
A tua face inundada de sardas e iluminada pelo sorriso é o meu único alimento espiritual. Basta-me para não regatear outro destino e julgar-me feliz por ter poiso e sossego ao fim da noite. Chego a casa após horas de azáfama, conduzindo em ruas diabólicas, onde o ruído ensurdecedor se mistura com sinais luminosos que nos atravancam a vida, e olhas-me como se gostasses realmente de me ver. Depois encosto-me nessa tua quietude e todo o meu mundo se reclina no sofá da vida.
Ser taxista não é só um emprego, é, de certa forma, uma vocação. Ao aceitar-se a presença dos outros nos nossos domínios tornamo-nos cúmplices dos seus anseios, das suas decepções e das suas ambições. Não sabemos quais são, mas o seu rosto e a sua postura física dão-nos pistas para onde querem ir ou de onde vieram e os murmúrios suaves que repetem são códigos de acesso a um número infinito de destinos paralelos aos meus. Há uns que se alimentam de esperança perante a grande oportunidade de uma vida; outros com um tédio tão profundo e resignados à sua sorte como folhas caídas; outros ainda com raiva acumulada nos gestos pelo tempo desperdiçado em azares e injustiças. Todos eles entram e saem mecanicamente, tal como os clientes de elevadores dos prédios mais altos.
Claro que as pessoas são tão diferentes como as paisagens e apontam caminhos tão díspares e tão profundamente misteriosos que não se reflectem no simples deambular pela cidade. Mas se alguns, irrequietos, olham constantemente para o relógio e discutem com outros condutores que se atrasam nos sinais verdes, a maioria comporta-se como se desejasse uma viagem com duração suficiente para esquecer este lugar de doidos que repete dramas sempre que a porta se abre.
À noite a clientela altera-se, com os seus ritmos e cores próprias. Mais solidão à solta nos bancos. Alguns, por telemóvel, imploram para que o passado se possa reconstruir através de peças de puzzle que foram semeadas em tantas zonas da cidade. Com os números luminosos do taxímetro reflectidos na face, saem com os olhos brilhantes de lágrimas largadas no banco, naquele espaço neutro onde não há receio de ser surpreendido e continuarão a cair noite dentro como aquela chuva miúda que se prolonga até de madrugada.
Mesmo quando a noite se alonga e tento abrir a porta com o cuidado para não te acordar, vens ter comigo ainda a vestir o robe, com as tuas sardas luminosas a envolver os olhos estremunhados. Respiro fundo e chega-me aquele odor a silêncio, misturado de fragrâncias familiares e do verniz da madeira, retiro as roupas no hall de entrada e sacudo-as à janela para retirar de mim o que restou do ruído rouco das ruas da cidade. Dás-me a mão quente e entrelaças-me os dedos nos teus, encaminhas-me pelo corredor escuro e parece que vamos para o banco traseiro do meu táxi, onde nos refugiamos da desordem e dos impedimentos cintilantes que retardam o desenrolar natural das histórias íntimas da cidade.
1 comentários:
Lindo!!!
Cheio de realismo e romantismo!
Afinal podem coexistir..., realismo romântico e romântismo real!
Enviar um comentário