
Querido amigo
Pelas razões que bem conheces sinto-me infinitamente triste. Uma tristeza opaca que me veste e vai comigo para todo o lado. Invólucro que se confina à minha pele, constrói nela uma parede sem brechas para o mundo. Todos os meus passos ecoam como se andasse em cima de mim mesma. Sinto-me, literalmente, no fundo do poço. Nem eu sei como consegui escrever-te esta carta, nem como vou ter forças para ta enviar.
Vivo não sei onde, um lugar inóspito, sem qualquer ponto de referência, sem túneis nem degraus, de reduzida dimensão e onde permaneço imóvel. Caí aqui há bastante tempo, permaneci inconsciente outro tanto e depois fui consciencializando-me do facto. Primeiro chorei de desespero, agora, mais resignada, tento aprender a sobreviver, a delinear estratégias na expectativa de ser salva.
No fundo do poço já não se luta. Espera-se. Aliás, deve manter-se o máximo de quietude para não deitar tudo a perder. Qualquer esforço, qualquer trabalho inócuo, poderá ser fatal. As circunstâncias são penosas e tenho que me resguardar para a possibilidade de uma longa espera. Tornei-me mais racional e menos emotiva. Aprendi que, mesmo ouvindo as passadas de alguém em redor da abertura, não significa socorro. Mesmo que alguém espreite para o interior, não significa salvação. A profundidade, a penumbra, o jogo de sombras que se vai alterando de acordo com as horas do dia ou da noite, o eco que reverbera a voz, tudo impede a descoberta do corpo, ouvir os lamentos, ou calcular as sinaléticas de ajuda.
No entanto, após horas e dias de batalhas pela sobrevivência, devido ao frio, ao medo, à debilidade do corpo e ao cansaço do espírito, ainda cometo erros e deixo-me enganar por ilusões sedutoras. São frequentes miragens de portas secretas que se abrem de par em par, bebidas quentes que fumegam ao meu lado, personagens sorridentes que me dão a mão e me oferecem a salvação nada pedindo em troca. Após momentos embevecida pela luz e pelo calor quente das mãos, reconheço a farsa, esbracejo, grito e expulso-os deste meu espaço húmido e frio. Quanto mais adio o desengano, menor capacidade ganho em encontrar o caminho da remição. Só sobrevirei se não esgotar as energias em lutas vãs contra as paredes íngremes, contra as falsas saídas, contra a falta de pontos de apoio de uma escuridão que não me permite saber se é dia ou noite, contra as dúvidas se alguém se aproxima ou se não passa de uma alucinação auditiva.
Quando chegamos ao fundo do poço o melhor é prepararmo-nos, desde logo, para recomeçar. Ou então abandonar de vez o objectivo de existir. Percebo agora que a minha vida anterior não fornece qualquer esperança. Terei de alterar procedimentos e metas, sem processos de intenção, sem mentiras. Estou a reconstruir o meu eu, tenho a grande oportunidade de me reencontrar na pureza original, aquela visão de mim sem as máscaras do tempo. Depois, talvez uma silhueta amiga espreite e não desista, apesar das sombras, dos ecos, da obscuridade, e venha prevenido com uma lanterna e uma escada de corda e me arraste escarpa acima, provavelmente já em hipotermia, frágil pela fome e sede, inerte e com os olhos frios da escuridão. Se conseguir salvar-me, estarei pronta a recomeçar.