
Reparei nele quando confessava em público que não poderia concluir o curso porque em breve partiria para Londres. Afirmava sem qualquer tremura na voz, com aquele entusiasmo que põe de parte qualquer sombra de dúvida ou resquício de tristeza. O grupo que o rodeava calou-se quase ao mesmo tempo e alguém comentou.
- Quem me dera! E vais com quem?
- Com o meu pai. – Foi evidente o orgulho quando disse “pai”.
- Com o meu pai. – Foi evidente o orgulho quando disse “pai”.
De baixa estatura, com uma cara redonda que faz lembrar queijos da serra, cabelo à escovinha e olhos grandes, idade próxima dos vinte anos. O corpo disforme, largo e as mãos nos dois bolsos forçavam as calças de tal maneira que parecia eminente a sua queda. Faz parte de uma turma arrumada à pressa para quem nunca gostou da escola, nem se importou em aprender, nem se comoveu com futuros mais lúcidos, e que novas oportunidades os empurraram contra paredes que eles desprezaram no seu devido tempo. Agora ganharam posturas mais serenas, alguns com remorsos sinceros de não terem levado em conta deveres antigos. Um perguntou-lhe:
- Mas o que vais tu fazer para Londres?
- O meu pai tem lá emprego e eu espero encontrar um rapidamente. E se tudo correr bem nunca mais volto.
- O meu pai tem lá emprego e eu espero encontrar um rapidamente. E se tudo correr bem nunca mais volto.
Afirmações num tom de voz mais agudo, com crueldade, como se estivesse a vingar-se de alguém, ou de muitos, possivelmente do País. Na sua mira Londres, a cidade que desfila nos sonhos dos mais novos. Lá haverá trabalho e a vida que falta aqui. Quero lá saber do sol. O que já apanhei dá para uma vida inteira. Monopolizava a conversa. Sonhara demasiadas vezes com o projecto e tinha na manga trunfos que geram entusiasmo. Apanhava-os de surpresa e a maioria invejava a sua sorte. Notava-se que queria prolongar aquele momento como uma expiação de invisibilidade antiga e agora transformado numa celebridade apanhada pelas objectivas dos paparazi. Mas a aula ia começar e ele saiu de cena sem eu dar por isso.
Dias passaram. Não muitos, talvez duas ou três semanas. Ontem cruzamo-nos no corredor, sozinhos e ambos sem firmeza nos passos, hesitando na direcção a tomar. Num corredor tão vazio e silencioso como se ambos andássemos num local de passagem proibida. Olhei para o relógio, depois para ele e fez-me um gesto de reconhecimento. Lembrei-me de Londres e do sortudo em lista de espera.
- Tudo bem? Perguntei-lhe. Ele olhou-me com um embaraço esquivo e, como se me devesse uma explicação, atirou-se decidido ao assunto.
- Já não vou para Londres! Com semblante magoado de uma criança a quem lhe retiraram um brinquedo por simples maldade. - O meu pai adoeceu gravemente. Uma crise na semana passada levou-o ao hospital.
- Já não vou para Londres! Com semblante magoado de uma criança a quem lhe retiraram um brinquedo por simples maldade. - O meu pai adoeceu gravemente. Uma crise na semana passada levou-o ao hospital.
Depois o silêncio, no meio de um corredor desabitado, assombrado por rostos enormes de uma exposição de cariz étnico.
- Tenha calma. Quando melhorar, poderão pensar de novo na viagem. - Disse-lhe.
- Não, para ele acabou-se. Terminaram-se as viagens. Tem uma cirrose em último grau e esteve internado no hospital toda a semana. Agora deixou definitivamente o álcool, caso contrário corria risco de vida.
- Não, para ele acabou-se. Terminaram-se as viagens. Tem uma cirrose em último grau e esteve internado no hospital toda a semana. Agora deixou definitivamente o álcool, caso contrário corria risco de vida.
Não olhava para mim, mas para qualquer ponto fixo no fundo do corredor. Parecia estar a contemplar o cenário da sua própria vida, um pai doente, uma porta do aeroporto fechada, um País sem qualquer esperança e uma escola sem qualquer atracção. Com as mãos nos bolsos continuava a pressionar as calças como se fosse uma tarefa espinhosa que teria de concluir mais cedo ou mais tarde. E continuou.
- Agora às sextas-feiras tenho de faltar às aulas. A minha madrasta trabalha nas noites de sexta e fico em casa a cuidar dele. Faço-lhe chá e recados para não ter que se chatear. Sabe, ele não pode irritar-se. Os nervos dele andam em franja devido à falta do álcool e o stress em excesso poderá ser fatal. Já teve crises horríveis e parece que vai morrer.
Fitei-o com pena, para a sua triste figura, acabado, como se tratasse de um velho de dezanove anos. Um incómodo e um peso que duplicavam à medida que o futuro se tornava lúgubre como o céu de Londres que ele nunca viu. Já perdera o destino que lhe daria de volta a vida, agora poderia perder o pai, o único super-herói com poder de o tirar daqui para fora, libertando-o desta vida de vexames e solidão. Insistiu.
- Qualquer irritação poderá matá-lo e a minha madrasta chateia-o de vez em quando. A única solução seria um transplante do fígado e há uma hipótese de ser eu o doador. Não sei ainda…
Para mim chegava. Não queria mais pormenores, não queria mais confidências. Deixei de o olhar e espiava agora o corredor que continuava desguarnecido, como um estádio depois do dia do jogo. O meu vizinho persistia em tentar tirar as calças do seu sítio e a olhar para o vazio. Era a segunda vez que nos encontrávamos e sabia mais pormenores dele e da família do que da maioria das pessoas que conheço. A sua tristeza profunda, a falta que Londres lhe fazia, apesar de nunca lá ter ido, um pai com uma cirrose e dono de uma irritação que o poderia matar, os chás que lhe compunha às sextas, enfermidades que o deixaram apeado no aeroporto, bebedeiras largadas por medo da morte, do seu problema crónico com as calças, do ódio ao País, ao sol, à escola.
Entretanto, chegavam a conta gotas caras conhecidas, como numa peça de teatro a decorrer em campo aberto. Personagens que passavam por mim desculpando-se do atraso com razões pouco verosímeis, de tal maneira que coloquei a hipótese de que todos estavam coniventes para que ele se libertasse da culpa de eu estar na posse de velhas histórias que o destino tinha alterado. Antes de entrarem, olhavam de soslaio para aquela figura que se encostava a mim como se estivesse apoiado, com uma face redonda - tipo queijo da serra - e semblante triste. Apertei-lhe a mão para o mandar embora, resmungou qualquer coisa que não percebi e lá dentro, após a acalmia, narrei histórias que se prolongaram noite dentro sobre vidas tão complicadas como teoremas matemáticos, filhos quase menores que cuidam de pais que poderão morrer nos seus braços, doadores de fígados saudáveis para transplantes e chás aos fins da noite, na esperança que, num dia, as portas do aeroporto se abram de par em par e o nome deles sejam enunciados num altifalante, passageiros atrasados no embarque para Londres.
2 comentários:
Também não me importava de sair daqui, para longe desta mediocridade toda! bjo
Leva-me contigo!
Enviar um comentário