quarta-feira, 15 de Julho de 2009

A Casa do Lado


Filomena dava tudo por uma união de facto. Uniões tivera muitas, mas quando chegava a hora de as oficializar e dar um rumo, todos fugiram como as cobras dos incêndios. Perdeu a face nalgumas ocasiões, noutras o orgulho andou pelas ruas da amargura. Rastejou, implorou uma vida a dois, mesmo a mais se tal fosse impreterível, mas nada lhe valeu e a solidão transformou-se num cenário de batalha, com feridas abertas e cicatrizes que dariam para várias vidas. Agora com quarenta e três anos, após conviver com todos os ofícios, parecia ter ficado desempregada definitivamente. O último fora um delegado de propaganda médica que na derradeira visita prometera regresso definitivo e mudança de profissão, mas já lá iam três anos e dez dias e destroçara todas as esperanças.

Vivia numa casa acolhedora e decorada com gosto e cuidava-se de forma sugestiva e exigente. Rua abaixo, rua acima, pose de estrela e olhar cortante, todos os dias a marcar o território. Tal como personagem de comédia romântica transformava a rua num cenário burlesco. Fazia travessuras de menina jovem e atrevida aos homens conhecidos, piada na ponta da língua provocando reacções e trejeitos maliciosos. Dona de uns lábios carnudos, de tal forma pastosos que contemplá-la a beber um café ao princípio da tarde na pastelaria era uma experiência alucinante. Sorvia com algum aparato e o líquido aromático que escorria pelos beiços era desgastado cuidadosamente gota por gota.

Martirizava-se tanto pela ausência de homem fixo que para atenuar a falta comprou um cão. Percebia a diferença, mas os afectos tornam-se mais genuínos ao definirem-se critérios. Gostava do bicho como de um parente próprio, até lhe poderia dar a comida à boca por ser mais esquisito do que um Sultão das arábias, mas quando se tratava ponderar circunstâncias ou identificar finalidades, aí as dúvidas desapareciam e homem metido em casa por compromisso firmado adquiria um valor que cão nenhum poderia presumir. Por isso, qualquer resposta mais atrevida, qualquer atenção mais espampanante, qualquer gentileza mais afectuosa, era logo motivo para uma atenção de ave de rapina. E nesses tempos de entusiasmo quem se tramava era o animal. Devido à birra de só comer de colher pela mão da dona passava uma fome de cão.

Mas no meio dessas manobras os anos foram passando, o cão cada vez mais velho, ela cada vez mais obsessiva. E foi num Setembro chuvoso que arribou à cidade um militar em tempo de reforma e vida familiar num impasse. Após a separação não poderia habitar a casa degradada que recebera de herança e procurava uma casa até resolver os problemas de infiltrações no telhado. Ficaria num hotel até encontrar uma solução. No dia seguinte, entre telefonemas e o diabo a quatro, Filomena não só já tinha a biografia completa do herói de armas, como na mão a solução para o problema. Conseguira a chave de uma casa pegada à sua, cedida temporariamente, enquanto a proprietária fazia vida no Canadá. O encontro com o fardado teve conotações com fina estratégia militar.
Apresentou-se no hotel e pediu para falar com o senhor comandante, recém-chegado. Pouco depois, ele surgiu na recepção meio aturdido, alto e muito magro, com a face marcada de sulcos profundos e vestido de forma atabalhoada. Olhava para todos os lados para identificar alguma cara conhecida, ela acercou-se e interrompeu-lhe a pesquisa.
- Sou o seu anjo da guarda, muito prazer.
- Mas eu não pedi nenhum. Disse ele, sorrindo e espantado.
- Nestas coisas do céu só Deus na sua infinita sabedoria é que sabe.
- Mas eu não preciso de guarda, apenas um tecto impermeável! E deu uma gargalhada sonora.
- Olhem que coincidência! Talvez tenha o que procura…
- Mas olhe que um tecto é uma coisa muito grande e não se guarda facilmente!
- Sabe-se lá, sabe-se lá…

O homem ainda manietado pela surpresa estendeu a mão timidamente, disse o nome e despediram-se após conversa de circunstância. Ao fim da tarde Filomena reapareceu com a solução na mão, uma chave tão reluzente como um castiçal de igreja. O militar recuou numa manobra de contenção,
- Mas eu nem conheço a senhora, porque é que me fará uma coisa destas?!
- Sabe, mas uma amiga comum…
- Mas eu nem tenho amigas na cidade… Depois de uma hesitação. - Agradeço na mesma, cá me arranjo.
- Claro, o senhor é que sabe. Mas olhe que na vida não se pode ser pobre e mal agradecido – e fitou-o com um sorriso aberto, misturado com algum azedume.

Um recuo estratégico. Sabia da enorme dificuldade em encontrar uma casa vaga na cidade e, mais cedo ou mais tarde, anuiria. Uma semana depois, tal como previsto, surge do nada, como mera coincidência e quase tropeçam na esquina feita de loja de sapatos.
- Ah, o senhor general!
- Bom, desculpe, eu não sou general.
- Olhe, não importa, tem corpo para isso! - Ele ria mais do que a elegância o permite. Vamos tomar um café? perguntou ela sorrateira, está bem, respondeu ele a custo, e, ao olhar embasbacado para aquele sorvedouro barulhento, o militar rendeu-se às forças estrangeiras e acertou uma mesada barata por ser um guerreiro que defende o País, caso necessário, com o sacrifício da própria vida. As portas das casas eram tão juntas que se poderia enganar sem escândalo algum, garantia ela ao cão enrodilhado no seu colo, ao mesmo tempo que ouvia os passos lentos do militar no soalho da casa do lado.

sexta-feira, 10 de Julho de 2009

A dor da infância


Analisei-te como se um foco de luz incidisse na tua alma. A leitura foi clara, estavas escrita em letras garrafais e em linguagem simples. Sem obstáculos ao meu olhar. Não tentaste disfarçar a tristeza, a debilidade física e o sofrimento. Julgo que apenas suavizaste a desilusão, talvez porque o teu orgulho te impede de destruíres a grande máxima da tua vida: a vida vale sempre a pena.

Olhavas apenas para mim sem qualquer esforço em pensares em mim. Sabias que eu estava atento a ti e preferiste sair para qualquer lugar onde eu nunca te poderia encontrar. Não disseste uma única palavra e eu levantei-me despedi-me, um “até amanhã”, entre dentes, como se não tivesse a certeza se regressaria. Na verdade, não volto. Não consigo rever-te nessa tua antecâmara da morte, alguém que me acostumei a ver em gestos firmes e movimentos fáceis. Guardarei essa imagem num álbum de fotografias, eu que te aguardava para receber palavras de esperança e de luta.

Estranho esse teu lado de desistente. Um desespero porque a morte não chega. Pretendias que fosse fulminante como um pestanejar. Rezas para que o sono que vai e vem te leve de vez. Já nada te dá prazer, ninguém te arranca um sorriso, como se já partilhasses da morte que ainda esperas.

E agora vamos juntos subindo a serra em passos firmes. De um lado, um pinhal impenetrável separado de nós por um muro baixo. Pisamos a estrada de terra seca e pedras pontiagudas espreitam e reflectem o sol. Caminhamos na maioria do tempo em silêncio. Era ainda tão pequeno que corria para te acompanhar. Nunca fomos grandes confidentes. Nunca te contei as minhas angústias, e tu nunca me trataste como amigo. Gostamos um do outro porque repartimos vísceras, códigos, esconderijos que nos salvariam de ataques cósmicos. Morreríamos um pelo outro, se tal fosse necessário, não pelo amor que nos une, mas por tudo aquilo que nos construiu. E continuamos a caminhar. Sinto o vento gelado na face e dor nas pernas. Mas não te comoverias com lamentos, nem aceitarias interregnos. E já pertinho da ermida de Nossa Senhora dos Prazeres, quando a serra nos servia cenários soberbos, olhaste-me nos olhos, como quem repara em manchas de sujidade para as emendar e comentaste em tom seco: “ Já és grandinho e quero dizer-te algo muito importante. A vida não é para covardes. Se tiveres medo fecha os olhos e avança, se te faltarem as forças nas pernas vai de gatas. Mas nunca te escondas. Se temos muito medo em perder a vida, ela passa-nos ao lado e ficamos para trás.”

Foi mais ou menos isto. Não respondi, apenas assenti com um gesto. E recomeçaste a caminhada. Sabia que ainda faltava metade do caminho para percorrer. Atrás de ti, mas já sem dores nas pernas, nem lamentos. Tal como no resto da minha vida.

quarta-feira, 1 de Julho de 2009

A Vingança


Tenho cá para mim que ele nem a viu. Afirmou-o e jurou-o depois, pela alma de sua mãezinha, que não tinha reparado nela nem correspondido com qualquer galanteio. Segundo o testemunho de alguém bem colocado, ela olhara-o de alto abaixo como se olha um homem para fins não matrimoniais e depois continuou rua acima, em direcção da sua casa que comandava as vistas na praça Duarte Gomes, enquanto ele teria respondido com uma observação cujo conteúdo era diferente conforme as versões. Uns afirmavam que apenas lhe teria retribuído com um simples “comia-te toda!”, outros que se limitara a dizer “ És boa como o milho!”. Seja como for, uma indiscrição que iria custar-lhe a vida, pois o marido não poderia admitir que a sua mulher fosse objecto de um piropo tão cheio de segundas intenções, quando ela tinha em casa um homem que chegava e sobrava para lhe apaziguar todas as labaredas do corpo.

Quando a GNR chegou para o levar para a cadeia do Linhó não só se deixou algemar como manteve o semblante cheio de soberba por ter cumprido o seu dever. Já na cadeia soube que a mulher, afinal, não só continuava a olhar de alto abaixo os homens como os levava para casa, deitava-os na sua própria cama e fazia com eles todas as porcarias descritas em revistas da especialidade e naqueles longos anos debaixo de telha teve a certeza que quando saísse não haveria local seguro, nem longínquo para ela, pois iria tratar-lhe-ia da saúde com todos os preparos sádicos que as noites silenciosas e lentas da prisão lhe davam oportunidade para inventar.

Saiu vinte anos e dois dias após aquele trágico incidente. Estava bem mais velho. A calvície, a barriga meio saliente e as rugas nas mãos testemunhavam o facto com crueza. Fez um sinal de desânimo ao olhar-se pela última vez no espelho da casa de banho. Rapidamente, percorreu todos os pormenores que os vinte anos lhe ensinara a pontuar, lavou a cara após encher de água as duas mãos juntas, parou um instante para ter a certeza de que nada esquecia e encaminhou-se para a porta. Saiu do portão como se estivesse de novo a sair da barriga da mãe. Apeteceu-lhe chorar e algumas lágrimas percorreram a face sem saber bem a razão. O dia encaminhava-se para o fim e o sol por trás do monte iluminava a paisagem seca. O calor abrasador dos últimos dias amarelara as coisas e parecia-lhe que, tal como ele, o mundo envelhecera a olhos vistos.

Ninguém o esperava. A família mais chegada foi morrendo durante as duas décadas como fruta madura. Próximo, ninguém restara. Por herança, coubera-lhe um pequeno casebre na aldeia e uns terrenos de pouco valor comercial, mas capazes de fazer crescer batatas, feijão e cebolo. Sem alternativas, recomeçaria aí a sua vida, depois tinha tempo para engendrar novos rumos. Os primeiros dias ocupou-os a arrumar coisas que ficaram por ali abandonadas, desde roupas velhas, fotografias, artefactos agrícolas que lhe traziam à memória uma infância povoada de rostos afectuosos e vida dura. A maioria deitou no lixo, outras guardou-as em arcas velhas na loja, enquanto as fotografias espalhou-as pela casa. Depois saiu para a rua, cruzou-se com desconhecidos que lhe viraram a cara e no pequeno supermercado comprou pão, queijo e alguns pacotes de leite. Em casa, enquanto comia, decidiu adquirir animais, uma galinha, dois coelhos, dois patos, um porco e duas cabras. Apontou tudo o que precisava numa folha amarelada para nada esquecer na próxima visita à feira da Vila.

E nesse dia o curral – após tantos anos árido e silencioso – era agora um antro de vida, uma espécie de arca de Noé que encerrava a força vital que alimentaria o futuro após o dilúvio. Indivíduos que não se conheciam, mas que, após algumas celeumas e guerra de territórios, pactos e estratégias de intimidação, iam-se acomodando como se percebessem que a partir daí teriam de inventar razões para gostarem uns dos outros. Ele sentado na varanda olhava aquele mundo novo que se aconchegava e sentiu-se feliz pela primeira vez em muitos anos. Construiria algo harmonioso junto aos montes. Com horizontes de perder de vista, um silêncio cósmico apenas quebrado aqui e ali por pequenos movimentos das árvores ou das poucas pessoas que restavam, podia recuperar o espaço perdido na clausura e limpar o coração de velhos ódios que matam como cancros silenciosos. E nesse final de tarde teve a certeza que a vingança que o manteve vivo na prisão tinha cumprido já o seu papel. Agora preferia olhar a serra cheia de pinheiros acotovelando-se uns aos outros, enquanto no curral os bichos se afadigavam a compor a cama, pois a noite não tardava a chegar.