terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

A Sala Minúscula de Paredes Brancas


Confessaram o que ambos sabiam desde há muito. Tudo coisas pequenas, ínfimas. Libertaram-se de culpas que inundaram toda a casa. Agora extinguira-se o ar puro e reconheceram que doravante não podiam viver ali. Após um tempo indefinido de silêncio - apenas quebrado pelo som da televisão - ele afastou-se e ela ouviu ao longe a porta de entrada a embater contra a aldraba. Depois, ela desligou a televisão e levantou-se sem qualquer propósito. Foi andando pela casa como uma viajante que explora territórios inóspitos à procura de qualquer referência. A casa transformara-se, de um momento para o outro, num território estranho.

A discussão iniciara-se por um pormenor exíguo e, inesperadamente, verteram-se queixas e lamentos devido à ligação cinzenta e castradora. Ambos o admitiram com a franqueza de quem silenciara razões de forma astuciosa. As pessoas são desafortunadas porque têm medo de abrir portas que as conduzam ao abismo, pensou. Entre o pouco e o nada ou o mal absoluto, vamo-nos perdendo em bocejos e auto-críticas, devido à prorrogação de relações condenadas. Mas desta vez tinham-se aberto as gargantas, como comportas em tempo de cheia, e a fractura do vínculo era o único caminho, ou pelo menos o mais digno. Concordaram que nada do passado resistiria àquela enxurrada. Talvez, por isso, a partilha de responsabilidades fora tão civilizada, sem acusações gratuitas nem jogadas cruéis.

No deambular pela casa, silenciosa e na penumbra, lembrou-se que nestas circunstâncias há sempre a disposição para se procurar um ombro amigo, para amenizar o volume e o peso da angústia. Entre familiares e aliados visualizou várias alternativas. Entre os mais conformistas que lhe recordariam a idade, os inconvenientes da solidão e apostariam em reconciliações mais ou menos previsíveis; outros, mais subversivos, exibiriam o júbilo pelo desfecho e lembrar-lhe-iam que as mudanças prenunciam sempre sinais benfazejos; e ainda uns terceiros – visualizou com pavor a face da madrinha Luísa – que compartilhariam a dor da separação, blasfemariam contra os homens, e seriam marcadas de urgência sessões contínuas para carpir as mágoas.

Preferiu resolver tudo sozinha e só depois anunciar o desenlace. Sem filhos tudo se tornava mais simples e os bens amealhados facilmente se repartiriam. O problema, pensou, o único verdadeiro problema era o destino da casa. Preferia largá-la, mesmo perdendo dividendos, para que a nova vida tivesse novas roupagens e novos cenários. Era grande demais, atulhada de coisas supérfluas, revestida de melancolia até ao tecto. Imaginou-se numa sala minúscula, sem móveis e com livros espalhados pelo chão, prolongada numa varanda cheia de flores de todas as cores. Sorriu com a perspectiva. Entretanto, sem sono, foi vagabundeando pelo corredor silencioso, entrava e saía das outras divisões, até ao instante em que o marido abriu a porta. Era quase manhã. Sentaram-se próximos e o seu hálito intenso a álcool era insuportável. Parecia-lhe agora infinitamente mais velho do que o homem com quem partilhara a vida até há umas horas atrás. Entabulou um monólogo com os olhos no chão e as costas arqueadas.

Começou por afirmar que ocupara a noite a reflectir e não descortinara qualquer problema que não se pudesse ser resolvido. Depois passou para a fase acusatória de que ela, mesmo não o admitindo, teria alguém na sua vida e que o facto originara toda aquela encenação. Seguidamente, implorou-lhe que ficasse porque ele não saberia para onde ir, nem o que fazer sem ela. Até que, por fim, veladamente, admitiu saídas mais extremas, caso a ruptura se concretizasse. Ela, surpreendida e até amedrontada por facetas desconhecidas da sua personalidade - a insegurança extrema e o tom cru da voz - tentava acalmá-lo. Continuariam amigos e ainda eram novos para recomeçar as suas vidas. Não tinha ninguém e não queria ter alguém num futuro próximo. Mas ambos tinham o direito e o dever de lutar pela sua felicidade, já que durante anos não o conseguiram por culpas próprias. Depois, levantou-se do sofá, justificou a saída pelo cansaço brutal que a invadia e quando já estava perto do corredor ouviu um tumulto mesmo atrás de si, apenas viu um olhar louco por cima do seu ombro e sentiu no corpo uma pancada intensa. Aos poucos ia perdendo a consciência, enquanto ele continuava a magoá-la, dizendo-lhe que se não era dele não seria de mais ninguém.

Em seguida o silêncio, entrecortado por um choro de criança a seu lado. Estava segura de que precisava de ajuda médica urgente, mas pressentia que ninguém viria em seu socorro. Para fugir ao desespero continuou a fantasiar com uma casa pequena, com uma varanda cheia de flores de várias cores que prolongava uma minúscula sala. Lá, apenas uns puffes coloridos tão juntos que se poderia saltar de uns para outros, livros espalhados pelo chão e as paredes tão brancas que guardariam as sombras de um tempo calmo, sem qualquer solavanco no seu andar silencioso.

4 comentários:

Fenix disse...

Estou sem palavras...
Que triste, que doloroso, que realista...
Gostava de dizer "espero que isto seja uma história de fantasia", mas sei que infelizmente devem existir por aí muitas histórias reias, iguais ou piores que esta.

Muito bem contado...
Um grande alerta.

Abraço

Devaneante disse...

Uma história triste e dolorosa em cada parágrafo, em cada frase, em cada palavra...

Esta é, infelizmente, uma história da vida real.

Cada vez mais aprecio a qualidade da tua escrita.

Maria disse...

Esta história é uma variante do filme que vi hoje:"Revolutionary Road". Hélas!
Ambas tristes, ambas desesperadas. Vidas trucidadas, apanhadas num turbilhão.
A maior parte ?

Anónimo disse...

Divinas Palavras,, sendo que a Verdade ultrapassa sempre a mais estensa discrisão(Belissima no entanto!!)

'-)