
Anos a fio vivendo como se o mundo se esgotasse nos seus passos, abrigara-o de novos desencontros, mas diminuíra-lhe aptidões do diálogo e da tolerância. A sua comunicação com o exterior reduzia-se a pequenos sinais pragmáticos, o indispensável para a resolução de interesses e nunca como sinal de vizinhança ou reconhecimento. Aliás, após tanto tempo, julgava que as palavras lhe faltariam numa conversa mais intensa e prolongada. Por vezes, junto à lareira e com a sua sombra pairando na parede, entabulava diálogos com personagens imaginárias ou então contava histórias a si mesmo, surpreendido pelos sentidos provenientes do sopro de sons que arranhavam os lábios entreabertos. Repetia frases que soavam misteriosamente, inventava expressões e alegrava-se quando surgiam outras que julgava perdidas, como cadáveres debaixo de giestas.
Vivia sozinho há vinte e dois anos, desde o trágico acidente que vitimou a mulher e a filha. Um camião desgovernado embateu violentamente contra o autocarro onde seguiam em direcção à cidade. Desde aí limitou-se a sobreviver. Com custo. Não houve um dia em que não tivesse velado os seus corpos e o dele mesmo, mas não desistira da vida porque, contas feitas, valia mais a memória do que o vazio do esquecimento.
Considerado na aldeia como um homem de bons princípios, todos compreendiam demasiado bem a sua dor para tentarem arrancá-lo do seu casulo. Não tinham esse direito. E anos decorridos foram-se esquecendo da sua existência, mesmo aqueles que na altura da tragédia eram íntimos. No fundo, transformara-se num fantasma cuja silhueta se alcançava por ínfimos momentos no meio da calçada, como se a memória fosse reavivada pela sua aparição, mas depressa se esfumasse como uma miragem. Saía para os campos antes do sol romper, seguindo os animais dormentes e no final do dia regressava, silencioso, não querendo incomodar os outros com a sua presença.
Ele próprio já não reconhecia caras conhecidas ou seres familiares. Era como se numa determinada altura se tivesse deslocado para local desconhecido, habitado por gente de passado indefinido. E ao perder a religiosidade devido ao desenlace fatídico, - por culpar um deus ausente ou inexistente, - perdeu o seu último interlocutor. Apenas mantinha o relacionamento com a mulher, umas vezes calma e afectuosa como se a vida decorresse com normalidade, outras vezes acintosamente, culpando-a também.
Nunca mais conseguira adormecer. Ao fechar os olhos perdia-se no escuro, encontrando-as tal e qual estavam naquela manhã de Maio, a mulher com um vestido colorido, umas flores abertas num fundo azul marinho e a menina com um blusa cor de rosa, uma saia de pregas e umas botinhas altas. Afinal, tudo não passara de um pesadelo duro de roer, mas quando reencontrava o presente, o relógio de letras luminosas marcava a hora de partida.
A vida era mais dura pela imensidão da noite. Raramente se deitava, encostava-se numa cadeira comprida, junto à janela da sala de onde observava o cenário silencioso, as casas escuras com os telhados castanhos que reflectiam a luz da lua até a serra terminar na ermida. O relógio da igreja quebrava de hora a hora o ambiente taciturno. Mas as noites invernosas eram mais descontraídas porque o silêncio não reenviava tão velozmente o seu pensamento para a solidão e às suas causas. Com um cobertor por cima dos joelhos seguia fascinado os pingos da chuva ou os flocos de neve empurrados contra as janelas, brilhantes devido à iluminação pública. Um jogo que inventara consistia na escolha de dois vidros da janela, contava as gotas que neles se depositavam à custa de encontrões do vento e fazia desafios sobre o primeiro que ficaria encoberto.
Muitas vezes pensou sair e parar numa cidade qualquer que lhe permitisse o vaguear sem rumo e sem necessidade de se esconder. Nunca se decidira porque a sobrevivência o obrigaria a trabalhar por conta de outrem. Aqui, pelo menos, não tinha necessidade de dar satisfações a ninguém. Naquele dia, na mercearia, depois do pagamento, recebeu uma saudação de Feliz Natal. Surpreendido, agradeceu timidamente. Desligado de calendários raramente reconhecia as festas cíclicas. Devido ao frio gélido que soprava em todas as direcções não saíra com o gado e entrou em casa com a intenção de preparar o jantar de acordo com a tradição. Procurou na arca uma posta de bacalhau, couves de cortar, batatas e uma garrafa de vinho. Subiu as escadas a correr como que se os preparativos lhe consentissem um vigor fora do comum. Sem outra razão. O lume enorme inundava de luz a cozinha, ao lado uma panela de ferro preta onde confeccionava normalmente as refeições.
Colocou uma samarra por cima dos ombros e olhava fixamente as chamas altas que saltitavam irregularmente dos paus secos de carvalho. Os Natais não lhe provocavam qualquer sentimento especial, apenas a memória daqueles que situava no início dos tempos lhe acicatavam ainda mais a melancolia. Comeu calmamente, saboreando o vinho. Ouviu o sino da igreja anunciando a Missa do Galo, pouco tempo depois passos apressados, vozes alegres de gente nova em férias. Novamente o silêncio, como se todos tivessem sido engolidos pelo frio.
Tocaram à porta. Deve ser engano. Outra vez, mais forte. Levantou-se amedrontado, pressentindo atrapalhação.
- Quem é? Quase gritou.
- Por favor, podia abrir? A voz num timbre humilde e calmo.
- Mas quem é? – Colocou o tom de voz mais contrariado possível.
- Sou gente de bem. – Abriu a porta, após um momento de impasse.
- O que é que o senhor quer?
- Desculpe, vi luz na janela e peço-lhe que me deixe aquecer e pernoitar. Pode ser na loja, não tenho problemas.
Era um homem de barba rala e comprida, magro, levemente curvado, mas com uns olhos acolhedores. Suspirou contrafeito e resmungou, quase inaudível.
- Entre homem, senão ainda morre de frio…
Ofereceu-lhe o que restou do jantar e os dois vultos, um imóvel, o outro em movimentos sincronizados, levando o garfo à boca e mastigando pausadamente. Até que o forasteiro lhe perguntou a razão de estar só na noite de Natal. Silêncio pesado. “Não quero falar disso, se não se importa”, respondeu com voz melindrada. O silêncio apenas cortado pelo crepitar do lume durou tanto tempo que parecia que se tinha esquecido da presença do estranho.
- Espero que não tivesse ficado zangado comigo, desculpou-se.
- Claro que não. A vida ensinou-me a respeitar a mudez e o espaço dos outros. Se estiver a mais diga-me.
- Não, fique, por favor, respondeu quase em tom de súplica.
E com o calor do fogo e do vinho ganhou coragem e contou a sua história como para se desculpar da indelicadeza. Falou tanto que encontrou palavras que já nem se lembrava que existiam. Desvendou a alma, como quem despeja roupa suja no cesto. Chorava e ria, em tons de voz distintos conforme as situações dramáticas ou as recordações de ternura. Um monólogo teatral de uma tensão constante e o único espectador, sem tirar os olhos do actor, participava com gestos, lágrimas e sorrisos cúmplices. E a noite passou. Na lareira apenas brasas mornas e o velho levantou-se com a intenção de se ausentar.
- Com este frio é demasiado perigoso, pode ficar aqui o tempo que quiser. Disse-lhe o dono da casa.
- Não, o meu destino é continuar, mas agradeço a sua amabilidade, respondeu o viajante.
- Então, deixe-me ir consigo, retorquiu ele, quase de imediato.
- Para onde? Perguntou o outro surpreendido.
- Sei lá, para onde me levar. A noite passada ensinou-me que a solidão só tem sentido se através dela se descobrir o sentido da vida. Preciso só de um tempo para vender os animais e desfazer-me dos terrenos. O que me diz?
O velho olhou-o fixamente num misto de hesitação e de firmeza. E lançou-lhe o aviso.
- A vida de andarilho é muito dura. Terá de se sujeitar a humilhações, a privações, ao cansaço. E ele calmamente, retorquiu:
- Nada poderá ser pior do que foi a minha vida nestes últimos vinte e dois anos. Não se preocupe, não o vou desiludir.
O viajante esperou. Uma semana depois, dois vultos seguiam pela estrada, um na peugada do outro. No cemitério, colocou as últimas flores nas campas da mulher e da filha e no alto da colina, antes da descida para o vale, despediu-se da aldeia com um olhar melancólico. Em frente apenas o futuro, desde que os ventos frios trouxeram a esperança.
Vivia sozinho há vinte e dois anos, desde o trágico acidente que vitimou a mulher e a filha. Um camião desgovernado embateu violentamente contra o autocarro onde seguiam em direcção à cidade. Desde aí limitou-se a sobreviver. Com custo. Não houve um dia em que não tivesse velado os seus corpos e o dele mesmo, mas não desistira da vida porque, contas feitas, valia mais a memória do que o vazio do esquecimento.
Considerado na aldeia como um homem de bons princípios, todos compreendiam demasiado bem a sua dor para tentarem arrancá-lo do seu casulo. Não tinham esse direito. E anos decorridos foram-se esquecendo da sua existência, mesmo aqueles que na altura da tragédia eram íntimos. No fundo, transformara-se num fantasma cuja silhueta se alcançava por ínfimos momentos no meio da calçada, como se a memória fosse reavivada pela sua aparição, mas depressa se esfumasse como uma miragem. Saía para os campos antes do sol romper, seguindo os animais dormentes e no final do dia regressava, silencioso, não querendo incomodar os outros com a sua presença.
Ele próprio já não reconhecia caras conhecidas ou seres familiares. Era como se numa determinada altura se tivesse deslocado para local desconhecido, habitado por gente de passado indefinido. E ao perder a religiosidade devido ao desenlace fatídico, - por culpar um deus ausente ou inexistente, - perdeu o seu último interlocutor. Apenas mantinha o relacionamento com a mulher, umas vezes calma e afectuosa como se a vida decorresse com normalidade, outras vezes acintosamente, culpando-a também.
Nunca mais conseguira adormecer. Ao fechar os olhos perdia-se no escuro, encontrando-as tal e qual estavam naquela manhã de Maio, a mulher com um vestido colorido, umas flores abertas num fundo azul marinho e a menina com um blusa cor de rosa, uma saia de pregas e umas botinhas altas. Afinal, tudo não passara de um pesadelo duro de roer, mas quando reencontrava o presente, o relógio de letras luminosas marcava a hora de partida.
A vida era mais dura pela imensidão da noite. Raramente se deitava, encostava-se numa cadeira comprida, junto à janela da sala de onde observava o cenário silencioso, as casas escuras com os telhados castanhos que reflectiam a luz da lua até a serra terminar na ermida. O relógio da igreja quebrava de hora a hora o ambiente taciturno. Mas as noites invernosas eram mais descontraídas porque o silêncio não reenviava tão velozmente o seu pensamento para a solidão e às suas causas. Com um cobertor por cima dos joelhos seguia fascinado os pingos da chuva ou os flocos de neve empurrados contra as janelas, brilhantes devido à iluminação pública. Um jogo que inventara consistia na escolha de dois vidros da janela, contava as gotas que neles se depositavam à custa de encontrões do vento e fazia desafios sobre o primeiro que ficaria encoberto.
Muitas vezes pensou sair e parar numa cidade qualquer que lhe permitisse o vaguear sem rumo e sem necessidade de se esconder. Nunca se decidira porque a sobrevivência o obrigaria a trabalhar por conta de outrem. Aqui, pelo menos, não tinha necessidade de dar satisfações a ninguém. Naquele dia, na mercearia, depois do pagamento, recebeu uma saudação de Feliz Natal. Surpreendido, agradeceu timidamente. Desligado de calendários raramente reconhecia as festas cíclicas. Devido ao frio gélido que soprava em todas as direcções não saíra com o gado e entrou em casa com a intenção de preparar o jantar de acordo com a tradição. Procurou na arca uma posta de bacalhau, couves de cortar, batatas e uma garrafa de vinho. Subiu as escadas a correr como que se os preparativos lhe consentissem um vigor fora do comum. Sem outra razão. O lume enorme inundava de luz a cozinha, ao lado uma panela de ferro preta onde confeccionava normalmente as refeições.
Colocou uma samarra por cima dos ombros e olhava fixamente as chamas altas que saltitavam irregularmente dos paus secos de carvalho. Os Natais não lhe provocavam qualquer sentimento especial, apenas a memória daqueles que situava no início dos tempos lhe acicatavam ainda mais a melancolia. Comeu calmamente, saboreando o vinho. Ouviu o sino da igreja anunciando a Missa do Galo, pouco tempo depois passos apressados, vozes alegres de gente nova em férias. Novamente o silêncio, como se todos tivessem sido engolidos pelo frio.
Tocaram à porta. Deve ser engano. Outra vez, mais forte. Levantou-se amedrontado, pressentindo atrapalhação.
- Quem é? Quase gritou.
- Por favor, podia abrir? A voz num timbre humilde e calmo.
- Mas quem é? – Colocou o tom de voz mais contrariado possível.
- Sou gente de bem. – Abriu a porta, após um momento de impasse.
- O que é que o senhor quer?
- Desculpe, vi luz na janela e peço-lhe que me deixe aquecer e pernoitar. Pode ser na loja, não tenho problemas.
Era um homem de barba rala e comprida, magro, levemente curvado, mas com uns olhos acolhedores. Suspirou contrafeito e resmungou, quase inaudível.
- Entre homem, senão ainda morre de frio…
Ofereceu-lhe o que restou do jantar e os dois vultos, um imóvel, o outro em movimentos sincronizados, levando o garfo à boca e mastigando pausadamente. Até que o forasteiro lhe perguntou a razão de estar só na noite de Natal. Silêncio pesado. “Não quero falar disso, se não se importa”, respondeu com voz melindrada. O silêncio apenas cortado pelo crepitar do lume durou tanto tempo que parecia que se tinha esquecido da presença do estranho.
- Espero que não tivesse ficado zangado comigo, desculpou-se.
- Claro que não. A vida ensinou-me a respeitar a mudez e o espaço dos outros. Se estiver a mais diga-me.
- Não, fique, por favor, respondeu quase em tom de súplica.
E com o calor do fogo e do vinho ganhou coragem e contou a sua história como para se desculpar da indelicadeza. Falou tanto que encontrou palavras que já nem se lembrava que existiam. Desvendou a alma, como quem despeja roupa suja no cesto. Chorava e ria, em tons de voz distintos conforme as situações dramáticas ou as recordações de ternura. Um monólogo teatral de uma tensão constante e o único espectador, sem tirar os olhos do actor, participava com gestos, lágrimas e sorrisos cúmplices. E a noite passou. Na lareira apenas brasas mornas e o velho levantou-se com a intenção de se ausentar.
- Com este frio é demasiado perigoso, pode ficar aqui o tempo que quiser. Disse-lhe o dono da casa.
- Não, o meu destino é continuar, mas agradeço a sua amabilidade, respondeu o viajante.
- Então, deixe-me ir consigo, retorquiu ele, quase de imediato.
- Para onde? Perguntou o outro surpreendido.
- Sei lá, para onde me levar. A noite passada ensinou-me que a solidão só tem sentido se através dela se descobrir o sentido da vida. Preciso só de um tempo para vender os animais e desfazer-me dos terrenos. O que me diz?
O velho olhou-o fixamente num misto de hesitação e de firmeza. E lançou-lhe o aviso.
- A vida de andarilho é muito dura. Terá de se sujeitar a humilhações, a privações, ao cansaço. E ele calmamente, retorquiu:
- Nada poderá ser pior do que foi a minha vida nestes últimos vinte e dois anos. Não se preocupe, não o vou desiludir.
O viajante esperou. Uma semana depois, dois vultos seguiam pela estrada, um na peugada do outro. No cemitério, colocou as últimas flores nas campas da mulher e da filha e no alto da colina, antes da descida para o vale, despediu-se da aldeia com um olhar melancólico. Em frente apenas o futuro, desde que os ventos frios trouxeram a esperança.
2 comentários:
Finalmente, uma hipótese de regeneração. Oxalá assim tenha acontecido!
Belo conto. Podias tê-lo publicado mais próximo do Natal, funcionaria ainda melhor...
Bom fds
Absolutamente fabuloso!...
Enviar um comentário