
Conheci-o num daqueles encontros que nascem do puro acaso. Aconteceu numa sala de estar de uma clínica dentária, quando o cliente precedente sofreu uma intervenção cirúrgica não programada e os seguintes, com marcações ao milímetro, tiveram de se acomodar ao tempo como a um cobertor de lã numa noite de Inverno. Fomos ficando para ali trocando as pernas e os olhares na ânsia de que a assistente do médico recomeçasse a contagem em ritmo mais sensato. Quando o sol já se escondia por trás de uns prédios fronteiros à janela, ela chegou com um semblante tímido como se fosse culpada de qualquer maldade e levantei-me ainda antes de verbalizar o meu nome. Já ia a caminho do gabinete quando regressei à sala, arrependido, cumprimentei o meu comparsa de espera e disse-lhe de uma forma nebulosa: “Se tivesse talento e persistência contava a sua história num romance tão grande como a Guerra e Paz, do Tolstoi, conhece? ” Ele sorriu, assentiu com a cabeça, e afirmou: “mesmo sem o talento se a quiser é sua. Apenas exijo que conte a verdade, tal como eu lhe contei.”
Agradeci-lhe, apertámos novamente as mãos e já com a boca aberta na cadeira do estomatologista - a fim de abrandar os sintomas de desconforto de dedos revestidos de plástico e brocas barulhentas - tentei recordar os traços gerais de uma crónica inacreditável de sobrevivência que o meu recente amigo me tinha narrado. Abraão Jesus do Rosário nasceu em Diu, uma pequena ilha com 15 quilómetros de comprimento e 5 de largura, situada estrategicamente à entrada do Golfo de Cambaia e que esteve 450 anos como parte integrante dos territórios portugueses na Índia. Foi invadida por tropas indianas em 17 de Dezembro de 1961, retirando a soberania e os poucos soldados portugueses que lá permaneciam. Da mudança quem mais sofreu foram os autóctones de etnia católica lá residentes, identificados com suspeita e espezinhados como cúmplices com a agora denominada ocupação estrangeira.
Foi a sua primeira revolução. Tinha ele quatro anos e vivia com os pais e três irmãos. Para a invasão foram mobilizadas tropas do norte da Índia de forma a que as acções de intimação não fossem ameaçadas por sentimentos de proximidade e de compaixão. Violações, prisões e mortes começam a constar-se na comunidade e o medo invadia as casas como cheiros nauseabundos. O terror apoderava-se de todos. Quando, numa manhã, um soldado entra em casa com a arma apontada não foi propriamente uma surpresa. Apenas a mãe e os meninos estavam, estes rodearam a mãe com lágrimas e mãos entrelaçadas e, ainda hoje, ele acredita que o gesto impediu a consumação da violação. Mas este facto, teve também um significado para ele, de que mesmo a humanidade mais obscurecida pelo preconceito e ódio mantém, lá no seu fundo, a faculdade da dignidade e do perdão.
Não havia tempo a perder. Depois daquele enorme sobressalto, a família teria de partir quanto antes, pois havia a possibilidade do retorno da barbárie. Como não havia ligações diplomáticas entre Portugal e a Índia, para aqui chegarem teria de ser através de um terceiro país. A alternativa foi o Paquistão, relativamente próximo de Diu. Não me forneceu informações sobre a fuga e a passagem para o novo país, nascido e criado sob ódios e desconfianças, mas imagino as incertezas, os temores, os obstáculos a ultrapassar até atingirem um bom porto. Lá empenham todas as economias nos passes marítimos que os traria para Portugal. Não era um barco de passageiros, não tinha quaisquer comodidades e com outros refugiados acotovelavam-se em espaços reduzidos. Desta aventura lembra-se das náuseas, do desalento, mas fundamentalmente da fome. Ainda consegue identificar hoje o seu sabor, um paladar metálico, algo corpóreo, como se pudesse cortar com uma faca. Numa noite, no meio do desânimo, a mãe trocou o anel de casamento por uma tigela de arroz, dividida irmãmente pelos seis. Dei-me a pensar no olhar expectante dos meninos, nos seus gestos temerosos perante um oceano sem limite e no balouçar ritmado do navio. Chego a imaginar uma tempestade que durou vários dias e que acentuou a angústia e causava ruídos fantasmagóricos no casco já envelhecido do navio. Mas ele não me contou esses pormenores, não houve tempo para isso. E tantos dias depois entram na barra do Tejo, sem qualquer convite e sem ninguém à sua espera. Sem que houvesse à chegada qualquer sinal benfazejo.
Mais um hiato no tempo histórico. Agora consigo vê-los pela murada de um outro navio a caminho de Moçambique. Eles olham de longe para a cidade de Lisboa, mas agora com a esperança no rosto. As crianças sorriem, correm pelo convés umas atrás das outras. A razão da opção foi a enorme comunidade de colonos de origem indiana que os acolheria e as oportunidades económicas oferecidas pelo poder político a quem quisesse recomeçar a vida por aquelas paragens. Encontrariam lá a sua segunda casa. A revolução do 25 de Abril de 74 encontrou-os bem instalados, numa vivenda cómoda, suficientemente grande para todos se espreguiçarem sem receio de baterem uns nos outros, e com entradas para o sol em todas as direcções. A segunda revolução. Os pais e os irmãos saíram com os primeiros sinais de alarme, ele ficou para tentar manter haveres e o emprego, mas resistirá pouco tempo aos ventos de radicalismo e de suspeição. Um ano depois também ele regressará à Metrópole, novamente sem nada e sem qualquer perspectiva.
Em Lisboa voltam a reunir-se. Durante quatro anos coabitaram os seis num único quarto. Um tempo novamente de recomeço, de carências, de hesitação. Um tempo de vazio. Mas aos poucos a família vai encontrando o seu caminho, cada um por sua vez, como se a vida proviesse de barragens com pouca água que escorria por regos pouco profundos. Os filhos terminam os cursos superiores, encontram empregos, os dois irmãos mais velhos casam e semeiam-se em casas todas próximas umas das outras, como se a proximidade fosse um dos remédios que os libertara sempre de males maiores.
E depois chegou a época de relativa prosperidade, participando no florescimento do próprio tempo e da sociedade. A família cresceu fortificaram-se raízes, como se o passado tivesse ficado irremediavelmente para trás. Mas os primeiros anos do novo milénio trariam nova desilusão. A economia começou a dar sinais de fragilidade e perdeu quem apostou em poupanças de risco. E foi o que lhe aconteceu. Não foi ganância, mas uma relação de amizade e de confiança com um angariador, e todo o dinheiro reunido em trinta anos, por ele e por toda a família, de um momento para o outro esvai-se sem deixar pista. Foram várias centenas de milhar de euros. A sua grande mágoa é que foi por sua iniciativa que a família repartiu os prejuízos.
E com o mesmo sorriso olhava agora para a minha face de espanto. Como é que conseguiu manter-se equilibrado? Como é que não desistiu? Como é que não anda em psiquiatras, ou em bruxas, ou sedado por anti-depressivos? E ele mantinha-se tão calmo como se aquela história não fosse dele e da sua família e a tivesse inventado ali mesmo. Sabe, afirmou, para quem podia perder tudo em várias épocas da vida, continuar é um ganho considerável. No meio dos desastres ficou a vida, a família, os afectos e a possibilidade de recomeço. De reinventar tudo quando foi necessário. O resto é ínfimo comparado com o que ficou. No meio de tudo isto aprendi duas coisas fundamentais: nada do que se tem se deve guardar como um tesouro e devemos estar sempre prontos a reiniciar.
E já apanhava o vento fresco da noite, lembrei-me dos ensinamentos de Buda que um erro é sempre um renascimento. No caso dele, apenas o erro de estar no sítio errado, na hora certa. Ou vice-versa, não sei…
8 comentários:
Ilheu, do I know this amazingly calm and always positive person you speak of?.....It seems the teaching of Budha were of lifesaving proportions, as he managed to hold the world and the people around him together, many many times, to his own detriment.......I love to read your words of admiration of the best people in life, hugs for your efforts (sungirl)
Oh Ilheu...my translation is not so good...are you saying that person is no longer with us, ???......my fears of what I heard are real then??...(Sungirl)
Boas férias, Ilhéu!
Que o destino de férias seja inspirador para novas "aventuras" neste cantinho. :)
Beijo
Venho desejar uma Boa Páscoa.
Cheia de saúde, amor e sorrisos.
Beijinhos
São
Trago uma pequena lembrança...
<img src="http://docs.google.com/File?id=dc6xjkpj_62529bpsvxhp_b">
PS: Depois volto para ler e comentar.
Na vida depois da vida teremos tempo de pensar quando lá chegarmos. De resto tudo o que oiço dizer sobre o assunto parecem-me boatos.
Uma hitória repleta de Valores...
Bem Vindo,
Beijos
A minha história não é muito diferente..., apenas mais curta.
Vim de Moçambique, sem nada, ainda não tinha feito 12 anos.
Lá estavamos bem, mas não trouxemos nada.
Eu até vim sozinha, "despachada" de avião para casa de familiares que mal conhecia. Vivi com eles 9 meses, até poder ir viver com os meus pais, na casa antiga e sem condições (a que estava habituada) em que vivia a minha avó.
Depois disso, por várias vezes me vi sem nada. Por ironias do destino, por confiar em conselhos, tal como esse senhor...
Mas que fazer?
A vida continua. Compete-nos a nós torná-la o melhor posssível. Por isso há que lutar. "Lambem-se as feridas" durante o menos tempo possível, porque não há tempo a perder, e agarramo-nos até "às silvas", como quem se afogue num poço.
Como diz o provérbio, "o que não nos mata torna-nos mais fortes".
Gostei de ler.
Tens imenso jeito para a narrativa.
A história está muito bem contada e é uma grande homenagem a tantos e tantos que passaram por coisas parecidas.
Beijinhos
São
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