sábado, 10 de Janeiro de 2009

O Consultório das Orquídeas Amarelas


A minha relação com a psiquiatria resume-se a uma visita a um consultório da especialidade nos finais dos anos oitenta quando uma lei estulta tornou obrigatório os funcionários públicos apresentarem, além do atestado de robustez física, um segundo certificado, mais pungente e de mais difícil acesso, o da robustez psíquica. Ninguém sabia bem o que isso era nem como alguém poderia atestar semelhante coisa, mas havia uma lei e um prazo. Fui adiando a entrega até que a urgência me obrigou a tomar medidas drásticas. Pagar a um psiquiatra a prova testemunhal do meu equilíbrio racional. Através das páginas amarelas cheguei a um especialista que me permitiu uma marcação para o próprio dia.

Ao entrar no consultório deparei com um vaso de orquídeas no parapeito da janela, com flores amarelas lindíssimas. Estranhei a sua beleza pelo local tão pouco apropriado para o seu cultivo e no meu íntimo identifiquei o proprietário como uma alma minuciosa e poética. Por detrás de uma mesa apinhada de livros, revistas e folhas, uns olhos frios seguiam-me os movimentos, sem qualquer formalidade nem qualquer tentativa de me fazer bem-vindo. Ainda não me tinha sentado e já ele me perguntava a finalidade da consulta. Comecei a responder antes de me compor devidamente na cadeira pouco confortável, colocada estrategicamente frente à secretária.

- O objectivo é apenas dispor do atestado de robustez psíquica quanto antes. Hoje termina o prazo da entrega. - Não me pareceu ficar surpreendido.
- É doido? – perguntou de rompante.
-Quem, eu? - Engasguei-me.
- Sim. É louco? - Repetiu como se a pergunta fosse razoável. - Tem alguma idiossincrasia mais estranha que o faça ter medo ou ter vergonha de si mesmo?

Julgou conveniente explicar-me melhor o conceito de loucura e senti aquele clamor íntimo de que para um psiquiatra a resposta não poderia ser demasiado óbvia. Como se a negação de qualquer anomalia psíquica pudesse colocar dúvidas no administrador da sanidade pública, e, naturalmente, não poderia declarar a minha insânia por não ter razões fortes para a justificar e, fundamentalmente, para não ficar sem o diploma pretendido.

- Doido, doido não serei, senhor doutor. Tenho os meus dias e as minhas afrontas. Mas julgo que nem serei nem mais robusto nem mais afectado que o comum das pessoas.

Ele olhava-me fixamente como se decifrasse palavra por palavra, do gesto mais suave ao mais brusco, as minhas mãos entrelaçadas no peito, vestígio da timidez, tudo o que poderia ser interpretado como lacunas, faltas de rigor ou mesmo de tentativas de distorção da verdade num inquérito chave para o futuro da minha situação profissional. Ao mesmo tempo anotava numa folha de papel A5, talvez para tornar a entrevista mais autêntica e emocionante. Interrompeu-me.

- Diz-me que não é alienado, mas ainda ontem com o mesmo objectivo veio cá um colega seu do Liceu Camões que, após afirmar a sua sanidade, contou-me que a única deriva da sua vida se devia ao facto de viver em casa de uma tia e o temor de ser violado por ela o obrigavam diariamente a colocar junto à porta os livros, os dicionários e até os manuais de inglês que utiliza nas aulas. Agora diga-me lá se poderia entregar o atestado a esse senhor?
- Não sei. – Arrependi-me logo depois de lhe ter respondido “não sei”. O especialista olhava para mim na expectativa de uma justificação para as minhas dúvidas. - Quer mesmo que lhe responda? Percebi que era um jogo. Agora que começara teria de jogá-lo com toda a cautela.
- Mas o senhor doutor perguntou-lhe se a porta do quarto tinha chave?

Após uns segundos de reflexão parecia agora hesitante na resposta. Sentia-se malogrado com o andamento da consulta, esperara da minha parte o não definitivo, o não sem mácula que retirava ao meu colega o merecimento de tal certidão e que comprovaria de forma definitiva a minha saúde mental. Agora ganhara dúvidas também a meu respeito.
- O problema não era a falta de chave da porta, o problema era o temor irracional que tinha da própria tia. Acha isso normal? Acha, acha? – E questionava-me como se quisesse não só perscrutar a minha salubridade, como dar-me uma lição sobre diagnóstico social de neuras e pecados.
- Não, mas calcule que a tia não é boa da cabeça e tem o terrível hábito de durante a noite o importunar com pequenos desmandos e pedidos incestuosos. Como o senhor doutor não conhece a senhora terá de ficar na dúvida de que o professor pode ter razões fundamentadas para ter medo de dormir na mesma casa da tia. E encontrou nos livros um bom remédio, um instrumento rudimentar mas com justificado mérito lógico, pelo ruído que produzirão a espalharem-se no chão da sala.

Não me pareceu nada satisfeito por lhe colocar uma hipótese alternativa à sua explanação, - por muito pouco provável que fosse - por lhe refutar a prova testemunhal da fragilidade psíquica do anterior freguês. Também não me pareceu que quisesse continuar a argumentação, mas eu estava disposto a demonstrar a minha clareza lógica.
- Eu, por exemplo, conheço alguém que não consegue dormir em hotéis.
- A sério? Perguntou-me, agora com visível interesse.
- Sim, como reconhece que para lá da sua própria chave do quarto existem outras que poderão ser utilizadas pela empregada, pela administração e até pelos tipos da recepção, receia que no meio do sono poderá entrar algum deles e ser vítima sabe-se lá de quê. Assim não dorme, razão pela qual só viaja quando a necessidade profissional o obriga.
- Isso é muito interessante, retorquiu de imediato. Mas terá de concordar que o temor perante a possibilidade de desconhecidos entrarem no seu domínios e ser atacado por eles é sempre mais plausível do que por uma velha tia que vive na mesma casa. – Depois calou-se como se arrependesse de me explicar o que quer que fosse. Um silêncio constrangedor que me deu tempo de admirar novamente as orquídeas amarelas que recebiam o sol directamente da janela e ganhar dúvidas que fosse ele o cuidadoso cultivador. Mas esse alguém é você? – interrompeu-me sem aviso e anotei-lhe um leve sorriso cínico.
- Não senhor doutor, eu apenas não consigo dormir devido a insónias. Não tenho medo de ninguém em especial, são os meus próprios demónios que me abalroam. Demónios, senhor doutor, são uns antros escuros no cérebro, uma espécie de buracos negros que me obrigam a pular lá para dentro e levo a noite inteira a tentar saltar cá para fora. Dou tantas voltas na cama que de manhã sinto-me tão cansado como se tivesse participado numa maratona. Mas isso é raro acontecer e quando acontece…

Com um sinal brusco pediu-me para me calar e sem mais comentários começou a escrevinhar numa folha azul uma dúzia de palavras, passou-me o documento para a mão, acompanhando o gesto com um frio “tenha uma boa tarde”. Saí do consultório sem tempo para admirar, mais uma vez, as orquídeas amarelas de flores lindíssimas que emolduravam o parapeito da janela.

6 comentários:

Fenix disse...

E claro que a dúzia de palavras no papel azul atestavam a sanidade mental!
Quem cuidaria das orquídeas?...

Abraço
Fenix

::::: disse...

No meu juízo perfeito,
de louco todos temos um pouco.

Com um psiquiatra assim, era pegar no vaso de orquídeas e sair de lá com ele que o Dr. nem dava por isso...

Devaneante disse...

Ainda bem que eu não preciso de atestados desses... desconfio que nenhum psiquiatra no seu juízo perfeito aceitaria passar-me um... :-)

PS: Também gosto muito de orquídeas.

Anónimo disse...

Lindo,

Um atestado de sanidade é tipo um atestado de castidade...

Todos os olham com bons olhos, mas, poucos os que praticam!!!

Só um louco identifica o seu semelhante ou o seu contrário... hihihi

Mas as flores essas são reais.. '-)

Anónimo disse...

Pareceu-me que estavas a descrever um "encontro do 3º grau" ou coisa parecida, cujo desfecho era imprevisível; tão marcante que ainda não esqueceste. Apenas me questiono por que raio tinha ele umas lindas orquídeas amarelas no consultório, colocadas no parapeito da janela cuja disposição se pareceria a um quadro? Seria uma tentativa de encontrar algum equilíbrio lógico no exercício da profissão ao contemplá-las? Só ele poderá explicar ou não!
av

jacker disse...

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