segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

A Pastora de Melgaço


Cada vez menos entendo as pessoas. Julgamos que os anos e a experiência nos podem fornecer dados seguros para as tornar mais previsíveis e depois percebemos que, em grande medida, nos enganamos. Há aqueles que parecem dispor de todos as condições para serem felizes e sentem-se num final de ciclo, no fio da navalha. Sofrem tanto que parece que rebentam. E há outros que pouco ou nada têm garantido - por opções feitas ou por falta de oportunidades - e mesmo assim mostram sempre uma face despovoada de angústia e de rancor contra a vida. Da mesma forma, há uns que se afirmam disponíveis para ser felizes: “se eu tivesse isso, coisa pouca, então a magia aconteceria!” Outros há, tão distantes da plenitude, que nem o mundo inteiro seria suficiente para suprir tamanhas necessidades…

Prefiro pensar que a felicidade não é o resultado de acasos, de jogadas fortuitas, de esperas estóicas, mas de um percurso construído paulatinamente, contornando obstáculos, jogando com os erros, e sem se perder em ninharias desnecessárias. Assim, não seremos felizes por uma casualidade qualquer, seremos felizes se lutarmos por isso. Como? Ter projectos, lutar pela nossa autonomia, não ter ambições desmedidas e, fundamentalmente, manter um olhar frio e instruído perante a adversidade. É que ser afortunado pressupõe um exame desapaixonado sobre a vida. A vida não é muito mais do que isto que está à nossa frente. Ou melhor, a vida é isto mesmo…

Vem a propósito de uma história deliciosa de jornal que um amigo me enviou. Em 2005 uma pastora de Melgaço, com 47 anos, ganhou o terceiro prémio do euromilhões, num valor próximo dos setenta mil euros e gastou todo o dinheiro num Mercedes. Continua a cuidar das 135 cabras que tem ao seu cuidado, levando-as todos os dias ao monte. Como ainda não se ajeita com o carro novo, mantém um velhinho opel que utiliza nas viagens mais pequenas. Quando a viagem é maior ou para ir à Missa no Domingo utiliza o novo Mercedes. Sonho cumprido, diz-se feliz porque tem tudo o que precisa. Faltava-lhe um Mercedes, agora já o tem.

Hoje, a ciência não se compadece com lirismos extremados ou com sujeitos poéticos cheios de manhas e de entusiasmos balofos quando afirma que os estados de espírito são apenas sintomas da presença ou ausência de substâncias químicas produzidas pelo organismo. Mesmo contra todas as evidências científicas, recuso-me a acreditar! Poderemos estar tristes por razões válidas, poderemos sentir desespero em situações limite, mas haverá sempre em nós uma réstia de luz que nos orienta até ser possível um depoimento pessoal, honesto, nada eufórico, mas repleto de contentamento: “Neste momento, pensando bem, não queria estar noutro sítio, não queria ser nada mais do que sou, nada queria em troca do que tenho!”

quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

O Regresso do Sol


Parou de chover, assim de repente, e o sol conseguiu romper a muralha de nuvens negras. Regressámos às ruas, estremunhados, após dois meses de escuridão e apresentámos sorrisos novos, confeccionados com paciência e arte durante o retiro sombrio do Inverno. Sentimo-nos como se o universo tivesse ganho de novo profundidade e os nossos sonhos pudessem voltar a voar. Mesmo durante o funeral, enquanto todo o grupo se estendia na sala de vigília à espera do final da cremação, familiares e amigos que acompanharam o morto já refulgiam o optimismo de um dia regado por raios dourados. Em cerimónia simples, as cinzas foram espalhadas no jardim ao sabor de uma brisa suave, em redor todos comungaram da saudade com as mãos entrelaçadas umas nas outras, mas a morte passara já para segundo plano. Não sei, talvez seja apenas uma interpretação, por análise superficial dos rostos e da quietude dos olhares… Ao invés, ao longo da tarde silenciosa, no meio de cheiros a flores lívidas e ao som de ladainhas e conversas surdas - como se fosse altura propícia para se desvendar segredos - formou-se um círculo velando o defunto e ninguém atendeu ao zumbido de um sol que tentava, sem êxito, espalhar algum calor no espaço gélido da casa mortuária.
Não era já o meu tempo. Abandonei o grupo dos mais íntimos do falecido - todos eles com os rostos quebrados por manchas de uma noite e um dia sem repouso - e caminhei sozinho até ao alto da colina, perdido por entre torres inacabadas e questionando transeuntes sobre a direcção a tomar. Por vezes, olhava para trás e lá ao longe o rio transparecia de cores tão azuis como se o mundo rebentasse de contentamento e persistia na caminhada tentando encontrar alguma referência familiar que me orientasse no regresso ao meu mundo.

Nas despedidas fúnebres, a comparência da morte garante-nos que a vida resiste e não devemos quebrar essa corrente por melancolias desnecessárias. Talvez por isso, a caminho de casa, tive saudade daqueles que passam por mim tantas vezes e mal os vejo porque a pressa ou o nevoeiro os agasalham e fiz projectos de apossar-me de sol tanto quanto puder e guardá-lo em baús para utilizar sempre que o Inverno se prolongue.

Por tudo o que aconteceu, não sei se o funeral marcado para ontem foi um simples sinal do destino ou se teria sido reservado com a precisão de um meteorologista, para que os vivos continuassem de face erguida à procura da luz e caminhassem apressados, mesmo tresmalhados, à procura de si mesmos. E à noite, mesmo frente à minha janela, surgiu uma lua tão cheia e tão grande que me fez lembrar o círculo formado por todos quantos velámos o morto e no centro um bocado de noite pintado de amarelo vivo, como se um artista qualquer quisesse prolongar a mensagem ganha em pleno dia.

quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

Enchantix


Olhei para o relógio. Hora certa. Acomodei-me no canto do sofá como numa sessão de cinema. O jantar acabava de ficar para trás e os arrumos feitos à pressa, naquele ritmo irritante de quem tem algo de relevante a cumprir. Entretanto, entra na sala com toda aquela pose do quero posso e mando. Sentou-se mesmo ao meu lado. Tão colada a mim que parecíamos siameses, mas com idades diferentes. Pego-lhe na mão, quentinha e macia como veludo. Ela repele-me primeiro com delicadeza, depois, devido à minha insistência, com desumanidade. “Deixa-me!”. Nem para mim olha. O momento não é propício ao afecto. Ambos o sabemos. É uma luta pela supremacia do comando da televisão. Ganha ela, como sempre.

Falar-lhe ao coração nesta altura do dia é o mesmo que falar com uma parede. Desisto, grande novidade! Poderia levantar-me e tentar fazer qualquer outra coisa, mas é hora de televisão e sou um animal de hábitos. Respiro fundo e concentro-me na tela. Mais uma vez as quatro meninas adolescentes com olhos azuis, munidas de asas de borboleta, combatem o mal que tenta dominar todo o Universo. O pior dos maus, é um fulano todo empertigado - parece que engoliu uma vassoura – tem uma voz rouca autoritária e um sorriso alarve, tétrico. Os seus discípulos - monstros inverosímeis e umas meninas com tatuagens e cabelos desgrenhados - tentam cumprir os seus desígnios, mas são menos maus que ele. E as heroínas, tão frágeis como porcelanas, derrotam-nos à custa de mezinhas, feitiços e bolas de fogo. A minha companheira de sofá pula de excitação mesmo à minha frente.

Tanta agitação retira-me do episódio. Sinceramente, tanto se me dá… “Aliás, este episódio não é o de ontem?” Aí ela volta-se e olha-me com incredulidade. Nada diz, apenas encolhe os ombros. Mas se não foi o de ontem foi de um dia destes, defendi-me. Ela não liga e continua a viver com intensidade as reviravoltas. Os mesmos artifícios, os mesmos monstros inverosímeis, idênticos feitiços e as bolas de fogo.

Depois a ordem regressa ao Cosmos, as meninas regressam ao colégio e a pequenina acomoda-se novamente ao meu lado. Esfrego as mãos de contentamento. Mas as comemorações da vitória alongam o episódio, publicita-se o próximo, e, finalmente, surge o genérico acompanhado da música que ela cantarola do princípio ao fim. Depois abraça-me com aqueles quilos de ternura, cola a face macia como veludo na minha, enquanto eu sorrateiramente procuro o comando da televisão, errante algures no sofá. Depois de mais um abraço de boa noite já tenho à minha frente o canal do telejornal. Sim, sendo um cidadão consciente que quer ter intervenção cívica, tenho o dever de me manter informado. Mas hoje cheguei demasiado tarde. Outra vez! Ficaram já para trás os grandes problemas que afligem o País, o Mundo e mesmo do Universo, depois de esmiuçados, debatidos e comentados. Agora decorre a fase do desporto.

A página do desporto é uma espécie de telejornal light. Os espectadores descontraem-se nos sofás porque o pior já passou. As más notícias, as tragédias, os atentados, as cheias, as falências, os crimes, as confusões nos partidos, os fracassos do governo. Sinceramente, como é que eu posso dominar a realidade social e política, nacional e mundial, se à mesma hora umas meninas de asinhas combatem o poder do mal que ameaça todo o Universo e se a minha vizinha ganha sempre a batalha do comando da televisão?

terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

A Sala Minúscula de Paredes Brancas


Confessaram o que ambos sabiam desde há muito. Tudo coisas pequenas, ínfimas. Libertaram-se de culpas que inundaram toda a casa. Agora extinguira-se o ar puro e reconheceram que doravante não podiam viver ali. Após um tempo indefinido de silêncio - apenas quebrado pelo som da televisão - ele afastou-se e ela ouviu ao longe a porta de entrada a embater contra a aldraba. Depois, ela desligou a televisão e levantou-se sem qualquer propósito. Foi andando pela casa como uma viajante que explora territórios inóspitos à procura de qualquer referência. A casa transformara-se, de um momento para o outro, num território estranho.

A discussão iniciara-se por um pormenor exíguo e, inesperadamente, verteram-se queixas e lamentos devido à ligação cinzenta e castradora. Ambos o admitiram com a franqueza de quem silenciara razões de forma astuciosa. As pessoas são desafortunadas porque têm medo de abrir portas que as conduzam ao abismo, pensou. Entre o pouco e o nada ou o mal absoluto, vamo-nos perdendo em bocejos e auto-críticas, devido à prorrogação de relações condenadas. Mas desta vez tinham-se aberto as gargantas, como comportas em tempo de cheia, e a fractura do vínculo era o único caminho, ou pelo menos o mais digno. Concordaram que nada do passado resistiria àquela enxurrada. Talvez, por isso, a partilha de responsabilidades fora tão civilizada, sem acusações gratuitas nem jogadas cruéis.

No deambular pela casa, silenciosa e na penumbra, lembrou-se que nestas circunstâncias há sempre a disposição para se procurar um ombro amigo, para amenizar o volume e o peso da angústia. Entre familiares e aliados visualizou várias alternativas. Entre os mais conformistas que lhe recordariam a idade, os inconvenientes da solidão e apostariam em reconciliações mais ou menos previsíveis; outros, mais subversivos, exibiriam o júbilo pelo desfecho e lembrar-lhe-iam que as mudanças prenunciam sempre sinais benfazejos; e ainda uns terceiros – visualizou com pavor a face da madrinha Luísa – que compartilhariam a dor da separação, blasfemariam contra os homens, e seriam marcadas de urgência sessões contínuas para carpir as mágoas.

Preferiu resolver tudo sozinha e só depois anunciar o desenlace. Sem filhos tudo se tornava mais simples e os bens amealhados facilmente se repartiriam. O problema, pensou, o único verdadeiro problema era o destino da casa. Preferia largá-la, mesmo perdendo dividendos, para que a nova vida tivesse novas roupagens e novos cenários. Era grande demais, atulhada de coisas supérfluas, revestida de melancolia até ao tecto. Imaginou-se numa sala minúscula, sem móveis e com livros espalhados pelo chão, prolongada numa varanda cheia de flores de todas as cores. Sorriu com a perspectiva. Entretanto, sem sono, foi vagabundeando pelo corredor silencioso, entrava e saía das outras divisões, até ao instante em que o marido abriu a porta. Era quase manhã. Sentaram-se próximos e o seu hálito intenso a álcool era insuportável. Parecia-lhe agora infinitamente mais velho do que o homem com quem partilhara a vida até há umas horas atrás. Entabulou um monólogo com os olhos no chão e as costas arqueadas.

Começou por afirmar que ocupara a noite a reflectir e não descortinara qualquer problema que não se pudesse ser resolvido. Depois passou para a fase acusatória de que ela, mesmo não o admitindo, teria alguém na sua vida e que o facto originara toda aquela encenação. Seguidamente, implorou-lhe que ficasse porque ele não saberia para onde ir, nem o que fazer sem ela. Até que, por fim, veladamente, admitiu saídas mais extremas, caso a ruptura se concretizasse. Ela, surpreendida e até amedrontada por facetas desconhecidas da sua personalidade - a insegurança extrema e o tom cru da voz - tentava acalmá-lo. Continuariam amigos e ainda eram novos para recomeçar as suas vidas. Não tinha ninguém e não queria ter alguém num futuro próximo. Mas ambos tinham o direito e o dever de lutar pela sua felicidade, já que durante anos não o conseguiram por culpas próprias. Depois, levantou-se do sofá, justificou a saída pelo cansaço brutal que a invadia e quando já estava perto do corredor ouviu um tumulto mesmo atrás de si, apenas viu um olhar louco por cima do seu ombro e sentiu no corpo uma pancada intensa. Aos poucos ia perdendo a consciência, enquanto ele continuava a magoá-la, dizendo-lhe que se não era dele não seria de mais ninguém.

Em seguida o silêncio, entrecortado por um choro de criança a seu lado. Estava segura de que precisava de ajuda médica urgente, mas pressentia que ninguém viria em seu socorro. Para fugir ao desespero continuou a fantasiar com uma casa pequena, com uma varanda cheia de flores de várias cores que prolongava uma minúscula sala. Lá, apenas uns puffes coloridos tão juntos que se poderia saltar de uns para outros, livros espalhados pelo chão e as paredes tão brancas que guardariam as sombras de um tempo calmo, sem qualquer solavanco no seu andar silencioso.