terça-feira, 31 de Março de 2009

É possível transformarmo-nos em sombras...


Está ver aquele rapaz, está? É lindo, se fosse quinze anos mais nova não me escapava. Estou sozinha, vivo com quatro gatos e um cão, uma casa cheia de gente, como vê, mas às vezes gostava de ter um homem perto. Que me amansasse, me revirasse, me acendesse um fogo no estômago e me levasse ao céu só mais uma vez. Tenho um homem, mas anda por aí. Julgo que se o visse já nem o reconhecia. E olhe que ele vem todos os dias para casa, mas quando nos encontramos no corredor ou à saída da casa de banho baixamos os olhos para não nos encontrarmos em lado algum. Lavo-lhe a roupa e faço-lhe a comida e paga-me o serviço ao fim do mês. Enquanto ele come saio da cozinha e vou para a sala ver televisão. Após aquele silêncio prolongado e apenas dilacerado pelo som dos talheres, sai para a rua escura, procurando a claridade que ambos perdemos há tantos anos. No início das suas andanças muitas lágrimas larguei e comia a minha solidão com uma colher de sopa, mas fui aprendendo a ser cruel e amarga e nada do que ele faz me retira a serenidade.

Pergunta a razão para sustentar esta vida tão triste, não é? Mas os homens são muito frágeis, preferem o vazio e a demência ao abandono. As mulheres da vida só têm sentido enquanto há vigor e dinheiro, depois apenas restarão as doenças e a solidão e julgam preferível manter ligações podres do que se resignarem a uma velhice desamparada num lar de idosos. Quanto a mim, é apenas uma questão prática. Assim, tenho o meu canto, espaço para os meus livros, a minha possibilidade de silêncio. Na maioria do tempo estou só e apenas tenho de me acomodar em pequenos instantes do dia para não nos incomodarmos um ao outro. Se me divorciar não tenho dinheiro para ter uma casa e terei de regressar a casa da minha mãe. Bom, já lá está o meu irmão com cinquenta anos e nunca casou. Para ele qualquer responsabilidade soube sempre a fel. Mesmo quando a minha mãe vai de férias telefona-me a perguntar se o sem-abrigo pode ir lá jantar. Critiquei sempre essa postura pelos conflitos diários que causa, mas se a minha vida se alterar profundamente terei de juntar-me a eles e viver infeliz para sempre.

Repare, se hoje peso cem quilos quando era nova era tão magra como um cão. E também era bonita e alegre, daquelas meninas para quem a vida é um horizonte verde com flores amarelas espalhadas sem ordem. Mas houve um dia em que me olhei ao espelho e pareceu-me encontrar outra pessoa, um monstro de várias cabeças, sem qualquer graça. Apenas os olhos obedeciam a ordens minhas, como se tivesse entrado num outro invólucro e o espírito se escondesse por detrás do olhar. Pouco tempo antes, o casamento tinha-se desencaminhado por uma questão estúpida de ciúmes, sabe, daquelas histórias sem pés nem cabeça com as quais conseguimos estragar um óptimo argumento para um filme. Depois fomos por aí abaixo, como numa ribanceira sem fim, asneiras atrás de asneiras, como uma enxurrada num dia de Inverno, e no fim não encontrámos nada de amável em nenhum de nós. Desleixei-me.

Depois, violei regras e bati no fundo. Não vou contar aqui o que fiz porque o passado está enterrado. Enterrei-o no quintal, numa cova bem funda e por cima plantei uma macieira. A partir desse dia decidi mudar de vida, apesar de não me arrepender nada do que fiz. O arrependimento obriga-nos a andar de cabeça baixa e com a vida que levo, o que me resta é não ter vergonha, nem fazer reverências a ninguém. Perdi o medo, sabe. Nada me causa dissabor, eu sou feita dele.

domingo, 29 de Março de 2009

Tudo bem por aí?


Tenho andado por cá, perdido em pensamentos e bocejos, com os cotovelos sustentando o queixo. A janela tem sido o meu melhor aliado ao oferecer-me de mão beijada um céu que se prolonga indefinidamente. Tenho sorte em viver nas alturas e sem aqueles obstáculos cruéis que encurtam vistas e nos depositam em varandas cercadas por roupa a secar ou por marquises de alumínio claro. Olhar sem nada querer ver permite-nos avançar sempre, como se o olhar tivesse ao seu serviço uma nave espacial. E como o céu tem continuado tão azul como o mar sem fundo esqueço-me do sofá e viajo pelo olhar sempre que posso.

Viver é tão misterioso quanto belo. Por um fantástico acaso estamos vivos, sentimos o pulsar da vida como se usufruíssemos de uma bateria idêntica às dos telemóveis que vamos carregando sempre que a fraqueza nos invade as pernas e temos autonomia para caminharmos sem pressas, jogarmos ao jogo do agarra, ao jogo do anel, ao jogo das escondidas, ao jogo do senhor dá licença e à noite os sonhos revelam-nos o melhor e o pior de nós. Acordamos sem qualquer objectivo definido e continuamos á procura de um azul celeste que nos abra a porta ao infinito. Tudo isto porque viver é um acontecimento tão inverosímil que para lá de um espírito pragmático - de forma a que o tempo não nos ameace de forma continuada com problemas ridículos e comezinhos - deveríamos lidar com a vida pelo lado afirmativo, aberto à viagem, ao esclarecimento e ao prazer de conhecer, à alegria mesclada de nostalgia que nos empurra sem desfalecimentos pelo corredor comprido deste laboratório, lugar de experiências que é a própria vida.

Não tenho escrito, tenho lido. Há momentos em que o prazer de ler suplanta o prazer de se conseguir rabiscar algo com algum sentido. Ler também favorece o contacto com o maravilhoso e sem o esforço continuado de encontrar a melhor palavra, o melhor termo. Ler é mais cómodo. E li o Mundo, um livro de Juan Millás, um autor espanhol que acompanho há vários anos. Num exercício psicanalítico, fala das dores da infância, da crueldade dos primeiros afectos, dos primeiros medos, do primeiro contacto com a morte, dos primeiros amigos, dos primeiros amores. Tudo sob a alegação de que a escrita abre feridas e ao mesmo tempo cicatriza-as. Percebo-o bem. Esse esforço em clarear o tempo à custa das palavras que se vão aconchegando umas às outras e vão esclarecendo aquele fundo de nós que adormeceu e endureceu à custa dos anos, das tristezas depositadas como lixo no caixote, pequenas e grandes tragédias que nos ameaçaram e continuaram vida fora a confinar a nossa capacidade de olhar a vida de forma ternurenta. Escrever é como um puzzle onde encaixamos peças soltas e vamos ocupando espaços negros que sempre sugaram as nossas melhores energias. Desabafos de uma alma que procura a pacificação.

Agora largo o teclado escuro, manchado de letras e símbolos claros e procuro novamente o céu azul, aqui e ali matizado por pequenos farrapos de nuvens esbranquiçadas. Não vale a pena perdermos a vida em prantos e queixumes. Somos tão ínfimos que, ao querermos lutar contra o absoluto, destruímos a única oportunidade que dispomos de podermos marcar o mundo com pequenas legendas, pequenos sinais. Não teremos outra oportunidade para remediar.