
Sinto-me enfadado e cruzo os braços. Lá fora, um céu de variadas cores espalha repetidamente baldes de água gelada sobre a estrada, secando pouco depois, como por magia. O vento ressoa e agarra-se às janelas como gente aflita que não quer cair no precipício. No andar de cima, passos firmes em sapatos de solas duras afastam-se e regressam ao mesmo ponto, mesmo por cima da minha cabeça, como se alguém com uma enfermidade psicótica repetisse passos e tarefas. À minha volta o silêncio de uma tarde sem nexo, sem leme. E o tempo anda, anda e nada preocupado com enigmas menores, como a necessidade de engendrar justificações para a mulher largar a ideia peregrina de aprender a dançar kizomba nesta altura da vida.
Desperto da melancolia. Tenho aulas para preparar. Os alunos apresentam naturais resistências aos mundos paralelos e é difícil fazê-los admitir que o seu mundo é menos efectivo e menos compacto. Claro que são adultos e têm mais dificuldade em respeitar os mundos ficcionados em confronto ao mundo rijo e denso com que se confrontam todos os dias. O universo das oito horas de trabalho, da pontualidade rígida, das filas de trânsito, das metas das empresas e das embirrações dos chefes. Mesmo assim, à noite, vão para uma escola envolta em penumbra, virando as costas aos filhos que de braços abertos correm para eles e encostam a porta para que a vontade de sair não esbarre nesses braços de fino recorte e nas lágrimas que lhes percorrem a face.
E nas salas encontramo-nos como velhos amigos que saem à noite e, estranhamente, gostamos de nos rever, como se já fizéssemos parte da vida uns dos outros. Fico sempre surpreendido pelo sorriso franco, pelo evidente empenho da maioria em manter o diálogo e os olhos abertos, após um dia cheio de coisas maiores, como a pressão dos timings, das recusas, das ordens e dos braços abertos dos filhos, enquanto eles vão fechando a porta devagarinho.
Estamos todos familiarizados com o universo do cinema que nos transporta para fora de portas e nos emociona com desenlaces mais ou menos infelizes, nos amedronta com o desfalecimento dos heróis no meio do fogo inimigo, nos empolga com as reviravoltas das fitas, como se naquele preciso momento as nossas pobres vidas e os seus dilemas se pudessem também desenvencilhar espontaneamente. Mais estranho e menos empolgante é encontrarmos na ciência, na arte, na poesia, na filosofia, esses mundos equidistantes, inacessíveis aos olhos, apenas vigorosos quando os fechamos e nos abrimos ao sortilégio da imaginação e à obscuridade da racionalidade. Ou então, mais surreal, quando no laboratório química fazemos pesquisas em demanda do DNA do kiwi, após este ter sido esmagado com uma varinha mágica, regado com uma colher de sal e uma gota de fucsina e coberto por uma camada de álcool a vinte graus negativos. Bem perto da meia-noite é muito estanho fazer parte de um grupo interessado em decifrar o DNA de um kiwi, quando no dia seguinte, bem cedo, todos terão de levantar-se para reentrar no mundo menos misterioso dos adultos.
Nesta tarde já longa, ligo o FM do rádio e coloco quase aos berros as cançonetas que se vão sucedendo, entrelaçadas com notícias de filas na A5, no tabuleiro da ponte e em acidentes na segunda circular. Lá fora, chove de novo com tanto entusiasmo como se tratasse de uma descarga de adrenalina do senhor das nuvens. Tenho na mão um texto de uma profundidade esmagadora, enfatizando a relevância do método científico, mas o meu olhar centra-se na chuva. Prefiro este comedimento. Aconchega-me à pele o mundo secreto que recusa em dar-se à vista e me deixa esparramado no sofá sem ânsias de procurar espaços mais turbulentos. E penso de novo nos meus alunos. Devem ter razões bem fortes para abandonar os bracitos estendidos dos pequenitos com saudades deles, desesperados porque eles regressam à rua inundada de uma chuva triste, rumo a uma escola onde às tantas da madrugada se procura um DNA de um kiwi morto com uma varinha mágica, coberto de álcool a uma temperatura de vinte graus negativos e que escorre docemente pelas paredes do gobelé.
13 comentários:
Yes....a good idea...obrigado kind friend....
Mais um texto fantástico, amigo António.
adorei o texto profesor 1 abraço américo
Novo texto, nova melodia nas palavras.... Pode Continuar
Marta Rebelo
Amigo António,
Tenho prémios para si lá no meu espaço.
Abraço
O nosso actual quotidiano "socrático" é tão desanimador, que merecem palmas as pessoas que fazes sair de casa para outro universo Socrático (este sim, com maiúscula!).
Belo texto, perturbador.
Beijo e bom fim-de-semana
Olá António, bem sei que a Fénix já aqui deixou o prémio Nova Brisa, com o qual também me presenteou. Mas acho que este espaço merece bem a repetição do prémio, por isso, aqui fica também o meu, o qual podes encontrar em Cantinho dos pequenos prazeres.
Um abraço
O professor é uma das pessoas que nos faz sair de casa com vontade de aprender algo. Parabens pelo texto Cristina Garcia
Fiquei espantada com a poesia deste texto...
Fiquei espantada com o modo como escreves...
Mas eu, mais sintética, consigo compreender que pessoas que, todos os dias e durante todo o dia, sejam obrigadas a dar e a dar e a dar e a dar... (ao trabalho, ao trânsito, à família...), sintam algum prazer em receber, na escola, informação, cultura, e conhecimentos novos, mesmo que sejam, como se extrai o DNA a um Kiwi. Espero que seja isso que faz as pessoas sair de casa.
Maria do Patrocínio
PARABENS Prof António!
Estou no meu trabalho, na hora do almoço com as lágrimas nos olhos, deslumbrada com as suas palavras que nos toca no enterior do nosso singelo coração.Admiro muito a sua literatura, aproveitei para ler as restantes, palavras reais de momentos verdadeiros.
Com as suas " letrinhas " mantem-nos o gosto pela literatura, pelas suas aulas, pela filosofia,motiva-nos ainda mais para enfrentar o mundo estudante.
Obrigada!
Ana Isabel Mota
O ADN dos casamentos,
Não há tempo!
Nunca há tempo, para segundas chances,o mundo dos adultos, costuma chamar “fracos” a quem dá segundas oportunidades. É uma forma cruel de não assumir a falta de paciência, a exigência da perfeição.
Não temos tempo!
Neste tempo em que tudo tem de estar pronto a consumir, até os casamentos têm de ser perfeitos, quer sejam apressados ou de namoros alargados. A falha, é algo que custa assumir, pelo menos aos que foram “teenagers” nos anos ’80. E um casamento não é um bilhete de jogo de futebol, não se sai de campo na primeira lesão! É preferível perder o tempo, lamber as feridas, curar lesões, entre as abertas das nuvens e fechar os olhos para não ver...”olhos que não vêem, coração que não sente”. E aí está o mal! Não se racionalizam sentimentos! Costumo pensar, sob influência da educação que tive, que os casamentos são como pequenas empresas: tem de haver lucro para distribuir pelos sócios, senão a falência é algo de eminente. E quando não é a falência do casamento em si, é algo mais grave, como a própria anulação do ser e consequente falência pessoal.
ADN de um casamento? O que é isso?
Tendo em conta que o ADN é como um entrançado de marcadores, cientificamente chamados A, C, G, T*; deveria o casamento ter algo do mesmo género? Como por exemplo: A.C.G.T: Amante, Criadora, Jeitosa, Trabalhadora? Claro, no caso feminino entenda-se! E no masculino? Animado, Coordenativo, Genéticamente-superior-à-fêmea, Tranquilo...Decididamente a próxima encarnação, quero nascer homem! Sim, o casamento, sendo um contrato, beneficia a parte masculina, onde passa a ter variados serviços a custo zero! Genericamente...Cama mesa e Roupa Lavada... No caso feminino, a eterna imagem do príncipe encantado no cavalo branco que salva a princesa da torre mais alta, muitas vezes não passa disso mesmo! Uma imagem!
Casamento não tem ADN, não tem data de validade, género, credo, partido político. Não tem mistério. É um conjunto de cedências que se fazem a cada dia, e o direito adquirido de ter a má cara da outra pessoa porque somos a “outra metade”.
Acho que prefiro as uniões de facto, depois analisarei se tem ADN.
Filomena Villaret
é... de facto, um texto muito bonito ilustra como o autor é pensativo e observador, continue já que pessoas de tal intelecto se extinguem ... abraço, aluno da turma.
Enviar um comentário