
A loucura sempre incomodou. Abana com a comodidade da norma, a felicidade das ideias feitas, a conformidade com os rituais, com os hábitos, com os modelos. Por isso, desde sempre, gerou marginalidade, pois não é possível a convivência pacífica entre uma perspectiva estática da verdade e um discurso disforme, irrequieto e revolucionário. Por isso, todos os génios foram incompreendidos no seu próprio tempo, porque a sua vista alcançava mundos distantes e contraditórios com aqueles que serviam de cenário aos demais.
Claro, que ao lado desta loucura impregnada de genialidade há uma outra mais silenciosa, mais dramática que é a deficiência mental. Doença maldita que suscitou sempre temor e violência, pela incompreensão da sua origem e significado. Foucaut descreve esse percurso dantesco, desde a identificação entre loucura e animalidade - ao mesmo tempo que descrevia os maus tratos infligidos em masmorras de cortar a respiração ou em navios que vagueavam sem rumo - até à visão humanista e integradora que hoje percorre a sociedade ocidental. A loucura, sendo uma doença estudada, diagnosticada, impõe mecanismos técnicos de controlo, infra-estruturas condignas para internamento dos doentes e campanhas de promoção dos direitos dos deficientes. Mas, em geral, todos queremos esquecer a existência do problema e viver longe dos nossos próprios fantasmas.
Vem isto a propósito de uma experiência que vivi há alguns anos após um convite de uma Associação para participar numa colónia de férias na Tocha, com um grupo de jovens com deficiências mentais. Sendo a minha primeira experiência de contacto com a doença ia com o coração apertado, antecipando quadros horrendos, justificados pela ausência de imagens ou análises nos meios de comunicação social. As pessoas não querem falar disso, as famílias que vivem o drama tendem a escondê-lo dos outros, as comunidades de internamento fecham-se sobre si mesmas. Parece que o silêncio é conveniente para todos.
Mas, afinal, a ansiedade deu origem à surpresa de ter à minha frente quase duas dezenas de jovens, de aspecto normal, sorridentes, com comportamentos normalizados. Infantis, mas cheios de significado. Gestos repletos de comunicação, presença em catadupas de afectos, sorrisos que, facilmente, se poderiam confundir com esperança. Ainda hoje me lembro dos seus nomes, das brincadeiras, das canções, das pinturas, da ida à discoteca do Centro, dos olhares esbugalhados e divertidos face a novas situações. Lembro-me do sorriso da Emília, o mais gracioso de todos, ao entrar pela primeira vez numa piscina, batendo com as duas mãos na água, extravasando uma felicidade surpreendente... Aliás, o caso da Emília é paradigmático. Tinha perto de trinta anos e estava há dois anos internada. Desde criança que trabalhava de sol a sol nas fainas agrícolas dos pais, mal alimentada e acomodada numa espécie de galinheiro. A Segurança Social, após denúncia, descobriu-a em condições sub-humanas e determinou a sua institucionalização. As técnicas contaram que alguns dias após o internamento começou a exibir uma personalidade mais afável, sorria com os gestos meigos dos outros, e ficava excitadíssima quando a ementa do almoço era sardinha, pois na casa da família era o conduto das festas. Comia um grande número, engolindo-as inteiras. A fartura fazia-a feliz, ria muito, desvendando os dentes manchados e um espaço escuro no meio deles.
Os dias passavam calmos e devagar. Ao pequeno-almoço e ao jantar as doentes tomavam grandes quantidades de químicos. Comprimidos de várias cores e tamanhos que eram engolidos num trago pela força do hábito e de líquidos. Algumas protestavam, faziam birras, esbracejavam e só a custo todo o procedimento se resolvia. Depois permaneciam mais reservadas, mais melancólicas, perdendo muita da espontaneidade. Eu ficava sempre na dúvida se os fármacos não lhe diminuiriam a vida que elas desejavam ter e a que tinham direito, reconduzindo-as a uma natureza mais pachorrenta, moldada à medida de nós. Os outros.
Claro, que ao lado desta loucura impregnada de genialidade há uma outra mais silenciosa, mais dramática que é a deficiência mental. Doença maldita que suscitou sempre temor e violência, pela incompreensão da sua origem e significado. Foucaut descreve esse percurso dantesco, desde a identificação entre loucura e animalidade - ao mesmo tempo que descrevia os maus tratos infligidos em masmorras de cortar a respiração ou em navios que vagueavam sem rumo - até à visão humanista e integradora que hoje percorre a sociedade ocidental. A loucura, sendo uma doença estudada, diagnosticada, impõe mecanismos técnicos de controlo, infra-estruturas condignas para internamento dos doentes e campanhas de promoção dos direitos dos deficientes. Mas, em geral, todos queremos esquecer a existência do problema e viver longe dos nossos próprios fantasmas.
Vem isto a propósito de uma experiência que vivi há alguns anos após um convite de uma Associação para participar numa colónia de férias na Tocha, com um grupo de jovens com deficiências mentais. Sendo a minha primeira experiência de contacto com a doença ia com o coração apertado, antecipando quadros horrendos, justificados pela ausência de imagens ou análises nos meios de comunicação social. As pessoas não querem falar disso, as famílias que vivem o drama tendem a escondê-lo dos outros, as comunidades de internamento fecham-se sobre si mesmas. Parece que o silêncio é conveniente para todos.
Mas, afinal, a ansiedade deu origem à surpresa de ter à minha frente quase duas dezenas de jovens, de aspecto normal, sorridentes, com comportamentos normalizados. Infantis, mas cheios de significado. Gestos repletos de comunicação, presença em catadupas de afectos, sorrisos que, facilmente, se poderiam confundir com esperança. Ainda hoje me lembro dos seus nomes, das brincadeiras, das canções, das pinturas, da ida à discoteca do Centro, dos olhares esbugalhados e divertidos face a novas situações. Lembro-me do sorriso da Emília, o mais gracioso de todos, ao entrar pela primeira vez numa piscina, batendo com as duas mãos na água, extravasando uma felicidade surpreendente... Aliás, o caso da Emília é paradigmático. Tinha perto de trinta anos e estava há dois anos internada. Desde criança que trabalhava de sol a sol nas fainas agrícolas dos pais, mal alimentada e acomodada numa espécie de galinheiro. A Segurança Social, após denúncia, descobriu-a em condições sub-humanas e determinou a sua institucionalização. As técnicas contaram que alguns dias após o internamento começou a exibir uma personalidade mais afável, sorria com os gestos meigos dos outros, e ficava excitadíssima quando a ementa do almoço era sardinha, pois na casa da família era o conduto das festas. Comia um grande número, engolindo-as inteiras. A fartura fazia-a feliz, ria muito, desvendando os dentes manchados e um espaço escuro no meio deles.
Os dias passavam calmos e devagar. Ao pequeno-almoço e ao jantar as doentes tomavam grandes quantidades de químicos. Comprimidos de várias cores e tamanhos que eram engolidos num trago pela força do hábito e de líquidos. Algumas protestavam, faziam birras, esbracejavam e só a custo todo o procedimento se resolvia. Depois permaneciam mais reservadas, mais melancólicas, perdendo muita da espontaneidade. Eu ficava sempre na dúvida se os fármacos não lhe diminuiriam a vida que elas desejavam ter e a que tinham direito, reconduzindo-as a uma natureza mais pachorrenta, moldada à medida de nós. Os outros.
1 comentários:
Sem Químicos e com energia redobrada. O mal (e o bem) são os Outros!
Gostei do seu Blog
Luís Mourinha
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