sexta-feira, 14 de Novembro de 2008

O falar por falar...


Após um mutismo traumático que se estendeu por sete anos, de repente, começou a falar como se as palavras amontoadas - como lixo nas bermas após inundações - remediassem o passado, um passado onde o sentido ficara retido na garganta, nos olhares e em odores crus. Agora arengava como se tivesse necessidade de dizer tudo o que calara, - sentimentos, sensações e embaraços - numa balbúrdia ensurdecedora, termos ligados ao acaso, sem o silêncio reparador do sentido, sem aquele emudecimento que é construtor do bom senso.

Como sabemos, há palavras ditas que não têm remédio, não têm ponta por onde se peguem. Não se ligam ao fio do pensamento e originam no interlocutor a perplexidade da incompreensão. Reconhecia o facto quando, às vezes, em suspenso, afirmava no meio de um sorriso ao mesmo tímido e maroto “esqueçam!” Mas foi demasiado tempo à espera de conseguir comunicar, não houve tempo para aperfeiçoar o dizer. O que agora era importante o dizer não o dito. Vocábulos sem controlo, comunicação pela comunicação, um conteúdo ameaçado pelo atropelo e pelo sentir mágico do som de vocábulos que ultrapassavam a boca e reproduziam no seu rosto a emoção da linguagem, sem ameias. Ninguém, nunca mais, lhe colocaria limites ao seu próprio dizer.

Assim o verbalizar causava-lhe uma alegria íntima semelhante à sensação de liberdade de quem sofreu um longo período de reclusão. Para um ex-recluso, todos os pormenores de um mundo aberto, seja um horizonte límpido, um nascer do sol revisto em câmara lenta ou o amontoado infindo de estrelas num céu nocturno, originam um estremecimento interior capaz de o levar às lágrimas. Da mesma forma, de um momento para o outro, ao conseguir transpor o pensamento para as palavras significava a possibilidade de comunicar, a alegria íntima de conseguir ultrapassar o silêncio claustrofóbico.

Manteve um travo metálico ao mesmo tempo que as palavras eram empurradas pela garganta, numa respiração ociosa. Um som e um travo como se falasse uma língua estrangeira, com umas pausas longas na pesquisa, perante o olhar expectante do interlocutor. Não lhe interessava tanto o sentido, mas as palavras. Palavras em saldo. Palavras jogadas como se uma partida de ténis se tratasse. E sem vergonha, como se a vergonha se tivesse extraviado no constrangimento do silêncio. As palavras devastadas ao sabor do ritmo estalavam na boca e apenas causavam mossa nos ouvintes. Nele a simplicidade do sorriso.

1 comentários:

Ana S. disse...

Um comentário de raspão só para deixar o link do blog de que lhe falei, e ainda assim me perdi nas palavras :)

ai está então o meu recém criado blog stor!

felicidades, Ana.