
Duas silhuetas de mãos dadas percorrem o cais em silêncio. Sente-se uma brisa fresca e por trás do rio a sombra do sol começa a definir o dia. O silêncio já é cortado aqui e ali por automóveis e pressente-se que, rapidamente, a vida reencontrará a passada nervosa de todas as manhãs. Cenário de pressa, de caras estremunhadas e falta de paciência dos transeuntes.
Há histórias sem nexo. A vida tem muitas. Cruzamentos de personagens inverosímeis, que caminham juntos sem que as suas razões se cumpram. Caso se cumprissem as histórias teriam sentido, mas não tinham lugar nesta ou qualquer crónica. Esta história que se vai arrastando à medida que a noite arrasta os pés à procura do recolhimento, teria coerência se os dois fossem amantes, com a melancolia de quem espreita o dia a danificar o sonho. Mas não. Eram duas personagens estranhas que se confrontavam com finalidades divergentes e que impediam o cumprimento na íntegra dos seus propósitos. Ela sabia-o à partida, ele nunca poderia saber.
Ambos casados, ele com filhos. Olham a noite como uma promessa, ou como ela diz, uma botija de oxigénio para náufragos. A noite transforma os sonhos em rios, desde que os seus intervenientes permitam à vida espraiar-se. Conheceram-se uma semana antes, num centro comercial, antes da partida para um jogo de futebol. Coincidência atrás de coincidência foi após um golo que se abraçaram divertidos e ele no meio do frenesim e do perfume que emanava do abraço teve coragem de a convidar para dançar numa discoteca com música africana. Ela concordou de imediato. Ele julgou que o sim, tão claro como o horizonte nestes dias de sol, abria-lhe oportunidades de afectos que ansiava. Ela aceitou porque não tinha qualquer razão para a rejeitar.
Apenas precisava de uma noite com os seus mistérios, as suas armadilhas. Não quero perder nada do que tenho, apenas ganhar um pouco do que fui perdendo. As mulheres vão desperdiçando o gosto pelo sexo e pela aventura, sabes? Ás vezes gostava de regressar ao vento, naquela brisa de entusiasmo que nos faz caminhar de olhos fechados. A vida de casado com todos aqueles silêncios, ritmos indolentes, cânones rígidos que não nos permitem correr com o vento na cara. Durante estes anos, parecia-me que me encostava à vida que me ia levando sem que tivesse qualquer palavra a dizer sobre o destino da viagem. Fartei-me, agora vou em frente. Se ela quiser vir comigo eu dou-lhe a mão, caso contrário sairei sozinho, enfrentando os riscos. Menti, claro. Teria de trabalhar até tarde e ela aceitou quase com alívio. E lá foi para a noite, armadilhado com a camisa branca e um casaco escuro para ocasiões mais selectas, o perfume caro e dinheiro no bolso. Ao espelho sentiu-se um caçador experimentado que não se esquecia de nenhum expediente.
E depois veio a noite. Danças mais ou menos ensaiadas, rodopiavam raspando, fustigando outros pares que bamboleavam com estridentes desejos no olhar. Aí Benjamim! Ele visivelmente orgulhoso dos gestos firmes de dançarino maduro, ela deixando-se levar pela pista como um invisual pelo seu guia. Depois, com suores a escorrer pela testa repousaram num recanto, bebericando caipirinhas e esgotaram temas do amor, do casamento, dos filhos e do tédio. O sorriso bonito e a calma dela contrariando a ansiedade e os gestos bruscos dele. Depois novamente danças, mas sem que se desfizessem os nós, tentativas de maior intimidade que ela desfazia de imediato. Depois veio a manhã e saíram para uma cidade coberta de bruma, ruas desertas como se eles estivessem a mais, ou se encontrassem fora do seu lugar. Como se a sua permanência na cidade vazia não fosse mais do que o resultado de uma simples fantasia. A camioneta de recolha do lixo obrigou-os a saltar do itinerário imaginário e debruçados no miradouro conseguiam identificar na colina oposta ruas lustrosas e uns táxis que ocupavam sozinhos a avenida.
Nem um beijo lhe conseguiu roubar, nenhum gesto mais ousado lhe foi permitido. Tinha um casamento seguro, e as suas saídas nocturnas contavam com o beneplácito do marido ausente. O facto teria sido o chamariz para o desejo dele, enquanto ela só procurava um sumiço da insónia, uma libertação do tédio de um tempo sem marcações rígidas. E ele não estava ali por isso. Mas os homens não podem perguntar abertamente se elas sabem a razão de estarem ali, não é? Culpa dela de o ter arrastado para uma armadilha, reconhecendo as razões, mas não esclarecendo a sua falsa partida, como se o esclarecimento evidenciasse, antes do tempo, as recusas sucessivas de intimidades que ela teria de repetir ao longo da noite. E ele de mãos dadas com ela sentiu uma melancolia tão forte como se aquela cidade ao amanhecer esclarecesse de uma vez por todas o absurdo de estar ali, com alguém que mal conhecia, com os vapores do álcool a toldarem-lhe o espírito e sem o calor da sua própria casa. Nunca na sua vida se tinha sentido tão só.
6 comentários:
As mulheres vão desperdiçando o gosto pelo sexo e pela aventura, sabes? ....................
gostei do texto ... mas não concordo com a generalidade da "coisa" ...
as mulheres só o fazem quaqndo não vale a pena...
uma boa semana :)
teresa
...nestas "saídas"...é sinal de maturidade definir à priori as "regras"...pode parcer "duro/bruto", mas evita-se a perca de amizades,de confiança, desalinhamentos e decepções.
...como sempre, uma escrita que me faz flutuar...enfim!
av
Gostei... mas não concordo com algumas coisas sobre as mulheres...
Quanto ao narrador e à sua solidão acentuada por este (des)encontro,ela é o resultado do seu DESconhecimento da mulher... Paciência, pode ser que tenha mais sorte para a próxima. Ou que aprenda alguma coisa!
Beijinhos
Não sejas tão cruel com o meu amigo, Maria! Tal como os homens, as mulheres padecem das mesmas culpas. Bjos.
Tonito ; acho giro aos comentarios da tua fieis leitoras...
Qd um homem é evidente ,sincero e directo e assumo o velho e previsivél desejo de ter sexo a que muitos confudem por paixão não passa de um "bronco"...qd um homem tenta ser subtil ; paciente e fantasia nem que para isso se sujeite a ser um "otário" "tem aquilo que merece"...por estas e outras é que conhecê-las é um jogo enigmático que de todo deixei de ter a pretenção de descodificar...prefiro a autênticidade de quem assume o que quer mas com a delicadeza e cortesia de quem acha que com paixão ou sem ela o jogo do amor e do sexo merece a sua sedução...Abraços
Um homem não dança sozinho....só se for maluco =P
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