
Soa perto de mim o teu murmúrio. Recusamos falar, tacitamente, porque um verdadeiro diálogo faz lembrar um saca rolhas que avoluma o vazio. É melhor viver sem questionar muito a vida, as cedências, as pequenas traições que levamos à frente como uma vassoura que empurra o lixo.
E depois a crise mais do que economia é silêncio e mágoa perante um futuro tão tristonho para os filhos que, inocentemente, continuam a querer amadurecer. Nós que julgávamos que teríamos direito a uma velhice tão calma como o sol de fim de tarde de Verão, percebemos agora que os tempos que se avizinham surpreendem pela sua imprevisibilidade e campo de sepultura de todos os sonhos. Para onde ir quando o mundo inteiro comunga das debilidades? Para onde nos viramos agora quando um abismo nasce em redor?
E quando chegas a casa descalças os sapatos com a mão apoiada na cómoda e a tua face exibe a tristeza da conjuntura, a tristeza das notícias que comungamos como se de uma seita religiosa se tratasse. Sentamo-nos à mesa e o som dos talheres ocupa o silêncio. Como foi o dia? Perguntei, por fim. Olhaste de forma breve para mim, sem tempo para fixares os meus olhos, e apenas sacudiste os ombros numa posição de derrota.
E eu senti-me culpado, não sei bem de quê, e comecei a contar a história do meu amigo Borges que ao fim de tantos anos está na eminência de regressar ao desemprego, um lugar já familiar para ele. A empresa de venda de peças de automóveis não pode competir com outros que usam material de contrabando e passam os dias a olhar para a porta da entrada a rezar para que alguém surja, lhes faça perguntas e mostre interesse nalgum objecto. Uma loja tão arrumada e limpa como se vivesse lá gente e utilizasse aquelas peças para qualquer coisa de útil. Já viste?!
E tu franziste a face como fazes quando a melancolia te exige um sinal, um sinal gráfico que já não necessite de ser explicitado por palavras. Concordo que as palavras estão gastas, apenas são necessárias para que o jantar não seja apenas apunhalado pelo ruído dos talheres. Um som tão metálico que fere os ouvidos, que castiga o silêncio como uma sombra negra.
E depois arrumamos a cozinha, dividindo tarefas ao meio para terminarmos ao mesmo tempo e sentamo-nos perto um do outro a ver televisão. Não dizemos mais nada porque cada vez mais é difícil falar sem nos repetirmos ou depararmos algo digno de nota. A vida é que exige recapitulações e justificações. Temos que argumentar pela sua validade, bondade, apresentar-lhe projectos aliciantes como um estudante responsável. E sempre o fizemos. Agora já nos faltam argumentos, como se fosse um erro continuarmos a querer gostar da vida, e a gostar de nós através dela. As notícias são péssimas para quem quer ser optimista. As novidades lá de fora não ajudam nada quem está dentro. Somam-se fendas, dívidas incobráveis, sacrifícios atrás de sacrifícios para quem tem alguma coisa. Somam-se futuros sem vergonha, futuros que não se desejam a ninguém, nem aos piores inimigos
E tantos dias passaram assim que lhes vamos perdendo a conta, como os velhos que perdem a memória ainda antes de terem razões físicas para isso. Quebras o som monocórdico da televisão e apenas dizes de forma aborrecida
- Isto não pode continuar, Luís!
- Pois não, respondo logo, mesmo sem saber o contexto. Seja isso o que for, sei que não podemos continuar assim. Mas espero que clarifiques, espero ansiosamente que não fique no ar a declaração, pairando sobre nós a sombra da indefinição. Apenas cinco palavras que sintetizam tudo, tudo aquilo que nos faz regressar a casa todos os dias. E após a tua declaração de princípio e o silêncio a seguir, o som da televisão parece que se elevou ao nível do ruído dos talheres ao jantar.
- Sabes que temos que mudar de vida, não sabes?
- Sei. Respondi logo para que não restassem dúvidas perante o meu acerto, a minha clarividência. Mesmo não sabendo ao certo o que ela queria nomear, eu tinha a certeza que fosse o que fosse a mudança era uma exigência. Não sabia qual. O casamento? A falta de dinheiro? A falta de entusiasmo? Pois é, não há salvação para nós, pois não? As contas avolumam-se e os saldos negativos na conta bancária tornaram-se a norma. Terei de encontrar um segundo emprego. O Carlos falou-me numas horas como portageiro da Brisa, ou poderei fazer uns biscates no IKEA. Pagam mal, mas sempre será uma pequena ajuda para nos equilibrarmos. Ah, também prometo diminuir as horas de futebol ao fim de semana. Tens razão, isto já nem é casamento nem é nada! Uma espécie de limbo onde vagueamos sem rumo. Mas não somos já demasiado velhos e pesados para encontrar um novo rumo? Sei lá eu, mulher, o que queres dizer …
- Tens toda a razão, isto não pode continuar assim!…
Repeti com firmeza, também eu estava resolvido. Mas para quê? Poderia ser tudo, mas tudo é nada. O melhor é não especificar! E ela fitou-me longamente, olhou-me com pena, como se tivesse colocado em parênteses tudo ao olhar para esta sombra que paira perto dela como uma punição. Reconheço-lhe esse sentimento no olhar e revejo nele a minha falta de jeito para viver neste mundo dos fortes, da competição, da guerra, da afirmação de si mesmo. Também não me interesso por arte, detesto espectáculos de dança clássica e odeio ler! É isso, deve ser isso. Sou um falhado no campo da estética e da filosofia! Resta-me a esperança que ainda não seja hoje que vá colocar tudo em pratos limpos. Hesita tendo em conta a crise que habita o mundo. A crise que nos engole. Porque ninguém está imune a ela. Todos irão precisar de um ombro amigo para recostar a cabeça, mais cedo ou mais tarde.
Bendita crise.
6 comentários:
Olá prof.António,
Está tudo bem consigo?A turma não o esquece. Um texto cheio de criatividade!Estou com muito receio desta crise.Que futuro estará reservado aos jovens?
Muitas felicidades
Aida Oliveira
Olá Aida! Espero que esteja tudo bem consigo e com os colegas. Um beijinho para si. António
Tinhas de meter portagens na história?!!
Abç
Carlos
É um prazer "saborear" uma boa escrita!...continua.
Beijinhos
Guida
ola professor com vai?EU VOU BEM QUANDO TIRA UM TEMPO PARA ESCREVER MAS UMA DAS SUAS HISTORIAS POR QUE JA CHEGA DE CRISE UM FELIS NATAL PARA TODA SUA FAMILIA JOANA
Feliz Natal Joana, para si e para a família. Vou ver se tenho tempo para escrever. Beijinho, António
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