
Não se pode dizer que fora apanhada de surpresa. Quinze anos antes, um parecer médico deu-lhe apenas três anos de vida quando foi descoberto um cancro nos ossos. Nessa altura, apoiada num muro que cercava a baía, chorou pela primeira vez a sua morte e foi-a lamentando todos os dias até ser declarada naquele dia de Natal, num dia de céu azul, mas frio como o gelo.
Correu ao hospital logo que se deu o alarme e, num quarto assombrado por uma respiração rouca de quem queria deitar fora algo que teimava em sobrar, permaneceu imóvel e em silêncio. O dia tinha ficado para trás e o resto da família saíra para preparar o jantar da consoada. Apagou a luz, no quarto entravam reflexos do brilho que envolvia a cidade e acomodavam-se às linhas florescentes dos instrumentos médicos. Pelo silêncio envolvente, questionou-se se naquele dia de festa não teriam todos ido embora deixando-os ali esquecidos. Nessa manhã ainda combinaram o jantar tradicional de bacalhau com couves, mas depois a mudez nunca mais foi quebrada e o seu estado piorava de forma veloz como se estivesse apenas à sua espera para morrer. Cerca das vinte e uma horas faleceu.
Após os procedimentos burocráticos, dois funcionários da agência levaram o corpo para a casa mortuária. Mesmo sabendo da interdição, pediu-lhes um pequeno desvio e eles concordaram, talvez imbuídos pelos sentimentos de generosidade e paciência próprios da quadra. Transportaram-no pela cidade quase deserta, pararam uns momentos junto ao edifício do tribunal onde foi funcionário durante quarenta anos, atravessaram ruas que ele calcorreou diariamente e depois subiram pelo caminho estreito que dava acesso à casa, emoldurado por encostas que caíam sobre o rio. Ao chegar à porta, viu dentro luzes e sombras que passeavam junto às janelas, demorou uns segundos, como para lhe dar tempo de olhar todos os pormenores mais significativos, e depois abandonaram o local. Era já muito tarde. O corpo teria de ficar na casa mortuária até ao princípio da manhã, com hora marcada de saída para norte. Depositaram o caixão sobre uma pedra de granito, mesmo no centro da coxia da capela, agradeceu –lhes a simpatia e despediram-se. Apenas queria ficar uns momentos a sós com ele. Deixaria tudo fechado e encontraria modo de regressar a casa.
Acomodou-se lentamente à obscuridade. Sentou-se numa cadeira mesmo à beirinha do caixão e, no meio do silêncio intenso, ouviu a sua própria voz a comunicar que nunca o deixaria partir sem uma última conversa, aquela que esclareceria tudo aquilo que ficara pendente. E recontou a sua história desde a infância, com pormenores há muito perdidos e desvendados por uma química qualquer. Disse em voz alta coisas encravadas na garganta, realidades que nunca teve coragem de dizer nem a ele nem a ninguém, segredos que despejou ao mesmo tempo, como se fosse uma cheia de água lamacenta proveniente de uma tempestade de Verão. Repreendeu-o pela sua violência e falta de gestos afectuosos, dos anos de alcoolismo que causaram danos irreparáveis na família, situações de mentira por medo dos castigos, mas também do orgulho que calara quando concluiu a tese de doutoramento, com o casamento e o nascimento do neto que adorava. E do amor que restara daquele turbilhão de afectos e desamores que os tinham unido e repudiado ao longo da vida…
E depois disse-lhe um até amanhã, como quem se despede de um amigo e fechou o tampo do caixão com o cuidado que se tem com preciosidades. No dia seguinte quando regressou reconheceu que já não havia qualquer ressentimento, nenhuma mágoa, nenhuma censura, nenhum segredo, e poderiam agora fazer o caminho juntos como dois bons amigos que se encontram e se acompanham mutuamente até às respectivas habitações, sabendo que poderão contar sempre um com o outro. Na memória de ambos ficarão guardados afectos sem mácula, daqueles que nem a morte pode destruir.

