sexta-feira, 15 de Maio de 2009

O Fim do Princípio



Naquela noite, com o copo na mão, algo incomodado com os focos de luz que escapavam de uma das extremidades do bar, chegou-se mais perto, arrumando o braço junto ao dela. Ela não se retraiu e conservou aquele contacto de pele como parte integrante da comunicação. Falavam com a leveza de dois adolescentes, alguns pormenores clarificados com a aproximação dos rostos. A música alta, só por si, justificava os toques, corpos juntos e lábios roçando o glóbulo auditivo e ela numa atitude receptiva, sem qualquer sintoma de querer esfriar a proximidade. O mais perto que tinha estado dela. Sentia o seu perfume, os cabelos sedosos na face e um calor que se escapulia do corpo.

Quando ela terminou o whisky, colocou o copo enrolado de branco no balcão, olhou para o relógio e fez-lhe um sinal que teria de se ausentar, ao mesmo tempo que compunha uma expressão de lamento pela decisão. Ele gesticulou com os ombros e a face, mostrando compreensão e tristeza, depois com mão levantada, ela despediu-se do resto do grupo que dançava no meio da pista. Nunca daria um passo que pudesse parecer ousado demais para a diminuta intimidade entre eles e, por momentos, sentiu-se perdido entre o movimento da saída dela e os movimentos ritmados dos restantes elementos do grupo. Até que no meio da agitação sentiu uma mão fria no braço que com firmeza o arrastava para a saída.

Encontravam-se havia várias semanas, por coincidências várias e amigos comuns. Poucas semanas depois, ele reconheceu que repetia o ritual para a ver e nela não havia nenhum acanhamento em mostrar que a sua presença lhe agradava. Mas agora que a seguia, guiado pela sua mão, regozijou-se por não ter que compor uma conversa delicada sobre o amor e a verdade, a timidez e a recusa em ficar fora da história, sobre a beleza da sua boca e do perfume que levava para casa noite após noite e da vontade de a rever no dia seguinte e nas inseguranças perante a possibilidade do não e dos treinos para a beijar numa qualquer ocasião silenciosa. Antecipavam-se etapas e congratulou-se por isso. Olhou para trás e na pista todos estavam a observá-los com os sorrisos abertos e gestos cúmplices. Também lhes fez um aceno e eles corresponderam com sinais de contentamento, como permissão para recomeçar com outro papel no seio do grupo.

Pagou as bebidas, apesar da tentativa dele em fazer valer estereótipos masculinos, e entendeu o gesto como um preço a pagar por tomar nos ombros o desembaraço do momento. Combinaram um local - pois os automóveis não estavam estacionados perto um do outro - depois ela fez-lhe sinais de luzes e passou à frente. Conduzia rápido. Os dois automóveis colados no vermelho dos semáforos, tentava encontrar os olhos dela no espelho ou algum gesto amoroso e, com a mudança de cor, os movimentos bruscos dos braços faziam arrancar o automóvel sem hesitações. Abriu as janelas e aumentou o volume do rádio, curvas e contracurvas, locais incógnitos que entravam pelo pára-brisas como num filme, uma noite quebrada por faróis intermitentes em sentido contrário e urbanizações em fila indiana na encosta da serra. Até que o pisca direito ligado e um gesto firme a indicar-lhe um espaço livre o obrigaram a estacionar, continuando ela até desaparecer no meio da curva. Após um leve tempo regressou em passo apressado. Quando acercou, ele sentiu-se com autoridade de lhe dar a mão que ela apertou com força. Junto à porta do prédio largou-a enquanto ela procurava a chave na carteira, mas na penumbra do átrio, na espera do elevador pousado no 5º, ele puxou-a para si e beijou-a suavemente nos lábios e ela correspondeu e apertou-se contra o seu peito como empurrada por uma força qualquer. No interior do ascensor continuaram a certificar paladares de bocas a saber a noite, vida que escorria de um para o outro como se estivessem ligados por canais, pequenos aquedutos que transportavam seiva longínqua, daquela profundidade que descobrimos em nós quando saímos de nós. No apartamento deixou-se ficar junto à porta, enquanto ela acendia luzes e lhe mostrava novamente o caminho. Atrás dela como um sonâmbulo, tirou o casaco e deitou-se na cama com a expectativa na face, num misto de ansiedade, curiosidade e vontade, procurou-lhe a boca e com a mão pesquisava o resto do corpo por baixo da roupa que tinha restado da pressa e ela deixava-se tocar sem condições, como se aquele corpo, a partir de agora, passasse a ser dos dois. Sentiu-se tão livre como se não houvesse lei em sítio algum e afundou-se no vazio que não lhe permitia encontrar sinais seguros de uma realidade situada algures num país qualquer, ponto minúsculo de um universo em expansão, sem se lembrar sequer a sua cor ou simplesmente a sua densidade.

E na tentativa de situar aquele momento fora do campo do sonho apercebeu-se de umas réstias de claridade que vinham do candeeiro da rua e que trespassavam os estores como facas afiadas e permitiam contemplar o corpo tão perfeito como pressentira na noite, durante tantas semanas. Sentiu um odor que evocava vagamente folhas secas e depois, sem qualquer receio, entrou nela não como um intruso, mas como quem faz parte da residência e ela ofereceu-se com uma paixão tão serena que ele nunca mais quis saber se era sério o que sentia, nunca mais se lembrou das ansiedades, medos e reservas, e tudo se escoou na humidade dela que fazia salpicar o gosto e o tacto no escuro dos olhos presos nele, até que adormeceram ouvindo o curso das pessoas para a cidade que eles tinham deixado bem guardada numa pista de dança.

4 comentários:

Anónimo disse...

...está decidido! O próximo livro será um romance...
av

carlos disse...

" Na hora certa ; no local errado e com a pessoa incerta...vais lá Tonito , vais lá..." abraços

Assinado : a tua outra voz ; a da insconciência ; incoerência ; despretensiosa de valores e condições...

Marta Alexandra disse...

Sempre nos agradando com as suas palavras que fazem sonhar e colocar-nos no lugar da personagem

LanzaroTe disse...

...
Beijinho