
Tem um sorriso tão doce como massa sovada, fermento de recato e simplicidade. Quando se ilumina na face esquecemos o supérfluo e atesta a sua boa relação com a vida. Os cabelos pretos, soltos no ombro, vagueiam ao ritmo lento da passada, numa pose adulta que despreza a idade ainda tenra. Onze anitos. Encontra-se, pois, numa indefinição de estatuto: não é menina, nem mulher. Não gosta nada que a considerem criança, mas mantém aquela postura leve, sonhadora e irresponsável só por elas repartida. E não tem pressa. O perfume do presente vale por si mesmo, reconhecendo apenas sombras e sinais risonhos de um futuro que não tarda.
A sua grande paixão é o mar. Da janela do seu quarto rompe um tão grande como o céu, e é engraçado porque nunca tem a certeza se ao longe são espumas ou nuvens que flutuam. Mas no termo do horizonte encontram-se e fundem-se umas nas outras e, às vezes, gosta de pensar que o fim do mundo está mesmo à sua frente e quase pode tocar-lhe com a mão. Usa uns brincos com feitio de golfinhos, os seus amigos imaginários nas muitas aventuras oceânicas em que participa. Tem uns olhos pretos, cor de azeitona, que parecem não ter fundo. Olha e fala das coisas com assombro como se descobrisse o seu âmago e é tão segura naquilo que diz que, em seu redor, não restam dúvidas a ninguém que a verdade é filha da inocência e do entusiasmo.
Tem muitos amigos, a maioria da escola, unidos por cumplicidades ganhas ao longo dos anos. Há só um colega de quem não gosta muito, Ernesto Chinês, um traquinas muito popular, terror da escola e da vizinhança, com braços encorpados onde raparigas vistosas ondulam ao "fazer músculo". Reprovou vários anos - por faltas, indisciplina e ignorância – arrasta-se penosamente pelo sistema, transformando-se numa espécie de talismã da comunidade escolar que todos conhecem e receiam. Não é mau rapaz, até tem bom coração. Mas quando o clima dá para o torto não há ninguém que lhe faça frente.
Naquela tarde fazia tanto calor que as sombras eram pequenas para tanta rapaziada. Diziam-se as parvoíces do costume, esperando o toque de entrada para a aula de matemática. Ernesto Chinês, no seu estilo brigão, ar de matador, com todas as pequenas sob a sua alçada, mangas arregaçadas, era o centro das atenções pelas brincadeiras, anedotas e pinotes. Até que uma voz se adiantou às outras e disparou:
- O Ernesto Chinoca só tem músculos. O cérebro é mais pequeno que um feijão-frade.
Depois de um silêncio sombrio, o pessoal balançou em berros de euforia. Era verdade, mas uma verdade que não podia ser dita aos quatro ventos. Embaraçado, Ernesto avança no meio dos risos, empurra os da frente e em direcção à voz, procurando o audaz que se armara em esperto. Não foi preciso procurar muito. O criminoso era o Fininho que confessava a iniquidade com um esgar de pavor e cara vermelho-tomate. Ele pega-lhe pelas dobras do casaco, levanta-o do chão e abana-o com vivaciadade.
- Repete lá isso, oh betinho, repete lá! Uma coisa é certa: hoje vais para casa com as ventas partidas.
O clima aqueceu mais do que a temperatura prevista pelo boletim meteorológico. Todos mostravam sinais de horror, mas quase todos se tornavam cúmplices da pancadaria eminente. As claques surgiram espontaneamente, uns gritavam "Fininho", a maioria "Ernesto Chinês". Os brados acentuavam-se para que os beligerantes resolvessem a contenda. Era urgente fazer alguma coisa para proteger o minorca. A Catarina avançou.
- Vejam, é injusto o brutamontes colocar um só dedo na pele do Fininho que é meu amigo e frágil de pernas, mas muito bom de cabeça.
E voltando-se para o Ernesto Chinês:
- Porque é que não bates em alguém do teu corpanzil? - distanciando a raiva do seu colega amedrontado. O outro cai na esparrela e o Fininho respira fundo.
- Quem, diz-me? E ela pensou, pensou e descobriu…
- O Fernando.
- Qual Fernando? - perguntou o Ernesto desconfiado.
- O Fernando, um amigo meu. Não me digas que estás com medo?! E ele não teve coragem de dizer que o tinha, nem perguntou quem era e tudo ficou ajustado para que no final das aulas tudo se resolvesse num duelo ao sol, pois não havia sombra no local combinado. Mas ele não poderia saber que o Fernando pegava touros nas festas de S. João, após beber umas cervejas nas tascas das festas.
Eram seis da tarde, mais coisa menos coisa. O Topo Gígio, assim conhecido pelas orelhas em leque, o Lagartixa devido ao seu ar verde e fuinha e o Mocho pelos olhos enormes e assustados, foram os primeiros a chegar. Depois todos os outros em enorme algazarra. O Ernesto Chinês foi o último com aquele tropeçar "onde é que está ele?!" e o Fernando apareceu pouco depois, calmo, mas envolto em grande poderio. Deu um beijinho à Catarina, pegou no braço do Ernesto, afastou-o do grupo e segredou-lhe: " És um tipo possante, com músculos sublimes e uma figura de sonho. Mas não vais bater em ninguém, muito menos no franganote. Ele vai pedir-te desculpa publicamente e apertam as mãos. Qualquer esperteza da tua parte e levas um caldo que vais parar ao Ilhéu das Cabras. Portanto, juizinho!" O Ernesto assentiu a contragosto, o Fininho gritou "desculpa" para todos ouvirem, cumprimentaram-se secamente e o Fernando piscou o olho à Catarina que sorriu agradecida.
E o grupo seguiu estrada acima em gargalhadas e levantando pó. A Catarina dava a mão ao Fininho que saltitava de contentamento. Foi ela que me pediu um conto, mas um conto bonito escreverá com a história de si mesma.
5 comentários:
Nesta manhã de outono dos primeiros frios
mais a caminho da velhice que da minha casa
eu vejo-vos em roda todas a cantar
Impossíveis crianças deixais-me brincar?
(As Impossíveis Crianças, Ruy Belo)
Vou guardar no meu caderninho este texto lindíssimo do Ruy Belo. Beijo
i have my very first book in portuguese right in front of me
it is so pretty, and fits perfectly in any bag. i'll be taking it with me everywhere, i'll be eating it slowly-slowly:) on purpose (not because my ptguese is bad or something:P)
obrigada, Antonio.
bjbjbj
Obrigado eu, Gingerandclove. Beijo
Muito bonito.
Menina inteligente!
Pré-adolescente, promessa de adulta que sabe o que quer e como alcansá-lo...
Muito mais poderia dizer...
Essa fase etária fascina-me.
A minha filha tem 13 anos e delicio-me a observá-la..., em tudo...
Beijinhos
São
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