
Talvez conheçam a experiência científica com um cavalo ainda jovem que ao pousar a pata direita no solo apanhava um choque. Pouco tempo depois a apanhar choques ficou definitivamente manco, não porque tivesse qualquer problema mas devido ao pavor. Esse reflexo mantido vida fora deve ter sido terrível, mas eu conheço outro caso ainda mais grave. Imaginem um cão, que deixado temporariamente só em casa se lembra de ladrar só para criticar semelhante desfaçatez. Como a família chegou após ele ladrar - já que ele ladra sempre que não está a família - uma, duas, três vezes, então meteu-se-lhe na cabeça - bem pequena por sinal - que se não ladrar ficará abandonado para sempre. O pobre bicho condenado a um terrível tique: a solidão obriga-o a ladrar, caso contrário, pensa ele, ficará para sempre perdido num apartamento.
Esse cão é meu vizinho e é o único ser vivo que odeio. Ele é tão pequeno que cabe numa mão, de olhar fulminante, um pelo cinzento claro, mas é de uma maldade infinita. É capaz de estar sete horas seguidas a farfalhar, em tons diferenciados conforme o grau de altercação que insere nas suas conversas. É um cão, mas não é um cão qualquer. É um demónio que assombra as tardes, envenena o ar silencioso e me retira do sério. Sento-me no sofá, tento curar o tempo com a almofada tapando os ouvidos.
A dona do tratante é uma senhora calma que fala como medindo as palavras e com um sorriso eterno a iluminar-lhe a face. Transmite um mundo interior tão sereno que depois de falar com ela fico cheio de remorsos porque passo a acreditar que os meus problemas são apenas resultado de pecados próprios. Não sei se o facto se deve à profissão na fé das filosofias orientais ou de personalidade, mas é daquelas pessoas que impede qualquer zanga porque a zanga esbate-se na sua calma visceral. Dessa pertença a crenças orientais resultam, com alguma frequência, vozes em uníssono, umas vezes como aquele som agreste de um navio que sai do porto, outras vezes um som em crescendo como um vento que entra pela frincha da porta. Mantras recortados por uivos do cão deixado no corredor para não conspurcar cerimónias espirituais e profundas! Para quem ouve é a presença mista de espíritos bons e malévolos…
Há momentos que tenho pena dele. O seu ladrar contínuo remete para maus tratos, como se os donos o devessem levar para todos os seus afazeres ou revezando-se para nunca o deixar sozinho, cumprindo assim as suas obrigações filantrópicas. Depois lembro-me outra vez do cavalo que ficou manco para toda a vida. Não me levem a mal, mas preferia um cão coxo.
1 comentários:
Olá prof. António!
Como está?
Coitado do pobre cão.
"Nem pensa" que a maneira de se manifestar,
...INCOMODA...
Alguém que tem o direito ao seu silêncio,tranquilidade.
Tenho pena do cão!
Mas também tenho pena de quem não tem o seu SILÊNCIO,e que é atormentado pelo (penar) do POBRE CÃO.
São dois seres que vivem revoltados.Dois seres atormentados,pela mesma razão.
Um porque não quer estar só.O outro porque lhe apetece desfrutar de um pouco de silêncio.
E,teimosamente um cérebro minúsculo insiste em não permitir.
Prof. já soube que vai para outras paragens.
O prof. é um ser humano cheio de criatividade,e um bom prof.
Um muito obrigada pelo que nos transmitiu.
Desejo-lhe as maiores Felicidades.
Felisbela Luís
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