terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

A estranha ilha de gente esguia


Era uma ilha pequena, minúscula, invisível aos radares e sem lugar em qualquer carta marítima. Mas era uma ilha como todas as outras, com paisagens deslumbrantes, rodeada por um mar que se iniciava à sua beira e corria para todos os lados. Tinha uma especificidade própria, apesar das semelhanças com todas as outras e com muito esforço e sabedoria mantinha-se em equilíbrio em cima da água havia muitos séculos. Os habitantes agradeciam-lhe todos os dias em ladainhas que cantarolavam e que ao longe parecia zumbido do vento ou do fragor das ondas. Habitavam-na árvores e gente. Não havia cabimento para outros seres e todos em boa vizinhança, acotovelavam-se regradamente.

Digamos que havia um problema de espaço. Apesar do número reduzido de indivíduos, eram numerosos para tão pequena área, e viviam com movimentos suaves, com receio que um encosto mais enérgico sacudisse alguém borda fora. Eram todos belos, magros e elegantes como árvores esguias. Para alcançarem o mar colocavam-se em bicos de pés e após gerações já eram mais altos que os da sua frente e assim sucessivamente. Vistos de longe pareciam elementos de um coro de música clássica, bem vestidos, crescendo em tamanho. Quando nascia algum tiravam sortes e um dos mais velhos mergulhava no mar. Não havia angústia por causa disso, nem a escolha era olhada como má fortuna. Após cerimónias e grandes festas despediam-se com canções e o escolhido entrava no mar, transformava-se em peixe e descobria no meio das ondas outros a quem a sorte coubera. Zelavam pela sua ilha, os mais saudosistas espreitavam nas margens tentando encontrar paisagens e pessoas familiares.

As festas comunitárias eram o fulcro do tempo, preparadas com esmero. As danças eram feitas num ritmo certo sem moverem os pés. O corpo bamboleava-se para um lado e para o outro, para a frente e para trás ao ritmo de um solista, escolhido pela voz mais doce. O ritmo seguia o sopro do vento e por isso as árvores e os homens comungavam das mesmas oscilações. O único problema para os habitantes da ilha era o descuido que poderia comprometer o equilíbrio do ecossistema. E na história acontecera duas vezes. Um desastre. A queda para o mar de tantos habitantes, mas também a dificuldade do regresso à ordem. Eram necessárias muitas décadas para que o equilíbrio fosse reconquistado e tudo voltasse à normalidade.

Claro que outro desconcerto era possível, mas raramente acontecia. Um deles abandonava a ilha, atirando-se ao mar sem decreto. O seu nome era proscrito e mais ninguém o podia nomear nas relações com os vizinhos. Como se o desprezo da ilha fosse uma afronta à sua natureza. O lugar deixado vago era ocupado por uma árvore. Tal era a razão de haver árvores no meio deles, sinais de deserções e funcionava como ensinamento aos vivos e sombra nos dias mais quentes.

Alimentavam-se de vento e pólen que caía das árvores e dormiam de pé. Eram tão felizes como nenhum outro povo. Ter dúvidas desse facto seria o mesmo que duvidar da felicidade das árvores da floresta que balouçam ao vento. Apenas deixaram de o ser quando seres estranhos, munidos de ferramentas, invadiram o território e, com pena, libertam-nos das tiranias das leis e os disseminaram por outras ilhas.

2 comentários:

Devaneante disse...

Uma ilha verdadeiramente interessante, magistralmente apresentada!

FLY disse...

E a utopia (*) sempre ao nosso alcance, tão perto de ser possível...

Abraço

(*)situação ou lugar ideal onde as instituições são extremamente aperfeiçoadas