quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

A Mágoa de Estimação



Afastou-se sem deixar espalhadas culpas por toda a casa. Sem aquelas crueldades que transformam o outro num monstro de duas cabeças e o obrigam a cometer imprudências e dislates. Aliás, se houve crueldade da parte dela foi o silêncio que a envolveu na partida e a levou consigo. Um silêncio não fracturado na única situação em que nos confrontámos como dois estranhos, numa fila para uma caixa multibanco. Não posso dizer que as suas razões não eram suficientes para abandonar o projecto e que me laceraram quando me confrontei com a solidão que levou vários anos a sarar. Mas quando se é jovem julga-se que a relevância dos projectos é suficiente para que se lute por eles mesmo sem esperança da sua continuidade. Ela não o fez e deixou-me para ali sozinho, numa morada onde cada esquina, cada coisa, cada sombra, me evocavam a sua beleza, o seu perfume e a sua leveza.

Após desabar todo o edifício, reconstruí-me, paulatinamente, pedra por pedra, janelas, portas, até a solidez da construção ser suficiente para suportar a acidez do tempo. Mas, após todos estes anos, questiono-me se não há, da minha parte, a artificialidade de manter essa ferida aberta, como premência em perpetuar um marco temporal, forma de recusar o vazio do passado ou a busca de uma densidade para a minha própria história. O que é certo é que, de vez em quando, destapo a ferida coberta com uma gaze frágil, contemplo-a para me sentir enfermo e digno de compaixão, rego-a com uma tintura de iodo que a acalma nas suas manifestações e depois deixo-a lá, anos a fio, como se não existisse e sem dar importância à dor que dela escapa. Tal como uma doença menor que não exige grandes cuidados nem visitas a médicos, não provoca a morte e o sofrimento que causa é diminuído por um simples analgésico. Apenas quando abusamos e esticamos a corda sentimos os seus efeitos no dia seguinte.

Não sei, mas todos temos, pelo menos, uma mágoa de estimação. Não a queremos perder como se fosse um bem raro. Dá-nos consistência. Uma marca no espírito, quase um estigma de pele, através da qual vislumbramos flashes de vida e nos amarramos a um tempo distante e a espaços diferenciados de luz. Dá-nos resistência perante novos desafios. Se já conseguimos sobreviver ao caos, à indiferença e ao vazio, então a vida seguirá em frente, seja no desespero do dia seguinte ou na procura de uma nova saída…

6 comentários:

Charlie, The Sinner disse...

É, e só as conseguimos domesticar quando as fazemos passar fome!

Beijinho

Anónimo disse...

As feridas(inhas)são tratadas assim com medicamentos(inhos) para nos fazerem sentir vivos, termos a noção do nosso tempo e do nosso espaço nesta Ordem das coisas. Por isso as tratamos tão bem...mágoas, ódios ou amores de estimação fazem pulsar o sangue nas nossas veias, contrariando um estado de apatia que, se calhar, nos dava mais sossego...

Bj

PutoDosPneus disse...

Vou ler de novo porque vale realmente a pena... É bastante complicado para mim habituar-me ao vocabulário, mas dá-me prazer ler algo tão bom... E tenho prazer em gostar de ler algo assim!

Ler...

Ler faz-me sentir vivo, faz os meus pensamentos fugir da vida profissional e envolver-me naquilo que é narrado, naquilo que está escrito! Está escrito de uma forma complicada para mim, mas não deixo de me sentir envolvido em todo o sentimento que existe nestas palavras... O texto sobre as feridas fez-me reflectir.
E fez-me reflectir em acções do dia a dia, as quais tomamos por insignificantes, mas que quando somos confrontados com o texto, pensamos... Pensamos, sentimos pena disto ou de aquilo, sentimos remorso de uma ou outra acção...
E no fim de tudo isto, cheguei a uma conclusão:

Li, gostei, pensei, reflecti, ponderei as palavras que deveria utilizar e... Fiquei feliz!

Um grande abraço, Luis Comunhas

Devaneante disse...

A gaze foi levantada, a ferida foi regada com tintura de iodo, e uma nova gaze, tão frágil como a anterior mas mais limpa e menos gasta, foi colocada... a ferida ficará tapada até que surja uma nova necessidade de contemplação, ou até que alguém a venha curar definitivamente, deixando apenas uma cicatriz que o tempo tratará de esbater.

Fenix disse...

Como diz a sabedoria popular: “o que não nos mata torna-nos mais fortes”…
Acho que sim, que todos temos, pelo menos, uma mágoa de estimação.
De vez em quando é preciso revisitá-la e desinfectá-la com lágrimas curativas de Fenix.
Depois há que voltar a fechar o baú, de onde escapa sempre alguma dor, como se fosse a caixa de Pandora…
Abraço
Fenix

technology disse...

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