
" Querida Lena. Após reflexão, é com mágoa que reconheço que a nossa relação sem futuro também deixou de ter presente. Não consigo conviver mais com a mentira, e cresce em mim o receio de que a minha mulher saiba da nossa história. O nosso caso de anos trouxe luz à minha vida, transformei-me em melhor pessoa. Vou guardar-te no coração. Mas os sinais são demasiado fortes e lá em casa a desconfiança anda a destruir tudo o aquilo que sempre quis preservar. Nunca te dei falsas expectativas. Juntos jurámos que a nossa relação nunca interferiria na nossa outra vida. Beijos, felicidades."
Releu. Ainda outra vez . O autor pensara seriamente no assunto, medira as palavras para sair airosamente da situação. Apesar do pouco senso em utilizar um telemóvel para as despedidas, desconheciam-se as urgências por trás de tal decisão abrupta! Ela com o telemóvel junto à face e com o semblante carregado, como se contemplasse as lágrimas bastas nos olhos de Lena e desespero nos gestos do amante. O certo é que nem ela se chamava Lena nem tinha amante! Naquela extensa tarde, enquanto esperava pelas horas de trazer o filho do colégio, efabulou com prazer sobre a possibilidade de uma aventura que valesse a pena. Um fulano com um físico escorreito, afável e carinhoso, tempo vago, sinais de afecto e sexo tórrido. Talvez não exista um disponível com essas potencialidades mas nada se perde em sonhar...
Nessa noite, ao jantar, o marido chegou bem mais tarde do que a hora marcada. A regra, instituída após o nascimento do João, determinava que o jantar era o espaço de comunicação por excelência e nada poderia impedir a presença de nenhum dos três. Regra quebrada uma vez por outra, mas que ele tentava cumprir à risca. O pequenito já tinha jantado e andava aos saltos no sofá da sala, frente à televisão, eles comiam, silenciosamente, vendo o telejornal, como sempre, cheio de terramotos e mortes. - É estranho como a morte se transformou numa vizinha tão cómoda que nem nos tira já o apetite! A observação dela não mereceu resposta, apenas um som de assentimento. Agora o tema era o desporto. Confusões com clubes e jogadores, transferências, árbitros e dirigentes, numa amálgama demente e estranha que ela não entendia patavina.
Quando todas as notícias se esgotaram e a emissão se preparava com grande frenesim para a telenovela da noite, estavam já na sobremesa, ela contou-lhe a peripécia da mensagem do telemóvel.
- Nem sabes o que me aconteceu! Recebi uma mensagem estranha! Com grande surpresa minha, tive um amante vários anos e hoje comunicou-me a rompimento, sem apelo nem agravo, com o argumento, pouco dignificante, mesquinho até, do receio de poder ser apanhado pela mulher! Como calculas estou destroçada com a situação! Espero que tenhas isso em conta, hoje e nos próximos dias...
E ria-se, ao mesmo tempo que lhe dava para as mãos o telemóvel com o texto no mostrador. Leu, com olhar surpreendido. Comentou qualquer coisa do género " que texto ridículo para terminar um relacionamento de anos!". Ela mudou de conversa.
- Sabes, ao longo da tarde, por causa desse engano, pensei que não me repugnava ter um amante! Naturalmente, um tipo asseado, escorreito, bom na cama! A nossa vida, ultimamente tem sido tão sensaborona...
Ele continuava a olhar para o mostrador do telemóvel, encarou-a sem nada dizer.
- A sério, julgo que nos iria fazer muito bem repartirmo-nos com dois estranhos que nos aguentassem metade das neuras, metade das angústias, metade dos medos! - repetia ela, sempre com um gozo no olhar e em tom de galhofa. Agora ria-se com vontade, com o telemóvel na mão e olhar fugidio pelas paredes da cozinha. Parecia que estudava uma solução. Ela não sabia se em relação ao conteúdo da mensagem, se em relação ao conteúdo das suas próprias afirmações.
- Vamos ligar-lhe! - disse ele eufórico. - Vai ficar mesmo à rasca!
- Não faças isso. Vai ser muito constrangedor para o homem!
- Azar o dele. Tivesse mais cuidado em guardar o seu próprio segredo. Aliás, quem termina uma relação de anos com uma mensagem SMS não merece outra coisa...
Passados uns segundos, com o telemóvel junto ao ouvido.
- Está? Estou a falar da parte da Lena...
- Hum... -
- Sim, julgo que foi o senhor que lhe enviou hoje a mensagem com uma infeliz notícia e quero dizer-lhe que tanto ela como eu estamos destroçados. Claro está, por motivos bem diferentes....
Depois de um silêncio, ela a tentar estancar o riso, o ar sério dele.
- Meu caro senhor, na vida temos de arcar com as responsabilidades. Depois de anos a dormir com a minha mulher, fazendo contas, talvez já seja mais sua do que minha. Por isso venho dizer-lhe que também terminei o meu relacionamento com a Lena, mas com maior ombridade, pois comuniquei-lhe o facto de olhos nos olhos...
- Mas quem fala?! perguntava o outro com voz cada vez mais aflita. Do lado de cá um silêncio. - Foi um engano, pelo qual peço desculpa. Mas, que eu saiba, a Lena não tem marido! Depois de enviar a mensagem percebi que tinha havido um equívoco. Engano estúpido, mas nada havia a fazer. Peço desculpa.
E aqui mudou o tom. Já ía longo o castigo!
-Tem razão, é uma brincadeira! Mas no futuro, deve ter cuidado com o que faz com o seu telemóvel senão ainda acontece alguma desgraça...
- Mereci a chacota! Aprendi a lição. Na próxima, vai em carta registada!
E já ia a desligar, quando o marido lhe perguntou:
- Já agora, perdoe-me a indiscrição, mas a Lena, como mulher, valia a pena? Era gira? Era boa?!!
- Já foi, já foi... - no meio de uma sonora gargalhada do outro lado do telefone.
Com gestos lentos, desligou e colocou o telemóvel na mesa, enquanto ela do outro lado o olhava de forma enigmática. De rompante fitou-a, por breves segundos, e com voz carregada perguntou: - Não és a Lena, pois não?!...
- Já foi, já foi... - no meio de uma sonora gargalhada do outro lado do telefone.
Com gestos lentos, desligou e colocou o telemóvel na mesa, enquanto ela do outro lado o olhava de forma enigmática. De rompante fitou-a, por breves segundos, e com voz carregada perguntou: - Não és a Lena, pois não?!...
7 comentários:
Estou sem palavras e partida a rir!
Este post é digno de ser uma anedota de alentejanos, estes casais, o marido é mau, mau, mau! Não terá ido a mulher a correr atrás dele com a colher de pau nos momentos seguintes?
Estas pessoas têm um humor dos diabos... :D
lamento decepcionar-te, charlie the sinner, apesar de não ter a certeza, julgo que a pergunta do marido tem como única resposta o "sim" dela. Desculpa, sim? bjos.
meu deus... que enredo...
Deixou-me um bocadinho stressada este teu conto, tão misterioso e, por isso, tão desafiador da nossa criatividade.
Da nossa, simples leitores teus. Porque desconfio que tu sabes a resposta! Ou não? Será que é mais um caso daqueles em que as personagens se emancipam e tomam a dianteira ao narrador?
Quanto a mim, penso que a Lena é mesmo aquela mãe de família, simultaneamente recatada e escandalosa, dedicada e voluptuosa... Não aguentando guardar para si aquela enormidade repentina de afectos transviados, resolve levantar a ponta do véu.
E consegue instalar a dúvida naquele marido rotineiro e previsível.
O que se seguiu deverá ser objecto
de continuação do autor, para nós assistirmos ao desenlace da história...
Belíssima história, aliás!
Ah! e já agora, este é o tal "segredo" da senhora...
Se a Lena soubesse os ganhos que teria ao "trabalhar/instalar" semelhante dúvida no seu marido, seguramente ela seria hoje uma mulher com um enorme sorriso nos seus lábios!!!...(daqueles de orelha a orelha - não sei se estão ver) e mais não digo !!! ooppsss !
av
Bolas, como é que consegues?
Como é que consegues escrever algo tão belo?
Diz lá... qual é o segredo desta inspiração?
Beijo
Belamente hilariante, MESMO.
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