Quinta-feira, 1 de Março de 2012

Recomeçar




Na vida nunca podemos recomeçar. Poderemos inaugurar um novo projeto, compor um novo cenário, mas seguiremos sempre com o tempo passado agarrado a nós. Um passado que se pega e se dissolve na nossa natureza. Um passado festivo ou sinónimo de fracasso, mas sempre um processo silencioso que se vai estendendo sobre nós como um cancro.


Olhou pela janela embaciada. O céu frio de um azul baço e, mais ao longe, um cinzento claro que parecia medido a régua e esquadro como uma moldura. Sentia-se esgotado, apesar de ter dormido durante todo o fim de semana. Não sentia tristeza, apenas um vazio profundo, sem qualquer vontade de estar com alguém ou noutro lugar. Encontrava-se numa idade em que a solidão já não é uma ameaça, nem um fardo, simplesmente porque não há alternativa. Assumira que já lhe bastavam os relacionamentos que jaziam em pedaços por toda a casa. Foi aprendendo que as loucuras não se dissolvem no outro mais próximo e que aquele vazio nunca poderia ser preenchido pelo corpo ou a voz de alguém.

Também não queria a piedade de ninguém. Odiava antever no olhar das pessoas mais próximas qualquer vislumbre de pena de si. Por isso nas festas, ou nos aniversários nunca atendia os telefones e mentia depois aos amigos dizendo-lhes que tinha aproveitado a quadra ou o fim de semana para viajar ou passar uns dias na praia. Não acreditavam, mas também não faziam mais perguntas. O grande problema é que a solidão é muito cruel porque nos questiona incessantemente, pede-nos esclarecimentos, justificações. Uma espécie de degredo em que o condenado não percebe as razões concertadas para um final como esse. A memória vai-lhe dando pistas, algumas erradas, esclarece mas não apoia, não altera, não apaga. Mastiga atos, fugas, traições, desmazelos. A memória não inventa desculpas. Depois podemos tentar compor o ramalhete, desviar atenções para outros factos, encontrar indícios que atenuem os dados, em períodos de tempo, em marcas. E ficamos quase eufóricos naquela letargia quando antevemos que talvez nos tivéssemos esquecido de algum indício importante, tal como numa investigação policial um único pormenor poderia alterar toda a acusação.

No meio daquela textura de um tempo opaco que não permite vislumbrar para além da sua própria desilusão, a dissolução dos sonhos como o detergente em água límpida, algo que se escapara das suas mãos sem qualquer despedida. O álcool, as correrias, as relações frias, castigadoras e cheias de azedume pelo facto de não deixar sequer a escova de dentes. O cansaço adquiria contornos surreais como se o seu volume fosse inversamente proporcional ao trabalho ou esforço feito. Recusava agora o mundo quando, após todas as guerras que travara, todos os adversários se tivessem esquecido da sua existência. Quando se trava uma guerra, o adversário teme-o, admira-o, odeia-o. Agora o resultado era o fim das hostilidades, um cheiro a pólvora seca, de fumos de cigarros entranhados nas paredes, de comidas que restavam em pratos por lavar espalhados por toda a cozinha.

Mas naquele dia sentia o cérebro mais ativo, menos nebulado. Julgou reconhecer a argúcia de outros tempos. Tinha que regressar à luta, ficar ali atolado em amarguras e lixo não era um destino que merecia. Bebeu água da torneira, um hábito antigo que também abandonara. Tomou um banho demorado, fez a barba e no final reconheceu-se. Cambaleou até à saída de casa e o sol magoou-o. Um sol de Inverno morno mas com uma luminosidade transparente. Como se pudesse ver o infinito desde que se dispusesse de um telescópio com essa grandeza. Os passos a certa altura aceleraram como comandados por alguém exterior, ele uma máquina em mau estado que parecia querer ultrapassar as suas potencialidades.

E sempre em frente, não sabia onde ir mas julgava não haver qualquer problema nisso. Corria, quase. Absorvia o sol e depois, aos poucos, a sombra da noite como uma necessidade de obter alimento para a alma. O frio gélido libertava-lhe suspiros de fumos cinzentos. Ligou ao João após meses de silêncio. O amigo que nunca poderia desligar-lhe o telefone, aquele com quem poderia sempre contar. Não sabia para quê. A conversa foi dura, como se as palavras tivessem peso e espinhos e saíssem com dificuldade de braços cansados.

- Onde estás? – Perguntou-lhe o João, com uma voz surpreendida.

- Na rua, não sei bem onde estou, apenas caminho.

- Mas vais para onde? – agora, com irritação.

- Vou andando. Apenas quero-te dar um abraço. Sei que tenho sido estúpido e tenho cortado a comunicação. Mas era só para te dizer que estou a pensar regressar à vida. – E fez um som como se estivesse a rir.

- Porra, já não era sem tempo! Como sabes, desisti de te procurar, eu e os outros malucos que se consideram teus amigos. Eles acham que enlouqueceste e não querem mais nada contigo.

- Percebo-os perfeitamente, mas não era minha a intenção de vos hostilizar. Apenas queria que me deixassem em paz. Não era boa companhia, mesmo que sentisse a injustiça de vos ignorar ou tratar mal. Pedir desculpa, é a única coisa com sentido que posso fazer neste momento.

- Ouve, da minha parte não há problema. Apenas quero que encontres de novo um rumo e o que ficou para trás esquece que eu também vou fazer por isso! Quando julgares oportuno aparece para bebermos uns copos. Mas julgo que há alguém merecedor de mais desculpas. Mas quase tenho a certeza que não te vai ouvir. Muitas vezes me ligou a perguntar se fez algo de errado. Aliás, para não teres grandes ilusões, julgo que ela já anda com alguém. Encontrei-a por acaso num bar e conversava com um tipo em situação de grande cumplicidade. Vai com calma.

- Não te preocupes, meu caro. Eu apareço em breve. Um abraço.

Do outro lado já não ouviu mais nada, na voz onde era evidente o desencanto que a amizade também pode originar. Foram décadas de cumplicidades crucificadas apenas por mecanismos de defesa e revolta contra a vida. Colocara em causa tudo o que era importante apenas porque pressentiu que já não conseguia lutar com as mesmas armas que lhe tinham dado as oportunidades e os sucessos.

Ela, na verdade, tinha sido a maior vítima. Como se o desemprego também tivesse sido obra dela, tal como os cuidados, o amor que de forma serena, infatigável e incondicional lhe dera ao longo dos anos.

Andava já num passo apressado havia mais de cinco horas. Apesar do frio que lhe arranhava a face, o suor caia-lhe e embaciava os óculos. Já via o prédio onde ela morava, atraído como por um íman. Tocou à campainha e a voz dela no intercomunicador a perguntar quem era. ”Sou eu, abre, por favor!”

Um silêncio prolongado, sem o ruído do trinco da porta. Percebia a hesitação. Tinham passado seis meses sem qualquer comunicação. Cortara todas as tentativas dela, no fim já a insultava quando ela do outro lado da linha, com lágrimas na voz o questionava sobre a razão de um afastamento sem qualquer lógica.

E agora esperava um sinal junto à porta. O frio rodeava-o como um cão agressivo e colocou os braços apertados contra o tronco para se proteger. Mantinha-se assim não sabia há quanto tempo, uma hora, mais? Até que o trinco se abriu e a voz dela seca, rija, “sobe!”. Com a segurança de que ele esperara. Entrou no elevador, tremia de frio, de medo, de excitação, de vergonha. E quando abriu a porta do elevador ela não estava como antes à sua espera com aquele sorriso bonito e a lançar-lhe os braços ao pescoço como uma adolescente enamorada. Viu apenas a porta da sua casa entreaberta e a luz mortiça do candeeiro do corredor. Aproximou-se, bateu ao de leve e entrou fechando a porta de seguida. Ela estava sentada no sofá da sala de pernas cruzadas com uma revista na mão. A televisão acesa, sem som. Entrou na sala, fixou os olhos nela como num jogo de crianças e só quando ela pousou os dela nos dele disse: “desculpa, se quiseres saio já!”. Ela manteve o silêncio e voltou os olhos para a revista e ele foi-se aproximado do sofá como se tivesse medo que algum assassino se escondesse por detrás da mesa. Sentou-se, mas manteve a distância. Depois já olhava para ela sem pudor, sabendo que estava prestes a receber as palavras mais sentidas e mais cruéis da sua vida. Ou a receber a indiferença mais impiedosa.

Continuava a sentir o frio que o enregelara na porta do prédio e mantinha os braços a rodear o tronco. Sem qualquer palavra ela ofereceu-lhe a manta de viagem que tinha sempre sobre o sofá. Agradeceu, aconchegou-se e recostou a cabeça.
Mais um tempo de impasse, um silêncio gelado como a noite. Lia a revista como se ele fosse um fantasma, um espectro que a rodeara meses e meses sem voz. Uma sombra que foi perdendo a força à custa do tempo e do silêncio. E foi ele que falou.

- Não vim para me perdoares, vim para te pedir desculpa. Não mereço, nem quero a tua piedade. Não tenho argumentos, nem razões para te ter tratado daquela forma, mas no momento em que quero recomeçar a vida, tinha que resolver o que ficou em aberto. Tão aberto que nada poderia começar sem o fechar, sem o resolver de qualquer maneira. Qualquer coisa que fizesse sem o remediar seria engolida, massacrada. Dizer-te que foste a melhor pessoa que conheci não tem qualquer relevância, mas dizer-te que foste a única mulher que verdadeiramente amei, já tem. E não te vou pedir nada. Asseguro-te que será a memória de ti que me vai ajudar a suportar o peso da vida. Porque para seguir em frente há que ter esperança e pessoas como tu justificam a caminhada. Acreditamos nas pessoas se conhecermos gente que valeu a pena.

E continuou, após um silêncio.
-Recomeçar algo que deitei a perder seria um erro. Há desilusões tão fortes que bloqueiam qualquer recomeço. Quando vinha para tua casa pensei nessa possibilidade. Mas seria impraticável pela desconfiança que cresceu desmesuradamente e pelas mágoas que ficaram. Para mim guardarei o melhor que recebi da vida. Aquilo que me deste. Apenas queria dizer-te que lamento o que te fiz e o que te disse.
Levantou-se, junto à porta voltou-se de relance e os olhos dela continuavam pousados na revista. Pareciam emudecidos. Na rua, o reencontro com o frio fazia-lhe lembrar lâminas que lhe fendiam as mãos e a face. O cansaço bloqueava-lhe os passos. Continuou a marcha maquinalmente, como se as pernas obedecessem a um ente exterior. Ele já dormia, quente na cama, mas o corpo continuava sem cessar com medo de se perder.

Nisto viu sinal de mensagem no seu telemóvel, sabia que era dela, tinha a certeza. Quase numa ânsia descontrolável, abriu-a e leu em voz alta para a tornar verdadeira: “ainda bem que vieste, ainda bem que esperaste, ainda bem que falaste. Assim, também eu poderei continuar. Na vida precisamos de fechar portas para que o frio não entre, o frio das crónicas por acabar, das histórias mal resolvidas. Fica bem e esquece-me. Comecei hoje a esquecer-te ”.

5 comentários:

Anónimo disse...

Olá prof. António,

Original,muito atual, é simplesmente maravilhosa esta sua história.É uma verdadeira alegria ler os seus textos.
Parabéns e muitas Felicidades

Aida Oliveira

Anónimo disse...

twoo

Anónimo disse...

birds nerver sing alone...'-))

Anónimo disse...

O poder das palavras é simplesmente surpreendente, por isso, ao ler o teu conto as emoções foram tão fortes e vividas!!!...
O verdadeiro talento é escolher as palavras adequadas e "brincar" com elas de forma a produzir um texto que faça sentido e carregado de sentimento!
Parabéns

Guida

Anónimo disse...

Beijinho, Guida. Obrigado.