segunda-feira, 22 de Junho de 2009

A despedida




Não se pode dizer que fora apanhada de surpresa. Quinze anos antes, um parecer médico deu-lhe apenas três anos de vida quando foi descoberto um cancro nos ossos. Nessa altura, apoiada num muro que cercava a baía, chorou pela primeira vez a sua morte e foi-a lamentando todos os dias até ser declarada naquele dia de Natal, num dia de céu azul, mas frio como o gelo.

Correu ao hospital logo que se deu o alarme e, num quarto assombrado por uma respiração rouca de quem queria deitar fora algo que teimava em sobrar, permaneceu imóvel e em silêncio. O dia tinha ficado para trás e o resto da família saíra para preparar o jantar da consoada. Apagou a luz, no quarto entravam reflexos do brilho que envolvia a cidade e acomodavam-se às linhas florescentes dos instrumentos médicos. Pelo silêncio envolvente, questionou-se se naquele dia de festa não teriam todos ido embora deixando-os ali esquecidos. Nessa manhã ainda combinaram o jantar tradicional de bacalhau com couves, mas depois a mudez nunca mais foi quebrada e o seu estado piorava de forma veloz como se estivesse apenas à sua espera para morrer. Cerca das vinte e uma horas faleceu.

Após os procedimentos burocráticos, dois funcionários da agência levaram o corpo para a casa mortuária. Mesmo sabendo da interdição, pediu-lhes um pequeno desvio e eles concordaram, talvez imbuídos pelos sentimentos de generosidade e paciência próprios da quadra. Transportaram-no pela cidade quase deserta, pararam uns momentos junto ao edifício do tribunal onde foi funcionário durante quarenta anos, atravessaram ruas que ele calcorreou diariamente e depois subiram pelo caminho estreito que dava acesso à casa, emoldurado por encostas que caíam sobre o rio. Ao chegar à porta, viu dentro luzes e sombras que passeavam junto às janelas, demorou uns segundos, como para lhe dar tempo de olhar todos os pormenores mais significativos, e depois abandonaram o local. Era já muito tarde. O corpo teria de ficar na casa mortuária até ao princípio da manhã, com hora marcada de saída para norte. Depositaram o caixão sobre uma pedra de granito, mesmo no centro da coxia da capela, agradeceu –lhes a simpatia e despediram-se. Apenas queria ficar uns momentos a sós com ele. Deixaria tudo fechado e encontraria modo de regressar a casa.

Acomodou-se lentamente à obscuridade. Sentou-se numa cadeira mesmo à beirinha do caixão e, no meio do silêncio intenso, ouviu a sua própria voz a comunicar que nunca o deixaria partir sem uma última conversa, aquela que esclareceria tudo aquilo que ficara pendente. E recontou a sua história desde a infância, com pormenores há muito perdidos e desvendados por uma química qualquer. Disse em voz alta coisas encravadas na garganta, realidades que nunca teve coragem de dizer nem a ele nem a ninguém, segredos que despejou ao mesmo tempo, como se fosse uma cheia de água lamacenta proveniente de uma tempestade de Verão. Repreendeu-o pela sua violência e falta de gestos afectuosos, dos anos de alcoolismo que causaram danos irreparáveis na família, situações de mentira por medo dos castigos, mas também do orgulho que calara quando concluiu a tese de doutoramento, com o casamento e o nascimento do neto que adorava. E do amor que restara daquele turbilhão de afectos e desamores que os tinham unido e repudiado ao longo da vida…

E depois disse-lhe um até amanhã, como quem se despede de um amigo e fechou o tampo do caixão com o cuidado que se tem com preciosidades. No dia seguinte quando regressou reconheceu que já não havia qualquer ressentimento, nenhuma mágoa, nenhuma censura, nenhum segredo, e poderiam agora fazer o caminho juntos como dois bons amigos que se encontram e se acompanham mutuamente até às respectivas habitações, sabendo que poderão contar sempre um com o outro. Na memória de ambos ficarão guardados afectos sem mácula, daqueles que nem a morte pode destruir.

sexta-feira, 19 de Junho de 2009

O sorriso da Emília


A loucura sempre incomodou. Abana com a comodidade da norma, a felicidade das ideias feitas, a conformidade com os rituais, com os hábitos, com os modelos. Por isso, desde sempre, gerou marginalidade, pois não é possível a convivência pacífica entre uma perspectiva estática da verdade e um discurso disforme, irrequieto e revolucionário. Por isso, todos os génios foram incompreendidos no seu próprio tempo, porque a sua vista alcançava mundos distantes e contraditórios com aqueles que serviam de cenário aos demais.

Claro, que ao lado desta loucura impregnada de genialidade há uma outra mais silenciosa, mais dramática que é a deficiência mental. Doença maldita que suscitou sempre temor e violência, pela incompreensão da sua origem e significado. Foucaut descreve esse percurso dantesco, desde a identificação entre loucura e animalidade - ao mesmo tempo que descrevia os maus tratos infligidos em masmorras de cortar a respiração ou em navios que vagueavam sem rumo - até à visão humanista e integradora que hoje percorre a sociedade ocidental. A loucura, sendo uma doença estudada, diagnosticada, impõe mecanismos técnicos de controlo, infra-estruturas condignas para internamento dos doentes e campanhas de promoção dos direitos dos deficientes. Mas, em geral, todos queremos esquecer a existência do problema e viver longe dos nossos próprios fantasmas.

Vem isto a propósito de uma experiência que vivi há alguns anos após um convite de uma Associação para participar numa colónia de férias na Tocha, com um grupo de jovens com deficiências mentais. Sendo a minha primeira experiência de contacto com a doença ia com o coração apertado, antecipando quadros horrendos, justificados pela ausência de imagens ou análises nos meios de comunicação social. As pessoas não querem falar disso, as famílias que vivem o drama tendem a escondê-lo dos outros, as comunidades de internamento fecham-se sobre si mesmas. Parece que o silêncio é conveniente para todos.

Mas, afinal, a ansiedade deu origem à surpresa de ter à minha frente quase duas dezenas de jovens, de aspecto normal, sorridentes, com comportamentos normalizados. Infantis, mas cheios de significado. Gestos repletos de comunicação, presença em catadupas de afectos, sorrisos que, facilmente, se poderiam confundir com esperança. Ainda hoje me lembro dos seus nomes, das brincadeiras, das canções, das pinturas, da ida à discoteca do Centro, dos olhares esbugalhados e divertidos face a novas situações. Lembro-me do sorriso da Emília, o mais gracioso de todos, ao entrar pela primeira vez numa piscina, batendo com as duas mãos na água, extravasando uma felicidade surpreendente... Aliás, o caso da Emília é paradigmático. Tinha perto de trinta anos e estava há dois anos internada. Desde criança que trabalhava de sol a sol nas fainas agrícolas dos pais, mal alimentada e acomodada numa espécie de galinheiro. A Segurança Social, após denúncia, descobriu-a em condições sub-humanas e determinou a sua institucionalização. As técnicas contaram que alguns dias após o internamento começou a exibir uma personalidade mais afável, sorria com os gestos meigos dos outros, e ficava excitadíssima quando a ementa do almoço era sardinha, pois na casa da família era o conduto das festas. Comia um grande número, engolindo-as inteiras. A fartura fazia-a feliz, ria muito, desvendando os dentes manchados e um espaço escuro no meio deles.

Os dias passavam calmos e devagar. Ao pequeno-almoço e ao jantar as doentes tomavam grandes quantidades de químicos. Comprimidos de várias cores e tamanhos que eram engolidos num trago pela força do hábito e de líquidos. Algumas protestavam, faziam birras, esbracejavam e só a custo todo o procedimento se resolvia. Depois permaneciam mais reservadas, mais melancólicas, perdendo muita da espontaneidade. Eu ficava sempre na dúvida se os fármacos não lhe diminuiriam a vida que elas desejavam ter e a que tinham direito, reconduzindo-as a uma natureza mais pachorrenta, moldada à medida de nós. Os outros.

sexta-feira, 5 de Junho de 2009

A falta que Londres lhe faz...



Reparei nele quando confessava em público que não poderia concluir o curso porque em breve partiria para Londres. Afirmava sem qualquer tremura na voz, com aquele entusiasmo que põe de parte qualquer sombra de dúvida ou resquício de tristeza. O grupo que o rodeava calou-se quase ao mesmo tempo e alguém comentou.
- Quem me dera! E vais com quem?
- Com o meu pai. – Foi evidente o orgulho quando disse “pai”.

De baixa estatura, com uma cara redonda que faz lembrar queijos da serra, cabelo à escovinha e olhos grandes, idade próxima dos vinte anos. O corpo disforme, largo e as mãos nos dois bolsos forçavam as calças de tal maneira que parecia eminente a sua queda. Faz parte de uma turma arrumada à pressa para quem nunca gostou da escola, nem se importou em aprender, nem se comoveu com futuros mais lúcidos, e que novas oportunidades os empurraram contra paredes que eles desprezaram no seu devido tempo. Agora ganharam posturas mais serenas, alguns com remorsos sinceros de não terem levado em conta deveres antigos. Um perguntou-lhe:
- Mas o que vais tu fazer para Londres?
- O meu pai tem lá emprego e eu espero encontrar um rapidamente. E se tudo correr bem nunca mais volto.

Afirmações num tom de voz mais agudo, com crueldade, como se estivesse a vingar-se de alguém, ou de muitos, possivelmente do País. Na sua mira Londres, a cidade que desfila nos sonhos dos mais novos. Lá haverá trabalho e a vida que falta aqui. Quero lá saber do sol. O que já apanhei dá para uma vida inteira. Monopolizava a conversa. Sonhara demasiadas vezes com o projecto e tinha na manga trunfos que geram entusiasmo. Apanhava-os de surpresa e a maioria invejava a sua sorte. Notava-se que queria prolongar aquele momento como uma expiação de invisibilidade antiga e agora transformado numa celebridade apanhada pelas objectivas dos paparazi. Mas a aula ia começar e ele saiu de cena sem eu dar por isso.

Dias passaram. Não muitos, talvez duas ou três semanas. Ontem cruzamo-nos no corredor, sozinhos e ambos sem firmeza nos passos, hesitando na direcção a tomar. Num corredor tão vazio e silencioso como se ambos andássemos num local de passagem proibida. Olhei para o relógio, depois para ele e fez-me um gesto de reconhecimento. Lembrei-me de Londres e do sortudo em lista de espera.
- Tudo bem? Perguntei-lhe. Ele olhou-me com um embaraço esquivo e, como se me devesse uma explicação, atirou-se decidido ao assunto.
- Já não vou para Londres! Com semblante magoado de uma criança a quem lhe retiraram um brinquedo por simples maldade. - O meu pai adoeceu gravemente. Uma crise na semana passada levou-o ao hospital.

Depois o silêncio, no meio de um corredor desabitado, assombrado por rostos enormes de uma exposição de cariz étnico.
- Tenha calma. Quando melhorar, poderão pensar de novo na viagem. - Disse-lhe.
- Não, para ele acabou-se. Terminaram-se as viagens. Tem uma cirrose em último grau e esteve internado no hospital toda a semana. Agora deixou definitivamente o álcool, caso contrário corria risco de vida.

Não olhava para mim, mas para qualquer ponto fixo no fundo do corredor. Parecia estar a contemplar o cenário da sua própria vida, um pai doente, uma porta do aeroporto fechada, um País sem qualquer esperança e uma escola sem qualquer atracção. Com as mãos nos bolsos continuava a pressionar as calças como se fosse uma tarefa espinhosa que teria de concluir mais cedo ou mais tarde. E continuou.
- Agora às sextas-feiras tenho de faltar às aulas. A minha madrasta trabalha nas noites de sexta e fico em casa a cuidar dele. Faço-lhe chá e recados para não ter que se chatear. Sabe, ele não pode irritar-se. Os nervos dele andam em franja devido à falta do álcool e o stress em excesso poderá ser fatal. Já teve crises horríveis e parece que vai morrer.

Fitei-o com pena, para a sua triste figura, acabado, como se tratasse de um velho de dezanove anos. Um incómodo e um peso que duplicavam à medida que o futuro se tornava lúgubre como o céu de Londres que ele nunca viu. Já perdera o destino que lhe daria de volta a vida, agora poderia perder o pai, o único super-herói com poder de o tirar daqui para fora, libertando-o desta vida de vexames e solidão. Insistiu.
- Qualquer irritação poderá matá-lo e a minha madrasta chateia-o de vez em quando. A única solução seria um transplante do fígado e há uma hipótese de ser eu o doador. Não sei ainda…

Para mim chegava. Não queria mais pormenores, não queria mais confidências. Deixei de o olhar e espiava agora o corredor que continuava desguarnecido, como um estádio depois do dia do jogo. O meu vizinho persistia em tentar tirar as calças do seu sítio e a olhar para o vazio. Era a segunda vez que nos encontrávamos e sabia mais pormenores dele e da família do que da maioria das pessoas que conheço. A sua tristeza profunda, a falta que Londres lhe fazia, apesar de nunca lá ter ido, um pai com uma cirrose e dono de uma irritação que o poderia matar, os chás que lhe compunha às sextas, enfermidades que o deixaram apeado no aeroporto, bebedeiras largadas por medo da morte, do seu problema crónico com as calças, do ódio ao País, ao sol, à escola.

Entretanto, chegavam a conta gotas caras conhecidas, como numa peça de teatro a decorrer em campo aberto. Personagens que passavam por mim desculpando-se do atraso com razões pouco verosímeis, de tal maneira que coloquei a hipótese de que todos estavam coniventes para que ele se libertasse da culpa de eu estar na posse de velhas histórias que o destino tinha alterado. Antes de entrarem, olhavam de soslaio para aquela figura que se encostava a mim como se estivesse apoiado, com uma face redonda - tipo queijo da serra - e semblante triste. Apertei-lhe a mão para o mandar embora, resmungou qualquer coisa que não percebi e lá dentro, após a acalmia, narrei histórias que se prolongaram noite dentro sobre vidas tão complicadas como teoremas matemáticos, filhos quase menores que cuidam de pais que poderão morrer nos seus braços, doadores de fígados saudáveis para transplantes e chás aos fins da noite, na esperança que, num dia, as portas do aeroporto se abram de par em par e o nome deles sejam enunciados num altifalante, passageiros atrasados no embarque para Londres.

quarta-feira, 3 de Junho de 2009

Quando nos arrastamos em busca de nós...


Sem sombra de dúvida, naquele dia, iria jogar todos os seus trunfos. Era agora ou nunca. Sentia-se tão forte como um rochedo, defendido por todos os lados. Não havia qualquer risco que colocasse em perigo a sua certificação. Seria delicado, interessante, perfumado, sereno. Esperaria dela um momento de fraqueza, um ápice de fragilidade. Mas não tinha pressa, poderia ser amanhã ou mesmo depois. Aguardaria a estocada final para o momento propício. Vivia obcecado com a possibilidade de a ter, solução para todos os seus enigmas, ponte para futuros risonhos. Seria feliz, ganharia aquele estado de espírito de bem-aventurança própria dos afortunados. Ao longo da sua vida dispôs de poucos instantes onde fosse tão evidente o caminho para a realização pessoal.

Subiu as escadas, bateu à porta com o nó dos dedos, esperou resposta, bateu novamente com pouco vigor, depois com mais força, até que concluiu que ninguém o esperava. Desceu a escadaria com a garganta a saber a fel. Foram amigos, mas um dia fitou-a nos olhos e, quase sem pensar, admitiu-lhe que se alterara a forma de a ver. Agora, julgava ter encontrado a mulher da sua vida. No início, ela declinou amavelmente a reviravolta, mas após tanta insistência e quando, finalmente, julgava poder contar com o seu colo, ela recusara estar no local combinado. Se eu não estiver, o melhor é nunca mais me procurares, disse. Poderás ganhar tudo ou perderes o muito que tens. Foi da tua responsabilidade, mas ao chegar-se aqui não se pode voltar atrás.

E com o vento forte a levantar-lhe os cabelos, sentiu-se mais uma vez um miserável, objecto de repulsa e traição. Sempre acreditou que os outros seriam a fonte da sua liberdade, da alegria, da sua acomodação ao Universo. Admitia que a felicidade é desempenhar um papel destinado pela ordem universal, ocupar o seu lugar natural de que falava a cosmologia antiga. O Cosmos é uma espécie de puzzle infinito, onde cada ser, cada coisa, se vai encaixando, se vai aconchegando, ao mesmo tempo que se conquista a convicção de ter chegado finalmente a casa. Até atingir esse patamar, todos terão de resistir aos vazios, à envolvência do medo e da tristeza que os rodeiam como a ventania. No telemóvel em chamamento olhou para o nome dela a brilhar no mostrador, mas não atendeu. Suportou a inércia como se o facto o libertasse de todo o vazio que se seguiria. Chegou a casa, deitou-se no sofá com as pernas apoiadas na secretária, abriu a televisão num canal onde séries americanas passam sem intervalos, um calmante feito de histórias com finais felizes.

Uma hora depois acordou e sentiu-se desabitado, tão oco como uma noz vazia. Olhou pela janela e o mundo continuava com o mesmo ritmo, o mesmo cheiro, um cenário semelhante ao mundo de ontem e de anteontem. Manchas verdes, outras mais escuras de cor da terra, uma encenação dourada por um Verão abrasador. O céu dotado de azul transparente destacava o branco das casas que pareciam adormecidas pela canícula. Concluiu que o Universo não se submete às nossas manifestações de ansiedade, egoístas e mesquinhas aspirações de poder, ânsias de heroísmo capazes de resolver as fragilidades que nos maltratam. Se resistirmos e nos recostarmos serenamente a um tempo frouxo que faz amarelecer a erva dos campos e amadurecer as frutas das árvores, num silêncio absoluto – só cortado aqui e ali pelo frágil balouçar das ervas esguias – então, conseguiremos reencontrar a nossa natureza, a nossa liberdade, a nossa fortuna.