quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O teatro e a vida...


Tenho quase a certeza que sabias que ao passar por ti o meu coração acelerava como um louco e que ao ver-te compunha uma personagem com gestos ríspidos como se tivesse uma doença nervosa. Tenho quase a certeza que no teu íntimo tinhas pena de mim quando arriscava uma conversa séria e inteligente e me escapavam apenas banalidades e recapitulações, prova evidente da minha infantilidade. Sabias que, mais cedo ou mais tarde, teria de expulsar aquele monstro que me corroía por dentro e saberias o que dizer por teres imaginado a cena, pincelada por pincelada.

Já sem forças para resguardar tanta energia desperdiçada em futilidades e viagens sem nexo, abordei-te naquele Domingo e abri a alma de uma forma tão crua que, em vez de testemunhar um afecto doce e acolhedor, parecia estar a despejar um fardo para cima de camioneta vazia. Falava da paixão como se fosse um cancro, algo tão disforme que ninguém poderia aceitar de mão beijada. É estranho, mas ao comentarmos o amor por alguém é como um mal que nos possuiu. Algo que preferíamos não ter e nos ameaça… Deixaste-me falar e repetias em voz baixa aquilo que ia dizendo como se adivinhasses palavra por palavra o meu monólogo, ao som da chuva que se abatia em cima do abrigo que eu segurava com as mãos geladas e olhavas para mim com a pena que já sentiras muito antes da conversa acontecer. Depois de um curto silêncio, - para não ser tão evidente a cena trabalhada e ensaiada - fizeste um belo discurso cadenciado, artifício que me fez lembrar os truques dos ilusionistas. Estiveste bem. Não me achincalhaste, nem feriste o meu orgulho, apenas aquele desprezo bem medido que não deixa margem de dúvida, mas numa linguagem meiga e sem rancor. Revelaste, mentindo, que tinhas sido apanhada de surpresa - logo eu, um tipo simpático que podia ter outras - e até cometeste inconfidência de saberes de uma pessoa que sonhava e que sofria por mim, tal como eu acabara de revelar sofrer por ti. A certa altura julguei que me irias aconselhar trocar de paixão como quem troca de carro usado, mas apenas ficaste no início do raciocínio sem tirares as devidas consequências. Achei bem. E no fim do que poderia ter sido apenas um simples não, ou um não com desculpas, atestaste o orgulho de seres o meu objecto de desejo, apesar de não ser a altura certa, não ser o tempo certo para nós.

E assim foi. Não repeti razões nem implorei reflexões mais cuidadas e caminhei ruela acima com os pés encharcados no meio da água que continuava a cair como nos pesadelos. Lembro-me que desisti de me abrigar na protecção que apenas preservava uma parte mínima de mim e envolvi-me na chuva como quem mergulha no rio. Em casa, à entrada, despi-me para não encharcar o corredor. O frio que rodeava a minha nudez fez-me sentir só como uma criança abandonada e tomei um duche longo e quente que causou um nevoeiro tão denso na casa de banho que no espelho não me reencontrei, apenas uma névoa espessa que não deixava antever qualquer realidade e permitia escrever com o dedo textos vazios de esperança. Deitei-me embrulhado em cobertores de lã ouvindo a chuva que lá fora continuava a tombar, levando consigo palavras, lágrimas e passos dados e ouvi o sino a dar as horas através de badaladas que iam aumentando na medida que a noite se ausentava devagarinho.

De manhã, senti-me livre como uma gaivota. Ao afastar-me de qualquer percurso teu, amadureci mais do que em todo o tempo que já tinha passado. A dor que sentia já não tinha origem na tua recusa de mim, mas na vida que dá e tira, a seu bel-prazer, aquilo que nos poderia fazer feliz. Percebi que nada poderemos esperar, apenas limitar-nos àquilo que emerge da vida e através dele começar, começar, recomeçar e tentar não desistir. Assim, soube que não era a tua falta que me fazia infeliz, mas o meu próprio vazio que nunca poderia preencher. Julgarmos que temos a felicidade logo ali à mão, tão perto como se fosse uma coisa, matéria quente que se pode comprar com um pequeno esforço, é tão cruel como de imediato percebermos que não é senão uma miragem criada pela nossa ânsia em trocar as voltas à banalidade da própria vida.

Após tantos anos, hoje fui procurar aquela noite e, de novo, sentei-me em frente do espelho embaciado pelo nevoeiro. Amontoaram-se memórias porque te encontrei, sem te procurar. Tudo aconteceu após um corredor comprido, sombrio, uma porta aberta, tal como uma boca de cena, e logo fui envolvido num cenário iluminado por meia dúzia de janelas, uns sofás cor de carmim espalhados como num bar nocturno e uns vasos espaçados com buganvílias, umas róseas, outras vermelhas e ainda outras alaranjadas. No meio de outros actores, encontrei os teus olhos em diálogo e pesquisando intrusos. Eu. E o teu semblante amanhecido pelo sorriso veio dar-me a mão e abrigaste-te debaixo da minha sombra como naquela noite de chuva medonha e desfizeste culpas e histórias mal alinhavadas pelo nosso andar errante. Concluí que nada do passado restou em nós, nenhum rancor, nenhuma culpa, porque os dois compreendemos que a felicidade não poderia ser consequência de uma noite de tempestade em que se representaram peças de fingimento bem alinhavadas. Apenas gostei de te ver, sem qualquer mágoa por não te ter tido. Limitei-me ao prazer de te olhar e sentir um brilho vindo de ti. Não falámos do passado, nem do futuro, apenas trocámos uns textos escrevinhados em folhas A4 para decorar e representar na próxima vez que os nossos olhos se encontrem, quando uma porta aberta invente cenários e um sorriso transforme o presente num dom que se procura.

domingo, 28 de setembro de 2008

E a quietude chegou ao fim da noite...


Não era bonita na verdadeira acepção da palavra, mas a presença altiva e o bom gosto no vestir acumulavam o bastante para se tornar deslumbrante à vista. Ele, com aparência desleixada e cultivada a rigor, desenvolvera aquela pose distante que as mulheres identificavam como prenúncio de mistérios por desvendar e os relacionamentos surgiam mais por insistência delas do que por entusiasmo do próprio.

Após um namoro fastidioso, casaram numa ermida branca no cimo da serra, ela considerando que o casamento se resumia ao enamoramento sem ter em conta as exigências da vida em comum e ele com a esperança que garantiria o sentido da vida pelo simples facto de dividir a renda com um vizinho íntimo. Mas, pouco tempo depois, ao chegar a casa à noite, atormentado pela descompostura constante de alunos tumultuosos e encontrar a casa numa confusão de roupas e louças de várias cores e o frigorífico vazio, começou a suspeitar da bondade da opção feita. Ambos detestavam a cozinha e a ementa diária limitava-se a sanduíches e a encomendas no restaurante da esquina. E ele e o pobre do cão, esquecido o dia inteiro, apesar de ter sido adoptado por capricho dela, saíam sob candeeiros mortiços e ruas vazias até se aliviarem das prisões diárias.

Numa noite de insónias, um rebate de consciência retirou-o do marasmo e concluiu definitivamente que o casamento fora um erro infantil. Saiu de casa deixando um simples bilhete em cima da cómoda da entrada “foi tudo um equívoco, não posso prolongá-lo por mais tempo. Desejo-te o melhor”. No dia seguinte ela releu e com umas lágrimas deixou-o ir sem mais delongas. Foi com alguma amargura pelo fracasso, mas liberto de constrangimentos, que regressou à rotina diária de professor e à esplanada nos fins de tarde, para espairecer dos dias bolorentos. Ela refugiou-se na casa paterna, procurando abrigo para a melancolia de uma vida sem rumo. Após uns meses perdida, ouvindo recriminações constantes do pai pela atitude imatura e irresponsável, decidiu uma mudança radical de vida, encontrar emprego e viver sozinha. Na família ninguém levou a sério as advertências, pois mimada pela mãe e por avós afogados em náuseas e fastios, dificilmente tomaria nos seus ombros o caminho da autonomia.

Passou o tempo necessário à resolução dos impasses mútuos. Ele regressou à vida de casado com uma colega que fora colocada na sua escola e se encontrava desenraizada na ilha tal como ele. Mas a situação alterara-se. Refeições à hora, casa arrumada e perfumada, o cão com melhor tratamento que ele próprio, as finanças domésticas geridas com mão de ferro. Quanto a ela, contra todos os maus agouros, cumpriu promessas de mudança. Aceitou um emprego como secretária de uma empresa e aos poucos, as regras transformaram-na numa pessoa cheia de planos, mais simpática e prestável. Passou por algumas relações que terminaram sem consequência, e num pequeno apartamento inventou o seu canto, decorou-o de forma simples mas harmoniosa, eliminando as intenções da família de a ter debaixo de olho e por controlo remoto.

Entretanto, mais alguns anos passaram. Ambos saíram da Ilha por razões bem diferentes. Após mais um divórcio concorreu para uma escola do Continente, e ela partiu para a Guiné-Bissau como auxiliar de enfermagem, a convite dos Médicos sem Fronteiras. Soube mais tarde que a família muito preocupada ainda lhe pediu que reconsiderasse, oferecendo-lhe casa e uma renda sem quaisquer contrapartidas. Mas ela recusou.

Como por milagre, num final de um dia invernoso, reencontraram-se num Centro Comercial, em Lisboa. Numa livraria, reparou numa mulher sorridente que o fitava com insistência. Atento a um cortejo demasiado insinuante, desvendou por trás do sorriso a mulher com quem casara dezassete anos antes. Do embaraço saiu um olá tímido, ela bastante mais franca e com gestos mais afectuosos, e, após cumprimentos formais, convidou-a para um café. Notava nela uma estranha força que nunca lhe reconhecera e um entusiasmo interior que ocupara o lugar do tédio e ausência de objectivos de outros tempos. Falou-lhe longamente dos projectos na área social e na intenção de regressar a África, proximamente, para prosseguir o trabalho de assistência médica. Com muitos pormenores contou-lhe os pesadelos que enfrentou, desde a falta crónica de electricidade e de pão, a humidade e os mosquitos, um internamento devido ao paludismo, mas também a alegria imensa que sentiu ao serviço em prol dos mais desesperados. As palavras saíam serenas como chuva miudinha e ele embalado sorria, como se o seu papel se reduzisse a um mero espectador de um filme. A certa altura, o passado veio à baila, ela pediu desculpa por aquele tempo atrapalhado de imberbe irresponsável e ele com a cabeça fazia meneios de concordância, mas desvalorizando o assunto com gestos de encolha dos ombros.

Depois refugiaram-se num bar na Avenida 24 de Julho e a noite passou apressada, contando-se histórias, em vez de horas. Arrumaram tudo como querendo limpar os pecados, numa espécie de redenção final. Saíram para a rua já o movimento do trânsito anunciava o acordar próximo da cidade. Continuava a chover de forma compacta e, sem qualquer resguardo, correram para o automóvel. No interior, sacudiram com as mãos a água concentrada nas roupas e perceberam os evidentes sinais de que o cansaço se apoderara deles como um embrulho. Em silêncio, embrenhou-se no cinzento escuro da cidade, enquanto ela se aconchegava no banco como querendo adormecer. Com o ruído do pára-brisas em movimento acelerado em pano de fundo, sentia-se encharcado, atordoado por horas de ruído e de luzes e com um vazio tão forte que julgou que iria vomitar. Não se lembrava de nenhum projecto luminoso que tivesse integrado e concluiu que todas as opções da sua vida tinham o fracasso como único roteiro. Quando parou o automóvel, de imediato, viu sobre si os olhos ensonados e escuros dela. Ela aprumou-se e com um beijo leve selou as despedidas. Já com a porta entreaberta, perguntou-lhe se podia ficar com o contacto e ela sem responder escreveu o número num talão de estacionamento que descobriu em cima do tablier.
Saiu sem pressa. Abriu o vidro, ela voltou-se para trás com a chuva a ensopar-lhe o cabelo e com um leve sorriso, enquanto ele quase gritava que há muito não se sentia tão vivo como naquela noite. Fez-lhe um leve aceno, hesitando, regressou ao carro que deitava fumo cinzento pelo escape. Aproximou-se tanto que ele reconheceu odores fechados há muito em baús e com uma calma adocicada pelo dormitar breve da viagem segredou-lhe: ouve, não me telefones, por favor. Temos de acatar uma regra básica da vida. Nunca, mas nunca devemos regressar onde fomos infelizes. E retomou o caminho debaixo daquela chuva obstinada e dura até desaparecer dentro do automóvel.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

No Fundo...



Acabou mesmo agora de entrar. Fiz de conta que não ouvi a chave a rodar na fechadura e permaneci imóvel na cozinha. Chamou o meu nome e mantive-me expectante e só. Olhei lá para fora e reconheci perfeitamente pormenores de um horizonte gasto por tanto uso, a serra esventrada por telhados vermelhos, mais perto a escola dos miúdos barulhentos, além a desordem de casas, ruas e chãos secos. As coisas não andam bem cá em casa. Não porque algum de nós tenha qualquer culpa. Andam mal porque a vida nos infesta a morada de enfermidades e falta o fármaco para nos tornarmos imunes ao caos. Andava tudo bem até há pouco tempo, se querem saber. Tínhamos tantos projectos como um gabinete de arquitectura e tudo caminhava como se o tempo fosse um carril e a família um vagão de comboio com paragens premeditadas. Sabíamos o que queríamos fazer daqui a três, quatro ou mais anos, os destinos das viagens traçados com a rigidez de uma equação matemática, os filhos loirinhos já com os nomes e tudo. Agora não, perdemos o futuro como quem perde as chaves de casa e teremos de encontrar uma nova fechadura que nos dê acesso a uma nova realidade.

Não se pense que tenho qualquer responsabilidade no assunto. Aliás, tentei sempre desdramatizar a situação. Reafirmo diariamente a nossa capacidade para construirmos um futuro liberto desta náusea que nos vai consumindo, assegurando que reencontraremos o caminho. Mas ele faz de conta que não ouve. A esperança só tem sentido quando já temos na mão parte da solução. Até agora não temos coisa alguma. E devido à espera em frente da televisão e com as mãos alisando os cabelos, envelheceu tanto em poucos meses que parece que ficou para trás. Estupidamente, recordei a história dos gémeos de Einstein. O que ficava na estação do comboio envelhecia, ao contrário daquele que se metia na geringonça e, à velocidade da luz, dava reviravoltas ao universo. Ele deixou-se ficar na estação. Sem ter culpa, claro.

Os problemas começaram há cerca de seis meses, quando ficou desempregado. Nos primeiros dias, após o choque, decorreu um período envolto numa jovialidade quase constrangedora. Parecia que andávamos em festa, tal era a quebra do ritmo, a leveza dos horários e o tempo que sobejava para tudo, para nós. Não sei se era uma estratégia inconsciente para nos esquecermos do infortúnio, se julgámos mesmo que era o início de um tempo novo liberto de qualquer plano que nos limitasse os movimentos e os sonhos. Mas a sucessão dos dias rapidamente mostrou que esse clima engalanado pelo entusiasmo tinha sido uma ilusão. E julgo que nenhuma família está preparada para se reequilibrar quando um dos membros se encontra no fio da navalha. Não há remédio para uma angústia que se vai amontoando como o lixo nos caixotes. A certa altura os sacos já são colocados no exterior porque já não cabem lá dentro.

O som do meu nome vinha agora do corredor. Sim, estou na cozinha, respondi. E ao entrar, desculpa, não te ouvi, menti. Entrou, a barba por fazer, mais cabelos brancos que ontem, pelo menos pareceu-me. Toca-me no braço como um pequeno afago e senta-se à minha frente com as mãos na testa. Mantenho-me imóvel e muda. Parece que chora ou pelo menos emite uns sons misteriosos. A certa altura, retira as mãos do rosto, fixa-me nos olhos durante uns segundos como procurando palavras, ou sentidos, ou simplesmente compreensão: - ando tão perdido que mesmo ao chegar a casa, algo no meu íntimo impele-me para que continue a andar, sempre em frente, até encontrar o meu lugar.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

O Homem-Gelo



Desde que foste embora não me lembro de sorrir. Mesmo com as patifarias do Ernesto, aquele gato manhoso que trouxeste no Natal, não consigo reproduzir o movimento ligeiro e silencioso da boca e dos olhos que represente contentamento. No entanto, apesar da estranheza da tua partida, e após um tempo impreciso de mágoa, encontro-me agora naquele estado indolor, talvez o mais próximo da ventura budista: não sofro porque nada desejo, nada procuro, nada quero. Não me sinto infeliz, sinto-me vazio. Ao saíres de casa levaste contigo aquela parte de mim que se preocupava com os outros, que se sentia enquadrado no mundo, que tinha projectos. Hoje vivo encarcerado em mim sem pretender inventar bengalas exteriores que me amparem na caminhada.

Soube que tens alguém novo na tua vida que te completa e te faz feliz. E se não me surpreende o teu novo estado de espírito, a ideia de complemento faz-me alguma confusão porque comigo sempre procuraste as semelhanças. Como és melhor em todos os domínios, aquilo que te poderia oferecer já o tinhas em abundância e eu surgia tão pouco interessante, mesmo vulgar. Mas não julgues que este bilhete é um ajuste de contas, mas um simples reparo. Ao te afastares, aquelas lágrimas não me comoveram porque percebi que lamentavas a decisão por ti e não por mim. Iria obrigar-te a alterar passos, a aconchegares-te à vida de uma forma matreira, zelo que nunca foi reivindicado na nossa vida em comum. Vivias comigo com tal segurança e naturalidade que exibires a tua realidade garantia, desde logo, o êxito e o afago. Percebo que não seja tarefa fácil moldar a tua imagem para que te julguem digna de admiração e afecto. Agora percebes que ser feliz dá um trabalhão enorme! Pela parte que me toca, pelo contrário, vivo a ressaca do esforço dispendido para encontrar o melhor de mim para te dar, o lado mais fotogénico, o mais adequado. Mas neste momento, como recuso qualquer fardo na minha relação com os outros, reproduzo apenas aquela trivialidade que me faz transparente.

Por isso, se os amigos comuns continuarem a manifestar preocupação pelo meu estado de espírito que apelidam de depressivo e aberrante, podes dizer-lhe que estou num bom momento e que volvam a sua atenção para a sua vida comezinha e medíocre. Uma inquietação que nasce, naturalmente, quando alguém é abandonado. Se for homem, transforma-se num ser ridículo, objecto de compaixão e zombaria. A mulher tem sempre fortes razões para largar o companheiro, enquanto os homens têm no seu mau carácter ou na sua fraqueza a origem dos desenlaces. Mas esta simbologia do “largar”, como quem liberta uma ave de rapina mantida em cativeiro, no meu caso é no mínimo estranho, porque eu fiquei. Estou no meu ninho. Foste tu quem saltou da escarpa em busca do vale verdejante que se estende até onde a vista alcança. Tenho a certeza que encontrarás o que procuras, com a mesma de certeza que eu nada preciso de procurar, porque tenho tudo o que preciso.

sábado, 20 de setembro de 2008

Filhos da luz...



É difícil entender a maldade. Mais difícil ainda é entender a loucura. A loucura que enferniza a vida aos próximos, que os engole na sua névoa, lhes impõe trâmites e exige réplicas canónicas. Se todos temos um fundo escuro que nunca o exteriorizamos no seu esplendor, a loucura significa ausência de amortecimento de efeitos e, nesse caso, esse lado misterioso extravasa-se em consequências trágicas para os demais.

Um amigo, daqueles que se prendem a nós sem se perceber as razões e vão connosco para todo o lado, desde garoto suportou uma relação turbulenta com a mãe e as sequelas desse processo são ainda visíveis e insanáveis. Talvez não haja culpas para distribuir, ou então os intervenientes vão sobrevivendo às transgressões, sem terem a certeza se foram eles a sua causa ou simples consequência.

Tudo começou quando a mãe, na tentativa de identificar o conteúdo dos livros de psicologia como a solução mais elementar para as dúvidas surgidas na relação com os outros, encontrou nos filhos as cobaias ideais. Um processo desastroso, porque se era evidente que os filhos espelhavam os textos, aquilo que não encaixava teria de ser acertado nos parâmetros, ou então analisado como moléstia tratada com receituário médico. E o garoto era demasiado irrequieto, uma vivacidade interior tão forte que arrasava tudo à sua frente, tal como uma enxurrada num dia invernoso. Mas naquele tempo não se falava em hiperactividade e a norma transparecia nos colegas de escola, atentos e sossegados como os anjinhos das igrejas. Então, após consultas a vários médicos, um deles confiou nos sintomas, possivelmente esticando as suas certezas para se encaixar nas certezas dela, e diagnosticou-lhe epilepsia, uma disfunção no sistema nervoso, caracterizada por convulsões e problemas de atenção. Enquanto isso, paralelamente, a luta do pai era bem diferente, certificando a normalidade do filho e recusando diminui-lo à custa de medicamentos. A mãe acusava-o de apenas ter vergonha de uma anomalia no filho, o pai acusava-a de importar para a vida familiar de forma imprudente uns livros que ela devorava de sol a sol. As trapalhadas amontoaram-se sem remédio, desencadeando rupturas que adviriam bastante mais tarde.

Mas a mãe ganhou a guerra e toda a energia que encontrou nas entranhas direccionou-a para a salvação do filho, transformando-a num instrumento metódico e inflexível de regeneração do corpo e da alma. Desenhou deveres com a rigidez de um militar de carreira, metodologias, tempos e actividades. O fundamental era a ocupação desportiva sistémica, decretando, além das actividades normais da escola, natação várias vezes por semana, corridas diárias em volta da casa, enquanto ela supervisionava o esforço e o tempo, completando o tratamento com a norma implacável de se deitar às sete da tarde. Tudo com o objectivo de expulsar o mal pelo esforço e a fadiga extremos, primeiro, atenuaria os efeitos e, aos poucos, descobriria o ritmo certo da normalidade.

Hoje, ele não se lembra se corria com lágrimas nos olhos e se dormia as horas prescritas, pois apenas tem na memória o calor de África que impedia o sono solto e os sonhos calmos. Mas os tempos foram difíceis, pois as crianças preferem encontrar um tempo escorregadio e não um tempo determinado por regras severas. Preferem o afago do que uma disciplina férrea que esconde o sorriso. No entanto, a inocência não é culpabilizadora e, se o é, revira para si mesma culpas alheias.

Em complemento, até ao fim da adolescência, ele tomou sem qualquer escusa, fortes doses de medicamentos. Até que a maturidade, perante as dúvidas que sempre pairaram e confessadas em território inimigo, determinou a interrupção do tratamento. Três anos após essa tomada de força, através de novos exames médicos solicitados por ele, foi-lhe garantido que nunca teve epilepsia e que teria sido um erro clínico do seu colega, quinze anos atrás.

É claro que desacertos todos os cometemos e há erros trágicos que tiveram na sua origem o sentimento de procura do certo e do bem-fazer. Educar tem riscos, pois nunca saberemos se o que propomos é o caminho mais certo para quem está nas nossas mãos. Mas quando o nosso lado obscuro extravasa, as consequências são tão desastrosas que a vida não chega para as expiar.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

O dia e a noite...



Choras durante o sono, sabes? Um choro prolongado, profundo, rouco, que causa calafrios só de ouvir. Podes ostentar esse flanco superficial, coquete, desprendido, mas à noite, quando o silêncio pinta a casa de negro, irrompe um pranto como o de uma criança a quem lhe retiraram tudo o que a fazia feliz. Um choro incapaz de parar porque não há ninguém que seja dono de algo tão espesso como aquilo que pedes. Uma fragilidade que nunca vais admitir porque preferes apresentar esse teu lado imperial, de mulher que não precisa de ninguém. Que não precisa essencialmente de mim.

Então levanto-me, ando pela casa com as mãos pressionando os ouvidos, cantando canções de embalar. Mostro o rosto envolto em mágoa, pelas razões que bem conheces, mas essa mágoa é superficial, sara, recupera com o tempo. Mas a tua mágoa é difícil de curar. Faz parte de ti. És infeliz no âmago, não és infeliz na derme. Só a verdade te poderia salvar. Uma atitude em que assumisses os teus medos, a tua guerra interior, os fantasmas do passado. Terias de chorar muito enquanto desperta, porque as lágrimas vertidas no sono salvam-te da vida, mas não te salvam de ti mesma.

Mas não, preferes o show off, a peça da mulher feliz que convive perfeitamente consigo mesma. E eu sofro ao teu lado, por vezes pego em ti enquanto dormes e aninhas-te no meu colo tão desprotegida como uma criança errante. Gostava de conseguir preencher esse vazio tão forte e tão denso, mas não sou capaz, porque me julgas incapaz. Preferes alimentar a esperança vã de que, mais cedo ou mais tarde, por um passo de mágica, alguém transformará o teu lado negro no lago dos cisnes. Desculpa se não acredito…

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Noites perdidas...


Perdi mais uma noite à tua procura. Subi todas as escadarias por onde nos escapávamos em direcção à luz, entrei nos bares que frequentávamos até ao raiar do dia, encostei-me à tua casa onde a claridade nunca mais entrou e no fim regressei, já a silhueta do sol era visível. Entrei tão cansado em casa que preferia que o amanhã não existisse, mas apenas um mundo uma semana depois. Não percebo porque continuo a procurar-te se já não existes. É como se buscasse um espectro no meio de uma cidade iluminada, sabendo à partida que não te posso encontrar porque já não és como eu te procuro. Talvez já te tenha descoberto sem saber que eras tu que retomavas o caminho dos vivos…

Mesmo assim, às vezes, gosto de pensar que ainda te lembras do meu nome e que não o riscaste como se apaga um contacto do telemóvel. É estranho como a quebra de laços causa mossas ao amor-próprio, como se fossemos feitos de afectos e qualquer perda significasse menor realidade. Também nunca percebi a estratégia de fugir ao amor pela ausência no sentido geográfico, tal como tu. Julgo que a solução mais óbvia seria ficar perto, demasiado perto, e aos poucos comprometer a espera e o aceno. Tempos depois seríamos tão invisíveis como o são os companheiros de viagem numa carruagem de metro.

Mas a distância, pelo contrário, conserva as coisas como eram. Uma espécie de frigorífico dos afectos e de corpos que não deixa apodrecer os rostos e os sorrisos. Aliás, a distância torna mais luminoso o passado, porque a memória apenas selecciona o que garante a continuidade do bem-querer. Por isso, vinte anos depois, uma face alterada pelas desilusões do tempo e da vida, resta mais rejuvenescida, recauchutada pela saudade. Alguém que se ausenta não se corrompe porque permanece como uma fotografia numa moldura, mesmo sabendo-se que foi subvertida pelo funil do tempo, por aquela oxidação que enferruja os ossos, a pele e os próprios medos.

Desse modo, queria ver-te. Não para te mostrar a minha face decepada por sulcos onde se arrastaram as lágrimas vertidas, apenas para te olhar como hoje és, na distância, como um detective privado que tira fotos da amante do marido traiçoeiro. Sem que tu me olhasses naquela frieza assassina que trata o passado como um chão minado. E assim, um instante valeria por vinte anos de atraso e a memória não ficaria retida nos alicerces de tudo o que aconteceu entre nós.