
Cada vez menos entendo as pessoas. Julgamos que os anos e a experiência nos podem fornecer dados seguros para as tornar mais previsíveis e depois percebemos que, em grande medida, nos enganamos. Há aqueles que parecem dispor de todos as condições para serem felizes e sentem-se num final de ciclo, no fio da navalha. Sofrem tanto que parece que rebentam. E há outros que pouco ou nada têm garantido - por opções feitas ou por falta de oportunidades - e mesmo assim mostram sempre uma face despovoada de angústia e de rancor contra a vida. Da mesma forma, há uns que se afirmam disponíveis para ser felizes: “se eu tivesse isso, coisa pouca, então a magia aconteceria!” Outros há, tão distantes da plenitude, que nem o mundo inteiro seria suficiente para suprir tamanhas necessidades…
Prefiro pensar que a felicidade não é o resultado de acasos, de jogadas fortuitas, de esperas estóicas, mas de um percurso construído paulatinamente, contornando obstáculos, jogando com os erros, e sem se perder em ninharias desnecessárias. Assim, não seremos felizes por uma casualidade qualquer, seremos felizes se lutarmos por isso. Como? Ter projectos, lutar pela nossa autonomia, não ter ambições desmedidas e, fundamentalmente, manter um olhar frio e instruído perante a adversidade. É que ser afortunado pressupõe um exame desapaixonado sobre a vida. A vida não é muito mais do que isto que está à nossa frente. Ou melhor, a vida é isto mesmo…
Vem a propósito de uma história deliciosa de jornal que um amigo me enviou. Em 2005 uma pastora de Melgaço, com 47 anos, ganhou o terceiro prémio do euromilhões, num valor próximo dos setenta mil euros e gastou todo o dinheiro num Mercedes. Continua a cuidar das 135 cabras que tem ao seu cuidado, levando-as todos os dias ao monte. Como ainda não se ajeita com o carro novo, mantém um velhinho opel que utiliza nas viagens mais pequenas. Quando a viagem é maior ou para ir à Missa no Domingo utiliza o novo Mercedes. Sonho cumprido, diz-se feliz porque tem tudo o que precisa. Faltava-lhe um Mercedes, agora já o tem.
Hoje, a ciência não se compadece com lirismos extremados ou com sujeitos poéticos cheios de manhas e de entusiasmos balofos quando afirma que os estados de espírito são apenas sintomas da presença ou ausência de substâncias químicas produzidas pelo organismo. Mesmo contra todas as evidências científicas, recuso-me a acreditar! Poderemos estar tristes por razões válidas, poderemos sentir desespero em situações limite, mas haverá sempre em nós uma réstia de luz que nos orienta até ser possível um depoimento pessoal, honesto, nada eufórico, mas repleto de contentamento: “Neste momento, pensando bem, não queria estar noutro sítio, não queria ser nada mais do que sou, nada queria em troca do que tenho!”

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