sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

O Natal dos simples



A água era tanta que a estrada acanhada transformara-se num lago gigante. O automóvel mantinha a andança no meio de arranques e pequenos desmaios, deixando em sobressalto os corações dos ocupantes. Até que um som rouco cortou o movimento e a paragem abrupta fez oscilar os corpos e a máquina. Olharam-se por instantes e cruzaram mensagens através de olhares, mas a resignação prevalecia. A noite chegava a passos largos. Munido de uma lanterna, abriu a porta aos encontrões, ajudou a mulher a erguer-se e ambos enfrentaram a chuva batida contra os seus corpos. Tentavam situar-se num horizonte quase opaco, encostados um ao outro e caminhavam sem hesitações. “Não podemos parar, temos que encontrar alguém que nos ajude”, incentivava-a. O tempo de gestação terminara e a viagem em direcção à cidade devera-se aos primeiros sintomas da proximidade do parto.

Não sabiam ao certo o espaço percorrido, mas o esforço era tal que a distância se reduziria a umas centenas de metros. Lá mais ao fundo, um pouco acima do nível da estrada, uma luz cintilante surgia e desaparecia como se dependesse do sopro do vento. Num morro, uma casa térrea e sombria erguia-se em equilíbrio e a luz que saltitava pela janela fazia lembrar a claridade de um farol perdido numa costa batida pelas ondas. Ao saírem da estrada entraram na lama que se afundava sob pressão dos passos, dificultando ainda mais a caminhada. Empurravam-se como se fossem sobreviventes de um naufrágio, curvados para melhor escapar às rajadas da ventania. Batidas sôfregas na porta, ao mesmo tempo chamavam repetidamente por alguém. Após um longo intervalo de hesitação, surgiu um velho de costas tão arqueadas que só a ajuda do cajado que lhe empurrava o tronco permitia o encontro de olhares. Do interior soltava-se um calor ameno e eram incentivados a entrar:” Façam o favor, depressa. O vento é forte… Desculpem a desarrumação da casa mas são raras as visitas”. E para se desculpar da demora. “Estamos tão isolados que temos medo de assaltos e nem imaginam as histórias que correm! Mas numa noite destas ninguém anda na rua a cometer delitos.”

Entraram num corredor estreito e despiram os casacos encharcados. Ao fundo, uma cantareira azul embutida na parede branca, as prateleiras com pratos e barranhas antigas e junto ao soalho um cântaro de barro. Tudo tão sóbrio como se o supérfluo fosse pecado. “O carro avariou-se no meio da estrada alagada” justificou-se o jovem. “Não são os primeiros, mas sabe como é, ninguém se lembra deste calcanhar do mundo e as estradas são uma miséria”. Foi quando o velho reparou na barriga proeminente dela e perguntou: ”Mas deve estar no fim do tempo, não?” “Quase, quase. Na verdade, hoje senti as primeiras contracções. Espero que o bebé se segure até amanhã”, respondeu com um sorriso conformado. Entraram na cozinha, e junto à lareira estava um vulto negro com as costas dobradas. Parecia um ser redondo e inerte. “É a minha patroa. Mulher, olha uns senhores!” Ela voltou-se ligeiramente, disse “boa-noite” quase inaudível e afastou-se do centro da lareira oferecendo o lugar aos visitantes. O velho arrastou uns bancos e todos se colocaram com as mãos voltadas em direcção ao fogo. Mudos e inertes - ninguém se sentia obrigado a qualquer esclarecimento - e tão juntos como se tratasse de um encontro rotineiro. Enquanto a lenha se consumia em chamas.

“O que querem comer?” A velhota cortou todos os pensamentos. “Obrigado, mas não temos fome”, atalhou a jovem. “Pelo menos um chá quente e umas filhoses. Vai fazer bem à criança”, disse a dona da casa com voz amigável, levantando-se em seguida. O silêncio regressou, partido agora por sons de chávenas de vidro batendo umas nas outras. Uma bandeja com filhoses passou à frente do casal, ambos retiraram, olhando um para o outro como se o acto se justificasse pela simpatia. Mas, a certa altura, a jovem, cada vez mais inquieta, olhava para o relógio e gemia baixinho, ”temos que chamar a ambulância”. “Não vale a pena. A ambulância demoraria horas a chegar”, retorquiu o velho, não desviando os olhos do fogo. E o jovem ansioso olhava em todas as direcções como querendo encontrar uma saída nas paredes escurecidas, descubrindo naquele mundo humano e corpóreo pormenores do seu próprio mundo que deixara para trás. Um quadro frio e severo, ausência de decoração e de emoções e povoado pelos olhos tristes dos moradores. Como se a vida aqui assentasse num plano diferente da felicidade e se adequasse mais a resistência. Vivia-se até que as forças permitissem, depois morria-se sem saudade. No entanto, concordou no seu íntimo que ficara privado também de uma forma de vida mais contemplativa e melancólica e sem correrias porque não há para onde ir…

A situação começava a ser inquietante. As dores avolumavam-se à medida de contracções mais fortes e próximas. A mulher levantou-se de novo e comentou, “Chore menina, não se envergonhe. Não há vida sem lágrimas. Mas isso não deve impedi-la de fazer o que tem de ser feito. Vai ver que é muito! Mas é jovem e tem uma virtude que é essencial nesta tarefa: a energia.”. A um sinal, com uma expressão dura, – como se tratasse de uma repreensão pelo esquecimento indesculpável – o marido deitou água numa panela escura e colocou-a à beira do lume.

( Entre eles não havia qualquer palavra - como se tudo já estivesse esclarecido - num silêncio cheio de ressentimentos. )

Da gaveta da cómoda retirou uns panos de linho, ao mesmo tempo que tentava acalmar a jovem. “Não esteja preocupada. Os caminhos da natureza são tão frequentados que sabemos o que nos espera mesmo antes de os percorrermos. Fui mãe oito vezes e todos nasceram aqui em casa. Andam espalhados por aí.” E fez um movimento com as mãos exprimindo vastidão. E continuou. “Agora complicam tudo, vão para hospitais, fazem operações e tomam remédios. No meu tempo ter um filho era tão natural como morrer.” O rapaz segurava na mão da jovem e acariciava-a e o velho olhava para o vazio como se tivesse encontrado nalgum lugar outra realidade mais aprazível. A dona da casa embebia os panos numa bacia com água quente. “Ninguém imagina a resistência de um recém-nascido. A vontade de viver vai-se perdendo ao longo da vida, mas no início não tem limites.” O rapaz notou algum cinismo na voz.

De repente o cenário transformou-se como por magia. A velha tirou o xaile e colocou-o nas costas de uma cadeira. Lavou as mãos e depois comentou, “minha filha, chegou mesmo a tua hora.” De rompante, a sua figura frágil deu lugar a uma força da natureza que dava ordens e definia os tempos. Na pose já não havia timidez nem indecisão, apenas certezas. A rapariga deitada sobre o tampo da mesa da cozinha, com as pernas abertas e os joelhos levantados deitava gritos roucos, compassados. O rapaz com semblante assustado afagava-lhe a testa com um pano húmido e uma voz altiva comandava as sombras: “respira fundo, continua, continua até passar a dor. Não, agora não faças força, espera, sopra, sopra…” Ordens que se repetiam à medida de alteração dos sinais que vinham de dentro. “Faz força, toda a força que puderes. Vá, vá, não pares…” As sombras na parede moviam-se com mais consistência do que os seres da cozinha, num ambiente tão fantasmagórico como se tratasse de personagens irreais cumprindo ofícios forjados por guionistas divinos. Uma luta de vida ou de morte arrastando atrás de si lágrimas e fadigas. Até que um grito rompeu a noite e festejou a vida. “Um menino lindo e perfeitinho”, exclamou a parteira improvisada, visivelmente fatigada.

A jovem mãe ainda mantinha os olhos de assombro e com a figura esbatida, semelhante a uma escultura de um museu etnográfico. O jovem sorria aliviado, o velhote mexia nas brasas com um galho de carvalho e a dona da casa, após lavar o recém-nascido e de o colocar no calor da mãe, sentou-se à lareira com a cabeça coberta com o xaile preto. As janelas embaciadas não permitiam ir ao encontro da noite, ouvia-se apenas o eco das gotas dos beirais ao esbarrarem na terra encharcada e sentia-se nas costas o frio cortante, como se a vida exigisse adversários para provar a sua eficácia. “Nenhum viajante pode sobreviver a uma noite destas,” comentou o velho.

6 comentários:

Cantinho dos devaneios disse...

Adorei! Mais um texto fantástico!

Fenix disse...

Espectacular!
Que narrativa fantástica!
Fez sair das profundezas das minhas lembranças as imagens dos meus avós, em terras como essa, numa casa assim, comportando-se dessa forma...!!!
Que posso dizer mais?
Vi um filme do passado!
Podiam ser os meus antepassados...

Lindo!
Parabéns!

Vou voltar para ler mais dos teus contos.

Abraço
Fenix

Anónimo disse...

...a descrição de toda a história é feita de uma forma tão boa, tão interligada que só paramos de ler quando chegamos ao fim... a pedir por mais! (é caso para dizer: queremos o livro!)
av

Andre disse...

ola,

sou o andré, o filho do teu primo Ze domingos de Aldeia Velha.

Tão aqui uns textos magníficos que estou a adorar a ler.

abraço e parabéns

:)

ilhéu disse...

Fiquei feliz ao saber que andas por aqui, André. Um abraço

alerts disse...

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