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Olhei para o relógio. Hora certa. Acomodei-me no canto do sofá como numa sessão de cinema. O jantar acabava de ficar para trás e os arrumos feitos à pressa, naquele ritmo irritante de quem tem algo de relevante a cumprir. Entretanto, entra na sala com toda aquela pose do quero posso e mando. Sentou-se mesmo ao meu lado. Tão colada a mim que parecíamos siameses, mas com idades diferentes. Pego-lhe na mão, quentinha e macia como veludo. Ela repele-me primeiro com delicadeza, depois, devido à minha insistência, com desumanidade. “Deixa-me!”. Nem para mim olha. O momento não é propício ao afecto. Ambos o sabemos. É uma luta pela supremacia do comando da televisão. Ganha ela, como sempre.
Falar-lhe ao coração nesta altura do dia é o mesmo que falar com uma parede. Desisto, grande novidade! Poderia levantar-me e tentar fazer qualquer outra coisa, mas é hora de televisão e sou um animal de hábitos. Respiro fundo e concentro-me na tela. Mais uma vez as quatro meninas adolescentes com olhos azuis, munidas de asas de borboleta, combatem o mal que tenta dominar todo o Universo. O pior dos maus, é um fulano todo empertigado - parece que engoliu uma vassoura – tem uma voz rouca autoritária e um sorriso alarve, tétrico. Os seus discípulos - monstros inverosímeis e umas meninas com tatuagens e cabelos desgrenhados - tentam cumprir os seus desígnios, mas são menos maus que ele. E as heroínas, tão frágeis como porcelanas, derrotam-nos à custa de mezinhas, feitiços e bolas de fogo. A minha companheira de sofá pula de excitação mesmo à minha frente.
Tanta agitação retira-me do episódio. Sinceramente, tanto se me dá… “Aliás, este episódio não é o de ontem?” Aí ela volta-se e olha-me com incredulidade. Nada diz, apenas encolhe os ombros. Mas se não foi o de ontem foi de um dia destes, defendi-me. Ela não liga e continua a viver com intensidade as reviravoltas. Os mesmos artifícios, os mesmos monstros inverosímeis, idênticos feitiços e as bolas de fogo.
Depois a ordem regressa ao Cosmos, as meninas regressam ao colégio e a pequenina acomoda-se novamente ao meu lado. Esfrego as mãos de contentamento. Mas as comemorações da vitória alongam o episódio, publicita-se o próximo, e, finalmente, surge o genérico acompanhado da música que ela cantarola do princípio ao fim. Depois abraça-me com aqueles quilos de ternura, cola a face macia como veludo na minha, enquanto eu sorrateiramente procuro o comando da televisão, errante algures no sofá. Depois de mais um abraço de boa noite já tenho à minha frente o canal do telejornal. Sim, sendo um cidadão consciente que quer ter intervenção cívica, tenho o dever de me manter informado. Mas hoje cheguei demasiado tarde. Outra vez! Ficaram já para trás os grandes problemas que afligem o País, o Mundo e mesmo do Universo, depois de esmiuçados, debatidos e comentados. Agora decorre a fase do desporto.
A página do desporto é uma espécie de telejornal light. Os espectadores descontraem-se nos sofás porque o pior já passou. As más notícias, as tragédias, os atentados, as cheias, as falências, os crimes, as confusões nos partidos, os fracassos do governo. Sinceramente, como é que eu posso dominar a realidade social e política, nacional e mundial, se à mesma hora umas meninas de asinhas combatem o poder do mal que ameaça todo o Universo e se a minha vizinha ganha sempre a batalha do comando da televisão?
8 comentários:
Ah!!!
Amigo António!
O que eu já sorri com este texto!
Quem bom teres uma amiguinha dessas apesar de não controlares a TV.
Até acaba por ser um bem..., escapas às desgraças do mundo e podes sonhar com super-heróis...
:-)))
Mas tu até gostas, diz lá que não..., senão havia sempre a hipótese de arranjar outra televisão...
:-)))
Gostei mesmo de te ler!
Também tenho uma menina dos meus olhos!
E não disputamos a TV..., eu vejo pouco e normalmente concordo com ela.
:-)))
Beijinhos
Não tenho dúvidas de que, por razões diferentes, também tu aprecias as heroínas.
Quanto às notícias, por vezes mais vale nem saber... Quanto ao jornal de desporto, dominado quase em exclusivo pelas intrigas do futebol, o melhor é mesmo não saber...
Um pequeno trapo previssivel, um anjo junto com assas no sofa pele de cavalo..!..
No saber respirar está um tanto mais saber
Todos querem o comando mesmo sem saber o que querem ver???
Ofereceria sapatos para sentir um tanto mais conforto, pois quem não dignifica, Simplifica..
'-)
Ilheu...from away over here...you have my thoughts on this ongoing problem...There must be a solution!! ..Take Care...xx
As suas palavras fazem-me "viajar" para o texto, como se eu fosse a personagem principal.... obrigada por me fazer sonhar...
Ilheu I know exactly how you feel. Every evening as I lay down to relax and watch the 6pm news there is this young policewoman arrives on her broomstick and starts touching me, squeezing me and playing with unmentionable parts of my body....What are we to do with them eh???.....
Mais um episódio da vida, comum a tanta gente, mas retratado de uma forma sublime... de uma forma superior. Cativante.
av
Ahahahahahah!
Os adultos sofrem muito!...Nada de mais dominante que uma criança, sobretudo, menina!....
Deliciosa descrição de uma batalha eterna pelo domínio do comando.E o pior, é que quando finalmente a tiveres ganho, triste ironia, significa que perdeste a menina, que já não quer ver desenhos animados, e se tornou numa adolescente com prioridades que já não te incluem.
É a vida...!
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