sábado, 31 de Janeiro de 2009

Mensagem da minha amiga Maria



A felicidade exige valentia.


'Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes mas, não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo, e posso evitar que ela vá à falência. Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida. Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um 'não'. É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta. Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo...'


Fernando Pessoa – 120 anos

quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009

Em Busca do DNA do Kiwi


Sinto-me enfadado e cruzo os braços. Lá fora, um céu de variadas cores espalha repetidamente baldes de água gelada sobre a estrada, secando pouco depois, como por magia. O vento ressoa e agarra-se às janelas como gente aflita que não quer cair no precipício. No andar de cima, passos firmes em sapatos de solas duras afastam-se e regressam ao mesmo ponto, mesmo por cima da minha cabeça, como se alguém com uma enfermidade psicótica repetisse passos e tarefas. À minha volta o silêncio de uma tarde sem nexo, sem leme. E o tempo anda, anda e nada preocupado com enigmas menores, como a necessidade de engendrar justificações para a mulher largar a ideia peregrina de aprender a dançar kizomba nesta altura da vida.

Desperto da melancolia. Tenho aulas para preparar. Os alunos apresentam naturais resistências aos mundos paralelos e é difícil fazê-los admitir que o seu mundo é menos efectivo e menos compacto. Claro que são adultos e têm mais dificuldade em respeitar os mundos ficcionados em confronto ao mundo rijo e denso com que se confrontam todos os dias. O universo das oito horas de trabalho, da pontualidade rígida, das filas de trânsito, das metas das empresas e das embirrações dos chefes. Mesmo assim, à noite, vão para uma escola envolta em penumbra, virando as costas aos filhos que de braços abertos correm para eles e encostam a porta para que a vontade de sair não esbarre nesses braços de fino recorte e nas lágrimas que lhes percorrem a face.

E nas salas encontramo-nos como velhos amigos que saem à noite e, estranhamente, gostamos de nos rever, como se já fizéssemos parte da vida uns dos outros. Fico sempre surpreendido pelo sorriso franco, pelo evidente empenho da maioria em manter o diálogo e os olhos abertos, após um dia cheio de coisas maiores, como a pressão dos timings, das recusas, das ordens e dos braços abertos dos filhos, enquanto eles vão fechando a porta devagarinho.

Estamos todos familiarizados com o universo do cinema que nos transporta para fora de portas e nos emociona com desenlaces mais ou menos infelizes, nos amedronta com o desfalecimento dos heróis no meio do fogo inimigo, nos empolga com as reviravoltas das fitas, como se naquele preciso momento as nossas pobres vidas e os seus dilemas se pudessem também desenvencilhar espontaneamente. Mais estranho e menos empolgante é encontrarmos na ciência, na arte, na poesia, na filosofia, esses mundos equidistantes, inacessíveis aos olhos, apenas vigorosos quando os fechamos e nos abrimos ao sortilégio da imaginação e à obscuridade da racionalidade. Ou então, mais surreal, quando no laboratório química fazemos pesquisas em demanda do DNA do kiwi, após este ter sido esmagado com uma varinha mágica, regado com uma colher de sal e uma gota de fucsina e coberto por uma camada de álcool a vinte graus negativos. Bem perto da meia-noite é muito estanho fazer parte de um grupo interessado em decifrar o DNA de um kiwi, quando no dia seguinte, bem cedo, todos terão de levantar-se para reentrar no mundo menos misterioso dos adultos.

Nesta tarde já longa, ligo o FM do rádio e coloco quase aos berros as cançonetas que se vão sucedendo, entrelaçadas com notícias de filas na A5, no tabuleiro da ponte e em acidentes na segunda circular. Lá fora, chove de novo com tanto entusiasmo como se tratasse de uma descarga de adrenalina do senhor das nuvens. Tenho na mão um texto de uma profundidade esmagadora, enfatizando a relevância do método científico, mas o meu olhar centra-se na chuva. Prefiro este comedimento. Aconchega-me à pele o mundo secreto que recusa em dar-se à vista e me deixa esparramado no sofá sem ânsias de procurar espaços mais turbulentos. E penso de novo nos meus alunos. Devem ter razões bem fortes para abandonar os bracitos estendidos dos pequenitos com saudades deles, desesperados porque eles regressam à rua inundada de uma chuva triste, rumo a uma escola onde às tantas da madrugada se procura um DNA de um kiwi morto com uma varinha mágica, coberto de álcool a uma temperatura de vinte graus negativos e que escorre docemente pelas paredes do gobelé.

terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

A estranha ilha de gente esguia


Era uma ilha pequena, minúscula, invisível aos radares e sem lugar em qualquer carta marítima. Mas era uma ilha como todas as outras, com paisagens deslumbrantes, rodeada por um mar que se iniciava à sua beira e corria para todos os lados. Tinha uma especificidade própria, apesar das semelhanças com todas as outras e com muito esforço e sabedoria mantinha-se em equilíbrio em cima da água havia muitos séculos. Os habitantes agradeciam-lhe todos os dias em ladainhas que cantarolavam e que ao longe parecia zumbido do vento ou do fragor das ondas. Habitavam-na árvores e gente. Não havia cabimento para outros seres e todos em boa vizinhança, acotovelavam-se regradamente.

Digamos que havia um problema de espaço. Apesar do número reduzido de indivíduos, eram numerosos para tão pequena área, e viviam com movimentos suaves, com receio que um encosto mais enérgico sacudisse alguém borda fora. Eram todos belos, magros e elegantes como árvores esguias. Para alcançarem o mar colocavam-se em bicos de pés e após gerações já eram mais altos que os da sua frente e assim sucessivamente. Vistos de longe pareciam elementos de um coro de música clássica, bem vestidos, crescendo em tamanho. Quando nascia algum tiravam sortes e um dos mais velhos mergulhava no mar. Não havia angústia por causa disso, nem a escolha era olhada como má fortuna. Após cerimónias e grandes festas despediam-se com canções e o escolhido entrava no mar, transformava-se em peixe e descobria no meio das ondas outros a quem a sorte coubera. Zelavam pela sua ilha, os mais saudosistas espreitavam nas margens tentando encontrar paisagens e pessoas familiares.

As festas comunitárias eram o fulcro do tempo, preparadas com esmero. As danças eram feitas num ritmo certo sem moverem os pés. O corpo bamboleava-se para um lado e para o outro, para a frente e para trás ao ritmo de um solista, escolhido pela voz mais doce. O ritmo seguia o sopro do vento e por isso as árvores e os homens comungavam das mesmas oscilações. O único problema para os habitantes da ilha era o descuido que poderia comprometer o equilíbrio do ecossistema. E na história acontecera duas vezes. Um desastre. A queda para o mar de tantos habitantes, mas também a dificuldade do regresso à ordem. Eram necessárias muitas décadas para que o equilíbrio fosse reconquistado e tudo voltasse à normalidade.

Claro que outro desconcerto era possível, mas raramente acontecia. Um deles abandonava a ilha, atirando-se ao mar sem decreto. O seu nome era proscrito e mais ninguém o podia nomear nas relações com os vizinhos. Como se o desprezo da ilha fosse uma afronta à sua natureza. O lugar deixado vago era ocupado por uma árvore. Tal era a razão de haver árvores no meio deles, sinais de deserções e funcionava como ensinamento aos vivos e sombra nos dias mais quentes.

Alimentavam-se de vento e pólen que caía das árvores e dormiam de pé. Eram tão felizes como nenhum outro povo. Ter dúvidas desse facto seria o mesmo que duvidar da felicidade das árvores da floresta que balouçam ao vento. Apenas deixaram de o ser quando seres estranhos, munidos de ferramentas, invadiram o território e, com pena, libertam-nos das tiranias das leis e os disseminaram por outras ilhas.

sábado, 17 de Janeiro de 2009

No Fundo do Poço


Querido amigo

Pelas razões que bem conheces sinto-me infinitamente triste. Uma tristeza opaca que me veste e vai comigo para todo o lado. Invólucro que se confina à minha pele, constrói nela uma parede sem brechas para o mundo. Todos os meus passos ecoam como se andasse em cima de mim mesma. Sinto-me, literalmente, no fundo do poço. Nem eu sei como consegui escrever-te esta carta, nem como vou ter forças para ta enviar.

Vivo não sei onde, um lugar inóspito, sem qualquer ponto de referência, sem túneis nem degraus, de reduzida dimensão e onde permaneço imóvel. Caí aqui há bastante tempo, permaneci inconsciente outro tanto e depois fui consciencializando-me do facto. Primeiro chorei de desespero, agora, mais resignada, tento aprender a sobreviver, a delinear estratégias na expectativa de ser salva.

No fundo do poço já não se luta. Espera-se. Aliás, deve manter-se o máximo de quietude para não deitar tudo a perder. Qualquer esforço, qualquer trabalho inócuo, poderá ser fatal. As circunstâncias são penosas e tenho que me resguardar para a possibilidade de uma longa espera. Tornei-me mais racional e menos emotiva. Aprendi que, mesmo ouvindo as passadas de alguém em redor da abertura, não significa socorro. Mesmo que alguém espreite para o interior, não significa salvação. A profundidade, a penumbra, o jogo de sombras que se vai alterando de acordo com as horas do dia ou da noite, o eco que reverbera a voz, tudo impede a descoberta do corpo, ouvir os lamentos, ou calcular as sinaléticas de ajuda.

No entanto, após horas e dias de batalhas pela sobrevivência, devido ao frio, ao medo, à debilidade do corpo e ao cansaço do espírito, ainda cometo erros e deixo-me enganar por ilusões sedutoras. São frequentes miragens de portas secretas que se abrem de par em par, bebidas quentes que fumegam ao meu lado, personagens sorridentes que me dão a mão e me oferecem a salvação nada pedindo em troca. Após momentos embevecida pela luz e pelo calor quente das mãos, reconheço a farsa, esbracejo, grito e expulso-os deste meu espaço húmido e frio. Quanto mais adio o desengano, menor capacidade ganho em encontrar o caminho da remição. Só sobrevirei se não esgotar as energias em lutas vãs contra as paredes íngremes, contra as falsas saídas, contra a falta de pontos de apoio de uma escuridão que não me permite saber se é dia ou noite, contra as dúvidas se alguém se aproxima ou se não passa de uma alucinação auditiva.

Quando chegamos ao fundo do poço o melhor é prepararmo-nos, desde logo, para recomeçar. Ou então abandonar de vez o objectivo de existir. Percebo agora que a minha vida anterior não fornece qualquer esperança. Terei de alterar procedimentos e metas, sem processos de intenção, sem mentiras. Estou a reconstruir o meu eu, tenho a grande oportunidade de me reencontrar na pureza original, aquela visão de mim sem as máscaras do tempo. Depois, talvez uma silhueta amiga espreite e não desista, apesar das sombras, dos ecos, da obscuridade, e venha prevenido com uma lanterna e uma escada de corda e me arraste escarpa acima, provavelmente já em hipotermia, frágil pela fome e sede, inerte e com os olhos frios da escuridão. Se conseguir salvar-me, estarei pronta a recomeçar.

quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

A Mágoa de Estimação



Afastou-se sem deixar espalhadas culpas por toda a casa. Sem aquelas crueldades que transformam o outro num monstro de duas cabeças e o obrigam a cometer imprudências e dislates. Aliás, se houve crueldade da parte dela foi o silêncio que a envolveu na partida e a levou consigo. Um silêncio não fracturado na única situação em que nos confrontámos como dois estranhos, numa fila para uma caixa multibanco. Não posso dizer que as suas razões não eram suficientes para abandonar o projecto e que me laceraram quando me confrontei com a solidão que levou vários anos a sarar. Mas quando se é jovem julga-se que a relevância dos projectos é suficiente para que se lute por eles mesmo sem esperança da sua continuidade. Ela não o fez e deixou-me para ali sozinho, numa morada onde cada esquina, cada coisa, cada sombra, me evocavam a sua beleza, o seu perfume e a sua leveza.

Após desabar todo o edifício, reconstruí-me, paulatinamente, pedra por pedra, janelas, portas, até a solidez da construção ser suficiente para suportar a acidez do tempo. Mas, após todos estes anos, questiono-me se não há, da minha parte, a artificialidade de manter essa ferida aberta, como premência em perpetuar um marco temporal, forma de recusar o vazio do passado ou a busca de uma densidade para a minha própria história. O que é certo é que, de vez em quando, destapo a ferida coberta com uma gaze frágil, contemplo-a para me sentir enfermo e digno de compaixão, rego-a com uma tintura de iodo que a acalma nas suas manifestações e depois deixo-a lá, anos a fio, como se não existisse e sem dar importância à dor que dela escapa. Tal como uma doença menor que não exige grandes cuidados nem visitas a médicos, não provoca a morte e o sofrimento que causa é diminuído por um simples analgésico. Apenas quando abusamos e esticamos a corda sentimos os seus efeitos no dia seguinte.

Não sei, mas todos temos, pelo menos, uma mágoa de estimação. Não a queremos perder como se fosse um bem raro. Dá-nos consistência. Uma marca no espírito, quase um estigma de pele, através da qual vislumbramos flashes de vida e nos amarramos a um tempo distante e a espaços diferenciados de luz. Dá-nos resistência perante novos desafios. Se já conseguimos sobreviver ao caos, à indiferença e ao vazio, então a vida seguirá em frente, seja no desespero do dia seguinte ou na procura de uma nova saída…

sábado, 10 de Janeiro de 2009

O Consultório das Orquídeas Amarelas


A minha relação com a psiquiatria resume-se a uma visita a um consultório da especialidade nos finais dos anos oitenta quando uma lei estulta tornou obrigatório os funcionários públicos apresentarem, além do atestado de robustez física, um segundo certificado, mais pungente e de mais difícil acesso, o da robustez psíquica. Ninguém sabia bem o que isso era nem como alguém poderia atestar semelhante coisa, mas havia uma lei e um prazo. Fui adiando a entrega até que a urgência me obrigou a tomar medidas drásticas. Pagar a um psiquiatra a prova testemunhal do meu equilíbrio racional. Através das páginas amarelas cheguei a um especialista que me permitiu uma marcação para o próprio dia.

Ao entrar no consultório deparei com um vaso de orquídeas no parapeito da janela, com flores amarelas lindíssimas. Estranhei a sua beleza pelo local tão pouco apropriado para o seu cultivo e no meu íntimo identifiquei o proprietário como uma alma minuciosa e poética. Por detrás de uma mesa apinhada de livros, revistas e folhas, uns olhos frios seguiam-me os movimentos, sem qualquer formalidade nem qualquer tentativa de me fazer bem-vindo. Ainda não me tinha sentado e já ele me perguntava a finalidade da consulta. Comecei a responder antes de me compor devidamente na cadeira pouco confortável, colocada estrategicamente frente à secretária.

- O objectivo é apenas dispor do atestado de robustez psíquica quanto antes. Hoje termina o prazo da entrega. - Não me pareceu ficar surpreendido.
- É doido? – perguntou de rompante.
-Quem, eu? - Engasguei-me.
- Sim. É louco? - Repetiu como se a pergunta fosse razoável. - Tem alguma idiossincrasia mais estranha que o faça ter medo ou ter vergonha de si mesmo?

Julgou conveniente explicar-me melhor o conceito de loucura e senti aquele clamor íntimo de que para um psiquiatra a resposta não poderia ser demasiado óbvia. Como se a negação de qualquer anomalia psíquica pudesse colocar dúvidas no administrador da sanidade pública, e, naturalmente, não poderia declarar a minha insânia por não ter razões fortes para a justificar e, fundamentalmente, para não ficar sem o diploma pretendido.

- Doido, doido não serei, senhor doutor. Tenho os meus dias e as minhas afrontas. Mas julgo que nem serei nem mais robusto nem mais afectado que o comum das pessoas.

Ele olhava-me fixamente como se decifrasse palavra por palavra, do gesto mais suave ao mais brusco, as minhas mãos entrelaçadas no peito, vestígio da timidez, tudo o que poderia ser interpretado como lacunas, faltas de rigor ou mesmo de tentativas de distorção da verdade num inquérito chave para o futuro da minha situação profissional. Ao mesmo tempo anotava numa folha de papel A5, talvez para tornar a entrevista mais autêntica e emocionante. Interrompeu-me.

- Diz-me que não é alienado, mas ainda ontem com o mesmo objectivo veio cá um colega seu do Liceu Camões que, após afirmar a sua sanidade, contou-me que a única deriva da sua vida se devia ao facto de viver em casa de uma tia e o temor de ser violado por ela o obrigavam diariamente a colocar junto à porta os livros, os dicionários e até os manuais de inglês que utiliza nas aulas. Agora diga-me lá se poderia entregar o atestado a esse senhor?
- Não sei. – Arrependi-me logo depois de lhe ter respondido “não sei”. O especialista olhava para mim na expectativa de uma justificação para as minhas dúvidas. - Quer mesmo que lhe responda? Percebi que era um jogo. Agora que começara teria de jogá-lo com toda a cautela.
- Mas o senhor doutor perguntou-lhe se a porta do quarto tinha chave?

Após uns segundos de reflexão parecia agora hesitante na resposta. Sentia-se malogrado com o andamento da consulta, esperara da minha parte o não definitivo, o não sem mácula que retirava ao meu colega o merecimento de tal certidão e que comprovaria de forma definitiva a minha saúde mental. Agora ganhara dúvidas também a meu respeito.
- O problema não era a falta de chave da porta, o problema era o temor irracional que tinha da própria tia. Acha isso normal? Acha, acha? – E questionava-me como se quisesse não só perscrutar a minha salubridade, como dar-me uma lição sobre diagnóstico social de neuras e pecados.
- Não, mas calcule que a tia não é boa da cabeça e tem o terrível hábito de durante a noite o importunar com pequenos desmandos e pedidos incestuosos. Como o senhor doutor não conhece a senhora terá de ficar na dúvida de que o professor pode ter razões fundamentadas para ter medo de dormir na mesma casa da tia. E encontrou nos livros um bom remédio, um instrumento rudimentar mas com justificado mérito lógico, pelo ruído que produzirão a espalharem-se no chão da sala.

Não me pareceu nada satisfeito por lhe colocar uma hipótese alternativa à sua explanação, - por muito pouco provável que fosse - por lhe refutar a prova testemunhal da fragilidade psíquica do anterior freguês. Também não me pareceu que quisesse continuar a argumentação, mas eu estava disposto a demonstrar a minha clareza lógica.
- Eu, por exemplo, conheço alguém que não consegue dormir em hotéis.
- A sério? Perguntou-me, agora com visível interesse.
- Sim, como reconhece que para lá da sua própria chave do quarto existem outras que poderão ser utilizadas pela empregada, pela administração e até pelos tipos da recepção, receia que no meio do sono poderá entrar algum deles e ser vítima sabe-se lá de quê. Assim não dorme, razão pela qual só viaja quando a necessidade profissional o obriga.
- Isso é muito interessante, retorquiu de imediato. Mas terá de concordar que o temor perante a possibilidade de desconhecidos entrarem no seu domínios e ser atacado por eles é sempre mais plausível do que por uma velha tia que vive na mesma casa. – Depois calou-se como se arrependesse de me explicar o que quer que fosse. Um silêncio constrangedor que me deu tempo de admirar novamente as orquídeas amarelas que recebiam o sol directamente da janela e ganhar dúvidas que fosse ele o cuidadoso cultivador. Mas esse alguém é você? – interrompeu-me sem aviso e anotei-lhe um leve sorriso cínico.
- Não senhor doutor, eu apenas não consigo dormir devido a insónias. Não tenho medo de ninguém em especial, são os meus próprios demónios que me abalroam. Demónios, senhor doutor, são uns antros escuros no cérebro, uma espécie de buracos negros que me obrigam a pular lá para dentro e levo a noite inteira a tentar saltar cá para fora. Dou tantas voltas na cama que de manhã sinto-me tão cansado como se tivesse participado numa maratona. Mas isso é raro acontecer e quando acontece…

Com um sinal brusco pediu-me para me calar e sem mais comentários começou a escrevinhar numa folha azul uma dúzia de palavras, passou-me o documento para a mão, acompanhando o gesto com um frio “tenha uma boa tarde”. Saí do consultório sem tempo para admirar, mais uma vez, as orquídeas amarelas de flores lindíssimas que emolduravam o parapeito da janela.

quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009

O Balanço


Lá fora amanhece lentamente. Pontos luminosos correm atrás uns dos outros em direcções opostas, revelando que a vida se espreguiça em várias frentes. O horizonte enlameado, devido às últimas chuvadas, transmite-nos desconforto e indiferença. Nas casas equilibradas na colina não se avista qualquer sinal de actividade, o que poderá significar que os donos se recolhem ainda no vale dos sonhos. A vida não anda para brincadeiras e quanto mais prolongarem o sono menos tempo resta para mágoas e decepções…

Do meu ponto de vigia não consigo encontrar – por mais que tente – o meu lugar de eleição, aquele espaço privilegiado que me permitiria realizar todos os sonhos. Também não vislumbro a saída profissional que me liberte da sensaboria, do enfado e do cansaço diário. Talvez não haja desenlaces felizes neste tempo de crise, de incerteza, de perplexidade, de estagnação. Ando em fase de balanço, sabem? Os anos sucedem-se a um ritmo alucinante e, ainda a contabilidade do anterior vai no adro, já outro nos cai em cima como um fardo pesado. Não há vagar para renovação interior e para cerimónias de depuração. Persevera a velha vida com as desgastadas roupagens cheirando a mofo.

Mas há sempre a secreta esperança de que a novidade no tempo transporte por magia uma outra vida, imbuída daquele entusiasmo juvenil que transforme os dias em redemoinhos de alento. Razão pela qual este meu cantinho de confidências anda tão desprezado neste final e princípio do tempo. Os empecilhos à escrita amontoam-se como a roupa suja que já não cabe no cesto, enquanto outra, húmida e fria, dependurada nas cordas, vagueia ao sabor do vento. Debato-me com a falta de palavras, com o desassossego de um espírito que não tem poiso. Há fantasias que gostaria contar, mas há momentos de desânimo que obrigam a pausas, tal como há outros que impelem ao silêncio (o silêncio é não só o melhor conselheiro como, não raras vezes, o melhor contador de histórias).