
Mas quando chegavam, uns e outros, era uma festa! Joaquim adorava ser feitor de pausas significativas, libertador de ritmos, obreiro de personagens. Estava sempre a postos como uma sentinela. Vamos Joaquim! A intimidade com as palavras era tal que não podia viver sem elas. “No meio das palavras é que se está bem, sinto-me real!” testemunhava para o ponto de exclamação, um parente esguio como um pau de vassoura. Aliás, a sua existência dependia absolutamente delas. “O que seria de um ponto isolado no meio de uma página em branco? Que sentido teria um final se nada tivesse começado?” Perguntava a um ponto de interrogação, um ser sorumbático com um nariz arqueado.
Mas, da mesma forma, as palavras sem pontuação não poderiam constituir textos. É necessária ordem e não há ordem sem quebra de ritmos, sem um cerco provisório à liberdade absoluta de sua disposição. As palavras, em si mesmo, não traduzem sentidos e pouco se importam com a barafunda. Podem até aparecer na sua máxima extensão, tal como num dicionário aberto. Mas o sentido, a poesia, a prosa, exigem a exclusão, o emparcelamento de vidas que percorrem os textos.
Joaquim sentia orgulho nessa actividade de ordenador. “Uma espécie de demiurgo de sentidos cruzados”, afirmava ufano. Todo empertigado, apresentava-se no final dos períodos com aquela segurança de quem tinha autoridade de pôr fim à brincadeira. Ou no fim dos parágrafos, sobre um abismo, segurando-se para não cair, criando uma fronteira ao vazio. E fechava sempre o texto, como uma tranca na porta, uma prerrogativa de dono da casa das palavras. Por isso, sentia-se importante e exigia o devido respeito. A palavra que o seguia tinha o dever de se vestir com roupa de festa – ou dito de outra forma, de maiúscula – e detestava ser mal utilizado por escritores imberbes. Não gostava de uma certa escrita contemporânea, onde se esqueciam com facilidade dele próprio, com desmesurados corredores de termos sem eira nem beira e com dificuldades colocadas aos leitores menos atentos. Aliás, gostava mais dos clássicos, que dominavam os casos como os artesãos dominam as artes.
Por vezes fazia-se acompanhar da prima, no estatuto de ponto e vírgula, mas não gostava desse papel. Tarefa complicada para destrinçar a sua utilidade, de uso difícil e pouco eficaz. Por isso era raro reduzir-se a esse estatuto, numa companhia pouco recomendável e, ainda por cima, tão juntos que pareciam amantes. Aliás, nunca mostrou grande estima pela sua familiar. Achava-a atrevida e pouco educada. “Uma doidivana, com tendência a utilizações desregradas, isso é o que ela é!”
Mas, um dia, Joaquim cansou-se de ser quem era. Fartou-se de protagonismo, imaginou-se reformado e sem a árdua tarefa de ser o grande obreiro dos sentidos do texto. Não queria retirar-se das lides, mas pretendia ter um papel mais pudico. Por coincidência, conheceu um ponto feminino que o surpreendeu na inteligência e recato, e depois de um namoro rápido, casou numa folha A4 mais branca que a neve e passou a dois pontos. Foi então que, por obra e graça de um escrevedor, nasceu-lhe um filho e se transformou em reticências. Ao misturar-se perdeu identidade, mas ganhou sabedoria. As reticências permitem interromper o texto antes de ter esgotado o pensamento, mas deixando sugerir o que se omite. Ora, esta é uma potencialidade que fortalece a fantasia, um lugar de poesia, um incentivo ao engenho.
Solto da sua rigidez de ponto, encontrou serenidade na tolerância. E quando o futuro reserva uma brecha, há sempre permissão na escolha. E sabem como é …
4 comentários:
...começando e terminado o meu comentário com umas singelas reticências, comunico que muito simplesmente fiquei surpreendido com a forma tão hábil como contas esta história...
av
Que filho bonito teve o ponto!...
:)
http://i92.photobucket.com/albums/l17/strangetabby/backgra%5Counds/polkadots.jpg
thx;)
http://www.photosight.ru/viewpicwindow.php?photoid=1220218
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