sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

O Natal dos simples



A água era tanta que a estrada acanhada transformara-se num lago gigante. O automóvel mantinha a andança no meio de arranques e pequenos desmaios, deixando em sobressalto os corações dos ocupantes. Até que um som rouco cortou o movimento e a paragem abrupta fez oscilar os corpos e a máquina. Olharam-se por instantes e cruzaram mensagens através de olhares, mas a resignação prevalecia. A noite chegava a passos largos. Munido de uma lanterna, abriu a porta aos encontrões, ajudou a mulher a erguer-se e ambos enfrentaram a chuva batida contra os seus corpos. Tentavam situar-se num horizonte quase opaco, encostados um ao outro e caminhavam sem hesitações. “Não podemos parar, temos que encontrar alguém que nos ajude”, incentivava-a. O tempo de gestação terminara e a viagem em direcção à cidade devera-se aos primeiros sintomas da proximidade do parto.

Não sabiam ao certo o espaço percorrido, mas o esforço era tal que a distância se reduziria a umas centenas de metros. Lá mais ao fundo, um pouco acima do nível da estrada, uma luz cintilante surgia e desaparecia como se dependesse do sopro do vento. Num morro, uma casa térrea e sombria erguia-se em equilíbrio e a luz que saltitava pela janela fazia lembrar a claridade de um farol perdido numa costa batida pelas ondas. Ao saírem da estrada entraram na lama que se afundava sob pressão dos passos, dificultando ainda mais a caminhada. Empurravam-se como se fossem sobreviventes de um naufrágio, curvados para melhor escapar às rajadas da ventania. Batidas sôfregas na porta, ao mesmo tempo chamavam repetidamente por alguém. Após um longo intervalo de hesitação, surgiu um velho de costas tão arqueadas que só a ajuda do cajado que lhe empurrava o tronco permitia o encontro de olhares. Do interior soltava-se um calor ameno e eram incentivados a entrar:” Façam o favor, depressa. O vento é forte… Desculpem a desarrumação da casa mas são raras as visitas”. E para se desculpar da demora. “Estamos tão isolados que temos medo de assaltos e nem imaginam as histórias que correm! Mas numa noite destas ninguém anda na rua a cometer delitos.”

Entraram num corredor estreito e despiram os casacos encharcados. Ao fundo, uma cantareira azul embutida na parede branca, as prateleiras com pratos e barranhas antigas e junto ao soalho um cântaro de barro. Tudo tão sóbrio como se o supérfluo fosse pecado. “O carro avariou-se no meio da estrada alagada” justificou-se o jovem. “Não são os primeiros, mas sabe como é, ninguém se lembra deste calcanhar do mundo e as estradas são uma miséria”. Foi quando o velho reparou na barriga proeminente dela e perguntou: ”Mas deve estar no fim do tempo, não?” “Quase, quase. Na verdade, hoje senti as primeiras contracções. Espero que o bebé se segure até amanhã”, respondeu com um sorriso conformado. Entraram na cozinha, e junto à lareira estava um vulto negro com as costas dobradas. Parecia um ser redondo e inerte. “É a minha patroa. Mulher, olha uns senhores!” Ela voltou-se ligeiramente, disse “boa-noite” quase inaudível e afastou-se do centro da lareira oferecendo o lugar aos visitantes. O velho arrastou uns bancos e todos se colocaram com as mãos voltadas em direcção ao fogo. Mudos e inertes - ninguém se sentia obrigado a qualquer esclarecimento - e tão juntos como se tratasse de um encontro rotineiro. Enquanto a lenha se consumia em chamas.

“O que querem comer?” A velhota cortou todos os pensamentos. “Obrigado, mas não temos fome”, atalhou a jovem. “Pelo menos um chá quente e umas filhoses. Vai fazer bem à criança”, disse a dona da casa com voz amigável, levantando-se em seguida. O silêncio regressou, partido agora por sons de chávenas de vidro batendo umas nas outras. Uma bandeja com filhoses passou à frente do casal, ambos retiraram, olhando um para o outro como se o acto se justificasse pela simpatia. Mas, a certa altura, a jovem, cada vez mais inquieta, olhava para o relógio e gemia baixinho, ”temos que chamar a ambulância”. “Não vale a pena. A ambulância demoraria horas a chegar”, retorquiu o velho, não desviando os olhos do fogo. E o jovem ansioso olhava em todas as direcções como querendo encontrar uma saída nas paredes escurecidas, descubrindo naquele mundo humano e corpóreo pormenores do seu próprio mundo que deixara para trás. Um quadro frio e severo, ausência de decoração e de emoções e povoado pelos olhos tristes dos moradores. Como se a vida aqui assentasse num plano diferente da felicidade e se adequasse mais a resistência. Vivia-se até que as forças permitissem, depois morria-se sem saudade. No entanto, concordou no seu íntimo que ficara privado também de uma forma de vida mais contemplativa e melancólica e sem correrias porque não há para onde ir…

A situação começava a ser inquietante. As dores avolumavam-se à medida de contracções mais fortes e próximas. A mulher levantou-se de novo e comentou, “Chore menina, não se envergonhe. Não há vida sem lágrimas. Mas isso não deve impedi-la de fazer o que tem de ser feito. Vai ver que é muito! Mas é jovem e tem uma virtude que é essencial nesta tarefa: a energia.”. A um sinal, com uma expressão dura, – como se tratasse de uma repreensão pelo esquecimento indesculpável – o marido deitou água numa panela escura e colocou-a à beira do lume.

( Entre eles não havia qualquer palavra - como se tudo já estivesse esclarecido - num silêncio cheio de ressentimentos. )

Da gaveta da cómoda retirou uns panos de linho, ao mesmo tempo que tentava acalmar a jovem. “Não esteja preocupada. Os caminhos da natureza são tão frequentados que sabemos o que nos espera mesmo antes de os percorrermos. Fui mãe oito vezes e todos nasceram aqui em casa. Andam espalhados por aí.” E fez um movimento com as mãos exprimindo vastidão. E continuou. “Agora complicam tudo, vão para hospitais, fazem operações e tomam remédios. No meu tempo ter um filho era tão natural como morrer.” O rapaz segurava na mão da jovem e acariciava-a e o velho olhava para o vazio como se tivesse encontrado nalgum lugar outra realidade mais aprazível. A dona da casa embebia os panos numa bacia com água quente. “Ninguém imagina a resistência de um recém-nascido. A vontade de viver vai-se perdendo ao longo da vida, mas no início não tem limites.” O rapaz notou algum cinismo na voz.

De repente o cenário transformou-se como por magia. A velha tirou o xaile e colocou-o nas costas de uma cadeira. Lavou as mãos e depois comentou, “minha filha, chegou mesmo a tua hora.” De rompante, a sua figura frágil deu lugar a uma força da natureza que dava ordens e definia os tempos. Na pose já não havia timidez nem indecisão, apenas certezas. A rapariga deitada sobre o tampo da mesa da cozinha, com as pernas abertas e os joelhos levantados deitava gritos roucos, compassados. O rapaz com semblante assustado afagava-lhe a testa com um pano húmido e uma voz altiva comandava as sombras: “respira fundo, continua, continua até passar a dor. Não, agora não faças força, espera, sopra, sopra…” Ordens que se repetiam à medida de alteração dos sinais que vinham de dentro. “Faz força, toda a força que puderes. Vá, vá, não pares…” As sombras na parede moviam-se com mais consistência do que os seres da cozinha, num ambiente tão fantasmagórico como se tratasse de personagens irreais cumprindo ofícios forjados por guionistas divinos. Uma luta de vida ou de morte arrastando atrás de si lágrimas e fadigas. Até que um grito rompeu a noite e festejou a vida. “Um menino lindo e perfeitinho”, exclamou a parteira improvisada, visivelmente fatigada.

A jovem mãe ainda mantinha os olhos de assombro e com a figura esbatida, semelhante a uma escultura de um museu etnográfico. O jovem sorria aliviado, o velhote mexia nas brasas com um galho de carvalho e a dona da casa, após lavar o recém-nascido e de o colocar no calor da mãe, sentou-se à lareira com a cabeça coberta com o xaile preto. As janelas embaciadas não permitiam ir ao encontro da noite, ouvia-se apenas o eco das gotas dos beirais ao esbarrarem na terra encharcada e sentia-se nas costas o frio cortante, como se a vida exigisse adversários para provar a sua eficácia. “Nenhum viajante pode sobreviver a uma noite destas,” comentou o velho.

quarta-feira, 19 de Novembro de 2008

Saudades do futuro


Conheci-o há muitos anos, numa altura em que ele tinha razões fortes para ser feliz. Estudámos juntos, convivíamos com expectativas semelhantes e idênticas esperanças. Afastei-me quando as dúvidas secaram a força interior e a minha vida avançou por trajectos díspares dos dele. O único contacto que mantivemos foi um amável cumprimento de Natal e sabíamos um do outro através de testemunhos de amigos comuns. Só muito tempo depois chegou a notícia da sua ordenação. Fiquei satisfeito porque sabia que todos os seus sonhos se esgotavam nesse ideal. Mais uns meses, não me lembro quantos, novas notícias chegaram. Pela velocidade eram más, um desenlace sombrio. Pensei procurá-lo no único sítio de onde ele nunca saíra.

Eu era professor numa cidade do interior e a proximidade à Casa foi mais um estímulo ao regresso. Passei os portões de ferro que atavam os muros altos, percorri o caminho ladeado de sebes e ao fundo a frontaria do edifício amarelo, rodeado de jardins menos cuidados do que no passado. Durante alguns minutos passeei como um hipnótico pelo espaço circundante. A sua sombra pairava sobre vários anos da minha vida, em pontos distantes encontrei histórias, revi amigos que o tempo desperdiçara, exerci sobre o meu passado um quadro de referências que julgava ter desaparecido. Não posso dizer que tive saudade, mas senti-me mais cómodo num território que antes tratara com desconfiança e melancolia.

A campainha suou forte no interior. O progresso exigira uma moderna que substituiu a cabra de outros tempos. Demoraram a abrir como se o tempo retirasse vigor às passadas. Posso falar com o senhor Reitor? O porteiro assentiu e pediu-me para esperar na sala. Deitei os olhos pela janela tentando encontrar mais reminiscências, encontrei arbustos vivos, cerejeiras frondosas, a montanha com o cume agressivo até que ele apareceu, fitando-me com um sorriso aberto e procurando o meu nome. Reconheceu-me e abraçámo-nos. O meu passado encontrava-se também nos seus olhos e deles desaparecera a aspereza e algum amargor de outros tempos. Agora o seu porte era mais sereno e amável. Senti-me aconchegado no seu interesse em conhecer a minha a vida e na satisfação dele ao perceber que tinha assegurado o futuro. Esclareceu-me sobre o andamento da instituição nestes tempos materialistas e com falta de espírito comunitário e solidário. A redução de vocações era um problema, mas numa constatação sem severidade ou culpabilizações desnecessárias. Confidenciou que tinha saudades dos tempos áureos quando centenas de jovens generosos povoavam os corredores e davam ao espaço um vigor que desaparecera para sempre.

A tarde passou tão depressa que me surpreendi quando ajustou o jantar. Concordei sem hesitações e enquanto decorria lancei para o ar o tema do amigo que se alimentava do pior bocado da sua vida. Fez-se um silêncio pesado, ouviram-se os mesmos pássaros no átrio cheio de laranjeiras, reconheci na frontaria oposta janelas familiares onde sentira o vento anos a fio e onde vivera pendurado em horizontes longínquos. As camaratas, salas de estudo, o tanque agora vazio, mas outrora alegre com peixes vermelhos. Um suspiro profundo cortou a linha do passado, enquanto repetia “uma tragédia, uma tragédia!” E como para se livrar do mal rompeu o coração, soltando emoções, reafirmando, a cada passo, a profunda amizade que o continuava a ligar àquele que sempre fora o seu aluno predilecto.

Uma história análoga a tantas outras. Depois de ser ordenado fora colocado numa pequena aldeia e recebido por todos com a pompa e festa. Era jovem, bem-disposto, de uma simplicidade acolhedora, boa aparência e sensato. E se nos primeiros meses o entusiasmo se reforçou, depois começaram a chover desconfianças pela vida social agitada e pela presença constante de gente nova à sua beira. De todo esse processo o Reitor sabia poucos pormenores, ou pelo menos não os referiu. Até que um dia o meu amigo regressou a Casa, com um olhar desesperado e uma tristeza infinita na face. Tragédia no ar. Confidenciou-lhe que a cabeça quase rebentava desde o dia que alguém próximo lhe comunicou que esperava um filho dele. Uma vida inteira desabara apenas num momento minúsculo. E agora? E o prefeito, outrora disciplinador e obstinado apenas lhe recomendou que fizesse o que a consciência ditasse. Nessa noite o meu amigo escolheu a responsabilidade de criar o filho.

Ouvia a história com imensa tristeza. Aquela personagem cheia de desespero não a conseguia identificar com aquele amigo de sorriso pronto, de enorme generosidade, e ao mesmo tempo objecto do afecto e admiração de todos os colegas. Era opinião do Reitor que ele se deixara cair numa armadilha ardilosamente preparada com a ingenuidade própria de quem passou uma vida fechada entre quatro paredes à espera de realizar um sonho. Após ter optado por outro caminho os pais e os irmãos juraram-lhe indiferença, perdeu a paróquia no meio de insultos e provocações, alguns amigos viraram-lhe a cara, a hierarquia católica não o apoiou. Era demasiado duro continuar naquelas paragens.

Ao meio fechado, tradicionalista e culpabilizador preferiu procurar alguma paz fora de portas. Já estavam em Espanha quando a companheira lhe comunica que afinal a gravidez era falso alarme. A relação entre os dois desabou. O desfecho foi a solidão perante uma nova relação dela e do seu regresso a Portugal. O Reitor deixou cair umas lágrimas soltas. Afinal, uma vida predestinada à santidade caiu num beco sem saída. E então? “Nada mais sei. Alguém me disse que a sua intenção seria trabalhar com a comunidade emigrante num país europeu. Tenho a esperança que isso seja possível, porque, caso contrário, poderá haver uma desgraça.”

Era já noite cerrada. Aqueles corredores longos e escuros despidos de jovens eram ainda mais lúgrubes do que as lembranças que restaram de duas décadas. Arrepiei-me ao pressentir a dor de quem, de um momento para outro, perdeu o projecto de uma vida, o afecto dos que amava e ganhou a mágoa da traição e da indiferença. Apenas poderia contar com ele próprio para continuar e a solidão é absurda quando nos confrontamos com o vazio do futuro. Se pudesse abraçá-lo-ia e jurava-lhe que o Deus dele não é vingador como são os homens. Estes não perdem uma oportunidade de crucificar alguém por um salto no vazio, sempre na expectativa da consolação interior que o desespero do seu vizinho lhe provoca.

Ultrapassei o portão de ferro e, vagarosamente, subi a serra em curvas e contra-curvas, no meio de sombras de cerejeiras projectadas por uma lua inundada de luz. Do outro lado da fronteira a dor de quem se condenara a si mesmo, quando o seu grande devaneio era salvar todos os outros.

sexta-feira, 14 de Novembro de 2008

O falar por falar...


Após um mutismo traumático que se estendeu por sete anos, de repente, começou a falar como se as palavras amontoadas - como lixo nas bermas após inundações - remediassem o passado, um passado onde o sentido ficara retido na garganta, nos olhares e em odores crus. Agora arengava como se tivesse necessidade de dizer tudo o que calara, - sentimentos, sensações e embaraços - numa balbúrdia ensurdecedora, termos ligados ao acaso, sem o silêncio reparador do sentido, sem aquele emudecimento que é construtor do bom senso.

Como sabemos, há palavras ditas que não têm remédio, não têm ponta por onde se peguem. Não se ligam ao fio do pensamento e originam no interlocutor a perplexidade da incompreensão. Reconhecia o facto quando, às vezes, em suspenso, afirmava no meio de um sorriso ao mesmo tímido e maroto “esqueçam!” Mas foi demasiado tempo à espera de conseguir comunicar, não houve tempo para aperfeiçoar o dizer. O que agora era importante o dizer não o dito. Vocábulos sem controlo, comunicação pela comunicação, um conteúdo ameaçado pelo atropelo e pelo sentir mágico do som de vocábulos que ultrapassavam a boca e reproduziam no seu rosto a emoção da linguagem, sem ameias. Ninguém, nunca mais, lhe colocaria limites ao seu próprio dizer.

Assim o verbalizar causava-lhe uma alegria íntima semelhante à sensação de liberdade de quem sofreu um longo período de reclusão. Para um ex-recluso, todos os pormenores de um mundo aberto, seja um horizonte límpido, um nascer do sol revisto em câmara lenta ou o amontoado infindo de estrelas num céu nocturno, originam um estremecimento interior capaz de o levar às lágrimas. Da mesma forma, de um momento para o outro, ao conseguir transpor o pensamento para as palavras significava a possibilidade de comunicar, a alegria íntima de conseguir ultrapassar o silêncio claustrofóbico.

Manteve um travo metálico ao mesmo tempo que as palavras eram empurradas pela garganta, numa respiração ociosa. Um som e um travo como se falasse uma língua estrangeira, com umas pausas longas na pesquisa, perante o olhar expectante do interlocutor. Não lhe interessava tanto o sentido, mas as palavras. Palavras em saldo. Palavras jogadas como se uma partida de ténis se tratasse. E sem vergonha, como se a vergonha se tivesse extraviado no constrangimento do silêncio. As palavras devastadas ao sabor do ritmo estalavam na boca e apenas causavam mossa nos ouvintes. Nele a simplicidade do sorriso.

segunda-feira, 10 de Novembro de 2008

O Taxi


A tua face inundada de sardas e iluminada pelo sorriso é o meu único alimento espiritual. Basta-me para não regatear outro destino e julgar-me feliz por ter poiso e sossego ao fim da noite. Chego a casa após horas de azáfama, conduzindo em ruas diabólicas, onde o ruído ensurdecedor se mistura com sinais luminosos que nos atravancam a vida, e olhas-me como se gostasses realmente de me ver. Depois encosto-me nessa tua quietude e todo o meu mundo se reclina no sofá da vida.

Ser taxista não é só um emprego, é, de certa forma, uma vocação. Ao aceitar-se a presença dos outros nos nossos domínios tornamo-nos cúmplices dos seus anseios, das suas decepções e das suas ambições. Não sabemos quais são, mas o seu rosto e a sua postura física dão-nos pistas para onde querem ir ou de onde vieram e os murmúrios suaves que repetem são códigos de acesso a um número infinito de destinos paralelos aos meus. Há uns que se alimentam de esperança perante a grande oportunidade de uma vida; outros com um tédio tão profundo e resignados à sua sorte como folhas caídas; outros ainda com raiva acumulada nos gestos pelo tempo desperdiçado em azares e injustiças. Todos eles entram e saem mecanicamente, tal como os clientes de elevadores dos prédios mais altos.

Claro que as pessoas são tão diferentes como as paisagens e apontam caminhos tão díspares e tão profundamente misteriosos que não se reflectem no simples deambular pela cidade. Mas se alguns, irrequietos, olham constantemente para o relógio e discutem com outros condutores que se atrasam nos sinais verdes, a maioria comporta-se como se desejasse uma viagem com duração suficiente para esquecer este lugar de doidos que repete dramas sempre que a porta se abre.

À noite a clientela altera-se, com os seus ritmos e cores próprias. Mais solidão à solta nos bancos. Alguns, por telemóvel, imploram para que o passado se possa reconstruir através de peças de puzzle que foram semeadas em tantas zonas da cidade. Com os números luminosos do taxímetro reflectidos na face, saem com os olhos brilhantes de lágrimas largadas no banco, naquele espaço neutro onde não há receio de ser surpreendido e continuarão a cair noite dentro como aquela chuva miúda que se prolonga até de madrugada.

Mesmo quando a noite se alonga e tento abrir a porta com o cuidado para não te acordar, vens ter comigo ainda a vestir o robe, com as tuas sardas luminosas a envolver os olhos estremunhados. Respiro fundo e chega-me aquele odor a silêncio, misturado de fragrâncias familiares e do verniz da madeira, retiro as roupas no hall de entrada e sacudo-as à janela para retirar de mim o que restou do ruído rouco das ruas da cidade. Dás-me a mão quente e entrelaças-me os dedos nos teus, encaminhas-me pelo corredor escuro e parece que vamos para o banco traseiro do meu táxi, onde nos refugiamos da desordem e dos impedimentos cintilantes que retardam o desenrolar natural das histórias íntimas da cidade.

quarta-feira, 5 de Novembro de 2008

A Encruzilhada


A mim ninguém me alumiou o caminho. Cresci à custa de mim mesmo, às apalpadelas e a partir dos livros. Os amigos não apontam trilhos, com eles aprendemos que teremos de os palmilhar seguindo a nossa própria intuição. E desde muito cedo tive de pegar nas rédeas, não tive tempo para me espreguiçar ao sabor de um tempo morto. Vivi sempre com noção do dever no horizonte, com as culpas de pecados menores e com a ânsia de quebrar tabus. Uma vontade inquebrantável de me tornar adulto. Levou tempo até que me habituasse à dureza da própria vida, mas enfrentei todos os desafios com a coragem de um forcado. Talvez por isso quando me propuseram casar naquela tarde de Setembro, - num lusco-fusco com cheiro a folhas secas e no meio de um pó luminoso que desenhava espirais à minha volta -, concordei de imediato. Era mais um desafio como outro qualquer. Ela abriu os braços para me aquecer das intempéries e deixei-me levar pela aventura. Ambos desconhecíamos para onde íamos e era isso que nos aproximava.

E fomos em demanda da felicidade sem sabermos o que isso era, mas partíamos do presumível de que estaria mais próxima quanto mais os outros e o mundo se distanciassem de nós. Quebrámos laços e ninguém soube de nós durante anos. Numa auto-caravana percorremos lugares incógnitos, espaços de perder de vista, repetindo-se em formas e cores em dias sucessivos. Contactámos gente com linguagem incompreensível e só por gestos nos entendíamos. Não tínhamos calendários nem relógios, trabalhávamos pela urgência de dinheiro e adormecíamos durante dias quando o estômago se saciava. Mal falávamos e nada sabíamos um do outro. Encontrámos o silêncio e com ele resolvíamos os problemas de pele. Um dia, ao chegar, encontrei a casa tão vazia como se um buraco branco engolisse tudo o que era familiar. Sem mensagem, ela saiu com o mesmo silêncio com que nos defendíamos um do outro. Aliás, nunca mais a vi. Pressentiu que a vida não é um campo indefinido, não é tão clara como um amanhecer primaveril e nunca poderá ser tratada como um caminho descendente, sem obstáculos, por onde se escorrega como num artefacto de feira. Teremos de ter projectos e desejos, pois sem eles um vazio cresce e torna-se tão disforme que tritura os próprios ossos. Soube mais tarde que tinha filhos que saltitavam para o seu colo como gatos siameses, uma casa de uma dezena de assoalhadas de onde se via o mar, com vasos de flores coloridas que transformavam as varandas em jardins e até os cães tinham colchões ortopédicos.

E fui aprendendo, mas continuo em viagem. Agora já falo com aqueles que me pedem boleia e ouço-os atentamente nas suas neuras e melancolias. Consigo largar algumas lágrimas perante o seu desconforto e consolo-me com a sua desventura. Encontro-me naquela encruzilhada de poder saltar para o mundo dos humanos ou continuar em frente na tentativa de encontrar um precipício que clarifique de uma vez por todas este desejo enorme de insolvência. Por vezes, reconheço lugares por onde passo e convenço-me de que desde o início da viagem ando em círculos, como se não conseguisse afastar-me da minha própria sombra. Vou coleccionando razões para estacionar num destes dias...

segunda-feira, 3 de Novembro de 2008

O Antiquário


Era louco por antiguidades. Derretia todos os bens em trastes de todo o género, a maioria deles sem certificado de garantia. Perante a possibilidade das falsificações justificava que, mesmo assim, qualquer objecto de estilo antigo era mais valioso do que as modernices, todas semelhantes e sem alma. Em casa, prateleiras atravancadas de santos, pratos e artefactos diversos, tudo se entrelaçava como se uma máquina do tempo tivesse baralhado os séculos e fizesse colidir tudo no mesmo espaço.

Os poucos visitantes que se aventuravam na pesquisa percorriam as salas direitos como um pau de vassoura, sempre na eminência de colocar em crise a história universal ou a culpa própria. A atmosfera era de tal forma constrangedora que o receio de que um gesto menos medido pudesse causar um grave dano à civilização, retirava o prazer da contemplação dos objectos, dando lugar ao tédio e ao desejo inconsolável de sair dali para fora.

Dos amigos, guardados com idêntico esmero, afirmava que a melhor qualidade que lhes concedia era olharem o passado como o seu próprio destino. Nos encontros à volta de cigarros em noites vagarosas, a melancolia voltava-se contra a pouca vergonha dos novos que perdiam a memória e as referências para se transformarem em imitadores reles de modas e gostos estrangeiros. Ao mesmo tempo que os olhos se emudeciam ao celebrarem personagens históricas com uma estatura moral à prova de bala e de cultura tão densa onde era difícil alguém penetrar.

Ora esta paixão pelo antigo motivou o conúbio com uma velha gaiteira que detestava velharias e a ela própria, por já ser uma. Conheceram-se num antiquário em Lisboa, ele para dar vazão à neurose, ela funcionária da casa havia trinta anos. Após namoro rápido, casaram numa ermida do século XIII, abençoados por um Cónego tão velho como o próprio santuário. A lua-de-mel inebriante decorreu numas ruínas do sul de Inglaterra, onde menires e outros monumentos megalíticos enfrentavam o céu com sobranceria. Ele adorava morder-lhe as reentrâncias, fazer-lhe cócegas no bócio, amaciar as vergas e acicatar-lhe as rugas, o que deixava a mulher em estado de choque, pois ao invés, ela pretendia esconder-lhe os labéus à custa de cremes, pregas e roupas justas. Mas amava-a desalmadamente mais do que qualquer antiguidade com o argumento que era a única com potencialidades para envelhecer a olhos vistos.

Este prazer do arcaico, já com deficiências, vinha da infância. Sempre detestara ser novo, pois ninguém o deixava em paz pelo facto de o ser e quando adulto ainda era suficientemente novato para as enormes expectativas dos mais velhos. Só quando a idade lhe permitiu ser velho conseguiu ser dono de si mesmo e começou a viver. A colecção principiou-a com um Santo António de cedro do mato que encontrou no espólio de uma tia solteirona, depois algumas peças foram-lhe parar às mãos de forma errática, até à recolha criteriosa e infatigável de muitas outras preciosidades. Livros com lombadas rasgadas, instrumentos musicais com cheiro a naftalina, móveis, cerâmica. Sempre com uma atitude contrária à lógica do museu: em vez de usurpação, retirando as coisas do seu lugar natural, tudo fazia para que as peças adquiridas mantivessem a sua função original, partilhando-as com a vida como se ainda existisse o seu próprio tempo.

Um dia, confidenciava a um colega de trabalho que estranhava essa propensão para o antigo: “Há aqueles que convivem pacificamente com o seu tempo; outros buscam no futuro saídas para a mediocridade do presente; outros há que encontram no passado o sentido para a vida. Estes poderão ser historiadores, filósofos e antiquários. Destes últimos, a maioria por razões comerciais. Poucos com o firme propósito de não deixar o passado por mãos alheias e contribuir para a sua dignificação e segurança. É o meu caso. ”