quarta-feira, 1 de Julho de 2009

A Vingança


Tenho cá para mim que ele nem a viu. Afirmou-o e jurou-o depois, pela alma de sua mãezinha, que não tinha reparado nela nem correspondido com qualquer galanteio. Segundo o testemunho de alguém bem colocado, ela olhara-o de alto abaixo como se olha um homem para fins não matrimoniais e depois continuou rua acima, em direcção da sua casa que comandava as vistas na praça Duarte Gomes, enquanto ele teria respondido com uma observação cujo conteúdo era diferente conforme as versões. Uns afirmavam que apenas lhe teria retribuído com um simples “comia-te toda!”, outros que se limitara a dizer “ És boa como o milho!”. Seja como for, uma indiscrição que iria custar-lhe a vida, pois o marido não poderia admitir que a sua mulher fosse objecto de um piropo tão cheio de segundas intenções, quando ela tinha em casa um homem que chegava e sobrava para lhe apaziguar todas as labaredas do corpo.

Quando a GNR chegou para o levar para a cadeia do Linhó não só se deixou algemar como manteve o semblante cheio de soberba por ter cumprido o seu dever. Já na cadeia soube que a mulher, afinal, não só continuava a olhar de alto abaixo os homens como os levava para casa, deitava-os na sua própria cama e fazia com eles todas as porcarias descritas em revistas da especialidade e naqueles longos anos debaixo de telha teve a certeza que quando saísse não haveria local seguro, nem longínquo para ela, pois iria tratar-lhe-ia da saúde com todos os preparos sádicos que as noites silenciosas e lentas da prisão lhe davam oportunidade para inventar.

Saiu vinte anos e dois dias após aquele trágico incidente. Estava bem mais velho. A calvície, a barriga meio saliente e as rugas nas mãos testemunhavam o facto com crueza. Fez um sinal de desânimo ao olhar-se pela última vez no espelho da casa de banho. Rapidamente, percorreu todos os pormenores que os vinte anos lhe ensinara a pontuar, lavou a cara após encher de água as duas mãos juntas, parou um instante para ter a certeza de que nada esquecia e encaminhou-se para a porta. Saiu do portão como se estivesse de novo a sair da barriga da mãe. Apeteceu-lhe chorar e algumas lágrimas percorreram a face sem saber bem a razão. O dia encaminhava-se para o fim e o sol por trás do monte iluminava a paisagem seca. O calor abrasador dos últimos dias amarelara as coisas e parecia-lhe que, tal como ele, o mundo envelhecera a olhos vistos.

Ninguém o esperava. A família mais chegada foi morrendo durante as duas décadas como fruta madura. Próximo, ninguém restara. Por herança, coubera-lhe um pequeno casebre na aldeia e uns terrenos de pouco valor comercial, mas capazes de fazer crescer batatas, feijão e cebolo. Sem alternativas, recomeçaria aí a sua vida, depois tinha tempo para engendrar novos rumos. Os primeiros dias ocupou-os a arrumar coisas que ficaram por ali abandonadas, desde roupas velhas, fotografias, artefactos agrícolas que lhe traziam à memória uma infância povoada de rostos afectuosos e vida dura. A maioria deitou no lixo, outras guardou-as em arcas velhas na loja, enquanto as fotografias espalhou-as pela casa. Depois saiu para a rua, cruzou-se com desconhecidos que lhe viraram a cara e no pequeno supermercado comprou pão, queijo e alguns pacotes de leite. Em casa, enquanto comia, decidiu adquirir animais, uma galinha, dois coelhos, dois patos, um porco e duas cabras. Apontou tudo o que precisava numa folha amarelada para nada esquecer na próxima visita à feira da Vila.

E nesse dia o curral – após tantos anos árido e silencioso – era agora um antro de vida, uma espécie de arca de Noé que encerrava a força vital que alimentaria o futuro após o dilúvio. Indivíduos que não se conheciam, mas que, após algumas celeumas e guerra de territórios, pactos e estratégias de intimidação, iam-se acomodando como se percebessem que a partir daí teriam de inventar razões para gostarem uns dos outros. Ele sentado na varanda olhava aquele mundo novo que se aconchegava e sentiu-se feliz pela primeira vez em muitos anos. Construiria algo harmonioso junto aos montes. Com horizontes de perder de vista, um silêncio cósmico apenas quebrado aqui e ali por pequenos movimentos das árvores ou das poucas pessoas que restavam, podia recuperar o espaço perdido na clausura e limpar o coração de velhos ódios que matam como cancros silenciosos. E nesse final de tarde teve a certeza que a vingança que o manteve vivo na prisão tinha cumprido já o seu papel. Agora preferia olhar a serra cheia de pinheiros acotovelando-se uns aos outros, enquanto no curral os bichos se afadigavam a compor a cama, pois a noite não tardava a chegar.

1 comentários:

maria disse...

Hoje inauguro eu esta secção!... e com o gosto de sempre, porque os teus textos continuam belíssimos e a apontar o caminho natural do romance...

Beijos