
Filomena dava tudo por uma união de facto. Uniões tivera muitas, mas quando chegava a hora de as oficializar e dar um rumo, todos fugiram como as cobras dos incêndios. Perdeu a face nalgumas ocasiões, noutras o orgulho andou pelas ruas da amargura. Rastejou, implorou uma vida a dois, mesmo a mais se tal fosse impreterível, mas nada lhe valeu e a solidão transformou-se num cenário de batalha, com feridas abertas e cicatrizes que dariam para várias vidas. Agora com quarenta e três anos, após conviver com todos os ofícios, parecia ter ficado desempregada definitivamente. O último fora um delegado de propaganda médica que na derradeira visita prometera regresso definitivo e mudança de profissão, mas já lá iam três anos e dez dias e destroçara todas as esperanças.
Vivia numa casa acolhedora e decorada com gosto e cuidava-se de forma sugestiva e exigente. Rua abaixo, rua acima, pose de estrela e olhar cortante, todos os dias a marcar o território. Tal como personagem de comédia romântica transformava a rua num cenário burlesco. Fazia travessuras de menina jovem e atrevida aos homens conhecidos, piada na ponta da língua provocando reacções e trejeitos maliciosos. Dona de uns lábios carnudos, de tal forma pastosos que contemplá-la a beber um café ao princípio da tarde na pastelaria era uma experiência alucinante. Sorvia com algum aparato e o líquido aromático que escorria pelos beiços era desgastado cuidadosamente gota por gota.
Martirizava-se tanto pela ausência de homem fixo que para atenuar a falta comprou um cão. Percebia a diferença, mas os afectos tornam-se mais genuínos ao definirem-se critérios. Gostava do bicho como de um parente próprio, até lhe poderia dar a comida à boca por ser mais esquisito do que um Sultão das arábias, mas quando se tratava ponderar circunstâncias ou identificar finalidades, aí as dúvidas desapareciam e homem metido em casa por compromisso firmado adquiria um valor que cão nenhum poderia presumir. Por isso, qualquer resposta mais atrevida, qualquer atenção mais espampanante, qualquer gentileza mais afectuosa, era logo motivo para uma atenção de ave de rapina. E nesses tempos de entusiasmo quem se tramava era o animal. Devido à birra de só comer de colher pela mão da dona passava uma fome de cão.
Mas no meio dessas manobras os anos foram passando, o cão cada vez mais velho, ela cada vez mais obsessiva. E foi num Setembro chuvoso que arribou à cidade um militar em tempo de reforma e vida familiar num impasse. Após a separação não poderia habitar a casa degradada que recebera de herança e procurava uma casa até resolver os problemas de infiltrações no telhado. Ficaria num hotel até encontrar uma solução. No dia seguinte, entre telefonemas e o diabo a quatro, Filomena não só já tinha a biografia completa do herói de armas, como na mão a solução para o problema. Conseguira a chave de uma casa pegada à sua, cedida temporariamente, enquanto a proprietária fazia vida no Canadá. O encontro com o fardado teve conotações com fina estratégia militar.
Vivia numa casa acolhedora e decorada com gosto e cuidava-se de forma sugestiva e exigente. Rua abaixo, rua acima, pose de estrela e olhar cortante, todos os dias a marcar o território. Tal como personagem de comédia romântica transformava a rua num cenário burlesco. Fazia travessuras de menina jovem e atrevida aos homens conhecidos, piada na ponta da língua provocando reacções e trejeitos maliciosos. Dona de uns lábios carnudos, de tal forma pastosos que contemplá-la a beber um café ao princípio da tarde na pastelaria era uma experiência alucinante. Sorvia com algum aparato e o líquido aromático que escorria pelos beiços era desgastado cuidadosamente gota por gota.
Martirizava-se tanto pela ausência de homem fixo que para atenuar a falta comprou um cão. Percebia a diferença, mas os afectos tornam-se mais genuínos ao definirem-se critérios. Gostava do bicho como de um parente próprio, até lhe poderia dar a comida à boca por ser mais esquisito do que um Sultão das arábias, mas quando se tratava ponderar circunstâncias ou identificar finalidades, aí as dúvidas desapareciam e homem metido em casa por compromisso firmado adquiria um valor que cão nenhum poderia presumir. Por isso, qualquer resposta mais atrevida, qualquer atenção mais espampanante, qualquer gentileza mais afectuosa, era logo motivo para uma atenção de ave de rapina. E nesses tempos de entusiasmo quem se tramava era o animal. Devido à birra de só comer de colher pela mão da dona passava uma fome de cão.
Mas no meio dessas manobras os anos foram passando, o cão cada vez mais velho, ela cada vez mais obsessiva. E foi num Setembro chuvoso que arribou à cidade um militar em tempo de reforma e vida familiar num impasse. Após a separação não poderia habitar a casa degradada que recebera de herança e procurava uma casa até resolver os problemas de infiltrações no telhado. Ficaria num hotel até encontrar uma solução. No dia seguinte, entre telefonemas e o diabo a quatro, Filomena não só já tinha a biografia completa do herói de armas, como na mão a solução para o problema. Conseguira a chave de uma casa pegada à sua, cedida temporariamente, enquanto a proprietária fazia vida no Canadá. O encontro com o fardado teve conotações com fina estratégia militar.
Apresentou-se no hotel e pediu para falar com o senhor comandante, recém-chegado. Pouco depois, ele surgiu na recepção meio aturdido, alto e muito magro, com a face marcada de sulcos profundos e vestido de forma atabalhoada. Olhava para todos os lados para identificar alguma cara conhecida, ela acercou-se e interrompeu-lhe a pesquisa.
- Sou o seu anjo da guarda, muito prazer.
- Mas eu não pedi nenhum. Disse ele, sorrindo e espantado.
- Nestas coisas do céu só Deus na sua infinita sabedoria é que sabe.
- Mas eu não preciso de guarda, apenas um tecto impermeável! E deu uma gargalhada sonora.
- Olhem que coincidência! Talvez tenha o que procura…
- Mas olhe que um tecto é uma coisa muito grande e não se guarda facilmente!
- Sabe-se lá, sabe-se lá…
O homem ainda manietado pela surpresa estendeu a mão timidamente, disse o nome e despediram-se após conversa de circunstância. Ao fim da tarde Filomena reapareceu com a solução na mão, uma chave tão reluzente como um castiçal de igreja. O militar recuou numa manobra de contenção,
- Mas eu nem conheço a senhora, porque é que me fará uma coisa destas?!
- Sabe, mas uma amiga comum…
- Mas eu nem tenho amigas na cidade… Depois de uma hesitação. - Agradeço na mesma, cá me arranjo.
- Claro, o senhor é que sabe. Mas olhe que na vida não se pode ser pobre e mal agradecido – e fitou-o com um sorriso aberto, misturado com algum azedume.
Um recuo estratégico. Sabia da enorme dificuldade em encontrar uma casa vaga na cidade e, mais cedo ou mais tarde, anuiria. Uma semana depois, tal como previsto, surge do nada, como mera coincidência e quase tropeçam na esquina feita de loja de sapatos.
- Ah, o senhor general!
- Bom, desculpe, eu não sou general.
- Olhe, não importa, tem corpo para isso! - Ele ria mais do que a elegância o permite. Vamos tomar um café? perguntou ela sorrateira, está bem, respondeu ele a custo, e, ao olhar embasbacado para aquele sorvedouro barulhento, o militar rendeu-se às forças estrangeiras e acertou uma mesada barata por ser um guerreiro que defende o País, caso necessário, com o sacrifício da própria vida. As portas das casas eram tão juntas que se poderia enganar sem escândalo algum, garantia ela ao cão enrodilhado no seu colo, ao mesmo tempo que ouvia os passos lentos do militar no soalho da casa do lado.
- Sou o seu anjo da guarda, muito prazer.
- Mas eu não pedi nenhum. Disse ele, sorrindo e espantado.
- Nestas coisas do céu só Deus na sua infinita sabedoria é que sabe.
- Mas eu não preciso de guarda, apenas um tecto impermeável! E deu uma gargalhada sonora.
- Olhem que coincidência! Talvez tenha o que procura…
- Mas olhe que um tecto é uma coisa muito grande e não se guarda facilmente!
- Sabe-se lá, sabe-se lá…
O homem ainda manietado pela surpresa estendeu a mão timidamente, disse o nome e despediram-se após conversa de circunstância. Ao fim da tarde Filomena reapareceu com a solução na mão, uma chave tão reluzente como um castiçal de igreja. O militar recuou numa manobra de contenção,
- Mas eu nem conheço a senhora, porque é que me fará uma coisa destas?!
- Sabe, mas uma amiga comum…
- Mas eu nem tenho amigas na cidade… Depois de uma hesitação. - Agradeço na mesma, cá me arranjo.
- Claro, o senhor é que sabe. Mas olhe que na vida não se pode ser pobre e mal agradecido – e fitou-o com um sorriso aberto, misturado com algum azedume.
Um recuo estratégico. Sabia da enorme dificuldade em encontrar uma casa vaga na cidade e, mais cedo ou mais tarde, anuiria. Uma semana depois, tal como previsto, surge do nada, como mera coincidência e quase tropeçam na esquina feita de loja de sapatos.
- Ah, o senhor general!
- Bom, desculpe, eu não sou general.
- Olhe, não importa, tem corpo para isso! - Ele ria mais do que a elegância o permite. Vamos tomar um café? perguntou ela sorrateira, está bem, respondeu ele a custo, e, ao olhar embasbacado para aquele sorvedouro barulhento, o militar rendeu-se às forças estrangeiras e acertou uma mesada barata por ser um guerreiro que defende o País, caso necessário, com o sacrifício da própria vida. As portas das casas eram tão juntas que se poderia enganar sem escândalo algum, garantia ela ao cão enrodilhado no seu colo, ao mesmo tempo que ouvia os passos lentos do militar no soalho da casa do lado.
3 comentários:
n your country as I sit over here in the short days and cold and sometimes frost and snow....remembering a ""snow cave"" that some of us snuggled into for survival...you thought you might go to some foreign country to see the mountains...is it still something you might like to do??...I feel that I must show the lovely Portuguese the real NZ... not just the horror, and have an idea that if the one with the wide open smile is still able I would love you to bring him back and a friend or two if you would like,my house has lots of room for friendly travellers ..then perhaps someone can also quietly explain to me just exactly what has happened to you all over the last six months.!!. And I can show you the nice parts of my land ..including the mountains...perhaps in our summer again if you can spare the time??..abraco Ileu....I can send you my email address....
Grande mulher! Que interessa ser general ou soldado, a questão é ter aquilo que se quer e ir procurar. Assim mesmo! Mas há pouco disto, a luta dá muito trabalho e o pessoal não está pra isso.
Muito bom, como sempre
Muito bacana o blog, ótimos textos. Pretendo voltar mais vezes.
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