
Ontem, alguém me dizia que nunca teve jeito para amar demais. Não tem feitio para se enfastiar de amor. Prefere ter mão nos afectos, no seu questionamento, até na possibilidade do seu afundamento. Como se a realidade do amor também guardasse a chave da sua auto-dissolução. Tudo claro e límpido como é translúcida a água que corre da montanha. No amor cabe a cautela. Poderá parecer uma traição ao amor, mas é a forma de recusar caminhos sem saída. Temos de ter os pés no chão, não é?
É difícil a conversa. Decorre como se nós, os homens, não soubéssemos do que falamos. Como se o tema da paixão fosse coisa feminina, ou assunto situado no lado obscuro da masculinidade. Matéria nebulosa, tantas vezes camuflada em dislates, anedotas e risos alarves. Como se nós, homens, nestas coisas do amor, não tivéssemos dados seguros para retorquir, desilusões para nos entretermos, silêncios que recolhem pedras que não deixam afundar-nos. Como se nós, os homens, não tivessemos também que escolher entre a frieza do nada ao caos do tudo, entre a desesperança da solidão à parceria desenfreada, mas sem futuro…
Há uns anos, um amigo rompeu com a namorada que o acompanhava desde o fim da adolescência. Romper, talvez não seja bem o termo, mas decidiram, de comum acordo, umas férias, na convicção de que serviriam de fôlego a uma relação em impasse. Como sabemos, as férias no amor são o prelúdio do seu próprio encerramento. Não pelas férias, mas porque ao serem possíveis, a vida continua. Quando se respira, de repente, percebe-se que é mais fácil do que parece perder-se quem está ao nosso lado. Assim, ela foi para Barcelona com umas amigas e ele ficou, primeiro esfregando as mãos de contente pela disponibilidade total do tempo, depois desconfiado com a opulência da vida nocturna de Barcelona, no fim desesperado pela possibilidade do naufrágio. Estávamos na Costa da Caparica, num fim de tarde quente como um forno e passeávamos à beira-mar, ele com o pensamento e palavras nela que, lá longe, semeava dias sem transparecer qualquer saudade. A certa altura - numa decisão tomada muito antes dessa tarde regada com sol – testemunhou-me que para continuar a confiar nela teria de saber que não havia mais ninguém na história e que nos passeios à beira-mar ela teria o mesmo semblante reservado que ele. Se tivesse alguém resolver-se-ia de vez o caso, se tudo decorresse com normalidade regressaria a Portugal sem que ela notasse a sua presença. Perguntou-me se o acompanharia. Primeiro, tentei dissuadi-lo a não fazer papel de espião em território tão armadilhado, mas com a sua inflexibilidade, naquelas respostas prontas que se dão aos amigos, concordei em acompanhá-lo.
Um dia depois estávamos nós em Barcelona, esfomeados, ensonados, após doze horas de condução sem paragens. Não tínhamos alojamento e armámos tenda num parque de campismo cheio como um ovo. Descansámos umas horas na convicção de que as amigas ocupariam as noites de tal forma que os inícios dos dias serviriam para descansar. Ele conhecia a morada do apartamento e montámos guarda a partir da tarde, princípio de noite e noite dentro. Nem sinal dela. Na manhã seguinte, com o desespero, bateu à porta com flores na mão e um discurso ensaiado de que não resistira às saudades e foi informado que ela regressara a Portugal uns dias antes. Na minha ingenuidade pensei que naquela tarde quente estaria algures na Costa a ver-nos passear na praia, ou em vigia aquando da nossa partida para a Catalunha. Mas não foi isso que aconteceu. Na verdade, a namorada veio mais cedo para Portugal porque se apaixonou por alguém que não pertence à história e teve de encurtar a estadia para o acompanhar. O meu amigo não o soube logo, mas não tardou em reconhecê-lo da pior maneira.
Não faço ideia porque se diz que no amor não há cautelas. Nem sei sequer porque contei esta história de Barcelona. Talvez porque na vida muitas vezes se cruzam papeis, aqueles que se identificam como adequados ao universo masculino ou feminino, e esquecemo-nos que os papéis estão invertidos seja qual for o traidor ou o traído, o que se agarra ou vai em frente, o que espera ou o que ousa libertar-se, o que se solta ou se prende como uma estaca ao passado. Afinal, no amor como em tudo o resto, não poderemos trocar a vida por um prato de lentilhas. E as lentilhas tanto podem significar ficar à espera na praia, como não esperar em Barcelona…
3 comentários:
Caso complicado, mas mais habitual do que seria desejável.
Não penso que haja qualquer diferença nos sentimentos (amor, desilusão, decepção, paixão, tristesa, ou outros), pelo simples facto de se ser mulher ou homem.
Acho que todos somos pessoas e como pessoas que somos cada um sente e toma decisões consoante o que sente e pensa, como pessoa.
Acho que apenas os comportamentos exteriorizados e por vezes exteriotipados, diferem (frequentemente) por influência do que a sociedade espera de um homem ou de uma mulher.
Amantes apaixonados e traidores inveterados há-os em ambos os sexos.
Gostei de ler. Aprendo sempre qualquer coisa.
Beijinhos
São
já há muito tempo que não passava por aqui. e é sempre bom...
beijinhos*
(parabéns pelo livro.)
Belas Palavras que tanto expressão esse tão bem falado Sentimento. Em que independentemente do genero ou tipo... Pelo simples facto de não se saber... Tantos sentimentos se fazem dele valer...
Faz-me lembrar as palavras de Clarice Lispector que dizem:
"Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo..."
..'-
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