sexta-feira, 22 de Maio de 2009

Cabelos Pretos


Tens um cabelo preto tingido pela noite e não és feliz. És segura, tão segura como um rochedo e enfrentas o mundo com alguma sobranceria. Mas uma coisa não tem nada com outra. Caminhas sem olhares para os lados, como se já tivesses tudo a que tens direito.

De vez em quando encontro-te, em locais tão díspares como improváveis. Às vezes, não tenho a certeza se não serás uma criação minha que levo comigo para todo o lado. Mas vejo-te com maior clareza da minha janela, este miradouro para o mundo. De lá observo o que quero e, de vez em quando, quero ver-te. E lá estás.

Sorris, quando reconheces alguém. Tens um sorriso branco que ameniza o escuro dos teus cabelos. Consegues ser afável e acolhedora. Depois, regressas ao trilho e compões os gestos e os passos ao sabor da melancolia. Há pessoas que não nasceram para ser felizes, mas para cumprirem à risca papéis, tarefas e funções. Ser feliz é para os irresponsáveis, para aqueles que não se deixam manietar por compromissos, para aqueles que recusam crescer, para quem a vida é um horizonte inacabado - submerso em nevoeiro cerrado – obrigando os indivíduos a inventarem a sua própria estrada.

E vais andando à procura do tempo certo. Tudo cronometrado ao milímetro, gestos, ritos, sorrisos. Da minha varanda reencontro-te. Segura, como sempre, naquela passada forte de quem sabe para onde vai.

sexta-feira, 15 de Maio de 2009

O Fim do Princípio



Naquela noite, com o copo na mão, algo incomodado com os focos de luz que escapavam de uma das extremidades do bar, chegou-se mais perto, arrumando o braço junto ao dela. Ela não se retraiu e conservou aquele contacto de pele como parte integrante da comunicação. Falavam com a leveza de dois adolescentes, alguns pormenores clarificados com a aproximação dos rostos. A música alta, só por si, justificava os toques, corpos juntos e lábios roçando o glóbulo auditivo e ela numa atitude receptiva, sem qualquer sintoma de querer esfriar a proximidade. O mais perto que tinha estado dela. Sentia o seu perfume, os cabelos sedosos na face e um calor que se escapulia do corpo.

Quando ela terminou o whisky, colocou o copo enrolado de branco no balcão, olhou para o relógio e fez-lhe um sinal que teria de se ausentar, ao mesmo tempo que compunha uma expressão de lamento pela decisão. Ele gesticulou com os ombros e a face, mostrando compreensão e tristeza, depois com mão levantada, ela despediu-se do resto do grupo que dançava no meio da pista. Nunca daria um passo que pudesse parecer ousado demais para a diminuta intimidade entre eles e, por momentos, sentiu-se perdido entre o movimento da saída dela e os movimentos ritmados dos restantes elementos do grupo. Até que no meio da agitação sentiu uma mão fria no braço que com firmeza o arrastava para a saída.

Encontravam-se havia várias semanas, por coincidências várias e amigos comuns. Poucas semanas depois, ele reconheceu que repetia o ritual para a ver e nela não havia nenhum acanhamento em mostrar que a sua presença lhe agradava. Mas agora que a seguia, guiado pela sua mão, regozijou-se por não ter que compor uma conversa delicada sobre o amor e a verdade, a timidez e a recusa em ficar fora da história, sobre a beleza da sua boca e do perfume que levava para casa noite após noite e da vontade de a rever no dia seguinte e nas inseguranças perante a possibilidade do não e dos treinos para a beijar numa qualquer ocasião silenciosa. Antecipavam-se etapas e congratulou-se por isso. Olhou para trás e na pista todos estavam a observá-los com os sorrisos abertos e gestos cúmplices. Também lhes fez um aceno e eles corresponderam com sinais de contentamento, como permissão para recomeçar com outro papel no seio do grupo.

Pagou as bebidas, apesar da tentativa dele em fazer valer estereótipos masculinos, e entendeu o gesto como um preço a pagar por tomar nos ombros o desembaraço do momento. Combinaram um local - pois os automóveis não estavam estacionados perto um do outro - depois ela fez-lhe sinais de luzes e passou à frente. Conduzia rápido. Os dois automóveis colados no vermelho dos semáforos, tentava encontrar os olhos dela no espelho ou algum gesto amoroso e, com a mudança de cor, os movimentos bruscos dos braços faziam arrancar o automóvel sem hesitações. Abriu as janelas e aumentou o volume do rádio, curvas e contracurvas, locais incógnitos que entravam pelo pára-brisas como num filme, uma noite quebrada por faróis intermitentes em sentido contrário e urbanizações em fila indiana na encosta da serra. Até que o pisca direito ligado e um gesto firme a indicar-lhe um espaço livre o obrigaram a estacionar, continuando ela até desaparecer no meio da curva. Após um leve tempo regressou em passo apressado. Quando acercou, ele sentiu-se com autoridade de lhe dar a mão que ela apertou com força. Junto à porta do prédio largou-a enquanto ela procurava a chave na carteira, mas na penumbra do átrio, na espera do elevador pousado no 5º, ele puxou-a para si e beijou-a suavemente nos lábios e ela correspondeu e apertou-se contra o seu peito como empurrada por uma força qualquer. No interior do ascensor continuaram a certificar paladares de bocas a saber a noite, vida que escorria de um para o outro como se estivessem ligados por canais, pequenos aquedutos que transportavam seiva longínqua, daquela profundidade que descobrimos em nós quando saímos de nós. No apartamento deixou-se ficar junto à porta, enquanto ela acendia luzes e lhe mostrava novamente o caminho. Atrás dela como um sonâmbulo, tirou o casaco e deitou-se na cama com a expectativa na face, num misto de ansiedade, curiosidade e vontade, procurou-lhe a boca e com a mão pesquisava o resto do corpo por baixo da roupa que tinha restado da pressa e ela deixava-se tocar sem condições, como se aquele corpo, a partir de agora, passasse a ser dos dois. Sentiu-se tão livre como se não houvesse lei em sítio algum e afundou-se no vazio que não lhe permitia encontrar sinais seguros de uma realidade situada algures num país qualquer, ponto minúsculo de um universo em expansão, sem se lembrar sequer a sua cor ou simplesmente a sua densidade.

E na tentativa de situar aquele momento fora do campo do sonho apercebeu-se de umas réstias de claridade que vinham do candeeiro da rua e que trespassavam os estores como facas afiadas e permitiam contemplar o corpo tão perfeito como pressentira na noite, durante tantas semanas. Sentiu um odor que evocava vagamente folhas secas e depois, sem qualquer receio, entrou nela não como um intruso, mas como quem faz parte da residência e ela ofereceu-se com uma paixão tão serena que ele nunca mais quis saber se era sério o que sentia, nunca mais se lembrou das ansiedades, medos e reservas, e tudo se escoou na humidade dela que fazia salpicar o gosto e o tacto no escuro dos olhos presos nele, até que adormeceram ouvindo o curso das pessoas para a cidade que eles tinham deixado bem guardada numa pista de dança.

segunda-feira, 11 de Maio de 2009

A Dança de um Homem Só



Duas silhuetas de mãos dadas percorrem o cais em silêncio. Sente-se uma brisa fresca e por trás do rio a sombra do sol começa a definir o dia. O silêncio já é cortado aqui e ali por automóveis e pressente-se que, rapidamente, a vida reencontrará a passada nervosa de todas as manhãs. Cenário de pressa, de caras estremunhadas e falta de paciência dos transeuntes.

Há histórias sem nexo. A vida tem muitas. Cruzamentos de personagens inverosímeis, que caminham juntos sem que as suas razões se cumpram. Caso se cumprissem as histórias teriam sentido, mas não tinham lugar nesta ou qualquer crónica. Esta história que se vai arrastando à medida que a noite arrasta os pés à procura do recolhimento, teria coerência se os dois fossem amantes, com a melancolia de quem espreita o dia a danificar o sonho. Mas não. Eram duas personagens estranhas que se confrontavam com finalidades divergentes e que impediam o cumprimento na íntegra dos seus propósitos. Ela sabia-o à partida, ele nunca poderia saber.

Ambos casados, ele com filhos. Olham a noite como uma promessa, ou como ela diz, uma botija de oxigénio para náufragos. A noite transforma os sonhos em rios, desde que os seus intervenientes permitam à vida espraiar-se. Conheceram-se uma semana antes, num centro comercial, antes da partida para um jogo de futebol. Coincidência atrás de coincidência foi após um golo que se abraçaram divertidos e ele no meio do frenesim e do perfume que emanava do abraço teve coragem de a convidar para dançar numa discoteca com música africana. Ela concordou de imediato. Ele julgou que o sim, tão claro como o horizonte nestes dias de sol, abria-lhe oportunidades de afectos que ansiava. Ela aceitou porque não tinha qualquer razão para a rejeitar.

Apenas precisava de uma noite com os seus mistérios, as suas armadilhas. Não quero perder nada do que tenho, apenas ganhar um pouco do que fui perdendo. As mulheres vão desperdiçando o gosto pelo sexo e pela aventura, sabes? Ás vezes gostava de regressar ao vento, naquela brisa de entusiasmo que nos faz caminhar de olhos fechados. A vida de casado com todos aqueles silêncios, ritmos indolentes, cânones rígidos que não nos permitem correr com o vento na cara. Durante estes anos, parecia-me que me encostava à vida que me ia levando sem que tivesse qualquer palavra a dizer sobre o destino da viagem. Fartei-me, agora vou em frente. Se ela quiser vir comigo eu dou-lhe a mão, caso contrário sairei sozinho, enfrentando os riscos. Menti, claro. Teria de trabalhar até tarde e ela aceitou quase com alívio. E lá foi para a noite, armadilhado com a camisa branca e um casaco escuro para ocasiões mais selectas, o perfume caro e dinheiro no bolso. Ao espelho sentiu-se um caçador experimentado que não se esquecia de nenhum expediente.

E depois veio a noite. Danças mais ou menos ensaiadas, rodopiavam raspando, fustigando outros pares que bamboleavam com estridentes desejos no olhar. Aí Benjamim! Ele visivelmente orgulhoso dos gestos firmes de dançarino maduro, ela deixando-se levar pela pista como um invisual pelo seu guia. Depois, com suores a escorrer pela testa repousaram num recanto, bebericando caipirinhas e esgotaram temas do amor, do casamento, dos filhos e do tédio. O sorriso bonito e a calma dela contrariando a ansiedade e os gestos bruscos dele. Depois novamente danças, mas sem que se desfizessem os nós, tentativas de maior intimidade que ela desfazia de imediato. Depois veio a manhã e saíram para uma cidade coberta de bruma, ruas desertas como se eles estivessem a mais, ou se encontrassem fora do seu lugar. Como se a sua permanência na cidade vazia não fosse mais do que o resultado de uma simples fantasia. A camioneta de recolha do lixo obrigou-os a saltar do itinerário imaginário e debruçados no miradouro conseguiam identificar na colina oposta ruas lustrosas e uns táxis que ocupavam sozinhos a avenida.

Nem um beijo lhe conseguiu roubar, nenhum gesto mais ousado lhe foi permitido. Tinha um casamento seguro, e as suas saídas nocturnas contavam com o beneplácito do marido ausente. O facto teria sido o chamariz para o desejo dele, enquanto ela só procurava um sumiço da insónia, uma libertação do tédio de um tempo sem marcações rígidas. E ele não estava ali por isso. Mas os homens não podem perguntar abertamente se elas sabem a razão de estarem ali, não é? Culpa dela de o ter arrastado para uma armadilha, reconhecendo as razões, mas não esclarecendo a sua falsa partida, como se o esclarecimento evidenciasse, antes do tempo, as recusas sucessivas de intimidades que ela teria de repetir ao longo da noite. E ele de mãos dadas com ela sentiu uma melancolia tão forte como se aquela cidade ao amanhecer esclarecesse de uma vez por todas o absurdo de estar ali, com alguém que mal conhecia, com os vapores do álcool a toldarem-lhe o espírito e sem o calor da sua própria casa. Nunca na sua vida se tinha sentido tão só.

quarta-feira, 6 de Maio de 2009

Uma no Cravo, Outra na Ferradura...


É unânime considerar-se que a partir dos quarenta é arriscado assumir-se qualquer tipo de imaturidade, sob o risco de criar embaraços nas relações sociais. Mesmo assim, a maioria dos quarentões que conheço continuam a sonhar com futuros onde serão mais inteligentes nas escolhas, mais ponderados nas opiniões e menos arrogantes na postura. Reforçados pelo beneplácito da experiência e da sensatez, julgam-se agora aptos para melhores preferências, desculpabilizando-se das escolhas estúpidas que fizeram há vinte anos. No fundo, rejeitam a ideia de terem terminado qualquer ciclo, ou alcançado a maioridade.

Mas, após os quarenta, os contornos da vida não soam a dejá vu? Não aconteceu já tudo? Serão sempre possíveis menoridades como divórcios e novos arranjos, afastamentos ou reencontros, acertar no totoloto, ou conhecer a muralha da China. Mas as verdadeiras opções que arrasam miolos e causam regozijo, não ficaram irremediavelmente para trás? Poderá vestir um fato adequado, uma gravata mais ajuizada, adquirir um automóvel mais potente ou uma casa com vista para o mar, aceitar um emprego de grande notoriedade, mas nada de basilar. Os amigos que tem serão os últimos, financeiramente marcado pelas escolhas realizadas (a maioria com juros até aos setenta), o nível cultural já definido (com as leituras e os filmes mais marcantes no curriculum) e, nos afectos, os amores futuros serão sempre uma sombra dos do passado.

Mas a idade perdoa mais do que se julga e nem todos se reconhecem no início do fim do caminho. Há os resistentes, não sei se por medo de envelhecer, se por um coração lavado de remorsos e más consciências, ou a uma ingenuidade preservada com uma paciência meticulosa. Esses continuarão à espera de uma saída qualquer. O sonho agarra-se às camisolas como emblemas de clubes e agem como “meninos grandes” com ambições de crescer e melhorar perfomances, naquela mistura explosiva de Peter Pan com ansiedade adolescente, aguardando um toque na porta e alguém anunciando que a felicidade está mesmo ao fim da rua…