruído ensurdecedor. Levantou-se, pé ante pé, recostou-se no sofá da sala. Debatiam-se soluções e condenações, perseguição de amantes, consequências dramáticas e punições exemplares. Separações pérfidas, jogar o filho na fogueira dos ciúmes, represálias económicas e toda a noite foi um jogar do futuro no tabuleiro das emoções violentas.

Quando o dia surgiu envolviam-no um cansaço brutal e uma violenta dor de cabeça. Ao entrar na cozinha, de robe, ela baixou os olhos e disse-lhe “desculpa” como se transportasse as culpas do mundo mas ele não respondeu nem olhou para ela. Tomou banho, vestiu-se rapidamente, deu um beijo ao pequenino que ainda dormia e ao sair, sem a olhar, num tom de voz tão autoritário como violento: “resolve a situação o mais rápido possível. Se fosse hoje, melhor”. E saiu.

Na rua, o ar frio adensava a violência que o atingira como se estivesse numa camisa-de-forças. Há situações onde o dramatismo do universo parece pender sobre a cabeça de um único indivíduo, aquele que vai ser crucificado em favor da ordem cósmica. Não via qualquer saída, não identificava nada de positivo que lhe pudesse amenizar o mal. Um mal físico, tão denso como se lhe pudesse tocar. Com alguma culpa pensou no filho que a esta hora ainda dormia. Talvez fosse ele a sua redenção.

Em vez de entrar na empresa, telefonou para o director de serviços justificando com problemas de saúde a ausência ao trabalho. Como bom funcionário que era, do outro lado recebeu uma palavra de compreensão e apoio.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

A Melancolia e a Escrita

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Escrevemos quando estamos tristes. Não com aquela tristeza que nos impede de sair de nós, mas a que procura clareiras, que nos agasalha e nos atira para um longínquo oásis onde o espírito repousa. Ser feliz está sempre a um passo do passado. Nós nunca nos sentimos felizes, apenas podemos sentir que fomos felizes. Assim, o presente está condenado à decepção, ao entediamento, ao problema prático que demora a resolver, à vida mesquinha do dia- a-dia.

Deste modo, enquanto o sofrimento nos amarra ao presente, a melancolia arrasta-nos à procura do devaneio; recusa o presente, encontrando no passado as fantasias não cumpridas. Tristonho é falar da infância, desse mar calmo e transparente que aquece a alma, sulcado depois por regos e abismos em histórias desencantadas. Mas é dela que nascem todas as histórias, transfiguradas pelo que se perdeu e o sonho acrescentou, sob um olhar ternurento mas magoado pela travessia…

Mas também não se escreve quando o espírito vive em frenesim, próprio do entusiasmo de quem julga, erradamente, que no presente realizou o próprio sonho. É o estado de paixão que é tão bloqueador como o sofrimento, que nos reverte de forma constante para nós mesmos, como ostensivo tirano, devorador do passado e do futuro.

A melancolia não. A melancolia conserta o presente, pela esperança reconquistada. Permite a leveza, a busca de outros cenários, revisitando vidas que se esqueceram nas esquinas da história. Se o presente não basta para garantir a quietude procuram-se espaços alternativos, reencontros com personagens que se foram perdendo pelos bolsos rotos do tempo…

domingo, 3 de fevereiro de 2008

O Fim da Peregrinação


Gosto de pensar nela com o sorriso célere e melancólico que lhe esclarecia a face ao chegar. As rugas profundas sucediam-se como ondas prestes a rebentarem na praia, cada uma com sua história, e as falhas de dentes acentuavam-lhe sinceridade. Só o tornava a desvendar quando à partida lhe dava um beijo de despedida. E a tarde, envolta em sombras das cortinas, decorria serena como se nada se passasse, onde os corpos se refastelavam na lentidão.

Na verdade, eram encontros silenciosos. Ela tricotava sem parar, elevava a cabeça, de tempos a tempos, concentrando-a por segundos na janela. Às vezes fazia comentários breves, semelhantes a interjeições prolongadas, mas rapidamente se reconduzia a um silêncio calmo. No início, eu ainda cortava o ambiente com monólogos extensos, sobre a minha vida e vidas de outros, a maioria seus desconhecidos, que em episódios sucessivos de novelas radiofónicas, eram abertas como os livros sagrados nas igrejas. Em movimentos das mãos e da cabeça a avó respondia ao diálogo, em sinais de compreensão, compaixão ou desagrado, conforme as histórias reconduziam a factos mais ou menos desesperados, mais ou menos tristes.

Numa tarde – o fundamento de todas as tardes futuras – descobriu o olhar afastando a malha e colocando o novelo e as agulhas meticulosamente em cima de uma mesinha, afagou as pernas cobertas com a colcha escura e desabafou: “sabes bem o que significa para mim a tua companhia. Mas como calculas, na minha idade não é o que dizes que interessa, é o ficares perto. Não te preocupes com as palavras, basta estarmos juntos. Sei que, por vezes, é um sacrifício alimentar temas de conversa e o bem que as palavras me fazem não é comparável à simples presença de ti. Quando chegas fico feliz, ao partires sinto-me feliz pela promessa do teu regresso. Com o tempo da permanência não te preocupes.”

A partir daí terminaram as revelações. Sentia-me cómodo no silêncio, sem ter que quebrar linhas de pensamento, minhas ou dela. Nunca sentira antes um estado de espírito tão cómodo de estar com alguém apenas com gestos. De vez em quando voltava-se na minha direcção, trocávamos o olhar e fazíamos um esgar de compreensão e calma. Bastava, para continuarmos a acreditar que ambos nos sentíamos confortáveis. Por vezes, analisava-a, as mãos brancas, tão lisas como papel vegetal e com veias escuras a espreitar na superfície, o cabelo esbranquiçado e aquela calma que só transparece quando não se quer estar noutro sítio. “A velhice tem também um lado positivo. A morte é tão inevitável como o Inverno depois das tardes sufocantes o que transforma as lágrimas das partidas em simples conforto espiritual. Quando se é novo o desaparecimento de alguém representa sempre uma reconstrução do tempo, pois, após o desgosto, a vida continua por espaço aberto. Quando somos velhos a morte de alguém próximo é mais uma porta que se fecha. Até que nos habituamos a encontrar no silêncio a vida que falta”.

Na juventude, os outros são sôfregos, não de nós mas de qualquer um que os alivie das tormentas, dos seus pensamentos mórbidos e suicidas. Cada vez há menos amigos, pois cada vez há menos paciência para se aturarem amigos. Os verdadeiros (como só os amigos podem ser) são chatos, possessivos, violentos, questionadores, legalistas, inquisidores. Preferimos relações fáceis, que banalizam a palavra, o sorriso, o bem-estar, o tempo corrido sem obrigações. São as relações “elásticas”: utilizam-se e esticam-se conforme as necessidades sociais. Nelas há ausência de interioridade, de melancolia, de honestidade, de reprovação. De intensidade de olhares. Há apenas o gosto pela reprodução de elogios, de palavras mansas que nos amenizam a aventura social.

E há pessoas que são o protótipo do “convidado”. São simpáticos, de riso fácil, não se deixam conhecer, sabem de memória ditos e sentenças que vêm sempre a propósito, reconhecem e praticam as regras da boa educação e são sedutores o suficiente para que os donos da casa repitam gestos simpáticos nas próximas festas caseiras. Quem os convida fá-lo por sua própria conveniência. Aos convidados permitem-lhes os discursos sem interrupções ou discordâncias, alimentam-lhes hipocrisias, toleram-lhes o teatro, os sonhos, as mentiras. São socialmente requisitados, não por eles – o que eles são – mas por amenizarem a passagem de um tempo banal e sem rumo. Todos nós gostamos de estar com gente assim. A menorização deles não é por seu mal mas por bem nosso.

Mas depois do charme a rodo, do enebriamento social, das plumas, chega o emudecimento. Entra-se em casa como num castelo inexpugnável sem necessidade dos outros, sem sorrisos de circunstância, sem a violência da verdade, sem vidas paralelas, sem guerras sociais, sem a luta constante entre o desvanecimento no ser dos outros e a independência de nós. Caímos encostados à porta fechada, os cotovelos nos joelhos e os punhos fechados a segurar a cabeça e sonhamos com silêncios tão ferozes como cães malditos, guardiões de tesouros e adversos a famílias faladoras, a amigos íntimos, àqueles que não são nem virão a ser e aos outros que as circunstâncias nos aproximam e nos encostam…

Como eu saboreava as visitas a casa da minha avó. De sentir aquela calma do sorriso da chegada, de me encolher na melancolia e passar as horas sem dar conta, sem ter de aprender nada nem dizer, sem desvendar nem oferecer ao desvendamento. Ela não precisava de mim ali, nem de me ver, nem de sentir a minha voz. Talvez haja uma essência no “estar” que não precisa de ajustamento físico. Uma solidão tão perfeita que o ser que a palavra representa ou participação no mesmo espaço físico são factores insignificantes. O verdadeiro encontro prescinde de tudo o que é exterior à intimidade. Estar acompanhado mas no isolamento de nós.

Em que pensa, avó? “Em nada, filho. Estou a rezar. Pensar é criar problemas, oportunidade de tristezas e mágoas. Já desisti de pensar. Apenas caminho sem rigor, sem precauções ou limites. Neste estado, a pergunta do destino já não é origem de tragédias, espera-se como quem está na expectativa de um pôr-do-sol numa tarde soalheira”.

Não me lembro quanto tempo durou a peregrinação. Um dia, ao chegar, ela não me esperava, estendida em urgência noutro lugar menos silencioso que a sala do encontro. Mas o sorriso melancólico ficou.