
Parou de chover, assim de repente, e o sol conseguiu romper a muralha de nuvens negras. Regressámos às ruas, estremunhados, após dois meses de escuridão e apresentámos sorrisos novos, confeccionados com paciência e arte durante o retiro sombrio do Inverno. Sentimo-nos como se o universo tivesse ganho de novo profundidade e os nossos sonhos pudessem voltar a voar. Mesmo durante o funeral, enquanto todo o grupo se estendia na sala de vigília à espera do final da cremação, familiares e amigos que acompanharam o morto já refulgiam o optimismo de um dia regado por raios dourados. Em cerimónia simples, as cinzas foram espalhadas no jardim ao sabor de uma brisa suave, em redor todos comungaram da saudade com as mãos entrelaçadas umas nas outras, mas a morte passara já para segundo plano. Não sei, talvez seja apenas uma interpretação, por análise superficial dos rostos e da quietude dos olhares… Ao invés, ao longo da tarde silenciosa, no meio de cheiros a flores lívidas e ao som de ladainhas e conversas surdas - como se fosse altura propícia para se desvendar segredos - formou-se um círculo velando o defunto e ninguém atendeu ao zumbido de um sol que tentava, sem êxito, espalhar algum calor no espaço gélido da casa mortuária.
Não era já o meu tempo. Abandonei o grupo dos mais íntimos do falecido - todos eles com os rostos quebrados por manchas de uma noite e um dia sem repouso - e caminhei sozinho até ao alto da colina, perdido por entre torres inacabadas e questionando transeuntes sobre a direcção a tomar. Por vezes, olhava para trás e lá ao longe o rio transparecia de cores tão azuis como se o mundo rebentasse de contentamento e persistia na caminhada tentando encontrar alguma referência familiar que me orientasse no regresso ao meu mundo.
Nas despedidas fúnebres, a comparência da morte garante-nos que a vida resiste e não devemos quebrar essa corrente por melancolias desnecessárias. Talvez por isso, a caminho de casa, tive saudade daqueles que passam por mim tantas vezes e mal os vejo porque a pressa ou o nevoeiro os agasalham e fiz projectos de apossar-me de sol tanto quanto puder e guardá-lo em baús para utilizar sempre que o Inverno se prolongue.
Por tudo o que aconteceu, não sei se o funeral marcado para ontem foi um simples sinal do destino ou se teria sido reservado com a precisão de um meteorologista, para que os vivos continuassem de face erguida à procura da luz e caminhassem apressados, mesmo tresmalhados, à procura de si mesmos. E à noite, mesmo frente à minha janela, surgiu uma lua tão cheia e tão grande que me fez lembrar o círculo formado por todos quantos velámos o morto e no centro um bocado de noite pintado de amarelo vivo, como se um artista qualquer quisesse prolongar a mensagem ganha em pleno dia.
7 comentários:
É impressionante como o estado do tempo consegue embrenhar-se nos nossos pensamentos e sentimentos...
Aliás como toda a Natureza que nos rodeia.
Mas uma coisa eu sinto..., não é o estado do tempo, o Sol ou a Lua Cheia que me fazem mudar de humor. Gosto de todos eles e todos me fazem sentir mais feliz quando eu já estou feliz, quando a felicidade me vem de dentro. E o contrário também acontece.
Bom texto.
Gostei de te ler.
Abraço
É verdade que o sol tem um grande poder, especialmente se nos presenteia com a sua presença após um longo período de ausência.
Mas há dores que nem um desejado Sol, regressado de uma prolongada ausência, pode aliviar. Tivesse o defunto sido arrancado de uma vida ainda jovem, de uma forma inesperada, e o "meteorologia" seria bem diversa.
Gostei muito do texto, exemplarmente escrito, como já é costume nesta ilha.
...graças a Deus que voltou a "lei do Sol", pois todos precisamos da sua energia contangiante. Também, igualmente, apareceu a "lei das estrelas". Penso que existe alguém que deverá estar muito contente, pois já pode contemplar o céu nocturno cheio de estrelas... não sei quem será. Alguém sabe?
Bom texto. Gostei.
av
Novamente me deixo encantar por tamanhas palavras. Suas palavras fazem-me sonhar e absorvê-las é o melhor que me pode acontecer num dia de stress.
Olá
sinto-me em falta - porque estou; tantas palavras e eu em silêncio. Os dias têm sido escuros e eu sem voz, é por isso.
Beijo
Olá Lanzarote! ainda bem que voltaste. Beijo
the rising sun over smiling lovers :)
uma banda sonora
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