quarta-feira, 19 de Novembro de 2008

Saudades do futuro


Conheci-o há muitos anos, numa altura em que ele tinha razões fortes para ser feliz. Estudámos juntos, convivíamos com expectativas semelhantes e idênticas esperanças. Afastei-me quando as dúvidas secaram a força interior e a minha vida avançou por trajectos díspares dos dele. O único contacto que mantivemos foi um amável cumprimento de Natal e sabíamos um do outro através de testemunhos de amigos comuns. Só muito tempo depois chegou a notícia da sua ordenação. Fiquei satisfeito porque sabia que todos os seus sonhos se esgotavam nesse ideal. Mais uns meses, não me lembro quantos, novas notícias chegaram. Pela velocidade eram más, um desenlace sombrio. Pensei procurá-lo no único sítio de onde ele nunca saíra.

Eu era professor numa cidade do interior e a proximidade à Casa foi mais um estímulo ao regresso. Passei os portões de ferro que atavam os muros altos, percorri o caminho ladeado de sebes e ao fundo a frontaria do edifício amarelo, rodeado de jardins menos cuidados do que no passado. Durante alguns minutos passeei como um hipnótico pelo espaço circundante. A sua sombra pairava sobre vários anos da minha vida, em pontos distantes encontrei histórias, revi amigos que o tempo desperdiçara, exerci sobre o meu passado um quadro de referências que julgava ter desaparecido. Não posso dizer que tive saudade, mas senti-me mais cómodo num território que antes tratara com desconfiança e melancolia.

A campainha suou forte no interior. O progresso exigira uma moderna que substituiu a cabra de outros tempos. Demoraram a abrir como se o tempo retirasse vigor às passadas. Posso falar com o senhor Reitor? O porteiro assentiu e pediu-me para esperar na sala. Deitei os olhos pela janela tentando encontrar mais reminiscências, encontrei arbustos vivos, cerejeiras frondosas, a montanha com o cume agressivo até que ele apareceu, fitando-me com um sorriso aberto e procurando o meu nome. Reconheceu-me e abraçámo-nos. O meu passado encontrava-se também nos seus olhos e deles desaparecera a aspereza e algum amargor de outros tempos. Agora o seu porte era mais sereno e amável. Senti-me aconchegado no seu interesse em conhecer a minha a vida e na satisfação dele ao perceber que tinha assegurado o futuro. Esclareceu-me sobre o andamento da instituição nestes tempos materialistas e com falta de espírito comunitário e solidário. A redução de vocações era um problema, mas numa constatação sem severidade ou culpabilizações desnecessárias. Confidenciou que tinha saudades dos tempos áureos quando centenas de jovens generosos povoavam os corredores e davam ao espaço um vigor que desaparecera para sempre.

A tarde passou tão depressa que me surpreendi quando ajustou o jantar. Concordei sem hesitações e enquanto decorria lancei para o ar o tema do amigo que se alimentava do pior bocado da sua vida. Fez-se um silêncio pesado, ouviram-se os mesmos pássaros no átrio cheio de laranjeiras, reconheci na frontaria oposta janelas familiares onde sentira o vento anos a fio e onde vivera pendurado em horizontes longínquos. As camaratas, salas de estudo, o tanque agora vazio, mas outrora alegre com peixes vermelhos. Um suspiro profundo cortou a linha do passado, enquanto repetia “uma tragédia, uma tragédia!” E como para se livrar do mal rompeu o coração, soltando emoções, reafirmando, a cada passo, a profunda amizade que o continuava a ligar àquele que sempre fora o seu aluno predilecto.

Uma história análoga a tantas outras. Depois de ser ordenado fora colocado numa pequena aldeia e recebido por todos com a pompa e festa. Era jovem, bem-disposto, de uma simplicidade acolhedora, boa aparência e sensato. E se nos primeiros meses o entusiasmo se reforçou, depois começaram a chover desconfianças pela vida social agitada e pela presença constante de gente nova à sua beira. De todo esse processo o Reitor sabia poucos pormenores, ou pelo menos não os referiu. Até que um dia o meu amigo regressou a Casa, com um olhar desesperado e uma tristeza infinita na face. Tragédia no ar. Confidenciou-lhe que a cabeça quase rebentava desde o dia que alguém próximo lhe comunicou que esperava um filho dele. Uma vida inteira desabara apenas num momento minúsculo. E agora? E o prefeito, outrora disciplinador e obstinado apenas lhe recomendou que fizesse o que a consciência ditasse. Nessa noite o meu amigo escolheu a responsabilidade de criar o filho.

Ouvia a história com imensa tristeza. Aquela personagem cheia de desespero não a conseguia identificar com aquele amigo de sorriso pronto, de enorme generosidade, e ao mesmo tempo objecto do afecto e admiração de todos os colegas. Era opinião do Reitor que ele se deixara cair numa armadilha ardilosamente preparada com a ingenuidade própria de quem passou uma vida fechada entre quatro paredes à espera de realizar um sonho. Após ter optado por outro caminho os pais e os irmãos juraram-lhe indiferença, perdeu a paróquia no meio de insultos e provocações, alguns amigos viraram-lhe a cara, a hierarquia católica não o apoiou. Era demasiado duro continuar naquelas paragens.

Ao meio fechado, tradicionalista e culpabilizador preferiu procurar alguma paz fora de portas. Já estavam em Espanha quando a companheira lhe comunica que afinal a gravidez era falso alarme. A relação entre os dois desabou. O desfecho foi a solidão perante uma nova relação dela e do seu regresso a Portugal. O Reitor deixou cair umas lágrimas soltas. Afinal, uma vida predestinada à santidade caiu num beco sem saída. E então? “Nada mais sei. Alguém me disse que a sua intenção seria trabalhar com a comunidade emigrante num país europeu. Tenho a esperança que isso seja possível, porque, caso contrário, poderá haver uma desgraça.”

Era já noite cerrada. Aqueles corredores longos e escuros despidos de jovens eram ainda mais lúgrubes do que as lembranças que restaram de duas décadas. Arrepiei-me ao pressentir a dor de quem, de um momento para outro, perdeu o projecto de uma vida, o afecto dos que amava e ganhou a mágoa da traição e da indiferença. Apenas poderia contar com ele próprio para continuar e a solidão é absurda quando nos confrontamos com o vazio do futuro. Se pudesse abraçá-lo-ia e jurava-lhe que o Deus dele não é vingador como são os homens. Estes não perdem uma oportunidade de crucificar alguém por um salto no vazio, sempre na expectativa da consolação interior que o desespero do seu vizinho lhe provoca.

Ultrapassei o portão de ferro e, vagarosamente, subi a serra em curvas e contra-curvas, no meio de sombras de cerejeiras projectadas por uma lua inundada de luz. Do outro lado da fronteira a dor de quem se condenara a si mesmo, quando o seu grande devaneio era salvar todos os outros.

6 comentários:

Anónimo disse...

Ah Ilheu....interesting compassionate story..very nice. And the beautiful photo, out of the dark and into the light??....lovely.., take care now....your compassion is appreciated....

Anónimo disse...

...meio ironizando, meio a sério apenas digo que as mulheres são a vida e a morte de um homem... a vida tem destas coisas; por um lado a sinceridade com alguma inocência levou-o a cair na "armadilha feminina"; por outro a vontade/saciedade de julgar da nossa sociedade por um erro que se comete leva a que se queime uma vida, de preferência na praça pública... é a traição da vida, não há lugar ao perdão.
av

Cantinho dos devaneios disse...

Foi um prazer ler este texto, desde a primeira até à última palavra.

Ou me engano muito ou este espaço foi uma das melhores descobertas que fiz nos últimos tempos neste mundo virtual...

... vou continuar a descoberta...

Fenix disse...

Perfeito na forma!
Comparável a um Eça!

Tristemente realista no conteúdo.
É uma grande infelicidade que pessoas boas e bem intecionadas continuem a ser ludibriadas por outras, que não as sabem valorizar e estimar a sua confiança e amor.
É uma pena...!!!

Gostei muito do conto, mas não da realidade que retrata.

Gémeo Camuflado disse...

Soberbo

jacker disse...

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