terça-feira, 28 de Abril de 2009

A Mãe e os Extraterrestres


- Não sei o que tenho, filho.
- Dói-lhe alguma coisa?
- Não, sinto-me oca. Esvaziada. Não sei como te explicar…
- Isso passa. Aliás, estás com boa cara. Queres comer alguma coisa?
- Não tenho fome. Quero apenas dormir.
- Mas desde quando te sentes assim?
- Desde ontem. Não comentes com ninguém, mas tenho a certeza que extraterrestres estiveram aqui no meu quarto e estou com a impressão de que ficaram com algo que era meu.
- Não diga parvoíces, mãe! Extraterrestres, logo aqui, em sua casa, com um universo de um tamanhão incompreensível…
- Não brinques com coisas sérias! Durante a noite, acordei e numa luz intensa vi um ser estranho, pequeno, com um andar vagaroso, tipo câmara lenta e com umas antenas na cabeça. Esfreguei os olhos para ter a certeza que não era um sonho. Juro-te que foi verdade! Sabe-se lá o que me fizeram…
- Oh mãe, então foi isso?! Era o seu neto que foi à casa de banho do seu quarto, acendeu a luz e levava aquele capacete dos jogos que lhe ofereceu pelo Natal. O andar pé ante pé era para não a incomodar. A mãe acordou quando ele, sorrateiramente, saía com o foco de luz a incidir sobre ele.
- Dizes isso só para me acalmar. Porque é que o João iria àquela casa de banho se tem a dele no andar de baixo?
- Então não te dissemos que tínhamos de chamar um canalizador para reparar aquele problema naquela casa de banho? Falámos nisso ao jantar…
- Não me lembro de se conversar sobre isso. Mas, então, a minha náusea é psicológica, como tu dizes sempre?
- Pelo menos não foram extraterrestres! Lamento, mãe…

sexta-feira, 24 de Abril de 2009

Como desenferrujar a vida


Às vezes oxidamos a vida, tiramos-lhe o brilho e andamos para aqui com sintomas mórbidos de quem perdeu o caminho. Arrastamo-nos, como se as peças mal oleadas impedissem ritmos mais feéricos. Com a pose de “coitadinhos” como se nada pudéssemos fazer para contrariar os ventos pouco favoráveis.

Só a arte nos salva, como afirmava Nietzsche. Ter a coragem de fechar os olhos, percebermos o que é essencial, depois deixar que a imaginação e a sensibilidade nos levem para bem longe. Ao contrário do que muitos pensam, não é apenas a solidão, os desgostos de amor, a falta de ligações afectivas que nos fazem arrastar os pés pelo chão. É igualmente o peso de uma vida sem a leveza da arte. Uma vida com o peso absurdo do quotidiano, com a opacidade das coisas e com os problemas comezinhos que nos agarram ao chão. Com tudo aquilo que nos impede de ver a luz.

A solução, na maioria das vezes, encontra-se na luta contra a inércia. Aqui deixo alguns conselhos para mim e para quem os apanhar:

Desligar a televisão, ligar o rádio e iniciar a leitura do livro comprado há um mês e meio;
Desligar a televisão, analisar a página cultural de um jornal, sair porta fora e ir ao teatro;
Desligar a televisão, examinar as estreias da semana, correr e ir ao cinema;
Desligar a televisão, manter o rádio desligado, pegar num papel e escrever tudo o que lhe vier à cabeça;
Desligar a televisão, pegar na família, nos amigos e passar a tarde num museu;
Desligar a televisão, fechar os olhos e sonhar;
Desligar-se de tudo, sair de casa e ir fazer uma caminhada para a serra mais próxima;
Ligar-se ao
www.myflyaway.blogspot.com ouvir música, olhar as fotos e fantasiar…

segunda-feira, 20 de Abril de 2009

A Clareira



Era incapaz de viver sem aquele espaço, onde descansa ao longo da tarde, vendo o sol correr. Ao fundo corre um ribeiro, escorregando docemente na Primavera e no Inverno, cheio como um ovo, numa luta violenta contra o rego estreito. Um espaço aberto na enorme muralha de betão que cobre todo o horizonte. É minúsculo, tão pequeno como um campo de ténis, e apesar de todos os outros à sua volta já se esconderem por baixo de moradias, o dono nunca quis desfazer-se dele. É uma clareira que reflecte o sol e ganha cores diferentes consoante as horas do dia. Frequentes vezes, procuram-no quando se resguarda por baixo da única árvore existente – uma pereira baixa que há muito não dá frutos – repetem-se vozes que o convocam pelo nome. Levanta-se contrariado, após tanta insistência, e explica aos promotores imobiliários que não precisa de dinheiro, apenas de sossego.

E quando a escuridão abarca tudo, ele retira-se e caminha cabisbaixo, frente às moradias envoltas por muros soberbos e avisos de alarmes, como se as pessoas procurassem a segurança das prisões em vez da liberdade dos ribeiros que correm sem destino e dos ramos da pereira que balouçam ao som do vento. E vai matutando no sumiço de humanidade, pois vive-se sem sentir o frio do universo ou o calor do tempo. Prefere-se água engarrafada e equipamentos eléctricos que constroem atmosferas imunes a diferenças de temperatura. Estamos cada vez mais afastados de nós mesmos, porque cada vez mais afastados da nossa própria origem.

Amanhã regressa e permanecerá até que o sol se retire para o reino do negrume. De novo recusará os chamamentos dos promotores imobiliários que não concebem um terreno verde sem um cobertor de cimento, e sonham com gaiolas rodeadas de arame farpado e rebates, onde gente viverá acantonada, longe das janelas e com os passos limitados pelas mobílias que se empurram umas às outras. Fazem aposentos com ligação directa à terra e desaparecem neles como em túmulos.

E naquela ingenuidade própria de quem espera a morte - que alguns teimam em denominar loucura - considera que é obrigatório manter aquela ferida aberta. É por ali que a Terra respira. Sem aquela brecha a Terra ficaria sem fôlego.

sexta-feira, 17 de Abril de 2009

Narcisismos


Quebras o silêncio com pequenos espasmos. Aninhas-te com a cabeça encostada na parede. Em posição fetal e com o braço servindo de almofada tento não me mexer para julgares que durmo. De tempos a tempos lanças lamentos baixos, que se agarram às paredes e que vão escorregando até saírem pelas frestas do chão. Tenho tanto sono que o corpo pesa-me como se, pendente, o tivesse de segurar à beira de um precipício. Só queria que tentasses dormir.

Estremeço com a tua voz rouca, largada na escuridão densa, e choras profundamente. Depois, não sei quanto tempo depois, acordei quando te afastavas do quarto. Não fui atrás de ti porque esgotámos as palavras e sentia-te tão só que não cabia mais ninguém ao teu lado. Ouvi a mala rígida contra as paredes do roupeiro, agora reconhecia o som de roupa amontoada, pouco depois os sapatos a bater no mármore do hall de entrada. Saíste para a noite sem nada dizer. Sabia que não voltarias, tal como tu sabias que eu nunca te iria procurar.

Agora já posso dormir. Não me sinto responsável pela tua solidão, tal como tu nada tens que ver com o meu desencanto. Refugias-te nos braços da noite porque é bem mais fácil chorar num automóvel em andamento e com o rádio ligado. Não te acompanho. Prefiro encontrar uma saída e dormir um mês inteiro. Gostas de mim, repetiste vezes sem conta, ensinei-te a colocar os dedos nas feridas e a rir de ti mesma, mas não me consegues amar. Continuas a pensar no teu ex-marido, dizes, mas julgo que é apenas uma desculpa que dás a ti própria. Tu queres alguém que lhe faça frente, mais elegante e mais rico, mais belo e mais poderoso e dessa forma o possas ostentar. Não encaixo nessa tua vingançazinha, não é? Por isso, não sofro com a decisão de largares uma casa que nunca foi tua. Por me largares, pois nunca te pertenci. Ficarei por cá, só, mas sem culpas e sem qualquer urgência em seguir-te na tua jornada nocturna.

Há esferas na solidão que dão mais paz do que angústia. A que se desprende da tua saída não me provoca azia. Já estava preparado. Tu não, pelos vistos. Vais à procura de uma ninharia sem corpo e sem alma que apenas se reproduz na tua imaginação por exigência do teu narcisismo. Uma bofetada a alguém que já nem se lembra que existes. E é esse o lado negro desta história. Vai obrigar-te a caminhar em frente, procurando algo que não sabes o que é. Deves lembrar-te de que só poderemos procurar o que reconhecemos, caso contrário, poderemos encontrá-lo e nunca o saberemos.

terça-feira, 14 de Abril de 2009

Sei lá eu o que quero dizer!...


Ontem, alguém me dizia que nunca teve jeito para amar demais. Não tem feitio para se enfastiar de amor. Prefere ter mão nos afectos, no seu questionamento, até na possibilidade do seu afundamento. Como se a realidade do amor também guardasse a chave da sua auto-dissolução. Tudo claro e límpido como é translúcida a água que corre da montanha. No amor cabe a cautela. Poderá parecer uma traição ao amor, mas é a forma de recusar caminhos sem saída. Temos de ter os pés no chão, não é?

É difícil a conversa. Decorre como se nós, os homens, não soubéssemos do que falamos. Como se o tema da paixão fosse coisa feminina, ou assunto situado no lado obscuro da masculinidade. Matéria nebulosa, tantas vezes camuflada em dislates, anedotas e risos alarves. Como se nós, homens, nestas coisas do amor, não tivéssemos dados seguros para retorquir, desilusões para nos entretermos, silêncios que recolhem pedras que não deixam afundar-nos. Como se nós, os homens, não tivessemos também que escolher entre a frieza do nada ao caos do tudo, entre a desesperança da solidão à parceria desenfreada, mas sem futuro…

Há uns anos, um amigo rompeu com a namorada que o acompanhava desde o fim da adolescência. Romper, talvez não seja bem o termo, mas decidiram, de comum acordo, umas férias, na convicção de que serviriam de fôlego a uma relação em impasse. Como sabemos, as férias no amor são o prelúdio do seu próprio encerramento. Não pelas férias, mas porque ao serem possíveis, a vida continua. Quando se respira, de repente, percebe-se que é mais fácil do que parece perder-se quem está ao nosso lado. Assim, ela foi para Barcelona com umas amigas e ele ficou, primeiro esfregando as mãos de contente pela disponibilidade total do tempo, depois desconfiado com a opulência da vida nocturna de Barcelona, no fim desesperado pela possibilidade do naufrágio. Estávamos na Costa da Caparica, num fim de tarde quente como um forno e passeávamos à beira-mar, ele com o pensamento e palavras nela que, lá longe, semeava dias sem transparecer qualquer saudade. A certa altura - numa decisão tomada muito antes dessa tarde regada com sol – testemunhou-me que para continuar a confiar nela teria de saber que não havia mais ninguém na história e que nos passeios à beira-mar ela teria o mesmo semblante reservado que ele. Se tivesse alguém resolver-se-ia de vez o caso, se tudo decorresse com normalidade regressaria a Portugal sem que ela notasse a sua presença. Perguntou-me se o acompanharia. Primeiro, tentei dissuadi-lo a não fazer papel de espião em território tão armadilhado, mas com a sua inflexibilidade, naquelas respostas prontas que se dão aos amigos, concordei em acompanhá-lo.

Um dia depois estávamos nós em Barcelona, esfomeados, ensonados, após doze horas de condução sem paragens. Não tínhamos alojamento e armámos tenda num parque de campismo cheio como um ovo. Descansámos umas horas na convicção de que as amigas ocupariam as noites de tal forma que os inícios dos dias serviriam para descansar. Ele conhecia a morada do apartamento e montámos guarda a partir da tarde, princípio de noite e noite dentro. Nem sinal dela. Na manhã seguinte, com o desespero, bateu à porta com flores na mão e um discurso ensaiado de que não resistira às saudades e foi informado que ela regressara a Portugal uns dias antes. Na minha ingenuidade pensei que naquela tarde quente estaria algures na Costa a ver-nos passear na praia, ou em vigia aquando da nossa partida para a Catalunha. Mas não foi isso que aconteceu. Na verdade, a namorada veio mais cedo para Portugal porque se apaixonou por alguém que não pertence à história e teve de encurtar a estadia para o acompanhar. O meu amigo não o soube logo, mas não tardou em reconhecê-lo da pior maneira.

Não faço ideia porque se diz que no amor não há cautelas. Nem sei sequer porque contei esta história de Barcelona. Talvez porque na vida muitas vezes se cruzam papeis, aqueles que se identificam como adequados ao universo masculino ou feminino, e esquecemo-nos que os papéis estão invertidos seja qual for o traidor ou o traído, o que se agarra ou vai em frente, o que espera ou o que ousa libertar-se, o que se solta ou se prende como uma estaca ao passado. Afinal, no amor como em tudo o resto, não poderemos trocar a vida por um prato de lentilhas. E as lentilhas tanto podem significar ficar à espera na praia, como não esperar em Barcelona…

segunda-feira, 6 de Abril de 2009

O que fazer da vida depois da vida?



Conheci-o num daqueles encontros que nascem do puro acaso. Aconteceu numa sala de estar de uma clínica dentária, quando o cliente precedente sofreu uma intervenção cirúrgica não programada e os seguintes, com marcações ao milímetro, tiveram de se acomodar ao tempo como a um cobertor de lã numa noite de Inverno. Fomos ficando para ali trocando as pernas e os olhares na ânsia de que a assistente do médico recomeçasse a contagem em ritmo mais sensato. Quando o sol já se escondia por trás de uns prédios fronteiros à janela, ela chegou com um semblante tímido como se fosse culpada de qualquer maldade e levantei-me ainda antes de verbalizar o meu nome. Já ia a caminho do gabinete quando regressei à sala, arrependido, cumprimentei o meu comparsa de espera e disse-lhe de uma forma nebulosa: “Se tivesse talento e persistência contava a sua história num romance tão grande como a Guerra e Paz, do Tolstoi, conhece? ” Ele sorriu, assentiu com a cabeça, e afirmou: “mesmo sem o talento se a quiser é sua. Apenas exijo que conte a verdade, tal como eu lhe contei.”

Agradeci-lhe, apertámos novamente as mãos e já com a boca aberta na cadeira do estomatologista - a fim de abrandar os sintomas de desconforto de dedos revestidos de plástico e brocas barulhentas - tentei recordar os traços gerais de uma crónica inacreditável de sobrevivência que o meu recente amigo me tinha narrado. Abraão Jesus do Rosário nasceu em Diu, uma pequena ilha com 15 quilómetros de comprimento e 5 de largura, situada estrategicamente à entrada do Golfo de Cambaia e que esteve 450 anos como parte integrante dos territórios portugueses na Índia. Foi invadida por tropas indianas em 17 de Dezembro de 1961, retirando a soberania e os poucos soldados portugueses que lá permaneciam. Da mudança quem mais sofreu foram os autóctones de etnia católica lá residentes, identificados com suspeita e espezinhados como cúmplices com a agora denominada ocupação estrangeira.

Foi a sua primeira revolução. Tinha ele quatro anos e vivia com os pais e três irmãos. Para a invasão foram mobilizadas tropas do norte da Índia de forma a que as acções de intimação não fossem ameaçadas por sentimentos de proximidade e de compaixão. Violações, prisões e mortes começam a constar-se na comunidade e o medo invadia as casas como cheiros nauseabundos. O terror apoderava-se de todos. Quando, numa manhã, um soldado entra em casa com a arma apontada não foi propriamente uma surpresa. Apenas a mãe e os meninos estavam, estes rodearam a mãe com lágrimas e mãos entrelaçadas e, ainda hoje, ele acredita que o gesto impediu a consumação da violação. Mas este facto, teve também um significado para ele, de que mesmo a humanidade mais obscurecida pelo preconceito e ódio mantém, lá no seu fundo, a faculdade da dignidade e do perdão.

Não havia tempo a perder. Depois daquele enorme sobressalto, a família teria de partir quanto antes, pois havia a possibilidade do retorno da barbárie. Como não havia ligações diplomáticas entre Portugal e a Índia, para aqui chegarem teria de ser através de um terceiro país. A alternativa foi o Paquistão, relativamente próximo de Diu. Não me forneceu informações sobre a fuga e a passagem para o novo país, nascido e criado sob ódios e desconfianças, mas imagino as incertezas, os temores, os obstáculos a ultrapassar até atingirem um bom porto. Lá empenham todas as economias nos passes marítimos que os traria para Portugal. Não era um barco de passageiros, não tinha quaisquer comodidades e com outros refugiados acotovelavam-se em espaços reduzidos. Desta aventura lembra-se das náuseas, do desalento, mas fundamentalmente da fome. Ainda consegue identificar hoje o seu sabor, um paladar metálico, algo corpóreo, como se pudesse cortar com uma faca. Numa noite, no meio do desânimo, a mãe trocou o anel de casamento por uma tigela de arroz, dividida irmãmente pelos seis. Dei-me a pensar no olhar expectante dos meninos, nos seus gestos temerosos perante um oceano sem limite e no balouçar ritmado do navio. Chego a imaginar uma tempestade que durou vários dias e que acentuou a angústia e causava ruídos fantasmagóricos no casco já envelhecido do navio. Mas ele não me contou esses pormenores, não houve tempo para isso. E tantos dias depois entram na barra do Tejo, sem qualquer convite e sem ninguém à sua espera. Sem que houvesse à chegada qualquer sinal benfazejo.

Mais um hiato no tempo histórico. Agora consigo vê-los pela murada de um outro navio a caminho de Moçambique. Eles olham de longe para a cidade de Lisboa, mas agora com a esperança no rosto. As crianças sorriem, correm pelo convés umas atrás das outras. A razão da opção foi a enorme comunidade de colonos de origem indiana que os acolheria e as oportunidades económicas oferecidas pelo poder político a quem quisesse recomeçar a vida por aquelas paragens. Encontrariam lá a sua segunda casa. A revolução do 25 de Abril de 74 encontrou-os bem instalados, numa vivenda cómoda, suficientemente grande para todos se espreguiçarem sem receio de baterem uns nos outros, e com entradas para o sol em todas as direcções. A segunda revolução. Os pais e os irmãos saíram com os primeiros sinais de alarme, ele ficou para tentar manter haveres e o emprego, mas resistirá pouco tempo aos ventos de radicalismo e de suspeição. Um ano depois também ele regressará à Metrópole, novamente sem nada e sem qualquer perspectiva.

Em Lisboa voltam a reunir-se. Durante quatro anos coabitaram os seis num único quarto. Um tempo novamente de recomeço, de carências, de hesitação. Um tempo de vazio. Mas aos poucos a família vai encontrando o seu caminho, cada um por sua vez, como se a vida proviesse de barragens com pouca água que escorria por regos pouco profundos. Os filhos terminam os cursos superiores, encontram empregos, os dois irmãos mais velhos casam e semeiam-se em casas todas próximas umas das outras, como se a proximidade fosse um dos remédios que os libertara sempre de males maiores.

E depois chegou a época de relativa prosperidade, participando no florescimento do próprio tempo e da sociedade. A família cresceu fortificaram-se raízes, como se o passado tivesse ficado irremediavelmente para trás. Mas os primeiros anos do novo milénio trariam nova desilusão. A economia começou a dar sinais de fragilidade e perdeu quem apostou em poupanças de risco. E foi o que lhe aconteceu. Não foi ganância, mas uma relação de amizade e de confiança com um angariador, e todo o dinheiro reunido em trinta anos, por ele e por toda a família, de um momento para o outro esvai-se sem deixar pista. Foram várias centenas de milhar de euros. A sua grande mágoa é que foi por sua iniciativa que a família repartiu os prejuízos.

E com o mesmo sorriso olhava agora para a minha face de espanto. Como é que conseguiu manter-se equilibrado? Como é que não desistiu? Como é que não anda em psiquiatras, ou em bruxas, ou sedado por anti-depressivos? E ele mantinha-se tão calmo como se aquela história não fosse dele e da sua família e a tivesse inventado ali mesmo. Sabe, afirmou, para quem podia perder tudo em várias épocas da vida, continuar é um ganho considerável. No meio dos desastres ficou a vida, a família, os afectos e a possibilidade de recomeço. De reinventar tudo quando foi necessário. O resto é ínfimo comparado com o que ficou. No meio de tudo isto aprendi duas coisas fundamentais: nada do que se tem se deve guardar como um tesouro e devemos estar sempre prontos a reiniciar.

E já apanhava o vento fresco da noite, lembrei-me dos ensinamentos de Buda que um erro é sempre um renascimento. No caso dele, apenas o erro de estar no sítio errado, na hora certa. Ou vice-versa, não sei…

quinta-feira, 2 de Abril de 2009

A Menina de Olhos Cor de Azeitona


Tem um sorriso tão doce como massa sovada, fermento de recato e simplicidade. Quando se ilumina na face esquecemos o supérfluo e atesta a sua boa relação com a vida. Os cabelos pretos, soltos no ombro, vagueiam ao ritmo lento da passada, numa pose adulta que despreza a idade ainda tenra. Onze anitos. Encontra-se, pois, numa indefinição de estatuto: não é menina, nem mulher. Não gosta nada que a considerem criança, mas mantém aquela postura leve, sonhadora e irresponsável só por elas repartida. E não tem pressa. O perfume do presente vale por si mesmo, reconhecendo apenas sombras e sinais risonhos de um futuro que não tarda.

A sua grande paixão é o mar. Da janela do seu quarto rompe um tão grande como o céu, e é engraçado porque nunca tem a certeza se ao longe são espumas ou nuvens que flutuam. Mas no termo do horizonte encontram-se e fundem-se umas nas outras e, às vezes, gosta de pensar que o fim do mundo está mesmo à sua frente e quase pode tocar-lhe com a mão. Usa uns brincos com feitio de golfinhos, os seus amigos imaginários nas muitas aventuras oceânicas em que participa. Tem uns olhos pretos, cor de azeitona, que parecem não ter fundo. Olha e fala das coisas com assombro como se descobrisse o seu âmago e é tão segura naquilo que diz que, em seu redor, não restam dúvidas a ninguém que a verdade é filha da inocência e do entusiasmo.

Tem muitos amigos, a maioria da escola, unidos por cumplicidades ganhas ao longo dos anos. Há só um colega de quem não gosta muito, Ernesto Chinês, um traquinas muito popular, terror da escola e da vizinhança, com braços encorpados onde raparigas vistosas ondulam ao "fazer músculo". Reprovou vários anos - por faltas, indisciplina e ignorância – arrasta-se penosamente pelo sistema, transformando-se numa espécie de talismã da comunidade escolar que todos conhecem e receiam. Não é mau rapaz, até tem bom coração. Mas quando o clima dá para o torto não há ninguém que lhe faça frente.

Naquela tarde fazia tanto calor que as sombras eram pequenas para tanta rapaziada. Diziam-se as parvoíces do costume, esperando o toque de entrada para a aula de matemática. Ernesto Chinês, no seu estilo brigão, ar de matador, com todas as pequenas sob a sua alçada, mangas arregaçadas, era o centro das atenções pelas brincadeiras, anedotas e pinotes. Até que uma voz se adiantou às outras e disparou:
- O Ernesto Chinoca só tem músculos. O cérebro é mais pequeno que um feijão-frade.
Depois de um silêncio sombrio, o pessoal balançou em berros de euforia. Era verdade, mas uma verdade que não podia ser dita aos quatro ventos. Embaraçado, Ernesto avança no meio dos risos, empurra os da frente e em direcção à voz, procurando o audaz que se armara em esperto. Não foi preciso procurar muito. O criminoso era o Fininho que confessava a iniquidade com um esgar de pavor e cara vermelho-tomate. Ele pega-lhe pelas dobras do casaco, levanta-o do chão e abana-o com vivaciadade.
- Repete lá isso, oh betinho, repete lá! Uma coisa é certa: hoje vais para casa com as ventas partidas.

O clima aqueceu mais do que a temperatura prevista pelo boletim meteorológico. Todos mostravam sinais de horror, mas quase todos se tornavam cúmplices da pancadaria eminente. As claques surgiram espontaneamente, uns gritavam "Fininho", a maioria "Ernesto Chinês". Os brados acentuavam-se para que os beligerantes resolvessem a contenda. Era urgente fazer alguma coisa para proteger o minorca. A Catarina avançou.
- Vejam, é injusto o brutamontes colocar um só dedo na pele do Fininho que é meu amigo e frágil de pernas, mas muito bom de cabeça.
E voltando-se para o Ernesto Chinês:
- Porque é que não bates em alguém do teu corpanzil? - distanciando a raiva do seu colega amedrontado. O outro cai na esparrela e o Fininho respira fundo.
- Quem, diz-me? E ela pensou, pensou e descobriu…
- O Fernando.
- Qual Fernando? - perguntou o Ernesto desconfiado.
- O Fernando, um amigo meu. Não me digas que estás com medo?! E ele não teve coragem de dizer que o tinha, nem perguntou quem era e tudo ficou ajustado para que no final das aulas tudo se resolvesse num duelo ao sol, pois não havia sombra no local combinado. Mas ele não poderia saber que o Fernando pegava touros nas festas de S. João, após beber umas cervejas nas tascas das festas.

Eram seis da tarde, mais coisa menos coisa. O Topo Gígio, assim conhecido pelas orelhas em leque, o Lagartixa devido ao seu ar verde e fuinha e o Mocho pelos olhos enormes e assustados, foram os primeiros a chegar. Depois todos os outros em enorme algazarra. O Ernesto Chinês foi o último com aquele tropeçar "onde é que está ele?!" e o Fernando apareceu pouco depois, calmo, mas envolto em grande poderio. Deu um beijinho à Catarina, pegou no braço do Ernesto, afastou-o do grupo e segredou-lhe: " És um tipo possante, com músculos sublimes e uma figura de sonho. Mas não vais bater em ninguém, muito menos no franganote. Ele vai pedir-te desculpa publicamente e apertam as mãos. Qualquer esperteza da tua parte e levas um caldo que vais parar ao Ilhéu das Cabras. Portanto, juizinho!" O Ernesto assentiu a contragosto, o Fininho gritou "desculpa" para todos ouvirem, cumprimentaram-se secamente e o Fernando piscou o olho à Catarina que sorriu agradecida.

E o grupo seguiu estrada acima em gargalhadas e levantando pó. A Catarina dava a mão ao Fininho que saltitava de contentamento. Foi ela que me pediu um conto, mas um conto bonito escreverá com a história de si mesma.