quarta-feira, 3 de Junho de 2009

Quando nos arrastamos em busca de nós...


Sem sombra de dúvida, naquele dia, iria jogar todos os seus trunfos. Era agora ou nunca. Sentia-se tão forte como um rochedo, defendido por todos os lados. Não havia qualquer risco que colocasse em perigo a sua certificação. Seria delicado, interessante, perfumado, sereno. Esperaria dela um momento de fraqueza, um ápice de fragilidade. Mas não tinha pressa, poderia ser amanhã ou mesmo depois. Aguardaria a estocada final para o momento propício. Vivia obcecado com a possibilidade de a ter, solução para todos os seus enigmas, ponte para futuros risonhos. Seria feliz, ganharia aquele estado de espírito de bem-aventurança própria dos afortunados. Ao longo da sua vida dispôs de poucos instantes onde fosse tão evidente o caminho para a realização pessoal.

Subiu as escadas, bateu à porta com o nó dos dedos, esperou resposta, bateu novamente com pouco vigor, depois com mais força, até que concluiu que ninguém o esperava. Desceu a escadaria com a garganta a saber a fel. Foram amigos, mas um dia fitou-a nos olhos e, quase sem pensar, admitiu-lhe que se alterara a forma de a ver. Agora, julgava ter encontrado a mulher da sua vida. No início, ela declinou amavelmente a reviravolta, mas após tanta insistência e quando, finalmente, julgava poder contar com o seu colo, ela recusara estar no local combinado. Se eu não estiver, o melhor é nunca mais me procurares, disse. Poderás ganhar tudo ou perderes o muito que tens. Foi da tua responsabilidade, mas ao chegar-se aqui não se pode voltar atrás.

E com o vento forte a levantar-lhe os cabelos, sentiu-se mais uma vez um miserável, objecto de repulsa e traição. Sempre acreditou que os outros seriam a fonte da sua liberdade, da alegria, da sua acomodação ao Universo. Admitia que a felicidade é desempenhar um papel destinado pela ordem universal, ocupar o seu lugar natural de que falava a cosmologia antiga. O Cosmos é uma espécie de puzzle infinito, onde cada ser, cada coisa, se vai encaixando, se vai aconchegando, ao mesmo tempo que se conquista a convicção de ter chegado finalmente a casa. Até atingir esse patamar, todos terão de resistir aos vazios, à envolvência do medo e da tristeza que os rodeiam como a ventania. No telemóvel em chamamento olhou para o nome dela a brilhar no mostrador, mas não atendeu. Suportou a inércia como se o facto o libertasse de todo o vazio que se seguiria. Chegou a casa, deitou-se no sofá com as pernas apoiadas na secretária, abriu a televisão num canal onde séries americanas passam sem intervalos, um calmante feito de histórias com finais felizes.

Uma hora depois acordou e sentiu-se desabitado, tão oco como uma noz vazia. Olhou pela janela e o mundo continuava com o mesmo ritmo, o mesmo cheiro, um cenário semelhante ao mundo de ontem e de anteontem. Manchas verdes, outras mais escuras de cor da terra, uma encenação dourada por um Verão abrasador. O céu dotado de azul transparente destacava o branco das casas que pareciam adormecidas pela canícula. Concluiu que o Universo não se submete às nossas manifestações de ansiedade, egoístas e mesquinhas aspirações de poder, ânsias de heroísmo capazes de resolver as fragilidades que nos maltratam. Se resistirmos e nos recostarmos serenamente a um tempo frouxo que faz amarelecer a erva dos campos e amadurecer as frutas das árvores, num silêncio absoluto – só cortado aqui e ali pelo frágil balouçar das ervas esguias – então, conseguiremos reencontrar a nossa natureza, a nossa liberdade, a nossa fortuna.

3 comentários:

Anónimo disse...

Lovely Ilheu, I came to your land, suffered enormous trials as I tried to find him through all of those terrible days and nights and pain...And once that seemed to be a final and futile end....I had wanted to find you as well, that lovely philosopher that you are, but I did not know where to find you in that town....A horror visit I would not want to ever repeat..

But during all of those trials for me in your land.. I found again the warmth of a new summer,those beautiful red poppies, all over the country!!, well photgraphed now.. the wide open spaces of the Alentejo,The temple of Diana! the lovely places of people and fountains and statues in your city..and although I left with that terrible emptiness of personal loss,I plan my return to your land perhaps next spring, ...There is a bond to your earth and sky that I feel deeply and cant explain....Perhaps you should plan a trip to these mountains over here in our summer?..I would love to take you (and yours) to our wide open spaces as well......(SunGirl)

::::: disse...

(...) O Cosmos é uma espécie de puzzle infinito, onde cada ser, cada coisa, se vai encaixando, se vai aconchegando, ao mesmo tempo que se conquista a convicção de ter chegado finalmente a casa. (...)
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Belo título.
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Acho que perdi a tua "apresentação" de hoje, não foi...? Desculpa...

Beijo

Anónimo disse...

...a dureza de uma "nega" é complicada de gerir quando o investimento emocional é elevado. Se a titude for positiva, aproveita-se a experiência no sentido de melhorar a "técnica"; se for negativa, corre sérios riscos de "afundamento"...
av