
Era incapaz de viver sem aquele espaço, onde descansa ao longo da tarde, vendo o sol correr. Ao fundo corre um ribeiro, escorregando docemente na Primavera e no Inverno, cheio como um ovo, numa luta violenta contra o rego estreito. Um espaço aberto na enorme muralha de betão que cobre todo o horizonte. É minúsculo, tão pequeno como um campo de ténis, e apesar de todos os outros à sua volta já se esconderem por baixo de moradias, o dono nunca quis desfazer-se dele. É uma clareira que reflecte o sol e ganha cores diferentes consoante as horas do dia. Frequentes vezes, procuram-no quando se resguarda por baixo da única árvore existente – uma pereira baixa que há muito não dá frutos – repetem-se vozes que o convocam pelo nome. Levanta-se contrariado, após tanta insistência, e explica aos promotores imobiliários que não precisa de dinheiro, apenas de sossego.
E quando a escuridão abarca tudo, ele retira-se e caminha cabisbaixo, frente às moradias envoltas por muros soberbos e avisos de alarmes, como se as pessoas procurassem a segurança das prisões em vez da liberdade dos ribeiros que correm sem destino e dos ramos da pereira que balouçam ao som do vento. E vai matutando no sumiço de humanidade, pois vive-se sem sentir o frio do universo ou o calor do tempo. Prefere-se água engarrafada e equipamentos eléctricos que constroem atmosferas imunes a diferenças de temperatura. Estamos cada vez mais afastados de nós mesmos, porque cada vez mais afastados da nossa própria origem.
Amanhã regressa e permanecerá até que o sol se retire para o reino do negrume. De novo recusará os chamamentos dos promotores imobiliários que não concebem um terreno verde sem um cobertor de cimento, e sonham com gaiolas rodeadas de arame farpado e rebates, onde gente viverá acantonada, longe das janelas e com os passos limitados pelas mobílias que se empurram umas às outras. Fazem aposentos com ligação directa à terra e desaparecem neles como em túmulos.
E naquela ingenuidade própria de quem espera a morte - que alguns teimam em denominar loucura - considera que é obrigatório manter aquela ferida aberta. É por ali que a Terra respira. Sem aquela brecha a Terra ficaria sem fôlego.
6 comentários:
Que mais se pode dizer deste escritor, com tão belas palavras?
Continue a "embebedar-me" com as suas palavras.
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Bem... Vindo aqui, vejo agora que é mesmo isso que eu necessitava... o "meu" espaço não é tão exíguo e não tem ribeiro, é mais com montes, vales e ao longe um pequeno cume ainda com neve. Mas a falta (e o bem!) que me faz, sempre e agora, é a mesma... Não é só a terra que não respira sem ele. Sou eu, também.
Oi amigo.Quando puderes "voa" até a La Coruña e verás a diferença...
"De novo recusará os chamamentos dos promotores imobiliários que não concebem um terreno verde sem um cobertor de cimento, e sonham com gaiolas rodeadas de arame farpado e rebates, onde gente viverá acantonada, longe das janelas e com os passos limitados pelas mobílias que se empurram umas às outras."
Quem passa na Torre de Hércules e olha em redor, percebe o que quero dizer...
Aquele abraço!
Pois é, LanzaroTe, nós que crescemos a rebolar na relva e em correrias pelos campos, sentimo-nos na cidade como um peixe fora de água. Mas tens sorte ter só para ti um espaço verde de perder de vista. Sempre poderás sonhar com ele. Beijo
Amigo Zemac, o problema é que nós vivemos numa terra de empreiteiros e xicoespertos. Abraço
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