domingo, 29 de Março de 2009

Tudo bem por aí?


Tenho andado por cá, perdido em pensamentos e bocejos, com os cotovelos sustentando o queixo. A janela tem sido o meu melhor aliado ao oferecer-me de mão beijada um céu que se prolonga indefinidamente. Tenho sorte em viver nas alturas e sem aqueles obstáculos cruéis que encurtam vistas e nos depositam em varandas cercadas por roupa a secar ou por marquises de alumínio claro. Olhar sem nada querer ver permite-nos avançar sempre, como se o olhar tivesse ao seu serviço uma nave espacial. E como o céu tem continuado tão azul como o mar sem fundo esqueço-me do sofá e viajo pelo olhar sempre que posso.

Viver é tão misterioso quanto belo. Por um fantástico acaso estamos vivos, sentimos o pulsar da vida como se usufruíssemos de uma bateria idêntica às dos telemóveis que vamos carregando sempre que a fraqueza nos invade as pernas e temos autonomia para caminharmos sem pressas, jogarmos ao jogo do agarra, ao jogo do anel, ao jogo das escondidas, ao jogo do senhor dá licença e à noite os sonhos revelam-nos o melhor e o pior de nós. Acordamos sem qualquer objectivo definido e continuamos á procura de um azul celeste que nos abra a porta ao infinito. Tudo isto porque viver é um acontecimento tão inverosímil que para lá de um espírito pragmático - de forma a que o tempo não nos ameace de forma continuada com problemas ridículos e comezinhos - deveríamos lidar com a vida pelo lado afirmativo, aberto à viagem, ao esclarecimento e ao prazer de conhecer, à alegria mesclada de nostalgia que nos empurra sem desfalecimentos pelo corredor comprido deste laboratório, lugar de experiências que é a própria vida.

Não tenho escrito, tenho lido. Há momentos em que o prazer de ler suplanta o prazer de se conseguir rabiscar algo com algum sentido. Ler também favorece o contacto com o maravilhoso e sem o esforço continuado de encontrar a melhor palavra, o melhor termo. Ler é mais cómodo. E li o Mundo, um livro de Juan Millás, um autor espanhol que acompanho há vários anos. Num exercício psicanalítico, fala das dores da infância, da crueldade dos primeiros afectos, dos primeiros medos, do primeiro contacto com a morte, dos primeiros amigos, dos primeiros amores. Tudo sob a alegação de que a escrita abre feridas e ao mesmo tempo cicatriza-as. Percebo-o bem. Esse esforço em clarear o tempo à custa das palavras que se vão aconchegando umas às outras e vão esclarecendo aquele fundo de nós que adormeceu e endureceu à custa dos anos, das tristezas depositadas como lixo no caixote, pequenas e grandes tragédias que nos ameaçaram e continuaram vida fora a confinar a nossa capacidade de olhar a vida de forma ternurenta. Escrever é como um puzzle onde encaixamos peças soltas e vamos ocupando espaços negros que sempre sugaram as nossas melhores energias. Desabafos de uma alma que procura a pacificação.

Agora largo o teclado escuro, manchado de letras e símbolos claros e procuro novamente o céu azul, aqui e ali matizado por pequenos farrapos de nuvens esbranquiçadas. Não vale a pena perdermos a vida em prantos e queixumes. Somos tão ínfimos que, ao querermos lutar contra o absoluto, destruímos a única oportunidade que dispomos de podermos marcar o mundo com pequenas legendas, pequenos sinais. Não teremos outra oportunidade para remediar.

5 comentários:

::::: disse...

Também adoro olhar o céu sem obstáculos. E a melhor maneira é (humm...) deitada na relva num belo dia de Primavera, com uma merenda... E... não pensar... nem no céu...
..................
A minha leitura actual é o livro de um amigo. ;)

zemac disse...

Olá...tens razão.Ultimamente essa senhora vestida de negro, com a foice que a acompanha, tem rondado os meus dias e sinto que ela está pronta a dar a sua estocada. É estranho este sentimento e esta convivência com um futuro próximo que há-de chegar.Por telefone? Se calhar! A meio da noite? Quem sabe...por isso temos de fruir de cada bocadinho que a vida nos dá.Como diria o cantor: "Viver é preciso..." Abraço.

Anónimo disse...

Já tinha saudades das suas belas palavras, que me fazem viajar na sua história.

Obrigada

Devaneante disse...

Já estava com saudades amigo António!...

Fenix disse...

Sim, viver cada dia como se fosse o último.
A vida é demasiado curta para se perder um minuto que seja com mesquinhices.
Também sinto que a escrita me abre e me cicatriza feridas. Algumas têm que ser abertas para poderem ser tratadas e cicatrizadas. Foram fechadas à pressa e mantê-se dolorosas até serem expurgadas do "pús", choradas e perdoadas.

Bem vindo de volta!
Abraço
São